quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O QUE NÃO SE PODE PESAR

Semana retrasada, eu ia dizer qualquer coisa a Aprígio, quando finalmente resolvi que o silêncio era melhor. Lembrei de alguma passagem na Bíblia que diz que o sábio não joga conversa fora. Não é que eu me ache sábia, sabe Zanza, mas é que não sei por que veio de algum lugar de dentro da minha cabeça, isso que considero como uma iluminação. Por que não? Pois bem, Hilário, aquele meu primo do qual lhe falei, foi me procurar lá em casa. Um abraço e tanto, até me beijou no rosto, duas vezes, com tanta avidez, que naquele momento senti que ele gostava pra valer de mim e pensei comigo mesma: É com ele que vou abrir meu coração. Você sabe... Essas coisinhas que a gente fica guardando esperando a pessoa certa pra contar, né Zanza? Comigo a coisa funciona assim: cada amigo tem uma particularidade. Tem daqueles que conto uma coisa, tem deles que eu conto outra. Como é que eu sei o que devo contar o que e a quem? Olhando a pessoa por dentro, mulher! Eu acho até que é um dom que eu tenho. Não gosto de contar minhas coisas a gente que dá opinião. Gosto de contar coisa a quem me escuta sereno. Se olhar com cara de pena pra mim, pior ainda. Quando a coisa é besta, pode opinar que eu nem ligo. Vendo assim, estou percebendo que conto coisa pesada a pouquíssimas pessoas. E conto somente pra me ouvir falando. Eu conto as coisas é a mim mesma. Vou falando e me escutando ao mesmo tempo, e aí já vou encontrando a resposta, quando tem, ou me acalmando, encontrando um jeito com aquele problema.
Levei Zanza até a porta de casa e voltei para onde estava Aprígio. Olhei pra ele, ali, na sala de estar, distraído, com uma revista na mão. Não sei se lendo, não sei se fingindo que lia. Quis ter raiva, mas resolvi que não saio do sério. Não há pra quê. Nesses vai-e-vens de uma vida toda, sei quando o silêncio é resposta, sei quando calar é alívio. Ando dispensando ruminações. Não me levam a nada e Aprígio é mestre em cortar assuntos pela metade, impondo o seu método de evitação. Diz duas ou três palavras, com aquela voz impostada, só pra mostrar poder e me deixa falando sozinha. Antes eu achava aquilo um baita jogo sujo. Engolia a seco e depois explodia em tanta lágrima que eu nem sabia de onde vinha tanta. ‘Eu quero ser feliz, eu quero ser feliz’ repetia pra mim mesma, como quem pronuncia uma sentença que tem porque tem de ser cumprida à risca. Foi quando dei pra sonhar encontrando tesouros em lugares pedregosos, que comecei a perguntar a mim mesma o que a minha alma queria dizer. Tantos anos chorando, tanta lágrima pelos mesmos entreveros! Um sofrimento estagnado, repetitivo, sem nascer nada de novo dele. Sofrimento tem que gerar alguma coisa, tem que servir, senão é infrutífero. É dor inútil. Não vale.
Lembrei de Zanza, que veio aqui em casa querendo que eu a ajudasse a encontrar resposta a uma dúvida sua ‘Ô Mercedes, se Antônio fosse vivo, comigo agora doente, será que ele estava me fazendo companhia?’ Essa resposta eu não tenho Zanza. É difícil prever qualquer coisa, quanto mais, quando a previsão é para um alcoólatra. Que acha? Concorda comigo? Ela riu. ‘Quem sabe, né? Zanza encheu os olhos de lágrimas para aliviar a própria solidão tão cheia de vazios e ausências. Mora num mundão de casa. Sozinha. Mudei de assunto e contei sobre a teimosia de Aprígio, que se acha o sabichão, mas que às vezes me aparece no meio do nosso quarto, desolado, com cara de quem se enganou em casar comigo. Casou com uma mulher que não faz dele um homem feliz.
Hilário tinha me dito, ‘Mercedes, como mulher casada, você fez tudo certinho, mas o imponderável nos escapa’. São as tais das circunstâncias indefiníveis que exercem influência sobre a vida da gente. Meus silêncios, antes intuitivos - descobri na conversa com ele -, são o meu respeito àquilo que não é possível ponderar.
Tem quem queira ter resposta para tudo. Ainda há pouco tempo atrás eu também queria. Encho os pulmões de ar e falo alto: imponderável, imponderável, uma dúzia de vezes. A palavra é cheia de sonoridade. É eloqüente. Faz-me rir! Esbarro nela, que veio e se fixou em minha memória, já tem quatro dias. Devo fazer com ela alquimia, até efetuar da lingüística à evolução da palavra, todo o peso e significância. Devo com isso dar sentido a sofrimentos estéreis e modificá-los. Vou da alma da palavra à ventura do meu coração, abrindo um caminho sem fazer desvios. Isso mesmo. Olho pra Aprígio, distraído de novo, fumando o seu cigarro de depois do almoço. Sobre que coisas esse homem pensa? Tem dias que cavo abismos e atiro palavras em todas as direções, só para atingi-lo, como uma doida atirando pedras a esmo. Há sempre misteriosos lugares dentro da gente, onde não cabe mais ninguém. Disso eu sei. Não há como andar toda a extensão e profundidade de uma pessoa. Nem mesmo da gente.
Às vezes a noção de felicidade de Aprígio combina com a minha. Outras vezes, não. Mas isso não me assusta mais. Meu sentimento por ele tem que ser descompromissado, senão vou ficar a vida inteira na cantilena desastrada de “eu quero ser feliz” É muito peso pra ele carregar por mim, eu querer que o coitado promova o meu retorno ao paraíso, coisa impossível. Devo a experiência da vida e da alegria, a mim mesma.
Domingo passado, às sete da noite, àquela minha conversa baixinha, em tom de quem revela segredos, Hilário escutou com paciência. E foi quando me apresentou a frase onde o imponderável apareceu, para preencher os meus lugares sem respostas. Diante disso me achei mais confortável. Avultei-me. Cresceu um sentimento bom dentro de mim. O que chamei de iluminação antes, encontrara solidez. Revelou-se como um presságio. Depois ele me explicou sobre como enterrou quatro ovos de cágados e esperou pelas trovoadas para que os animaizinhos viessem à superfície. Adiante, a torta holandesa, ‘que você tem que me dar a receita, Hilário’. Tem creme de leite, chocolate meio-amargo, biscoitos, recheio aerado. Adentramos a madrugada, inaugurada às duas da manhã, quando olhei o relógio. Esses pequenos detalhes me dão a noção de que tenho a posse de mim e do que sou.
Quarta-feira. Apaguei a luz do quarto, Zanza deve estar sozinha no dela, contando as telhas, acordada, desejando que Antônio tão trabalhoso que foi, estivesse com ela. Aqui em casa, Aprígio se ajeita pra lá e pra cá na cama com o nariz obstruído e uma insônia daquelas. Tenta dormir. Estou em silêncio, quieta, ponderando o que é possível ponderar. Após os conflitos e a perda do que eu era antes, descubro-me mergulhada em tesouros. Sou rica. De profundidade e substância. Liberto Aprígio do peso das minhas projeções. Agora sim é que vou começar a amá-lo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

SOBRE CASAS E PESSOAS

Foi aqui onde ouvi o tamborilar da chuva no telhado. Antes, uma ventania daquelas que anunciam que vai chover, espalhou poeira fininha sobre mim e sobre as coisas. Limpou as telhas, derrubou as aranhas caseiras e suas teias e sujou a casa. A casa. Essa, com porta de entrada bem alta, pintada de verde bandeira. Essa, cheia de quartos, corredor, cozinha, quintal e meninos barulhentos. Estou diante da memória que tenho dela, e assim a salvaguardo dentro de mim, pois que já não existe desse jeito. Mudaram-se as coisas e as pessoas tomaram rumos diferentes. O cheiro forte do cigarro de palha de José espalhou-se no tempo e diluiu-se dentre outros cheiros. Não tem mais quem o fume. José morreu esse ano, assim, de repente, e levou consigo aquele cheiro insuportável que enchia a cozinha. Velho enxerido e cheio de saimentos, nem pensei que fosse ter saudades dele, mas sinto. A sua intrigante presença me faz falta, porque perdi de quem sentir a raiva costumeira, viciada, alimentada por mim, eu mesma, dando comida a distúrbio emocional em dias marcados, todas as segundas-feiras. Josefa também sumiu. Foi morar na capital, e longe das amarras e das regras de cidade pequena, revelou-se. De sonsa que era, debandou. Caiu na buraqueira, como dizia José, cheio de suspeitos olhares, todos por sinal, perniciosos. Velho sem-vergonha aquele. Andou por aqui outro dia, vestida num short curtíssimo, faiscando de lubricidade. Dando o que falar ao povo. Lilice não gostou ‘tá parecendo mulher vulgar. Entrou na padaria comigo, eu constrangidíssima. Fazendo vergonha à família toda’ O que pensa Josefa sobre o que é ser eternamente jovem? Depois dos quarenta, expressar juventude não tem que necessariamente ser exposição do corpo, tem? Taí, não tem! Ela mesma respondeu e eu acenei positivamente com a cabeça. Aí, eu só de provocação, 'Não tem, mas no entendimento dela, tem. E daí?' 'E daí o quê? Isso é lá jeito de gente direita?!'

Essa casa é outra. Instala-se sobre a lembrança da antiga. Naquela de outrora, Celeste caminhava ligeira sobre o piso vermelho de cimento, sempre impaciente, ansiosa e angustiada, dando ordens, usando de uma sinceridade cruel, punitiva e de exigências humanamente impossíveis, ao dizer o que pensava sobre os outros moradores e suas atitudes. Auto-suficiente, dispensava companhias. Nessa casa de agora, com piso de cerâmica, é levada por Zulmira. É preciso que alguém ande por ela, os lugares que deseja ir. Perpetua em si mesma, sofrimentos desnecessários, com medo de perder companhias. Priva-se, mesmo sendo capaz, de dirigir a própria casa. Precisa estar com gente por perto, senão não caminha. O tempo parece ter revirado a estabilidade das coisas e dos lugares-comuns. Alterou nossas certezas. A vida mudou o curso e os próprios significados a que nos apegamos carecem de revisão, de nova alma. De fé. Pois é - nós as mulheres -, eu, Lilice, Josefa, Zulmira e Celeste, como deveremos entender a passagem do tempo? Como aceitar de forma sensata e sábia que tudo muda? Como tirar-lhe proveito? Para a alma, qual o valor da juventude? Depois dos quarenta anos, e mesmo antes dele, como continuar sendo jovem? O corpo é o único local onde a juventude tem que ser eterna? A mulher não tem uma história enquanto ser social a ser contada e respeitada? Coitada de Josefa, tão deslocada dela mesma, tentando retornar à juventude dentro de um shortinho, com medo de encarar a realidade e por isso mesmo, perdendo a chance de estar fortalecida, feliz do seu lugar de mulher, pois então!. Se deixar render à ideologia da estética do corpo, dentro da perspectiva de mercadoria? Será que essa mulher pensa? Sabe pensar ou pensam equivocadamente por ela? Um bando de mulheres iguais a passarinhos desavisados em direção à rede?

Por sobre nós, o céu ainda é azul e cheio de nuvens, nesse tempo de verão. Além de nós, as árvores envelhecem na agonia lenta das artroses que retorcem seus galhos. Nós deixamos a nossa antiga casa segura, para trás ou ela se transformou para nos causar o estranhamento necessário, expulsando-nos em favor do crescimento de nós mesmas? Acomoda-se agora um silêncio dentro da gente que espalha um silêncio fora de nós. Agudíssimo. Às vezes doloroso. Reflexivo.
Quebro o vazio de palavras e arrisco expor o meu: Hoje estou triste. Uma saudade de mim mesma, parece. Até de José, aquele chato. Os dias de segunda-feira, sem cheiro de cigarro de palha... Mais uma pessoa das que eu conhecia se vai. Nem se despediu. Mais um morto para minha memória. O safado era tão cheio de gracinhas, que pra ter morrido da forma como morreu, só pra chatear, é uma quase-certeza que tenho. Ao meu silêncio revelado, Celeste riu, riu e riu até ficar vermelha. Contaminou-nos. Fomos acostumadas à alegria do riso, mesmo quando o silêncio nos atinge. Quebramos o do lado de fora, para que ele desestabilize o do lado de dentro. É razoável estar-se igual em ambas realidades. A gente se equilibra, se firma, se ancora nesses momentos.

Estamos na calçada, à porta da casa que nos ocupa, e ela, mais do que fora, mais do que parece ser a construção, é dentro da gente o signo da temporalidade da vida. Viver é estar mudando de casa. Tanto da morada física, quanto da psicológica. Às vezes, e não raro, mudamos de casa, dentro da própria casa. Saímos dela sem sairmos dela. Dá para entender isso? Nosso paradigma é de repente, e para o nosso espanto, a imagem primordial daquele lugar, onde começamos entender o abrigo e o lar. Duas faces da mesma moeda. Carregamos e somos carregados por ela durante todo o tempo que nos acolhe, e que a nossa lembrança a abriga, dentro de suas paredes, suas salas, quartos, seu quintal, um teto, sua calçada. Mesmo quando a sua arquitetura muda, a minha casa sou eu. Diversa em mim. Tão surpresa dos acontecimentos, multifacetada e dinâmica, quanto a própria vida.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MarGarida

As flores fenecem cedo. Você não sabia? Só pude entender agora, depois de chorar por dentro, a sua seiva interrompida no caule, as suas pétalas, caindo no decorrer da semana. Os meus últimos signos da infância somem-se na lembrança dos fundos da casa vizinha. A lenha, o fogo, o lambe-dedos quentinho, a sua voz de vegetal e jardim, batendo arroz num pilão de madeira. Suas mãos ossudas de longos dedos morenos. Os caminhos do inverno, a lama, o quintal da casa onde íamos buscar o leite todas as manhãs. A sua voz me chamando por cima do muro. Só nós duas saberemos eternamente do que isso trata. Porque vivemos num tempo quase encantado, que parecia eterno, na sala, nos quartos, nos bibelôs, nos móveis, no rádio antigo, nas histórias de trancoso, na tosse persistente de Madrinha. Eu era pequena para entender o tempo.

Vivi minha infância em seu colo. Vivi a calçada, o mundo incorruptível da Avenida Bráulio Cavalcante, onde diante da folhagem parada das árvores, apenas nós duas balançávamos numa cadeira, fazendo vento e lirismo. Tecendo vida. Vivi, por você, o ciúme que as crianças têm das outras: meu objeto de exclusividade amorosa. Seu colo era para ser meu. As histórias que você contava, eram para serem só minhas. E uma vez, aquela de morrer - se cantasse uma música -, me fez chorar antecipadamente a sua. ‘Brincadeira minha, menina, chore mais não!’
Dizia isso tão feliz da minha afeição...

Garida, Você, em meu coração festeja essas lembranças que me doem agora, em meio a folhas, borboletas, grilos e formigas. Meu jardim sente a sua falta. Sentirei a sua ausência, como a de uma flor efêmera, de raríssima beleza e aroma. Quisera poder recolher suas pétalas, recolocá-las, recompor quem você é. Minha saudade não se pode medir nem pesar, nem as palavras sequer sabem dizer. Uso a minha dor, somente, e agradeço a vida, pelo seu colo, seu carinho, pela semente que foi plantada em mim e fez brotar a flor, minha Margarida, a mais bonita que já conheci e amei.


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Magnólia

Naninho esteve aqui em casa. Veio pedir para a minha avó fazer uma ‘caridade’ a ele. Ou melhor; duas caridades: uma a ele e outra à Magnólia, que não vai nada bem da cabeça. “Eu fico com ela Naninho. Passo uma temporada” que o coitado precisa arar a terra dele, plantar, aproveitar a chuva.
Magnólia chegou depois de uns dias, meio assustada e cheia de desconfianças: “Na minha aposentadoria ninguém mete a mão, que ainda vai aparecer quem me roube”! “Não é porque a senhora é minha tia, que eu vou descuidar. Aqui todo mundo é ladrão”.
Veio de mala e cuia, trouxe mochilas de plástico, com uma papelada dos diabos dentro. Chegou fazendo e dizendo coisa que nunca havia feito, nem dito. A ‘pobrezinha’ com o juízo atrapalhado, enveredou também pelo erotismo e deu pra dizer pornografias a torto e a direito pelo meio da casa. Magnólia tem nome de flor, mas não faz jus ao nome. É uma “branquela”, magra e envergada pela coluna troncha, como se não bastasse a ela a corcunda, que carrega o peso dos seus mais de sessenta anos. Se tivesse nascido bicho, com certeza seria um cágado. É gente. Família. Parece com os povos de lá da Mongólia. Olhos empapuçados e miúdos, cabeleira negra, oleosa, na altura dos ombros curvos, presa atrás das orelhas por grampos. Gente feia é o que não falta aqui em casa. Estou acostumada. Até eu mesma que quis me achar bonitinha, fui conferir com a minha avó e ela sinceríssima: não minha filha, você é muito simpática, alegre, mas bonita, bonita, não é não. Acreditei. Ela me quer bem, não duvido. Não tinha pra quê não falar o que pensa sobre mim. Acostumei em ser simpática. Passei a dar valor à simpatia, ser agradável, que ela mesma depois suavizou que não existe ninguém de todo feio e que ser alegre é um dom de Deus que me ama. Disso eu sei também. Acredito nisso, que tenho o exemplo de Naninho, que nem viu a feiúra que vejo em minha prima Magnólia, nem Magnólia viu feiúra nele. Tão branco, do cabelo vermelho, sardento e queimado do sol. Casaram-se. É verdade que já estavam mais pra lá do que pra cá, mas casaram. Deram-se às mil maravilhas. Não fosse a fraqueza de juízo que atingiu Magnólia precocemente, o que fez com que Naninho precisasse ficar separado dela, de férias. Coitado. Saiu daqui com os olhos molhados e a mulher dizendo, “vá Naninho, vá Naninho, cuidar das coisas da gente”. O povo de casa, que ri e chora por qualquer besteira, se comoveu. Ficamos tristes. Cuidei em esquecer do rosto de aflição de Naninho parecendo um desgraçado, a quem os reveses da vida vieram causar desordens e roubar-lhe a felicidade. Conheço a mim mesma. Se ficar lembrando, fico sofrendo. Ele saiu e a casa ficou sem homem. Minha irmã precisava de um, para colocar duas portas sanfonadas nos quartos e foi acudir-se com Maria do Livramento, que faltou um pouquinho de nada pra ser homem. Tem caixa de ferramentas e tudo. Tem até furadeira e entende de brocas. Abriu todos os buracos necessários, que a minha irmã ia indicando: “aqui, Livramento, e mais esse aqui, mais embaixo. Aqui tá bom, Livramento!” E ela toda satisfeita, tirando faísca da ferramenta. Imagino Maria do Livramento de posse de uma metralhadora. Meu Deus! Se precisar, faz miséria! Aquele mulherão, com quase quarenta anos, malfeita, dentro dum short curtíssimo, sobrando banha pra todo lado, fazendo serviço que homem costuma fazer. Não bastasse ter marido e um filho. Admiro. Mulher que mexe com furadeira, sente muito menos falta de homem dentro de casa. E se tiver um emprego bom, menos ainda, Rosa, amiga da casa, é que vive dizendo, e minha avó concordando toda vez, quando ela diz. Magnólia quis porque quis dormir no mesmo quarto que a minha avó dorme. Pendurou no guarda-roupa - a gente ajudando - uma dúzia e meia de vestidos, todos do mesmo modelo, variando somente de cor e de estampa e um cinto fininho, que costuma usar como induto, logo abaixo dos seios, já que sendo encurvada, a cintura fica escondida. Quando cisma, acende a luz do quarto no meio da noite e mexe nas mochilas, para ver se foi roubada, querendo dar falta nas coisas, pra fazer confusão, acusando antecipadamente todo mundo, de ‘cambada’ de ladrão. “Quem não tiver paciência que procure ter. Não vou deixar de fazer uma caridade a Magnólia, ela agora, precisando” Isso não é comigo. Tenho paciência. O que me intriga é entender o porquê, e não é de agora, as suas roupas terem sempre o mesmo modelo. “Nem todo mundo é como você, que vive se abusando de tudo!” Maria do Livramento me disse, que enquanto eu for assim, não devo casar. “É um conselho que lhe dou”. Fiquei com essa coisa na cabeça, martelando, martelando, até descobri que não tenho nada de errado. Canso das coisas, porque esgoto as expectativas sobre elas. Depois de entender até onde chegam, não tenho mais para onde ir. Desanimo. Procuro outras.
Naninho reapareceu na segunda-feira. Veio alinhado, de chapéu na cabeça e esperançoso. Quis conversar uma conversa certinha de marido e mulher, com Magnólia. Não pôde! “Naninho, esse povo sabido quer tomar as minhas coisas! E tem mais Naninho, o Presidente da República, cismou com a minha cara e quer porque quer fazer sexo comigo, Naninho! Todo tipo de sexo! Já me chamou pra fazer isso, e isso e mais isso”. Acabou resvalando nas palavras, dizendo com certo gosto, buceta, priquito, cu, bem pronunciados, sem nenhum propósito evidente e fora de hora. O marido ruborizou. Ficou por uns instantes, procurando no fundo dos olhos dela, ver se encontrava a outra, pudica, ou resquícios dela. Balançou a cabeça e deve ter experimentado mais uma confirmação de estranha solidão, porque pareceu respirar todo o ar da sala, para encher-se. Magnólia estava ali e não era Magnólia e é ainda Magnólia; pelos olhos miúdos, inchados, pela brancura da pele, a corcunda e o vestido com cinto, para uma cintura fora de lugar. Eu mesma procuro por ela, aquela outra, quase assexuada, discreta nas maneiras, mas fazendo pergunta, onde estuda, que idade tem, já namora, já é moça? Naninho foi embora triste. Piongo. Magnólia sem culpa alguma, só depois é que deu pela falta dele e andou pela casa procurando, “Naninho, Ô Naninho, porque é que você nunca me disse que pra fazer sexo eu tinha que abrir as pernas? Eu de perna fechada esse tempo todo, Naninho? Ainda acha pouco e desaparece, deixa a casa sem homem. Não tem quem pregue um prego na parede!” A realidade às vezes me amedronta. Às vezes me faz rir. A desordem come os miolos de Magnólia e deixa parte da ordem da vida de Naninho, revirada. Tem coisas que me derrubam. Bom mesmo é pensar do melhor jeito, ver as coisas com leveza, senão a minha alegria periga. Guardo alívios, como quem guarda ferramentas. Quando preciso, vou buscá-los. Perfuro a realidade, derrubo paredes, teto, abro mão dessa casa. Agora... tudo é jardim e Magnólia é somente uma flor.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

UNO e TRINO

O dia amanheceu. A claridade da manhã entrou pela janela do quarto e acordou a contista. Ela espreguiçou-se, olhou em volta e com seus olhos de quem vê em tudo, uma história a ser contada, achou o dia propício para contar uma. Remexeu de si mesma, sua provisão de idéias, buscou no seu lugar de guardar palavras, aquelas devidamente pontuais para escrevê-las, porque as palavras para quem escreve, assim como as tintas para o artista, é sempre preciso juntá-las como quem junta pessoas numa convivência - com perspectiva de autêntica simbiose -, ou coisas e artefatos, um sem-número deles, que se encaixem como num grande quebra-cabeça, perfeito no final.
‘Escrever é uma atitude sagrada. Requer abstração da realidade. Pelo menos é assim para mim’. Ponderou a contista. Tal pensamento suscitou nela desejo de conferir o que pensara e, emproada, cedeu à luminosa e entusiasta sensação de ser honesta àquilo a que acabara de falar. Dispôs-se a iniciar-se no dia. Adiantando-se, caminhou até o banheiro e deparou-se consigo mesma refletida no espelho. Suas inquietações, sendo matinalmente repetidas, voltaram. Medos. Medos, que começavam pequenos e cresciam aos poucos, a angustiavam a cada amanhecer. A vida, a velhice, pois estando ela às portas da meia-idade, temia estranhar-se. ‘Meu Deus, como me aceitarei cheia de pregas!?’ A morte. Medo de deixar as coisas pela metade. Mas que coisas? ‘Quero ver meus filhos casarem, meus netos nascerem, quero isso, quero aquilo’ Em pouco tempo ela se encorajava a compreender o que compreendia todas as manhãs e tornava a esquecer no dia seguinte. Queria o que todo mundo quer. Queria ser eterna. Nunca morrer. Não ter que terminar. Em seus solilóquios sofria a dura realidade dos efeitos do tempo sobre os mortais. Afastou o pensamento que a levava para o mesmo buraco existencial de sempre e moveu-se para longe da frustração que sentia às coisas indeterminadas, porque são do jeito que são e acabou-se, e após estabelecer-se no cotidiano, arrumou-se dentro das horas do dia, e pontificou ‘ainda essa manhã, escreverei um conto, sobre uma conversa que tive com seu Petrúcio, duas semanas atrás. Moisés e a baleia’.
Dirigiu-se para o seu cantinho de escrever, invocando a presença do Espírito Santo, ‘e que o Senhor me conceda a sabedoria para a costura dessas minhas palavras às idéias, e a clareza dos seus signos’ Sentou-se em frente à mesa, numa atitude religiosamente compenetrada, e esperou que as primeiras palavras lhe viessem à mente, seguidas das primeiras frases. Descreveria seu Petrúcio. Começaria a contar sua história dando-lhe ênfase de visão. “Seu Petrúcio, taxista, um homem de muita estrada caminhada na vida, ou melhor, de muito pneu rodado, de bigode, alvoroçado, religioso e com uma péssima dicção...” Escreveu uma, duas frases, para em seguida desfazê-las, para depois refazê-las e, desfazê-las de novo. Descontente com o pouco caso que Espírito de Deus fizera à sua oração e desapontada consigo mesma, mergulhou em outros pensamentos. Lembrou-se de seus últimos contos escritos, das personagens femininas, e dentre elas, Violeta. Que rosto teria a sua Violeta? Perguntou-se. Seria o seu? Violeta, porém, pela natureza de personagem que possuía, mantinha-se fantasiosa. Era um dos caprichos da imaginação da contista. Era incomum. Era feliz sem interrupções. Continuamente feliz. Talvez porque viesse a corrigir todos os danos, tropeços, misérias e desencantos que ela não conseguira corrigir, aliás, o tempo não permitira que ela os corrigisse. Suspirou em desalentada agonia, ‘ô maturidade tardia’... ‘por que só agora é que sei mais sobre as coisas? Agora que não posso voltar atrás e fazer tudo direitinho?’ Remoeu, remoeu suas interrogações, entortou a boca para o canto direito, mordeu o lábio inferior à desventura e à ironia da vida, e assim fazendo,distanciou-se do que havia se proposto horas atrás, deixando-se atormentar pelas suas próprias sombras. Angustiada, pareceu diluir-se, na opacidade das névoas das suas costumeiras e amargas inquietações.
Entretanto, num devaneio - que só os contos propiciam - Violeta, tendo sido evocada, foi-se arrancando do seu lugar, nas entranhas da sua criadora, agora tão vulnerável, saindo de onde se houvera aderido, e sem perda de tempo, precipitou-se, alcançando caminhos interiores por dentro da outra. Abrindo-lhe as portas, atingiu-lhe a alma, reconhecendo-se. Sentindo-se pessoa, projetou-se múltipla e vivaz, com a natureza elástica e de muitas facetas. E sendo feliz, de nascença, não teria outro procedimento senão esse; continuar a sê-lo contando uma história. Decidiu, ‘nada de Moisés, nada de baleia, vou contar o que me der na telha’. Cheia de si mesma escreveu.
Sou Violeta porque a contista gosta de flor. Sou quase simples, não fossem os pensamentos que me atormentam vez por outra. Tenho cismas com certos aspectos da Ciência, e gosto de Deus, porque sendo quem sou o discurso que me é posto lhe devota afeto. Suponho que vem também desse afeto, o meu gostar de gente e de galinhas. Gosto de galinhas. Uma vez Pedrinho chegou bem pertinho de mim, com aquela carinha de quem tem novidade pra contar, e disse todo satisfeito ‘você sabia que a minha galinha pariu um ovo?’ Todo mundo riu. E aí me ocorreu que eu nunca havia pensado em galinhas e ovos, sobre esse ponto de vista! O verbo, parir, sendo usado para classificar a forma como uma criança entendeu o que havia acontecido. A galinha fez ‘nascer’ um ovo. Pedrinho deu nobreza à galinha, como ser vivo, e a mim, me trouxe uma forma de olhar diferente para as coisas, para os seres que não podem dar sentidos a si mesmos. Olho uma coisa, um objeto e penso no que aquilo pode estar sentindo e sinto-o à minha maneira. Quer dizer, empresto alma às coisas para conhecer melhor a minha. Pode ser coisa de gente doida, mas comigo é assim. Nesse momento estou invocando a sabedoria divina, ‘ai, ai meu deus! Quero escrever o meu conto!’ Me aventuro na metalingüística, e agorinha mesmo, na licença poética, para começar a frase com o ‘me’. Para mim, contar uma história é como precisar fazer algo parecido com falsete, é acomodar a voz dentro de um tom, quando não se tem o tom certo para certa voz. Mas como ia dizendo, gosto de galinhas e tento contar uma história sobre elas e eu. Nomeio-as, e com isso passo a querer ainda mais bem a elas. Observo-as, elétricas, zoadentas e indiferentes, mas, sobremaneira, felizes. Tenho mania de ver nelas a fisionomia, o andar e as maneiras de pessoas conhecidas. Essa aqui, parece com fulana, essa com sicrana. Essa parece com a contista, essa comigo. Isso me desperta afetos indeterminados, verborragias, e quebradiças intenções psicoterapêuticas, que no final fracassam em risos sem motivo. Tento justificar simpatia ou não, pelas pessoas, e aprecio transformar tudo em signo indicial, para poder estendê-lo, associá-lo, ir às suas últimas consequências. As imagens povoam os meus singulares vazios. Vez por outra tenho uma vontade danada de ser galinha, cacarejar, bater asas, remexer o chão atrás de minhocas e ‘parir’ ovos. Só para saber com mais propriedade como é ser galinha. O dia todo ciscando!. Essa vidinha simplíssima de ave mexe comigo. Parece tão feliz ser galinha!. Ô que tanta galinha feliz!. Somos, eu e elas, dispostas à alegria inconseqüente, de não saber o porquê do que se é, e gostar de sê-lo assim mesmo. Do coração da palavra que me subscreve como Violeta, cada coisinha em mim é meio poética e dramaticamente alegre. No momento em que escrevo, alguma coisa me alfineta ‘ Violeta, o tempo está passando, conte logo a sua história’! E não é isso que estou fazendo? Mas que história deve ser contada, e de que forma, senão essa? Se não é assim que se conta uma, me perdoem... Falta-me propriedade! Dom de contar coisas com maestria, afinidade com a arte de juntar as palavras e causar efeito, suscitar emoção, de maneira que dê vontade a quem lê, de voltar a ler de novo as mesmas frases, só pra provocar os pelinhos da alma e tê-los arrepiados.


Como eu deveria iniciar esse conto? Pensou a contista.
Desde quando eu era menina, já me perseguiam essas tais questões filosóficas sobre a vida. Dentro do táxi, de volta para casa, ambos, tempo e vida correm em mim através da paisagem. Enquanto penso sobre como conciliá-los, seu Petrúcio me pergunta se conheço a passagem bíblica que conta o ‘caso da teimosia de Moisés a Deus’ e que por isso Moisés foi engolido por uma baleia. Isso é bom para começar. Suponho. Abandonei às pressas as minhas próprias inquietações e me pus a escutar o taxista, ‘que Deus mandou Moisés ir pregar num canto e Moisés foi pregar em outro, que o ‘navio’ ia afundar, e ele disse que, peraí minha gente, vou pular da embarcação que a culpa é minha, e que Deus, diferente de Jesus - que passa a mão na cabeça do pecador -, é quem é vingativo. Deus, minha senhora, é assim: Desobedeceu, ele passa o camarada na cepa. Quem, seu Petrúcio? Deus, minha patroa, Deus, que ia afundar o navio. Aí a baleia engoliu Moisés’. E foi, seu Petrúcio? E a senhora não sabia, não era? Não. Pois tá lá no antigo testamento. Leia. Com Moisés eu não sabia não. Sabia que isso tinha acontecido com Jonas, mas não disse. Pra quê dizer? A história estava contada e tanto fazia ser Jonas ou Moisés, já que em mim tinha causado um efeito esfuziante, de quem recebe de graça uma revelação, porque esclarecedora demais. A clarividência do taxista, homem alto, cheinho de voz, de fé e de bigode, com uma péssima dicção, chegou a ele através de um conto, muito bem mal contado, se é assim que é possível dizer. Ele me contou sem ter que pedir inspiração a ninguém. Já eu tenho que pedir. Seu Petrúcio me impressionou e, além disso, separou para mim, bem distintamente, Deus, de Jesus, e como consequência, ambos, do Espírito Santo. Onde começa e termina cada um deles misturados num só; uno e trino, sendo o último, aquele que a minha avó anunciava, dentre os três, a pessoa mais fina e melindrosa, porque santíssimo, ‘quem blasfema contra o Espírito Santo, não tem salvação’ Ave Maria. A sua voz ficou gravada em meus ouvidos até hoje! Bach estava certo, minha gente, Jesus é mesmo a alegria dos homens. Quem passa a mão na cabeça dos pobres pecadores é quem de fato perdoa. É quem conhece o sagrado e o profano e sai costurando as coisas pelo meio. Jesus é o caminho do meio. A sabedoria divina vem de onde menos se espera seu Petrúcio!
A contista tinha, enfim, retornado das sombras. Tendo terminado seu conto, percebeu que Violeta, cheia de alma, havia-se envolvido na tentativa filosofal de explicar-se, entre ovos e galinhas. Cuidadosamente, encerrou-a. Guardou-a nos mistérios da sua alma e tendo se refugiado na solidão da sua pessoa, guardou-se também, onde se guardam bem guardadas, as reservas do si mesmo. Foram-se as duas, e foram-se as galinhas, as reflexões e as idéias surgidas das impressões cotidianas de cada uma. Tenho a impressão que Violeta é a provisão redentora de sentimentos existenciais que asilam a contista na simbiose de ambas, já que para mim, ela nasce da mesma simplicidade, com a qual uma criança anuncia um ovo parido e torna mãe uma galinha. Que coisa! Eu que o diga agora ‘quem vai fazer algo sou eu. Vou escrever o que me der na telha’. Diante da mesa, acabo de abrir, agorinha mesmo, o meu lugar de guardar sentimentos e juntá-los em palavras para escrever histórias. Arranco-me das diversas peles que me revestem. Crio coragem. Remexo meus afetos. Reconheço em mim as personagens e as aprovo, e dando sentido a cada uma, disponho-me a escrever o meu conto. Era uma vez, a contista, Violeta e eu...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quando as novelas nos influenciam

A televisão é hoje uma das grandes propagadoras de valores e comportamentos











Não acompanho novelas por achar que se perde tempo com elas. Posicionamento meu, particular, o que não me impede de mesmo assim, sem estar diante da telinha, perceber o efeito que elas, as novelas, fazem na vida das pessoas. Hoje, mais do que a Igreja e a família, a mídia, de um modo geral, é quem dita costumes, valores e comportamentos. Até aí, nenhuma novidade. Esse discurso é caduco. O que me chama a atenção, no entanto, é a maneira como as pessoas reproduzem os "ensinamentos" inculcados pelos meios de comunicação.


Tenho observado o acontecimento das "festas Indianas". Elas se tornaram frequentes entre grupos de mulheres que costumam se encontrar com regularidade. Vi há poucos dias, em álbuns do Orkut (e quem não conhece o orkut?), a quantidade de eventos dessa natureza. Isso me faz pensar sobre o assunto. Diante de fotografias, onde além das roupas típicas da Índia, há verdadeiros altares para Ganesha, Shiva e outras tantas divindades asiáticas, até então desconhecidas do grande público de telespectadores, vejo o exemplo do quanto é forte a influência da televisão sobre a sociedade consumidora desse tipo de "produto" que é oferecido. Eis aí uma amostra do senso comum agindo sobre o inconsciente coletivo. Que o digam os psicólogos!

Se formos analisar as evidências, veremos que aquilo que as novelas apresentam, seja o que for - o que é para mim assustador -, as pessoas assimilam sem pestanejar. É óbvio que existem exceções, como há em toda regra. Questiono a influência da televisão à maioria. Àqueles que sentam diante da TV e recebem suas mensagens como se fossem lições para a vida. Alguém pode se colocar no lado oposto ao meu e perguntar: Mas a novela trouxe cultura às pessoas. Muita gente ficou sabendo dos costumes do povo indiano, não foi? Então eu pergunto: Você acha mesmo? Ou será que estamos confundindo informação com conhecimento?

Tudo que aparece nas novelas é tratado como coisa de consumo e descartável. As pessoas se utilizam dos jargões, apresentados da própria novela, e os incorporam à linguagem coloquial, como divertimento. Desde que a Globo estreou uma novela que entre outras coisas, trata sobre indianos, que escuto a expressão: Are baba. O que significa are baba? Certamente pouquíssimas pessoas sabem, mas dizem. Tudo é apresentado ao público e vira modismo, e como modismo, tem prazo para ser esquecido. Cadê o conhecimento? As coisas ficam no nível da informação, e assim que a novela acabar o interesse cotidiano comum, será descartado.

Em verdade, a cultura ocidental e a asiática, nesse contexto, não se mistura. A troca é mínima e volátil. O aprendizado da realidade do outro é vago. A realidade do outro país é caricaturada e o receptor se “diverte” com os costumes, as palavras e os comportamentos do povo indiano, ao invés de aprender a respeitar as diferenças e aprofundar a curiosidade pela história de um país e do seu povo. A distância entre a cultura indiana e a nossa é tão grande, que o máximo que as pessoas fazem - instigadas pela mensagem sutil do consumo -, é reproduzir a Índia que a televisão mostra, em festas. É preciso imitar as novelas. Viver o que as novelas estão vivendo.

Fica complicado sair por aí vestidos com trajes indianos. Seria ridículo para nós, ocidentais, suponho que se pense assim. Mas como fica a necessidade de reprodução da lição recebida? Sem pensar absorvemos o que as mídias querem que pensemos. As festas indianas são, a meu ver, uma grande prova dessa influência. Não foi à toa que Jesus, o polêmico Jesus bíblico, disse: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

BURACO DE ENTULHOS

A cama onde durmo não me serve. Levanto com todas as articulações doendo.
Hoje olhei o dia pela janela. Faz um solzinho frio, e a paisagem é calma. Notei uma borboleta de um amarelo-quase-ocre, com lindas listras pretas, cumprindo fielmente a sua natureza de invertebrado. Tive um desejo enorme de ser inseto, de encher as patinhas de pólen, de voar de flor em flor, por entre as buganvílias aqui de casa. A Deus, o maior dos mistérios entre todos os outros, tenho o hábito de pedir, porque já é um hábito que a minha avó, sabida, me ensinou: Ô Margarida minha filha, a Deus a gente pede é o dom da sabedoria, assim como fez Salomão! Foi o rei mais sábio da Bíblia!. Foi mesmo, vovó?. Levei a vida toda só insistindo: Ô meu Deus, me dê sabedoria, vá... Acostumei. Todo dia, de chuva ou de sol, que nem o dia de hoje, claro, iluminado e cheio de borboletas, chateio Deus pedindo o precioso dom. Minha avó deve estar lá, pertinho Dele, vendo que eu, que me esforcei o tempo todo, desde pequena, para não desapontá-la, continuo 'implorando' a mesmíssima graça. De uns dias para cá, uma pessoa, aqui bem dentro de mim, com a mesma voz da minha avó, me disse assim: Ô Margarida, agora peça paciência. Me assustei. Pensei, pensei, e sondei a voz que me falava. Fechei os olhos e mergulhei por mim, entrei no meu silêncio. 'Ah! Meu Deus, que eu encontre o caminho da voz que me fala, porque tenho medo de cair em labirintos e não saber voltar' É verdade, dentro de mim tem muito lugar que não conheço, mas me aventuro na benevolência do Altíssimo, toda vez que vasculho as coisas do meu silêncio. Há em mim grandes salões escuros. É deles que vêm a maioria das vozes que me desafiam. 'Ô Margarida, peça paciência'! Logo eu, que desde menina peço sabedoria?. Lembrei do meu amigo, frei Toinho, que quando soube da minha devoção à Santa Rita, ficou vexado, me chamou num cantinho da igreja e disse assim: Margarida, aqui pra nós, aceita conselhos? Troque de devoção. Outros santos podem interceder por você, sem cobrar tão caro. Como assim? Que tal Santa Teresinha do Menino Jesus? Santa Rita intercede, mas o devoto sofre muito. Padece como ela padeceu. Desconfiei de frei Toinho, meu grande amigo, doido por Santa Teresinha como ele é, e eu sei. Desconfiei da sua voz, da sua interferência na minha confiança à Santa Rita. Olhei bem no fundo dos olhos dele, tentando ver o inimigo, mas não vi. Me falta discernimento para enxergar, na hora, as investidas do mal. Também não arrefeci: Frei Toinho, sinto muito, mas não posso. Santa Rita e eu nos conhecemos há muito tempo. Não posso acabar assim a minha devoção, sem mais nem menos. Não posso. 'Você não precisa largar a santa de uma vez. Vai deixando aos pouquinhos, devagar'. Nessas horas, se não me vem intuição, se o meu coração rejeita a idéia, finco o pé. 'Isso eu não faço' Fui pra casa indignada. No caminho, tentando me distrair, olhei as frondosas árvores plantadas nas praças, olhei as flores brancas silvestres, as formigas, o céu azulzinho cheio de nuvens. 'Assim como não foi impossível curardes uma ferida em cinco minutos. Nada para vós é impossível' Ô Santa Rita, me perdoe por essa dúvida que agora me achata. Estimula-me a possibilidade de sofrer menos. Fui picada pelo desejo de ser feliz sem pagar tributo. Sou pequena, sou influenciável. Não duvido que tenho um monte de sabedoria acumulada de tanto que incomodo a Deus por ela, mas não sei em que parte de mim, meu tesouro está guardado. Sonho encontrando pérolas, turquesas, anéis brilhantes, em buracos cheios de entulhos. Estou numa pequena igreja vazia, sem altar, sem imagens, toda forrada de ouro puríssimo. Em meus sonhos sei onde está o que Deus me concede. As dores nas articulações entrevadas e o dia amanhecido, me fazem perder esse lugar. A vida me enche de dúvidas. Frei Toinho me encheu de dúvidas. A minha condição humana é maleável, plantada em areia movediça, ela me coa, sozinha, na peneira dos conflitos. Sou mero pó de café no fundo do coador. Minhas certezas escoam no decorrer das horas.

É isso ou aquilo? Felizmente aprendi a suportar a tensão dos opostos. Aguardo a solução, impaciente, sofrendo como bicho encurralado. A acreditar que tenho a sabedoria, me habilito a crer nela e que virá em meu socorro. Sou nadinha, mas do meu vazio, Deus me fala enquanto observo as borboletas. Voltei do meu silêncio com a resposta. A fala mansa, feminina, na voz da minha avó, é divina. Reconheço. 'Peça paciência'. Foi assim, parecido com isso, que entendi a minha devoção à Santa Rita. O recebimento acrescido ao sofrimento é graça de Deus. E dobrada. É no conflito, que Deus me diz quem sou, e quem posso vir a ser. É essa a prestação que me cobra a santa dos impossíveis, porque me possibilita experimentar a minha própria condição de necessitada. A chave do impossível é um buraco de entulhos cheios de pedras preciosas. É o jardim onde florescem as pérolas, turquesas e anéis da sabedoria. É o lugar da condição do possível. 'Ô Meu Deus, não posso aceitar o meu destino como sina. Me ensina, a partir da minha ansiedade rude de gente, a tecer o mais sincero bordado da paciência'.

Turquesa, anéis ou pérola, quaisquer que sejam, vindos dos sonhos, é nesse dia de hoje, borboleta voando ao redor das buganvílias. É o símbolo da sabedoria que delicadamente visita o meu jardim e me dá ânsias de ser leve e boa. É sobre os entulhos que Santa Rita passeia dizendo "Oh amado Jesus, aumenta minha paciência na medida em que aumenta meus sofrimentos".

Tudo é tão suave e tão pesado. 'Ô vovó, porque a senhora tinha que me iniciar nos caminhos misteriosos de Deus'?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

LUCUBRAÇÕES DE VIOLETA


Não foi sem-mais-nem-menos que Violeta recorreu aos antigos álbuns de família. Há dias ela andava procurando achar-se. É que vez por outra a gente se perde da gente mesmo. Foi atrás de um banquinho, colocou-o diante do guardarroupa - ficou muito estranha essa palavra -, subiu, e alcançou suas memórias. Coisa imagética, pontuou, dando novidade à palavra. Memória fotográfica. Melhor, memória imagética. Aprumou-se então. 'Hoje em dia é preciso reciclar até as palavras'!. Lembrou-se então de algumas delas que lhe ocorriam, e que para ela, desgraçadamente, haviam saído de uso: ligeiro, creme rinse, rodeira, serviço de som, palavras que toda vez que falava, causava estranhamento e risos nos filhos. Parecia besteira preocupar-se com essas picuinhas, mas corria-se o risco de ao desconsiderá-las, engrossar as fileiras dos que estão vivendo fora da realidade.

Violeta procurava evitar termos como: 'No meu tempo'. Para ela era um "pecado" que não se devia cometer. Simplesmente porque as pessoas não têm prazo de validade. Nem devem aceitar que lhe dêem prazo de tempo. Gente não é coisa nem produto. Gente é gente. E sendo gente, há sempre a possibilidade dialética da vida. Transformações, ajustes aqui-e-acolá, novas idéias, novos rumos. Envelhecer não é ficar encostado como coisa velha e ultrapassada, sem valor nenhum, pensava ela. Assim pensando, moveu-se até o local onde estavam os seus álbuns de retratos.
O quarto era amplo, iluminado, e apesar dos móveis estarem pedindo para serem mudados, o lugar tinha vida. De posse dos álbuns, Violeta acomodou-se na cama. Sentada diante deles, colocou-se pela primeiríssima vez na vida toda, como quem se coloca em profunda genuflexão. Sentiu como se estivesse com a alma de joelhos. Assumiu, por assim dizer, uma postura religiosamente sacramental. Ia rever o passado. Ia ver-se e aos outros. Voltaria para outros cantos por onde havia passado. Retornaria à contemplação da sua vida, ao registro dela.

Não obstante, abriu cuidadosamente, e com certo receio, o primeiro álbum. Olhou para cada fotografia, pôs-se em cada circunstância, mediu-se e pesou-se para cada quilo a mais, viu-se em todos os cortes de cabelo, em cada Natal, em cada ano seguinte àquele, em cada acontecimento. Observou atenta os devaneios da moda, e os seus, dentro daquelas roupas ridículas. Ponderou acerca das antigas futilidades, justificando-se. Mas o que mais a chamou a atenção, foram os mortos. Seus parentes, amigos, vizinhos. Ao olhá-los e sem querer, ressuscitou-os um a um. Devagarzinho. Começou por ouviu-lhes os timbres e as vozes, depois seus risos, e adiante não apenas os ouviu, viu a todos eles que se riam e conversavam. Sentiu os seus cheiros, seus abraços, suas idéias e seus segredos. De repente o seu quarto encheu-se de pessoas invisíveis. Todas saídas, quase que arrancadas, das imagens.

Tudo era vivo a partir da sua própria alma. Violeta pode enfim compreender, num insight maravilhoso, que ninguém estava realmente morto. Todo mundo vivia dentro dela. E retornava, magicamente, da sua saudade ativa, das suas lembranças vívidas, da sua memória que quanto mais lhes era fiel, mais realidade lhes trazia. A cada detalhe, os mortos se enchiam de vida, prosperavam, corria-lhes sangue nas artérias, pulsava-lhes o coração. Coravam, falavam e se riam, numa fartura crescente de vitalidade. Aqueles aos quais ressuscitara, puseram-se a falar de coisas, as quais poderiam ser classificadas como 'no meu tempo'. Porque embora ali, cheios de vida, eles não tinham novidades para contar, senão as coisas daquele dia em que haviam sido fotografados e talvez até o último encontro com ela. Em silêncio, juntou um a um, os seus ressuscitados, e fechou o álbum, para que voltassem às suas memórias. Adormecessem.

Desse modo, como era de se esperar, os instantes do passado que vieram à tona, foram dissipados como poeira, e o que restou, perturbou e trouxe ensinamento à Violeta, lá dentro, no seu espírito e em sua razão. Compreendeu que à sua memória, mesmo trazendo-os de volta, não dava-lhes as possibilidades dialéticas da vida. Foi-lhe posto um novo limiar para a consciência, daí em diante. Ultrapassar um novo portal. Atuar na vida com maestria. Fazer valer seus próprios episódios. Fazer-se na contínua história cotidiana, ainda que miúda, silenciosa e anônima. Uma coisa, no entanto, confirmara-se. É necessário reciclar as palavras, porque as palavras, ainda que não percebamos, são pontuações e referências à vida. É preciso empreender jornadas heróicas em busca do que é atual, sem perder-se a si. Superar os prazos de validade que lhe estavam sendo impostos. Gente não é coisa. Gente perdura, dura, se eterniza na memória dos outros. Quando a gente se perde da gente mesmo, é quando as possibilidades de crescimento interior estão pedindo expansão.

Ontem é o meu tempo, com as suas palavras, hoje é o meu tempo, com as suas palavras, e amanhã será o meu tempo também, pontificou Violeta. Cheia de si, achou-se de repente, ali no seu quarto, no começo de uma nova estrada. A estrada, que por ventura nos leva de volta ao começo, de alguma coisa maior em nós mesmos.

Foto de Ana Clara Martins

sábado, 11 de julho de 2009

ENTRE A VIDA E O TEMPO


Violeta acordou e ao olhar-se no espelho do banheiro, avistou-se no alto dos seus cinquenta anos. Tomou um susto. Tornou a olhar-se e reparou que o tempo continuava cumprindo impecavelmente o seu trajeto. Ela era prova disso: ' Estou na ante-sala de um lugar de mim que começo a conhecer agora'. Lembrou-se da infância, dos cheiros da sua casa, do mamoeiro empedernido lá no quintal, da goiabeira, do papagaio, das vozes e da segurança que sentia. Ainda fitando o espelho, pode ver-se correndo pelo corredor da sua casa, e o rosto sempre grave e de pouca conversa do seu pai, apareceu suavizado. Sobressaltou-se. Uma saudade, daquelas fininhas e sorrateiras, veio infiltrar-se nela. Violeta esfregou os olhos, saiu do banheiro e acorrentou-se as lembranças. Chorou.
A vida ainda nem começara. Mas a sensação que ela tinha, era a de que o tempo caminha de um jeito, enquanto a gente caminha de outro. ' O tempo é um deus, enquanto eu sou uma simples mortal' Sentiu alguma coisa parecida com angústia que ela, advertidamente, trocou pelo que chamou de sentimento de injustiça. 'Isso não é justo' Mas qual seria o acordo entre a vida e o tempo? Violeta quase desaba, porque viu-se diante de uma questão filosófica de grande monta. Tentava com essa pergunta, mergulhar em assuntos os quais não tinha competência. Nem ela, nem ninguém. Retornou a si desolada. 'A ciência não responde a tudo. Isso é um fato, e não há quem me convença da supremacia dela. Falta resposta. Falta muita resposta e sobra muita prepotência'. Então ocorreu-lhe um pensamento, por assim dizer, mitológico. E aí do fundo de algum lugar da memória, veio em sua mente, a poesia de Ricardo Reis ou era Fernando Pessoa? 'Besteira. Dá na mesma. Qualquer um dos dois me serve, que são a mesma pessoa'.
É assim, por costume mesmo, que Violeta transforma tudo em farinha do mesmo saco. Não percebe o privilégio do poeta português, em desmembrar-se em vários, e a cada um, imprimir um modo de poesia. Trouxe-a então a si: 'Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre'. E de outro poema, 'Colhamos flores'.
Está aí uma solução. Colhamos flores. Eu nunca havia pensado nisso!. Mas que coisa, meu Deus?! Estou no topo de uma montanha e preciso descer. Não há mais o que subir. Não, dessa forma como eu vinha fazendo. Não. O tempo me determina uma coisa e a vida me chama a outra coisa. E eu digo a mim mesma: 'Está aí você, Violeta, numa enrascada' Numa grande enrascada, se do alto dessa montanha, você pensar a vida como vinha pensando. Mas eu estaria numa enrascada muito maior, se não tivesse chegado à compreensão disso. Portanto, sou sortuda. 'Colhamos flores'. Isso é filosofia. Coisa que se aplica entre o viver e o permanecer. Permanecer é pouquinho pra mim. O tempo é um deus inquestionável então, e imutável. E os deuses, minha filha, nunca mudam, são eternos em suas naturezas. Finita sou eu, que experimento a vida como uma fagulha com prazo para extinguir-se no tempo. Extinguir-se ou diluir-se? Porque se me extinguem, devo deixar de ser. Mas se me diluem, misturo-me ao tempo e começo de novo. Sou finita e por isso não me decido entre uma coisa e outra, porque mesmo que eu quisesse, não me cabe a escolha. Posso sentir raiva de Cronos, o senhor do tempo, mas, engraçado, não sinto. Não sei se o que chamo de injustiça dos deuses é mesmo uma injustiça. Respeito a ciência, mas tenho um pé atrás quando o assunto é a razão, pura e simplesmente. A ciência me é falha, e aqui pra nós, tenho medo de ser descoberta e exposta como uma pessoa ignorante. Me inclino à metafísica, aos mitos, à alquimia. O que sou até agora é uma costura entre a vida e o tempo. Sou a matéria que dá ao tempo a razão de ver-se a si mesmo, em mim, já que Cronos é infinito. Tendo a achar que é o senhor do tempo quem fenece. Sou-lhe necessária para afirmar-se como sendo. Sou eu que meço o tempo à Cronos. Faço-o com a minha vida. O tempo precisa de vida para sê-lo a si mesmo.

Violeta é chamada à consciência. Tece seu discurso filosófico. O discurso de Violeta. Aquele que se estabelece quando se chega ao topo da montanha, de onde se é convidado a descer. Descer para dentro da vida, propriamente dita. Subir ao contrário. Colher flores enquanto o tempo se precipita. Deixar tempo ao tempo. Sobe-se na descida. Nesse percurso é muito bom que se colham as flores. O efeito do tempo sobre nós é inevitável. O medo que dá, é que tenhamos, na subida, esquecido de plantá-las.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Jornalismo: O que fazer agora?


Eis a pergunta que tenho feito a mim mesma, e que lanço como estranhamento, aos senhores (des)respeitáveis jornalistas. O que faremos com o nosso canudo? Que confusão é essa? O que justifica o fim da obrigatoriedade do diploma para uma profissão? No dizer de Gilmar Mendes, a arte de cozinhar e a arte de escrever, são duas funções comparáveis. Engraçado! Qualquer pessoas que saiba escrever, pode mover a palavra. "A palavra é para dizer". Há que se respeitar o direito à palavra. Respeitar a opinião de cada um, "conceder" o direito de dizer, diz respeito direto para questões que envolvem a liberdade de expressão.

Ah, sim! Qualquer pessoa que se digne a escrever sobre qualquer coisa, pode ser tão jornalista, quanto aquele que aprendeu a técnica para sê-lo. A começar pelo princípio: o que será do lead, aprendido na faculdade? O que será das disciplinas: filosofia, sociologia, psicologia, teoria da Comunicação, Artes Visuais? Que importância terá a nossa noção humana e social no mundo contemporâneo? O que será do senso crítico, direcionado, que foi aprendido, conhecido e nos possibilita um melhor discernimento, quando se trata de comunicação social, propriamente dita? E o compromisso com informação? Na verdade todo estranhamento é no mínimo patético.

Aliás, se olharmos bem, desde quando podemos exercer, com dignidade e lisura, a nossa profissão? Aos jornalistas que já conheceram as redações, que já trabalharam ou trabalham em TV e em outra qualquer mídia hegemônica, sabe que no fundo, a palavra NÃo é para dizer, porque outras palavras, vindas daqueles que detém os meios de comunicação, são impostas no exercício da profissão. "Coincidentemente" os donos desses meios, na maioria, são políticos. E o que é mais engraçado ainda, é que o STF não julga tais irregularidades, embora saiba que por trás dos ditos patrões, estão os outros: Os senhores encastelados em cargos públicos municipais, estaduais e federais.

Se formos olhar a coisa sem a emoção do impacto todo, descobriremos, talvez até constrangidos, que a atitude de Gilmar Mendes, foi tornar claro o que já acontecia, (claro, que dentro desse contexto). Exercer o jornalismo, cumprir o nosso papel social com dignidade... Ai, ai... Se for para estranharmos, estranhamos muita coisa. E se partirmos para a indignação, há muito do que se indignar. Com todo respeito à arte culinária, discordo de Gilmar. Em primeiro lugar, estimular paladares e os apetites do corpo, não é algo igual a estimular o conhecimento e o discernimento humano. Todos nós sabemos da importância do pensamento, da construção da palavra, do compromisso com a informação.

A culinária a que ele se refere, o cozinheiro de que ele trata, não chega, com a sua criatividade ou sua arte, a todas as pessoas. Ele está nas grandes cozinhas e entre elas, nas cozinhas de Brasília. E que contribuição teria para a vida do sujeito, uma comida elaborada? A não ser como estimulante momentâneo do prazer? Que interferência na realidade de quem come o velho e habitual feijão-com-arroz, terá a arte culinária? Eis aí meu primeiríssimo estranhamento: qual é o propósito da produção do cozinheiro e qual o propósito da produção jornalística? Para mim há diferenças e é por isso que estranho. E então, sr. Gilmar, pulamos ou não pulamos, despenhadeiro abaixo? É a questão que se coloca. O que fazer agora?





sexta-feira, 12 de junho de 2009

Conto para um dia de chuva

O lugar onde a mulher se encontrava não era grande nem pequeno. Era uma sala retangular, aconchegante, mas, naquele exato momento, ambos, o lugar e a mulher, se mostravam sombrios. Do lado direito da porta de entrada, hirsuta, cheia de livros e cd's, deixava-se entrever, uma estante de madeira. 'Madeira de primeira', como teria dito o seu pai, se fosse vivo e se ali estivesse. Diria com uma voz de sentença, de última palavra, palavra de quem manda em tudo. Ninguém se atreveria a dizer o contrário: madeira de primeira! Por alguns instantes, a lembrança viva daquela voz de autoridade, causou-lhe um mal-estar medonho.
Ainda do mesmo lado, dentro da sala, havia um amplo birô, com tampo de vidro, e sobre ele, um calendário, papéis espalhados, uma luminária e o retrato do dono da casa. 'A casa também é minha', pensou Isaura, ainda que duvidasse das próprias palavras, enquanto percorria o olhar sobre os objetos. Resolveu então mover-se e caminhou temerosa até o fundo da sala, onde uma grande janela abria a visão de um reduzido mundinho, também sombrio e cercado de muros. Deu uma espiada no tempo. Uma chuva fininha caía sobre a grama verde, sobre a antena parabólica da casa vizinha, sobre os telhados, e dentro dela. Chovia dentro de Isaura. E aquela água, inundava - por mais que parecesse incrível -, a sala inteira, o sofá estampado com diáfanas flores verde-água, a preguiçosa, os livros e o cofre. Por fora, era um aguaceiro enxuto, se é que se pode imaginar uma coisa dessas. Mas para dentro, embora não se notasse, Isaura chovia.
Por alguns instantes pareceu perdida. Sentiu-se estranha dentro da sala, entranha em seus próprios pensamentos, ausente, como quem viaja de si. 'A casa também é minha' Repetiu dessa vez, com malcriação e com dureza, num timbre de voz que soava bem alto, apenas dentro da sua cabeça. Precisava conferir-se, assegurar-se de que também era a dona da casa. Por alguns instantes sentiu-se vitoriosa. Esboçou um sorrisinho de desdém, desafiando a tristeza dos pensamentos. Ajeitou os cabelos, fez projetos, arquitetou planos disso e daquilo. Isaura contemplava tudo ao seu redor com ares de superioridade. Procurou ignorar o tempo lá fora, a sala sombria, as lembranças amargas. Distanciou-se de si o mais que pode. Inventou-se outra. Olhou para a sala, para os móveis, como se estivesse acima de tudo, sobrevoando a vida. Chegou até a criar o modelo de mulher que seria.
Pegou lápis e papel e escreveu: Isso assim, isso assado. Para quando disserem aquilo de novo, digo isso. Para tal atitude, me calo. Vai ser assim e assim. Escreveu tudo. Traçou mapas que serviriam como guias, para endireitarem o curso das emoções. Previu achaques, represálias, e revidou-os todos, na imaginação, com frases e atitudes certeiras e calculadas. Investira-se de poder. Quase completamente satisfeita e ainda com o sorrisinho desdenhoso, Isaura voltou-se para a janela e viu a chuva intermitente. Um sobressalto apoderou-se dela. De repente, todos os solilóquios despencaram. A mulher tornara a chover. Isaura chovia grossos pingos por dentro. Chovia às imprecauções do poder, e inundava-se, vagarosamente, pela inexistência do amor, que o próprio poder destituía.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

EROS X RELACIONAMENTO

Dia dos namorados... Deixemos as compras e a efusividade de lado e observemos os casais e as suas expectativas. Nessa data, 12 de junho, Cupido, o deus mais antigo do Olimpo, e, paradoxalmente, o mais menino de todos os deuses, é reverenciado. Com ele, reproduz-se a ilusão do amor romântico. Aquele amor, tal qual Shakespeare, à moda da literatura romântica ocidental, fez-nos desejosos de viver, como em Romeu e Julieta. Quem não conhece a história de amor entre os dois apaixonados da cidade de Verona, na Itália? Pois bem. Aí paramos nós, os que nos envolvemos, coletivamente, na "apaixonante" idéia do amor.
O dia dos namorados é uma boa ocasião para refletirmos sobre a espécie de amor que buscamos. Que tipo de relacionamento queremos e julgamos precisar. Precisamos, acho até, que urgentemente, atentarmos para o fato de que o amor, assim, romântico, perfeito e certinho, e tão procurado, não está dando certo. Na verdade, o modelo coletivo do amor, é inalcançável. Estamos procurando um deus ou uma deusa, ( não um ser humano), que carregue para nós a nossa própria responsabilidade de ser feliz. A paixão é um estado supra-humano. Quando estamos envolvidos nele, nos transportamos para "outra dimensão". É tudo muito mágico e ilusório. Mas, como seres humanos que somos, não podemos sustentar essa dimensão divina. Mais cedo ou mais tarde, as ilusões se desvanecem.
Descobrimos, frustrados, que o outro não passa de um ser humano, e por isso, limitado. Pior. Não conseguimos ver a nós mesmos, como pessoas que também têm limites. Não conseguimos sequer aceitar a idéia de que projetamos na pessoa do outro, os pressupostos da nossa própria busca de realização pessoal. Estamos sempre culpando os outros por não realizarem por nós, o que a nós mesmos compete. Isso não quer dizer que não precisamos ser amados. Mas ao procurarmos sair das limitações e projeções que nos mantém presos à unilateralidade da idéia de amor, é possível que alarguemos o horizonte dos relacionamentos. É preciso, sobretudo, que tenhamos a coragem de admitir, que o amor possível de ser alcançado, é o amor humano.
O amor que não sobrecarrega o outro, mas que é parte do crescimento em nós mesmos. Acontece, não como uma intrusão de apaixonamentos, mas como um exercício contínuo de afetividade que nos amadurece. É percebermos que as flechas de Eros/Cupido nos atingem, como um primeiríssimo passo para o encontro de outra pessoa, mas, daí em diante, o trabalho de construir o amor, e o amor humano, é nosso. E, como diz uma amiga, "pasmem": descobrir quem somos, é a melhor maneira de aceitar o outro, assim como ele é. A medida que nos capacita ao exercício do amor, é aquela que aponta para a nossa capacidade de amar a nós mesmos. Sem precisar que o outro diga quem somos.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

PLENITUDE

Chovia. Meu pai levantou-se da cama, e passou assobiando pelo corredor da casa em direção ao banheiro. Os pingos da chuva tamborilavam rítmicos, quando o sino da Igreja Matriz começou a tocar. O cheiro do café coado invadiu a casa e Analice se pôs a cantar com suavidade uma canção que falava em estrelas que haviam percorrido o céu em busca de outros mundos. Pulei da cama. Outros mundos! Essas coisas me exigiam aprofundamento e continuidade. A idéia de outros mundos, tornava o meu, reduzido e vulnerável, a mercê de catástrofes e invasões vindas do espaço. Àquela época os marcianos começavam a povoar o imaginário popular. Marte surgiu como um dos outros mundos habitados. Olhar o céu deixou de ser apenas olhar o céu. Eu vasculhava entre a lua e as estrelas, naves espaciais e a possibilidade de esclarecer mistérios. Apareceram as grandes dúvidas existências, em perguntas meio assustadoras, que povoaram a minha cabeça, de quem sou eu, de onde vim e para onde vou. Em casa, as pessoas emitiam opiniões, baseadas em suas convicções religiosas, em certezas frouxas que resvalavam em respostas também frouxas, que me desapontavam. Meu pai notou que não me convenciam as respostas e me alertou para o perigo de se enlouquecer quando se procura entendimento, para coisas que não podem ser respondidas. Vencida pelos adultos, entendi que as suas palavras, objetivas, sentenciavam o encerramento do assunto, e de alguma forma possuíam um efeito salvatério, momentâneo, me arrancando de um intrincado labirinto. Melhor mesmo era olhar formigas a caminho do açucareiro, em fila indiana, sobre a mesa da sala de jantar.No outro dia a chuva voltou a cair e as mesmas perguntas me assaltaram, antes mesmo que eu levantasse da cama. Estranhamente, sem que eu me desse conta, se me havia rompido o mundo íntegro, conhecido e perfeito, em dois. Estabeleceram-se dois lugares de mim mesma: um de dentro e um de fora. Movida pelas perguntas, as dúvidas me ocuparam e não pude mais me livrar delas. Fui mordida pela serpente simbólica, que me exigiu o preço, à leve ainda, expansão da consciência sobre as coisas. Os dias iguais, os pingos da chuva e até mesmo o assobio matinal do meu pai, deixaram de ser signos do meu cotidiano perfeitamente estável e bom. Outros mundos... Remoí em silêncio, as galáxias, o Universo infinito, a morte, Deus e eu mesma, em meio a isso tudo e vi-me cercada por conflitos interiores. Os mistérios cresceram, tomaram forma, saíram de meu mundo interior, varreram os meus brinquedos, trouxeram um gosto amargo aos doces caseiros, aos ventos quentes da tarde, às orações para dormir, e tornaram o colo da minha mãe estranho e pouco acolhedor. Saí da infância, como se me houvessem empurrado pra fora do meu melhor lugar de estar, e amedrontada, comecei a compreender, que havia perdido o paraíso, a inteireza e a perfeição que a inocência permite à vida. Eu era alguém no meio dos outros. Mais tarde, haveria de tornar a inquietar-me com as mesmas perguntas, agora, de maneira mais elaborada. Em lugar de quem sou eu, de onde vim e para onde vou a pergunta se fez mais direta: Qual o sentido da vida?Estou longe da perfeição inconsciente da infância, mas irei juntar-me novamente. A dualidade me trouxe o conhecimento dos opostos e os opostos me exigem totalidade e equilíbrio para serem integrados. Só assim serei de novo uma única pessoa. Tudo estará dentro de mim e em seus devidos lugares. O sentido da vida é a resposta que eu der à Vida e aos seus mistérios. É partir-se em dois, para depois unir-se. É ser pleno.