segunda-feira, 20 de julho de 2009

BURACO DE ENTULHOS

A cama onde durmo não me serve. Levanto com todas as articulações doendo.
Hoje olhei o dia pela janela. Faz um solzinho frio, e a paisagem é calma. Notei uma borboleta de um amarelo-quase-ocre, com lindas listras pretas, cumprindo fielmente a sua natureza de invertebrado. Tive um desejo enorme de ser inseto, de encher as patinhas de pólen, de voar de flor em flor, por entre as buganvílias aqui de casa. A Deus, o maior dos mistérios entre todos os outros, tenho o hábito de pedir, porque já é um hábito que a minha avó, sabida, me ensinou: Ô Margarida minha filha, a Deus a gente pede é o dom da sabedoria, assim como fez Salomão! Foi o rei mais sábio da Bíblia!. Foi mesmo, vovó?. Levei a vida toda só insistindo: Ô meu Deus, me dê sabedoria, vá... Acostumei. Todo dia, de chuva ou de sol, que nem o dia de hoje, claro, iluminado e cheio de borboletas, chateio Deus pedindo o precioso dom. Minha avó deve estar lá, pertinho Dele, vendo que eu, que me esforcei o tempo todo, desde pequena, para não desapontá-la, continuo 'implorando' a mesmíssima graça. De uns dias para cá, uma pessoa, aqui bem dentro de mim, com a mesma voz da minha avó, me disse assim: Ô Margarida, agora peça paciência. Me assustei. Pensei, pensei, e sondei a voz que me falava. Fechei os olhos e mergulhei por mim, entrei no meu silêncio. 'Ah! Meu Deus, que eu encontre o caminho da voz que me fala, porque tenho medo de cair em labirintos e não saber voltar' É verdade, dentro de mim tem muito lugar que não conheço, mas me aventuro na benevolência do Altíssimo, toda vez que vasculho as coisas do meu silêncio. Há em mim grandes salões escuros. É deles que vêm a maioria das vozes que me desafiam. 'Ô Margarida, peça paciência'! Logo eu, que desde menina peço sabedoria?. Lembrei do meu amigo, frei Toinho, que quando soube da minha devoção à Santa Rita, ficou vexado, me chamou num cantinho da igreja e disse assim: Margarida, aqui pra nós, aceita conselhos? Troque de devoção. Outros santos podem interceder por você, sem cobrar tão caro. Como assim? Que tal Santa Teresinha do Menino Jesus? Santa Rita intercede, mas o devoto sofre muito. Padece como ela padeceu. Desconfiei de frei Toinho, meu grande amigo, doido por Santa Teresinha como ele é, e eu sei. Desconfiei da sua voz, da sua interferência na minha confiança à Santa Rita. Olhei bem no fundo dos olhos dele, tentando ver o inimigo, mas não vi. Me falta discernimento para enxergar, na hora, as investidas do mal. Também não arrefeci: Frei Toinho, sinto muito, mas não posso. Santa Rita e eu nos conhecemos há muito tempo. Não posso acabar assim a minha devoção, sem mais nem menos. Não posso. 'Você não precisa largar a santa de uma vez. Vai deixando aos pouquinhos, devagar'. Nessas horas, se não me vem intuição, se o meu coração rejeita a idéia, finco o pé. 'Isso eu não faço' Fui pra casa indignada. No caminho, tentando me distrair, olhei as frondosas árvores plantadas nas praças, olhei as flores brancas silvestres, as formigas, o céu azulzinho cheio de nuvens. 'Assim como não foi impossível curardes uma ferida em cinco minutos. Nada para vós é impossível' Ô Santa Rita, me perdoe por essa dúvida que agora me achata. Estimula-me a possibilidade de sofrer menos. Fui picada pelo desejo de ser feliz sem pagar tributo. Sou pequena, sou influenciável. Não duvido que tenho um monte de sabedoria acumulada de tanto que incomodo a Deus por ela, mas não sei em que parte de mim, meu tesouro está guardado. Sonho encontrando pérolas, turquesas, anéis brilhantes, em buracos cheios de entulhos. Estou numa pequena igreja vazia, sem altar, sem imagens, toda forrada de ouro puríssimo. Em meus sonhos sei onde está o que Deus me concede. As dores nas articulações entrevadas e o dia amanhecido, me fazem perder esse lugar. A vida me enche de dúvidas. Frei Toinho me encheu de dúvidas. A minha condição humana é maleável, plantada em areia movediça, ela me coa, sozinha, na peneira dos conflitos. Sou mero pó de café no fundo do coador. Minhas certezas escoam no decorrer das horas.

É isso ou aquilo? Felizmente aprendi a suportar a tensão dos opostos. Aguardo a solução, impaciente, sofrendo como bicho encurralado. A acreditar que tenho a sabedoria, me habilito a crer nela e que virá em meu socorro. Sou nadinha, mas do meu vazio, Deus me fala enquanto observo as borboletas. Voltei do meu silêncio com a resposta. A fala mansa, feminina, na voz da minha avó, é divina. Reconheço. 'Peça paciência'. Foi assim, parecido com isso, que entendi a minha devoção à Santa Rita. O recebimento acrescido ao sofrimento é graça de Deus. E dobrada. É no conflito, que Deus me diz quem sou, e quem posso vir a ser. É essa a prestação que me cobra a santa dos impossíveis, porque me possibilita experimentar a minha própria condição de necessitada. A chave do impossível é um buraco de entulhos cheios de pedras preciosas. É o jardim onde florescem as pérolas, turquesas e anéis da sabedoria. É o lugar da condição do possível. 'Ô Meu Deus, não posso aceitar o meu destino como sina. Me ensina, a partir da minha ansiedade rude de gente, a tecer o mais sincero bordado da paciência'.

Turquesa, anéis ou pérola, quaisquer que sejam, vindos dos sonhos, é nesse dia de hoje, borboleta voando ao redor das buganvílias. É o símbolo da sabedoria que delicadamente visita o meu jardim e me dá ânsias de ser leve e boa. É sobre os entulhos que Santa Rita passeia dizendo "Oh amado Jesus, aumenta minha paciência na medida em que aumenta meus sofrimentos".

Tudo é tão suave e tão pesado. 'Ô vovó, porque a senhora tinha que me iniciar nos caminhos misteriosos de Deus'?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

LUCUBRAÇÕES DE VIOLETA


Não foi sem-mais-nem-menos que Violeta recorreu aos antigos álbuns de família. Há dias ela andava procurando achar-se. É que vez por outra a gente se perde da gente mesmo. Foi atrás de um banquinho, colocou-o diante do guardarroupa - ficou muito estranha essa palavra -, subiu, e alcançou suas memórias. Coisa imagética, pontuou, dando novidade à palavra. Memória fotográfica. Melhor, memória imagética. Aprumou-se então. 'Hoje em dia é preciso reciclar até as palavras'!. Lembrou-se então de algumas delas que lhe ocorriam, e que para ela, desgraçadamente, haviam saído de uso: ligeiro, creme rinse, rodeira, serviço de som, palavras que toda vez que falava, causava estranhamento e risos nos filhos. Parecia besteira preocupar-se com essas picuinhas, mas corria-se o risco de ao desconsiderá-las, engrossar as fileiras dos que estão vivendo fora da realidade.

Violeta procurava evitar termos como: 'No meu tempo'. Para ela era um "pecado" que não se devia cometer. Simplesmente porque as pessoas não têm prazo de validade. Nem devem aceitar que lhe dêem prazo de tempo. Gente não é coisa nem produto. Gente é gente. E sendo gente, há sempre a possibilidade dialética da vida. Transformações, ajustes aqui-e-acolá, novas idéias, novos rumos. Envelhecer não é ficar encostado como coisa velha e ultrapassada, sem valor nenhum, pensava ela. Assim pensando, moveu-se até o local onde estavam os seus álbuns de retratos.
O quarto era amplo, iluminado, e apesar dos móveis estarem pedindo para serem mudados, o lugar tinha vida. De posse dos álbuns, Violeta acomodou-se na cama. Sentada diante deles, colocou-se pela primeiríssima vez na vida toda, como quem se coloca em profunda genuflexão. Sentiu como se estivesse com a alma de joelhos. Assumiu, por assim dizer, uma postura religiosamente sacramental. Ia rever o passado. Ia ver-se e aos outros. Voltaria para outros cantos por onde havia passado. Retornaria à contemplação da sua vida, ao registro dela.

Não obstante, abriu cuidadosamente, e com certo receio, o primeiro álbum. Olhou para cada fotografia, pôs-se em cada circunstância, mediu-se e pesou-se para cada quilo a mais, viu-se em todos os cortes de cabelo, em cada Natal, em cada ano seguinte àquele, em cada acontecimento. Observou atenta os devaneios da moda, e os seus, dentro daquelas roupas ridículas. Ponderou acerca das antigas futilidades, justificando-se. Mas o que mais a chamou a atenção, foram os mortos. Seus parentes, amigos, vizinhos. Ao olhá-los e sem querer, ressuscitou-os um a um. Devagarzinho. Começou por ouviu-lhes os timbres e as vozes, depois seus risos, e adiante não apenas os ouviu, viu a todos eles que se riam e conversavam. Sentiu os seus cheiros, seus abraços, suas idéias e seus segredos. De repente o seu quarto encheu-se de pessoas invisíveis. Todas saídas, quase que arrancadas, das imagens.

Tudo era vivo a partir da sua própria alma. Violeta pode enfim compreender, num insight maravilhoso, que ninguém estava realmente morto. Todo mundo vivia dentro dela. E retornava, magicamente, da sua saudade ativa, das suas lembranças vívidas, da sua memória que quanto mais lhes era fiel, mais realidade lhes trazia. A cada detalhe, os mortos se enchiam de vida, prosperavam, corria-lhes sangue nas artérias, pulsava-lhes o coração. Coravam, falavam e se riam, numa fartura crescente de vitalidade. Aqueles aos quais ressuscitara, puseram-se a falar de coisas, as quais poderiam ser classificadas como 'no meu tempo'. Porque embora ali, cheios de vida, eles não tinham novidades para contar, senão as coisas daquele dia em que haviam sido fotografados e talvez até o último encontro com ela. Em silêncio, juntou um a um, os seus ressuscitados, e fechou o álbum, para que voltassem às suas memórias. Adormecessem.

Desse modo, como era de se esperar, os instantes do passado que vieram à tona, foram dissipados como poeira, e o que restou, perturbou e trouxe ensinamento à Violeta, lá dentro, no seu espírito e em sua razão. Compreendeu que à sua memória, mesmo trazendo-os de volta, não dava-lhes as possibilidades dialéticas da vida. Foi-lhe posto um novo limiar para a consciência, daí em diante. Ultrapassar um novo portal. Atuar na vida com maestria. Fazer valer seus próprios episódios. Fazer-se na contínua história cotidiana, ainda que miúda, silenciosa e anônima. Uma coisa, no entanto, confirmara-se. É necessário reciclar as palavras, porque as palavras, ainda que não percebamos, são pontuações e referências à vida. É preciso empreender jornadas heróicas em busca do que é atual, sem perder-se a si. Superar os prazos de validade que lhe estavam sendo impostos. Gente não é coisa. Gente perdura, dura, se eterniza na memória dos outros. Quando a gente se perde da gente mesmo, é quando as possibilidades de crescimento interior estão pedindo expansão.

Ontem é o meu tempo, com as suas palavras, hoje é o meu tempo, com as suas palavras, e amanhã será o meu tempo também, pontificou Violeta. Cheia de si, achou-se de repente, ali no seu quarto, no começo de uma nova estrada. A estrada, que por ventura nos leva de volta ao começo, de alguma coisa maior em nós mesmos.

Foto de Ana Clara Martins

sábado, 11 de julho de 2009

ENTRE A VIDA E O TEMPO


Violeta acordou e ao olhar-se no espelho do banheiro, avistou-se no alto dos seus cinquenta anos. Tomou um susto. Tornou a olhar-se e reparou que o tempo continuava cumprindo impecavelmente o seu trajeto. Ela era prova disso: ' Estou na ante-sala de um lugar de mim que começo a conhecer agora'. Lembrou-se da infância, dos cheiros da sua casa, do mamoeiro empedernido lá no quintal, da goiabeira, do papagaio, das vozes e da segurança que sentia. Ainda fitando o espelho, pode ver-se correndo pelo corredor da sua casa, e o rosto sempre grave e de pouca conversa do seu pai, apareceu suavizado. Sobressaltou-se. Uma saudade, daquelas fininhas e sorrateiras, veio infiltrar-se nela. Violeta esfregou os olhos, saiu do banheiro e acorrentou-se as lembranças. Chorou.
A vida ainda nem começara. Mas a sensação que ela tinha, era a de que o tempo caminha de um jeito, enquanto a gente caminha de outro. ' O tempo é um deus, enquanto eu sou uma simples mortal' Sentiu alguma coisa parecida com angústia que ela, advertidamente, trocou pelo que chamou de sentimento de injustiça. 'Isso não é justo' Mas qual seria o acordo entre a vida e o tempo? Violeta quase desaba, porque viu-se diante de uma questão filosófica de grande monta. Tentava com essa pergunta, mergulhar em assuntos os quais não tinha competência. Nem ela, nem ninguém. Retornou a si desolada. 'A ciência não responde a tudo. Isso é um fato, e não há quem me convença da supremacia dela. Falta resposta. Falta muita resposta e sobra muita prepotência'. Então ocorreu-lhe um pensamento, por assim dizer, mitológico. E aí do fundo de algum lugar da memória, veio em sua mente, a poesia de Ricardo Reis ou era Fernando Pessoa? 'Besteira. Dá na mesma. Qualquer um dos dois me serve, que são a mesma pessoa'.
É assim, por costume mesmo, que Violeta transforma tudo em farinha do mesmo saco. Não percebe o privilégio do poeta português, em desmembrar-se em vários, e a cada um, imprimir um modo de poesia. Trouxe-a então a si: 'Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre'. E de outro poema, 'Colhamos flores'.
Está aí uma solução. Colhamos flores. Eu nunca havia pensado nisso!. Mas que coisa, meu Deus?! Estou no topo de uma montanha e preciso descer. Não há mais o que subir. Não, dessa forma como eu vinha fazendo. Não. O tempo me determina uma coisa e a vida me chama a outra coisa. E eu digo a mim mesma: 'Está aí você, Violeta, numa enrascada' Numa grande enrascada, se do alto dessa montanha, você pensar a vida como vinha pensando. Mas eu estaria numa enrascada muito maior, se não tivesse chegado à compreensão disso. Portanto, sou sortuda. 'Colhamos flores'. Isso é filosofia. Coisa que se aplica entre o viver e o permanecer. Permanecer é pouquinho pra mim. O tempo é um deus inquestionável então, e imutável. E os deuses, minha filha, nunca mudam, são eternos em suas naturezas. Finita sou eu, que experimento a vida como uma fagulha com prazo para extinguir-se no tempo. Extinguir-se ou diluir-se? Porque se me extinguem, devo deixar de ser. Mas se me diluem, misturo-me ao tempo e começo de novo. Sou finita e por isso não me decido entre uma coisa e outra, porque mesmo que eu quisesse, não me cabe a escolha. Posso sentir raiva de Cronos, o senhor do tempo, mas, engraçado, não sinto. Não sei se o que chamo de injustiça dos deuses é mesmo uma injustiça. Respeito a ciência, mas tenho um pé atrás quando o assunto é a razão, pura e simplesmente. A ciência me é falha, e aqui pra nós, tenho medo de ser descoberta e exposta como uma pessoa ignorante. Me inclino à metafísica, aos mitos, à alquimia. O que sou até agora é uma costura entre a vida e o tempo. Sou a matéria que dá ao tempo a razão de ver-se a si mesmo, em mim, já que Cronos é infinito. Tendo a achar que é o senhor do tempo quem fenece. Sou-lhe necessária para afirmar-se como sendo. Sou eu que meço o tempo à Cronos. Faço-o com a minha vida. O tempo precisa de vida para sê-lo a si mesmo.

Violeta é chamada à consciência. Tece seu discurso filosófico. O discurso de Violeta. Aquele que se estabelece quando se chega ao topo da montanha, de onde se é convidado a descer. Descer para dentro da vida, propriamente dita. Subir ao contrário. Colher flores enquanto o tempo se precipita. Deixar tempo ao tempo. Sobe-se na descida. Nesse percurso é muito bom que se colham as flores. O efeito do tempo sobre nós é inevitável. O medo que dá, é que tenhamos, na subida, esquecido de plantá-las.