sexta-feira, 17 de julho de 2009

LUCUBRAÇÕES DE VIOLETA


Não foi sem-mais-nem-menos que Violeta recorreu aos antigos álbuns de família. Há dias ela andava procurando achar-se. É que vez por outra a gente se perde da gente mesmo. Foi atrás de um banquinho, colocou-o diante do guardarroupa - ficou muito estranha essa palavra -, subiu, e alcançou suas memórias. Coisa imagética, pontuou, dando novidade à palavra. Memória fotográfica. Melhor, memória imagética. Aprumou-se então. 'Hoje em dia é preciso reciclar até as palavras'!. Lembrou-se então de algumas delas que lhe ocorriam, e que para ela, desgraçadamente, haviam saído de uso: ligeiro, creme rinse, rodeira, serviço de som, palavras que toda vez que falava, causava estranhamento e risos nos filhos. Parecia besteira preocupar-se com essas picuinhas, mas corria-se o risco de ao desconsiderá-las, engrossar as fileiras dos que estão vivendo fora da realidade.

Violeta procurava evitar termos como: 'No meu tempo'. Para ela era um "pecado" que não se devia cometer. Simplesmente porque as pessoas não têm prazo de validade. Nem devem aceitar que lhe dêem prazo de tempo. Gente não é coisa nem produto. Gente é gente. E sendo gente, há sempre a possibilidade dialética da vida. Transformações, ajustes aqui-e-acolá, novas idéias, novos rumos. Envelhecer não é ficar encostado como coisa velha e ultrapassada, sem valor nenhum, pensava ela. Assim pensando, moveu-se até o local onde estavam os seus álbuns de retratos.
O quarto era amplo, iluminado, e apesar dos móveis estarem pedindo para serem mudados, o lugar tinha vida. De posse dos álbuns, Violeta acomodou-se na cama. Sentada diante deles, colocou-se pela primeiríssima vez na vida toda, como quem se coloca em profunda genuflexão. Sentiu como se estivesse com a alma de joelhos. Assumiu, por assim dizer, uma postura religiosamente sacramental. Ia rever o passado. Ia ver-se e aos outros. Voltaria para outros cantos por onde havia passado. Retornaria à contemplação da sua vida, ao registro dela.

Não obstante, abriu cuidadosamente, e com certo receio, o primeiro álbum. Olhou para cada fotografia, pôs-se em cada circunstância, mediu-se e pesou-se para cada quilo a mais, viu-se em todos os cortes de cabelo, em cada Natal, em cada ano seguinte àquele, em cada acontecimento. Observou atenta os devaneios da moda, e os seus, dentro daquelas roupas ridículas. Ponderou acerca das antigas futilidades, justificando-se. Mas o que mais a chamou a atenção, foram os mortos. Seus parentes, amigos, vizinhos. Ao olhá-los e sem querer, ressuscitou-os um a um. Devagarzinho. Começou por ouviu-lhes os timbres e as vozes, depois seus risos, e adiante não apenas os ouviu, viu a todos eles que se riam e conversavam. Sentiu os seus cheiros, seus abraços, suas idéias e seus segredos. De repente o seu quarto encheu-se de pessoas invisíveis. Todas saídas, quase que arrancadas, das imagens.

Tudo era vivo a partir da sua própria alma. Violeta pode enfim compreender, num insight maravilhoso, que ninguém estava realmente morto. Todo mundo vivia dentro dela. E retornava, magicamente, da sua saudade ativa, das suas lembranças vívidas, da sua memória que quanto mais lhes era fiel, mais realidade lhes trazia. A cada detalhe, os mortos se enchiam de vida, prosperavam, corria-lhes sangue nas artérias, pulsava-lhes o coração. Coravam, falavam e se riam, numa fartura crescente de vitalidade. Aqueles aos quais ressuscitara, puseram-se a falar de coisas, as quais poderiam ser classificadas como 'no meu tempo'. Porque embora ali, cheios de vida, eles não tinham novidades para contar, senão as coisas daquele dia em que haviam sido fotografados e talvez até o último encontro com ela. Em silêncio, juntou um a um, os seus ressuscitados, e fechou o álbum, para que voltassem às suas memórias. Adormecessem.

Desse modo, como era de se esperar, os instantes do passado que vieram à tona, foram dissipados como poeira, e o que restou, perturbou e trouxe ensinamento à Violeta, lá dentro, no seu espírito e em sua razão. Compreendeu que à sua memória, mesmo trazendo-os de volta, não dava-lhes as possibilidades dialéticas da vida. Foi-lhe posto um novo limiar para a consciência, daí em diante. Ultrapassar um novo portal. Atuar na vida com maestria. Fazer valer seus próprios episódios. Fazer-se na contínua história cotidiana, ainda que miúda, silenciosa e anônima. Uma coisa, no entanto, confirmara-se. É necessário reciclar as palavras, porque as palavras, ainda que não percebamos, são pontuações e referências à vida. É preciso empreender jornadas heróicas em busca do que é atual, sem perder-se a si. Superar os prazos de validade que lhe estavam sendo impostos. Gente não é coisa. Gente perdura, dura, se eterniza na memória dos outros. Quando a gente se perde da gente mesmo, é quando as possibilidades de crescimento interior estão pedindo expansão.

Ontem é o meu tempo, com as suas palavras, hoje é o meu tempo, com as suas palavras, e amanhã será o meu tempo também, pontificou Violeta. Cheia de si, achou-se de repente, ali no seu quarto, no começo de uma nova estrada. A estrada, que por ventura nos leva de volta ao começo, de alguma coisa maior em nós mesmos.

Foto de Ana Clara Martins

11 comentários:

  1. O conto é tocante, Gó. E tem momentos de reflexão que são muito sensíveis, tais como:

    "Quando a gente se perde da gente mesmo, é quando as possibilidades de crescimento interior estão pedindo expansão."

    Mas o q me assutou foi a coincidência entre um certo pensamento de Violeta e um
    um email q enviei (segue trecho abaixo) recentemente a uma amiga, onde digo exatamente a mesma coisa que a personagem:

    "Não me soa agradável essa coisa de dizer "na minha época...". Quando ouço alguém dizer isso, logo penso que tal pessoa se sente como um produto que tem prazo de validade (no caso, expirado). Essa atitude decorre da idealização da adolescência como epóca em que tudo é permitido. Nós projetamos nessa idade os sonhos que não nos sentimos capazes de realizar - ou porque temos que trabalhar (idade adulta) ou porque certas coisas já não nos cabem (maturidade). Assim, as demais fases da vida - posteriores à adolescência - são representadas cada uma com seu fardo específico, enquanto que a adolescência - uma construção do séc. XX - figura como o paradigma da liberdade."

    Valeu. Abcs.

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  2. Sempre muito vivo os seus contos!! Veio em mim a saudade "do meu tempo", em que, ainda estudante, adorava receber seus contos!! Sabe que ainda te devo comentários? Eis aqui um lugar mais vívido para essa troca!! Recomeçaremos a jornada, né!? Um cheiro!!!

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  3. lUCUBRAÇÕES DE VIOLETA:

    Ontem é o meu tempo, com as suas palavras, hoje é o meu tempo, com as suas palavras, e amanhã será o meu tempo também, pontificou Violeta. Cheia de si, achou-se de repente, ali no seu quarto, no começo de uma nova estrada. A estrada, que por ventura nos leva de volta ao começo, de alguma coisa maior em nós mesmos.


    Eu realmente ADORO sua escrita.

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  4. Goretti, tava meio ausente do Orkut. Ví teu recado agora. Fui rapidinho dá uma olhada no su blog. Adorei os textos! Menina, cada vez mais, nós seus amigos e conterrâneos, num "tempo" breve sentiremos "mais orgulho" de sermos seus amigos. É muito talento pra uma pessoa só, que maravilha é você, amiga Goretti!!!!!!!!!!!!! Dei uma lida rapidinha, depois, com tempo, talvez ousarei comentar algum.
    Parabéns, amiga! Você possui a matéria-prima (o potencial) para o sucesso e conquistas maravilhosas. E isso aí, faça acontecer!!!!!!!!!!!!!
    Orgulhosa de ser sua amiga, viu?
    Beijoooooooooooooooooooooos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  5. Menina! parabéns! fico encantada , do dom de escrever assim........... beijão

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  6. Gó!!!!Vc é maravilhosa!!!!
    Cada um melhor que outro...amei!!!
    PARABÉNS!!!!
    SEREI SEMPRE SUA FÃ N°1.
    Bjo.

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  7. caraca!
    achei muito bom mesmo!
    o jeito como você amarra as reflexões, fazendo dos detalhes o importante, sensacional!
    o modo como as palavras, as memórias, as pessoas, reagem diante do tempo.
    gostei mesmo!
    achei cheio de alma, como tudo que você faz!
    Beijão

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  8. Por favor ,se pude fazer uma visita a este blog, veja o vídeo de Sérgio godinho - O tempo que passou!

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  9. Me desculpe a falha, se possível faça uma visita no youtube e assista ao clip SÉRGIO GODINHO - UM TEMPO QUE PASSOU

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  10. Um novo pensamento me surgiu, ao ler esse texto.
    Novo, porque nunca tinha pensado dessa forma.
    Essa questão do "no meu tempo" me trouxe novas luzes, novas formas de pensar.
    Sabe quando a gente faz uma descoberta? Tive essa sensação ao ler esse texto.
    hehehehehe

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