segunda-feira, 31 de agosto de 2009

UNO e TRINO

O dia amanheceu. A claridade da manhã entrou pela janela do quarto e acordou a contista. Ela espreguiçou-se, olhou em volta e com seus olhos de quem vê em tudo, uma história a ser contada, achou o dia propício para contar uma. Remexeu de si mesma, sua provisão de idéias, buscou no seu lugar de guardar palavras, aquelas devidamente pontuais para escrevê-las, porque as palavras para quem escreve, assim como as tintas para o artista, é sempre preciso juntá-las como quem junta pessoas numa convivência - com perspectiva de autêntica simbiose -, ou coisas e artefatos, um sem-número deles, que se encaixem como num grande quebra-cabeça, perfeito no final.
‘Escrever é uma atitude sagrada. Requer abstração da realidade. Pelo menos é assim para mim’. Ponderou a contista. Tal pensamento suscitou nela desejo de conferir o que pensara e, emproada, cedeu à luminosa e entusiasta sensação de ser honesta àquilo a que acabara de falar. Dispôs-se a iniciar-se no dia. Adiantando-se, caminhou até o banheiro e deparou-se consigo mesma refletida no espelho. Suas inquietações, sendo matinalmente repetidas, voltaram. Medos. Medos, que começavam pequenos e cresciam aos poucos, a angustiavam a cada amanhecer. A vida, a velhice, pois estando ela às portas da meia-idade, temia estranhar-se. ‘Meu Deus, como me aceitarei cheia de pregas!?’ A morte. Medo de deixar as coisas pela metade. Mas que coisas? ‘Quero ver meus filhos casarem, meus netos nascerem, quero isso, quero aquilo’ Em pouco tempo ela se encorajava a compreender o que compreendia todas as manhãs e tornava a esquecer no dia seguinte. Queria o que todo mundo quer. Queria ser eterna. Nunca morrer. Não ter que terminar. Em seus solilóquios sofria a dura realidade dos efeitos do tempo sobre os mortais. Afastou o pensamento que a levava para o mesmo buraco existencial de sempre e moveu-se para longe da frustração que sentia às coisas indeterminadas, porque são do jeito que são e acabou-se, e após estabelecer-se no cotidiano, arrumou-se dentro das horas do dia, e pontificou ‘ainda essa manhã, escreverei um conto, sobre uma conversa que tive com seu Petrúcio, duas semanas atrás. Moisés e a baleia’.
Dirigiu-se para o seu cantinho de escrever, invocando a presença do Espírito Santo, ‘e que o Senhor me conceda a sabedoria para a costura dessas minhas palavras às idéias, e a clareza dos seus signos’ Sentou-se em frente à mesa, numa atitude religiosamente compenetrada, e esperou que as primeiras palavras lhe viessem à mente, seguidas das primeiras frases. Descreveria seu Petrúcio. Começaria a contar sua história dando-lhe ênfase de visão. “Seu Petrúcio, taxista, um homem de muita estrada caminhada na vida, ou melhor, de muito pneu rodado, de bigode, alvoroçado, religioso e com uma péssima dicção...” Escreveu uma, duas frases, para em seguida desfazê-las, para depois refazê-las e, desfazê-las de novo. Descontente com o pouco caso que Espírito de Deus fizera à sua oração e desapontada consigo mesma, mergulhou em outros pensamentos. Lembrou-se de seus últimos contos escritos, das personagens femininas, e dentre elas, Violeta. Que rosto teria a sua Violeta? Perguntou-se. Seria o seu? Violeta, porém, pela natureza de personagem que possuía, mantinha-se fantasiosa. Era um dos caprichos da imaginação da contista. Era incomum. Era feliz sem interrupções. Continuamente feliz. Talvez porque viesse a corrigir todos os danos, tropeços, misérias e desencantos que ela não conseguira corrigir, aliás, o tempo não permitira que ela os corrigisse. Suspirou em desalentada agonia, ‘ô maturidade tardia’... ‘por que só agora é que sei mais sobre as coisas? Agora que não posso voltar atrás e fazer tudo direitinho?’ Remoeu, remoeu suas interrogações, entortou a boca para o canto direito, mordeu o lábio inferior à desventura e à ironia da vida, e assim fazendo,distanciou-se do que havia se proposto horas atrás, deixando-se atormentar pelas suas próprias sombras. Angustiada, pareceu diluir-se, na opacidade das névoas das suas costumeiras e amargas inquietações.
Entretanto, num devaneio - que só os contos propiciam - Violeta, tendo sido evocada, foi-se arrancando do seu lugar, nas entranhas da sua criadora, agora tão vulnerável, saindo de onde se houvera aderido, e sem perda de tempo, precipitou-se, alcançando caminhos interiores por dentro da outra. Abrindo-lhe as portas, atingiu-lhe a alma, reconhecendo-se. Sentindo-se pessoa, projetou-se múltipla e vivaz, com a natureza elástica e de muitas facetas. E sendo feliz, de nascença, não teria outro procedimento senão esse; continuar a sê-lo contando uma história. Decidiu, ‘nada de Moisés, nada de baleia, vou contar o que me der na telha’. Cheia de si mesma escreveu.
Sou Violeta porque a contista gosta de flor. Sou quase simples, não fossem os pensamentos que me atormentam vez por outra. Tenho cismas com certos aspectos da Ciência, e gosto de Deus, porque sendo quem sou o discurso que me é posto lhe devota afeto. Suponho que vem também desse afeto, o meu gostar de gente e de galinhas. Gosto de galinhas. Uma vez Pedrinho chegou bem pertinho de mim, com aquela carinha de quem tem novidade pra contar, e disse todo satisfeito ‘você sabia que a minha galinha pariu um ovo?’ Todo mundo riu. E aí me ocorreu que eu nunca havia pensado em galinhas e ovos, sobre esse ponto de vista! O verbo, parir, sendo usado para classificar a forma como uma criança entendeu o que havia acontecido. A galinha fez ‘nascer’ um ovo. Pedrinho deu nobreza à galinha, como ser vivo, e a mim, me trouxe uma forma de olhar diferente para as coisas, para os seres que não podem dar sentidos a si mesmos. Olho uma coisa, um objeto e penso no que aquilo pode estar sentindo e sinto-o à minha maneira. Quer dizer, empresto alma às coisas para conhecer melhor a minha. Pode ser coisa de gente doida, mas comigo é assim. Nesse momento estou invocando a sabedoria divina, ‘ai, ai meu deus! Quero escrever o meu conto!’ Me aventuro na metalingüística, e agorinha mesmo, na licença poética, para começar a frase com o ‘me’. Para mim, contar uma história é como precisar fazer algo parecido com falsete, é acomodar a voz dentro de um tom, quando não se tem o tom certo para certa voz. Mas como ia dizendo, gosto de galinhas e tento contar uma história sobre elas e eu. Nomeio-as, e com isso passo a querer ainda mais bem a elas. Observo-as, elétricas, zoadentas e indiferentes, mas, sobremaneira, felizes. Tenho mania de ver nelas a fisionomia, o andar e as maneiras de pessoas conhecidas. Essa aqui, parece com fulana, essa com sicrana. Essa parece com a contista, essa comigo. Isso me desperta afetos indeterminados, verborragias, e quebradiças intenções psicoterapêuticas, que no final fracassam em risos sem motivo. Tento justificar simpatia ou não, pelas pessoas, e aprecio transformar tudo em signo indicial, para poder estendê-lo, associá-lo, ir às suas últimas consequências. As imagens povoam os meus singulares vazios. Vez por outra tenho uma vontade danada de ser galinha, cacarejar, bater asas, remexer o chão atrás de minhocas e ‘parir’ ovos. Só para saber com mais propriedade como é ser galinha. O dia todo ciscando!. Essa vidinha simplíssima de ave mexe comigo. Parece tão feliz ser galinha!. Ô que tanta galinha feliz!. Somos, eu e elas, dispostas à alegria inconseqüente, de não saber o porquê do que se é, e gostar de sê-lo assim mesmo. Do coração da palavra que me subscreve como Violeta, cada coisinha em mim é meio poética e dramaticamente alegre. No momento em que escrevo, alguma coisa me alfineta ‘ Violeta, o tempo está passando, conte logo a sua história’! E não é isso que estou fazendo? Mas que história deve ser contada, e de que forma, senão essa? Se não é assim que se conta uma, me perdoem... Falta-me propriedade! Dom de contar coisas com maestria, afinidade com a arte de juntar as palavras e causar efeito, suscitar emoção, de maneira que dê vontade a quem lê, de voltar a ler de novo as mesmas frases, só pra provocar os pelinhos da alma e tê-los arrepiados.


Como eu deveria iniciar esse conto? Pensou a contista.
Desde quando eu era menina, já me perseguiam essas tais questões filosóficas sobre a vida. Dentro do táxi, de volta para casa, ambos, tempo e vida correm em mim através da paisagem. Enquanto penso sobre como conciliá-los, seu Petrúcio me pergunta se conheço a passagem bíblica que conta o ‘caso da teimosia de Moisés a Deus’ e que por isso Moisés foi engolido por uma baleia. Isso é bom para começar. Suponho. Abandonei às pressas as minhas próprias inquietações e me pus a escutar o taxista, ‘que Deus mandou Moisés ir pregar num canto e Moisés foi pregar em outro, que o ‘navio’ ia afundar, e ele disse que, peraí minha gente, vou pular da embarcação que a culpa é minha, e que Deus, diferente de Jesus - que passa a mão na cabeça do pecador -, é quem é vingativo. Deus, minha senhora, é assim: Desobedeceu, ele passa o camarada na cepa. Quem, seu Petrúcio? Deus, minha patroa, Deus, que ia afundar o navio. Aí a baleia engoliu Moisés’. E foi, seu Petrúcio? E a senhora não sabia, não era? Não. Pois tá lá no antigo testamento. Leia. Com Moisés eu não sabia não. Sabia que isso tinha acontecido com Jonas, mas não disse. Pra quê dizer? A história estava contada e tanto fazia ser Jonas ou Moisés, já que em mim tinha causado um efeito esfuziante, de quem recebe de graça uma revelação, porque esclarecedora demais. A clarividência do taxista, homem alto, cheinho de voz, de fé e de bigode, com uma péssima dicção, chegou a ele através de um conto, muito bem mal contado, se é assim que é possível dizer. Ele me contou sem ter que pedir inspiração a ninguém. Já eu tenho que pedir. Seu Petrúcio me impressionou e, além disso, separou para mim, bem distintamente, Deus, de Jesus, e como consequência, ambos, do Espírito Santo. Onde começa e termina cada um deles misturados num só; uno e trino, sendo o último, aquele que a minha avó anunciava, dentre os três, a pessoa mais fina e melindrosa, porque santíssimo, ‘quem blasfema contra o Espírito Santo, não tem salvação’ Ave Maria. A sua voz ficou gravada em meus ouvidos até hoje! Bach estava certo, minha gente, Jesus é mesmo a alegria dos homens. Quem passa a mão na cabeça dos pobres pecadores é quem de fato perdoa. É quem conhece o sagrado e o profano e sai costurando as coisas pelo meio. Jesus é o caminho do meio. A sabedoria divina vem de onde menos se espera seu Petrúcio!
A contista tinha, enfim, retornado das sombras. Tendo terminado seu conto, percebeu que Violeta, cheia de alma, havia-se envolvido na tentativa filosofal de explicar-se, entre ovos e galinhas. Cuidadosamente, encerrou-a. Guardou-a nos mistérios da sua alma e tendo se refugiado na solidão da sua pessoa, guardou-se também, onde se guardam bem guardadas, as reservas do si mesmo. Foram-se as duas, e foram-se as galinhas, as reflexões e as idéias surgidas das impressões cotidianas de cada uma. Tenho a impressão que Violeta é a provisão redentora de sentimentos existenciais que asilam a contista na simbiose de ambas, já que para mim, ela nasce da mesma simplicidade, com a qual uma criança anuncia um ovo parido e torna mãe uma galinha. Que coisa! Eu que o diga agora ‘quem vai fazer algo sou eu. Vou escrever o que me der na telha’. Diante da mesa, acabo de abrir, agorinha mesmo, o meu lugar de guardar sentimentos e juntá-los em palavras para escrever histórias. Arranco-me das diversas peles que me revestem. Crio coragem. Remexo meus afetos. Reconheço em mim as personagens e as aprovo, e dando sentido a cada uma, disponho-me a escrever o meu conto. Era uma vez, a contista, Violeta e eu...

5 comentários:

  1. Bravo ,Goretti,Parabens!Belíssimo este conto,Uno e Trino...Desconhecia eu,esta tua Veia Literária...Invejo-te no "Bom Sentido" ,
    pois sendo eu,tb amante das letras,não tenho este dom,que te foi facultado; deixar as idéias fluir livremente ,junta-las e encaixa-las,como num gde quebra cabeças,perfeito no final,como tu bem o dissestes.
    Bjss
    Naira

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  2. Diz a Doutrina Espírita - Kardecista - que o homem é rodeado de irmãos que já se foram desta vida corporal, e que nos momentos de inspiração, quando nos atentamos a falar ou escrever de belas coisas, como: infância, saudades, amigos ou animais, a companhia de irmãos superiores que nos influenciam para relatarmos belas passagens da vida, nos levam a esse ponto onde você - Goretti - está! O talento, a inspiração, a vontade de arrumar um sentido para a vida quando se envelhece,e olhando no espelho a aproximidade do tempo que nos traz a velhice, a doença e a morte do corpo material....Para se ganhar, lá na frente, por cada ato, pensmento e palavra, a simbiose do trabalho na vida e um novo corpo que o seja astral, epiritual ou na paz celestial! Gosto desses contos tão saudosistas que me levam à minha infância, para onde lembro-me dos animais que criei e já se foram há tempos ,de amigos que se foram, e que hoje os procuro no subconsciente!Se tens algo a dizer, que o diga, antes que seja tarde demais! Se encontrar é a melhor coisa que existe! Conhece a ti mesmo!

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  3. Oi Goretti!
    Resolvi hoje passar pelo seu blog e ver o que tinha de novo.
    Eu gosto muito dessa estrutura 'metalinguística' (como você mesma disse) que de vez em quando nos surge... Até fora das palavras. É como se fôssemos seguindo o escritor e nos tornando ali também escritores, pois vamos destrinchando juntos (fui olhar no google se estava certo o meu "destrinchar" com ch e me deparei com "Se eu ligar para elas perguntando como se destrincha uma galinha ás 5 da manhã é capaz das duas virem aqui arrancar as minhas penas" kkkkk). Suas escritas são sempre um acompanhar com imagens, pensamentos e, por que não, ideias!
    Bjs!!

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  4. Muito bom! Muito bom mesmo! Comovente e, em vários trechos, hilário:

    "sendo o último, aquele que a minha avó anunciava, dentre os três, a pessoa mais fina e melindrosa..."

    rsrsrss... gostei dessa "heresia"...

    Parabéns, Gó.

    Abraços.

    Aeta

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