quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MarGarida

As flores fenecem cedo. Você não sabia? Só pude entender agora, depois de chorar por dentro, a sua seiva interrompida no caule, as suas pétalas, caindo no decorrer da semana. Os meus últimos signos da infância somem-se na lembrança dos fundos da casa vizinha. A lenha, o fogo, o lambe-dedos quentinho, a sua voz de vegetal e jardim, batendo arroz num pilão de madeira. Suas mãos ossudas de longos dedos morenos. Os caminhos do inverno, a lama, o quintal da casa onde íamos buscar o leite todas as manhãs. A sua voz me chamando por cima do muro. Só nós duas saberemos eternamente do que isso trata. Porque vivemos num tempo quase encantado, que parecia eterno, na sala, nos quartos, nos bibelôs, nos móveis, no rádio antigo, nas histórias de trancoso, na tosse persistente de Madrinha. Eu era pequena para entender o tempo.

Vivi minha infância em seu colo. Vivi a calçada, o mundo incorruptível da Avenida Bráulio Cavalcante, onde diante da folhagem parada das árvores, apenas nós duas balançávamos numa cadeira, fazendo vento e lirismo. Tecendo vida. Vivi, por você, o ciúme que as crianças têm das outras: meu objeto de exclusividade amorosa. Seu colo era para ser meu. As histórias que você contava, eram para serem só minhas. E uma vez, aquela de morrer - se cantasse uma música -, me fez chorar antecipadamente a sua. ‘Brincadeira minha, menina, chore mais não!’
Dizia isso tão feliz da minha afeição...

Garida, Você, em meu coração festeja essas lembranças que me doem agora, em meio a folhas, borboletas, grilos e formigas. Meu jardim sente a sua falta. Sentirei a sua ausência, como a de uma flor efêmera, de raríssima beleza e aroma. Quisera poder recolher suas pétalas, recolocá-las, recompor quem você é. Minha saudade não se pode medir nem pesar, nem as palavras sequer sabem dizer. Uso a minha dor, somente, e agradeço a vida, pelo seu colo, seu carinho, pela semente que foi plantada em mim e fez brotar a flor, minha Margarida, a mais bonita que já conheci e amei.


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Magnólia

Naninho esteve aqui em casa. Veio pedir para a minha avó fazer uma ‘caridade’ a ele. Ou melhor; duas caridades: uma a ele e outra à Magnólia, que não vai nada bem da cabeça. “Eu fico com ela Naninho. Passo uma temporada” que o coitado precisa arar a terra dele, plantar, aproveitar a chuva.
Magnólia chegou depois de uns dias, meio assustada e cheia de desconfianças: “Na minha aposentadoria ninguém mete a mão, que ainda vai aparecer quem me roube”! “Não é porque a senhora é minha tia, que eu vou descuidar. Aqui todo mundo é ladrão”.
Veio de mala e cuia, trouxe mochilas de plástico, com uma papelada dos diabos dentro. Chegou fazendo e dizendo coisa que nunca havia feito, nem dito. A ‘pobrezinha’ com o juízo atrapalhado, enveredou também pelo erotismo e deu pra dizer pornografias a torto e a direito pelo meio da casa. Magnólia tem nome de flor, mas não faz jus ao nome. É uma “branquela”, magra e envergada pela coluna troncha, como se não bastasse a ela a corcunda, que carrega o peso dos seus mais de sessenta anos. Se tivesse nascido bicho, com certeza seria um cágado. É gente. Família. Parece com os povos de lá da Mongólia. Olhos empapuçados e miúdos, cabeleira negra, oleosa, na altura dos ombros curvos, presa atrás das orelhas por grampos. Gente feia é o que não falta aqui em casa. Estou acostumada. Até eu mesma que quis me achar bonitinha, fui conferir com a minha avó e ela sinceríssima: não minha filha, você é muito simpática, alegre, mas bonita, bonita, não é não. Acreditei. Ela me quer bem, não duvido. Não tinha pra quê não falar o que pensa sobre mim. Acostumei em ser simpática. Passei a dar valor à simpatia, ser agradável, que ela mesma depois suavizou que não existe ninguém de todo feio e que ser alegre é um dom de Deus que me ama. Disso eu sei também. Acredito nisso, que tenho o exemplo de Naninho, que nem viu a feiúra que vejo em minha prima Magnólia, nem Magnólia viu feiúra nele. Tão branco, do cabelo vermelho, sardento e queimado do sol. Casaram-se. É verdade que já estavam mais pra lá do que pra cá, mas casaram. Deram-se às mil maravilhas. Não fosse a fraqueza de juízo que atingiu Magnólia precocemente, o que fez com que Naninho precisasse ficar separado dela, de férias. Coitado. Saiu daqui com os olhos molhados e a mulher dizendo, “vá Naninho, vá Naninho, cuidar das coisas da gente”. O povo de casa, que ri e chora por qualquer besteira, se comoveu. Ficamos tristes. Cuidei em esquecer do rosto de aflição de Naninho parecendo um desgraçado, a quem os reveses da vida vieram causar desordens e roubar-lhe a felicidade. Conheço a mim mesma. Se ficar lembrando, fico sofrendo. Ele saiu e a casa ficou sem homem. Minha irmã precisava de um, para colocar duas portas sanfonadas nos quartos e foi acudir-se com Maria do Livramento, que faltou um pouquinho de nada pra ser homem. Tem caixa de ferramentas e tudo. Tem até furadeira e entende de brocas. Abriu todos os buracos necessários, que a minha irmã ia indicando: “aqui, Livramento, e mais esse aqui, mais embaixo. Aqui tá bom, Livramento!” E ela toda satisfeita, tirando faísca da ferramenta. Imagino Maria do Livramento de posse de uma metralhadora. Meu Deus! Se precisar, faz miséria! Aquele mulherão, com quase quarenta anos, malfeita, dentro dum short curtíssimo, sobrando banha pra todo lado, fazendo serviço que homem costuma fazer. Não bastasse ter marido e um filho. Admiro. Mulher que mexe com furadeira, sente muito menos falta de homem dentro de casa. E se tiver um emprego bom, menos ainda, Rosa, amiga da casa, é que vive dizendo, e minha avó concordando toda vez, quando ela diz. Magnólia quis porque quis dormir no mesmo quarto que a minha avó dorme. Pendurou no guarda-roupa - a gente ajudando - uma dúzia e meia de vestidos, todos do mesmo modelo, variando somente de cor e de estampa e um cinto fininho, que costuma usar como induto, logo abaixo dos seios, já que sendo encurvada, a cintura fica escondida. Quando cisma, acende a luz do quarto no meio da noite e mexe nas mochilas, para ver se foi roubada, querendo dar falta nas coisas, pra fazer confusão, acusando antecipadamente todo mundo, de ‘cambada’ de ladrão. “Quem não tiver paciência que procure ter. Não vou deixar de fazer uma caridade a Magnólia, ela agora, precisando” Isso não é comigo. Tenho paciência. O que me intriga é entender o porquê, e não é de agora, as suas roupas terem sempre o mesmo modelo. “Nem todo mundo é como você, que vive se abusando de tudo!” Maria do Livramento me disse, que enquanto eu for assim, não devo casar. “É um conselho que lhe dou”. Fiquei com essa coisa na cabeça, martelando, martelando, até descobri que não tenho nada de errado. Canso das coisas, porque esgoto as expectativas sobre elas. Depois de entender até onde chegam, não tenho mais para onde ir. Desanimo. Procuro outras.
Naninho reapareceu na segunda-feira. Veio alinhado, de chapéu na cabeça e esperançoso. Quis conversar uma conversa certinha de marido e mulher, com Magnólia. Não pôde! “Naninho, esse povo sabido quer tomar as minhas coisas! E tem mais Naninho, o Presidente da República, cismou com a minha cara e quer porque quer fazer sexo comigo, Naninho! Todo tipo de sexo! Já me chamou pra fazer isso, e isso e mais isso”. Acabou resvalando nas palavras, dizendo com certo gosto, buceta, priquito, cu, bem pronunciados, sem nenhum propósito evidente e fora de hora. O marido ruborizou. Ficou por uns instantes, procurando no fundo dos olhos dela, ver se encontrava a outra, pudica, ou resquícios dela. Balançou a cabeça e deve ter experimentado mais uma confirmação de estranha solidão, porque pareceu respirar todo o ar da sala, para encher-se. Magnólia estava ali e não era Magnólia e é ainda Magnólia; pelos olhos miúdos, inchados, pela brancura da pele, a corcunda e o vestido com cinto, para uma cintura fora de lugar. Eu mesma procuro por ela, aquela outra, quase assexuada, discreta nas maneiras, mas fazendo pergunta, onde estuda, que idade tem, já namora, já é moça? Naninho foi embora triste. Piongo. Magnólia sem culpa alguma, só depois é que deu pela falta dele e andou pela casa procurando, “Naninho, Ô Naninho, porque é que você nunca me disse que pra fazer sexo eu tinha que abrir as pernas? Eu de perna fechada esse tempo todo, Naninho? Ainda acha pouco e desaparece, deixa a casa sem homem. Não tem quem pregue um prego na parede!” A realidade às vezes me amedronta. Às vezes me faz rir. A desordem come os miolos de Magnólia e deixa parte da ordem da vida de Naninho, revirada. Tem coisas que me derrubam. Bom mesmo é pensar do melhor jeito, ver as coisas com leveza, senão a minha alegria periga. Guardo alívios, como quem guarda ferramentas. Quando preciso, vou buscá-los. Perfuro a realidade, derrubo paredes, teto, abro mão dessa casa. Agora... tudo é jardim e Magnólia é somente uma flor.