quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O QUE NÃO SE PODE PESAR

Semana retrasada, eu ia dizer qualquer coisa a Aprígio, quando finalmente resolvi que o silêncio era melhor. Lembrei de alguma passagem na Bíblia que diz que o sábio não joga conversa fora. Não é que eu me ache sábia, sabe Zanza, mas é que não sei por que veio de algum lugar de dentro da minha cabeça, isso que considero como uma iluminação. Por que não? Pois bem, Hilário, aquele meu primo do qual lhe falei, foi me procurar lá em casa. Um abraço e tanto, até me beijou no rosto, duas vezes, com tanta avidez, que naquele momento senti que ele gostava pra valer de mim e pensei comigo mesma: É com ele que vou abrir meu coração. Você sabe... Essas coisinhas que a gente fica guardando esperando a pessoa certa pra contar, né Zanza? Comigo a coisa funciona assim: cada amigo tem uma particularidade. Tem daqueles que conto uma coisa, tem deles que eu conto outra. Como é que eu sei o que devo contar o que e a quem? Olhando a pessoa por dentro, mulher! Eu acho até que é um dom que eu tenho. Não gosto de contar minhas coisas a gente que dá opinião. Gosto de contar coisa a quem me escuta sereno. Se olhar com cara de pena pra mim, pior ainda. Quando a coisa é besta, pode opinar que eu nem ligo. Vendo assim, estou percebendo que conto coisa pesada a pouquíssimas pessoas. E conto somente pra me ouvir falando. Eu conto as coisas é a mim mesma. Vou falando e me escutando ao mesmo tempo, e aí já vou encontrando a resposta, quando tem, ou me acalmando, encontrando um jeito com aquele problema.
Levei Zanza até a porta de casa e voltei para onde estava Aprígio. Olhei pra ele, ali, na sala de estar, distraído, com uma revista na mão. Não sei se lendo, não sei se fingindo que lia. Quis ter raiva, mas resolvi que não saio do sério. Não há pra quê. Nesses vai-e-vens de uma vida toda, sei quando o silêncio é resposta, sei quando calar é alívio. Ando dispensando ruminações. Não me levam a nada e Aprígio é mestre em cortar assuntos pela metade, impondo o seu método de evitação. Diz duas ou três palavras, com aquela voz impostada, só pra mostrar poder e me deixa falando sozinha. Antes eu achava aquilo um baita jogo sujo. Engolia a seco e depois explodia em tanta lágrima que eu nem sabia de onde vinha tanta. ‘Eu quero ser feliz, eu quero ser feliz’ repetia pra mim mesma, como quem pronuncia uma sentença que tem porque tem de ser cumprida à risca. Foi quando dei pra sonhar encontrando tesouros em lugares pedregosos, que comecei a perguntar a mim mesma o que a minha alma queria dizer. Tantos anos chorando, tanta lágrima pelos mesmos entreveros! Um sofrimento estagnado, repetitivo, sem nascer nada de novo dele. Sofrimento tem que gerar alguma coisa, tem que servir, senão é infrutífero. É dor inútil. Não vale.
Lembrei de Zanza, que veio aqui em casa querendo que eu a ajudasse a encontrar resposta a uma dúvida sua ‘Ô Mercedes, se Antônio fosse vivo, comigo agora doente, será que ele estava me fazendo companhia?’ Essa resposta eu não tenho Zanza. É difícil prever qualquer coisa, quanto mais, quando a previsão é para um alcoólatra. Que acha? Concorda comigo? Ela riu. ‘Quem sabe, né? Zanza encheu os olhos de lágrimas para aliviar a própria solidão tão cheia de vazios e ausências. Mora num mundão de casa. Sozinha. Mudei de assunto e contei sobre a teimosia de Aprígio, que se acha o sabichão, mas que às vezes me aparece no meio do nosso quarto, desolado, com cara de quem se enganou em casar comigo. Casou com uma mulher que não faz dele um homem feliz.
Hilário tinha me dito, ‘Mercedes, como mulher casada, você fez tudo certinho, mas o imponderável nos escapa’. São as tais das circunstâncias indefiníveis que exercem influência sobre a vida da gente. Meus silêncios, antes intuitivos - descobri na conversa com ele -, são o meu respeito àquilo que não é possível ponderar.
Tem quem queira ter resposta para tudo. Ainda há pouco tempo atrás eu também queria. Encho os pulmões de ar e falo alto: imponderável, imponderável, uma dúzia de vezes. A palavra é cheia de sonoridade. É eloqüente. Faz-me rir! Esbarro nela, que veio e se fixou em minha memória, já tem quatro dias. Devo fazer com ela alquimia, até efetuar da lingüística à evolução da palavra, todo o peso e significância. Devo com isso dar sentido a sofrimentos estéreis e modificá-los. Vou da alma da palavra à ventura do meu coração, abrindo um caminho sem fazer desvios. Isso mesmo. Olho pra Aprígio, distraído de novo, fumando o seu cigarro de depois do almoço. Sobre que coisas esse homem pensa? Tem dias que cavo abismos e atiro palavras em todas as direções, só para atingi-lo, como uma doida atirando pedras a esmo. Há sempre misteriosos lugares dentro da gente, onde não cabe mais ninguém. Disso eu sei. Não há como andar toda a extensão e profundidade de uma pessoa. Nem mesmo da gente.
Às vezes a noção de felicidade de Aprígio combina com a minha. Outras vezes, não. Mas isso não me assusta mais. Meu sentimento por ele tem que ser descompromissado, senão vou ficar a vida inteira na cantilena desastrada de “eu quero ser feliz” É muito peso pra ele carregar por mim, eu querer que o coitado promova o meu retorno ao paraíso, coisa impossível. Devo a experiência da vida e da alegria, a mim mesma.
Domingo passado, às sete da noite, àquela minha conversa baixinha, em tom de quem revela segredos, Hilário escutou com paciência. E foi quando me apresentou a frase onde o imponderável apareceu, para preencher os meus lugares sem respostas. Diante disso me achei mais confortável. Avultei-me. Cresceu um sentimento bom dentro de mim. O que chamei de iluminação antes, encontrara solidez. Revelou-se como um presságio. Depois ele me explicou sobre como enterrou quatro ovos de cágados e esperou pelas trovoadas para que os animaizinhos viessem à superfície. Adiante, a torta holandesa, ‘que você tem que me dar a receita, Hilário’. Tem creme de leite, chocolate meio-amargo, biscoitos, recheio aerado. Adentramos a madrugada, inaugurada às duas da manhã, quando olhei o relógio. Esses pequenos detalhes me dão a noção de que tenho a posse de mim e do que sou.
Quarta-feira. Apaguei a luz do quarto, Zanza deve estar sozinha no dela, contando as telhas, acordada, desejando que Antônio tão trabalhoso que foi, estivesse com ela. Aqui em casa, Aprígio se ajeita pra lá e pra cá na cama com o nariz obstruído e uma insônia daquelas. Tenta dormir. Estou em silêncio, quieta, ponderando o que é possível ponderar. Após os conflitos e a perda do que eu era antes, descubro-me mergulhada em tesouros. Sou rica. De profundidade e substância. Liberto Aprígio do peso das minhas projeções. Agora sim é que vou começar a amá-lo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

SOBRE CASAS E PESSOAS

Foi aqui onde ouvi o tamborilar da chuva no telhado. Antes, uma ventania daquelas que anunciam que vai chover, espalhou poeira fininha sobre mim e sobre as coisas. Limpou as telhas, derrubou as aranhas caseiras e suas teias e sujou a casa. A casa. Essa, com porta de entrada bem alta, pintada de verde bandeira. Essa, cheia de quartos, corredor, cozinha, quintal e meninos barulhentos. Estou diante da memória que tenho dela, e assim a salvaguardo dentro de mim, pois que já não existe desse jeito. Mudaram-se as coisas e as pessoas tomaram rumos diferentes. O cheiro forte do cigarro de palha de José espalhou-se no tempo e diluiu-se dentre outros cheiros. Não tem mais quem o fume. José morreu esse ano, assim, de repente, e levou consigo aquele cheiro insuportável que enchia a cozinha. Velho enxerido e cheio de saimentos, nem pensei que fosse ter saudades dele, mas sinto. A sua intrigante presença me faz falta, porque perdi de quem sentir a raiva costumeira, viciada, alimentada por mim, eu mesma, dando comida a distúrbio emocional em dias marcados, todas as segundas-feiras. Josefa também sumiu. Foi morar na capital, e longe das amarras e das regras de cidade pequena, revelou-se. De sonsa que era, debandou. Caiu na buraqueira, como dizia José, cheio de suspeitos olhares, todos por sinal, perniciosos. Velho sem-vergonha aquele. Andou por aqui outro dia, vestida num short curtíssimo, faiscando de lubricidade. Dando o que falar ao povo. Lilice não gostou ‘tá parecendo mulher vulgar. Entrou na padaria comigo, eu constrangidíssima. Fazendo vergonha à família toda’ O que pensa Josefa sobre o que é ser eternamente jovem? Depois dos quarenta, expressar juventude não tem que necessariamente ser exposição do corpo, tem? Taí, não tem! Ela mesma respondeu e eu acenei positivamente com a cabeça. Aí, eu só de provocação, 'Não tem, mas no entendimento dela, tem. E daí?' 'E daí o quê? Isso é lá jeito de gente direita?!'

Essa casa é outra. Instala-se sobre a lembrança da antiga. Naquela de outrora, Celeste caminhava ligeira sobre o piso vermelho de cimento, sempre impaciente, ansiosa e angustiada, dando ordens, usando de uma sinceridade cruel, punitiva e de exigências humanamente impossíveis, ao dizer o que pensava sobre os outros moradores e suas atitudes. Auto-suficiente, dispensava companhias. Nessa casa de agora, com piso de cerâmica, é levada por Zulmira. É preciso que alguém ande por ela, os lugares que deseja ir. Perpetua em si mesma, sofrimentos desnecessários, com medo de perder companhias. Priva-se, mesmo sendo capaz, de dirigir a própria casa. Precisa estar com gente por perto, senão não caminha. O tempo parece ter revirado a estabilidade das coisas e dos lugares-comuns. Alterou nossas certezas. A vida mudou o curso e os próprios significados a que nos apegamos carecem de revisão, de nova alma. De fé. Pois é - nós as mulheres -, eu, Lilice, Josefa, Zulmira e Celeste, como deveremos entender a passagem do tempo? Como aceitar de forma sensata e sábia que tudo muda? Como tirar-lhe proveito? Para a alma, qual o valor da juventude? Depois dos quarenta anos, e mesmo antes dele, como continuar sendo jovem? O corpo é o único local onde a juventude tem que ser eterna? A mulher não tem uma história enquanto ser social a ser contada e respeitada? Coitada de Josefa, tão deslocada dela mesma, tentando retornar à juventude dentro de um shortinho, com medo de encarar a realidade e por isso mesmo, perdendo a chance de estar fortalecida, feliz do seu lugar de mulher, pois então!. Se deixar render à ideologia da estética do corpo, dentro da perspectiva de mercadoria? Será que essa mulher pensa? Sabe pensar ou pensam equivocadamente por ela? Um bando de mulheres iguais a passarinhos desavisados em direção à rede?

Por sobre nós, o céu ainda é azul e cheio de nuvens, nesse tempo de verão. Além de nós, as árvores envelhecem na agonia lenta das artroses que retorcem seus galhos. Nós deixamos a nossa antiga casa segura, para trás ou ela se transformou para nos causar o estranhamento necessário, expulsando-nos em favor do crescimento de nós mesmas? Acomoda-se agora um silêncio dentro da gente que espalha um silêncio fora de nós. Agudíssimo. Às vezes doloroso. Reflexivo.
Quebro o vazio de palavras e arrisco expor o meu: Hoje estou triste. Uma saudade de mim mesma, parece. Até de José, aquele chato. Os dias de segunda-feira, sem cheiro de cigarro de palha... Mais uma pessoa das que eu conhecia se vai. Nem se despediu. Mais um morto para minha memória. O safado era tão cheio de gracinhas, que pra ter morrido da forma como morreu, só pra chatear, é uma quase-certeza que tenho. Ao meu silêncio revelado, Celeste riu, riu e riu até ficar vermelha. Contaminou-nos. Fomos acostumadas à alegria do riso, mesmo quando o silêncio nos atinge. Quebramos o do lado de fora, para que ele desestabilize o do lado de dentro. É razoável estar-se igual em ambas realidades. A gente se equilibra, se firma, se ancora nesses momentos.

Estamos na calçada, à porta da casa que nos ocupa, e ela, mais do que fora, mais do que parece ser a construção, é dentro da gente o signo da temporalidade da vida. Viver é estar mudando de casa. Tanto da morada física, quanto da psicológica. Às vezes, e não raro, mudamos de casa, dentro da própria casa. Saímos dela sem sairmos dela. Dá para entender isso? Nosso paradigma é de repente, e para o nosso espanto, a imagem primordial daquele lugar, onde começamos entender o abrigo e o lar. Duas faces da mesma moeda. Carregamos e somos carregados por ela durante todo o tempo que nos acolhe, e que a nossa lembrança a abriga, dentro de suas paredes, suas salas, quartos, seu quintal, um teto, sua calçada. Mesmo quando a sua arquitetura muda, a minha casa sou eu. Diversa em mim. Tão surpresa dos acontecimentos, multifacetada e dinâmica, quanto a própria vida.