sábado, 21 de agosto de 2010

Clube do Coco e a identidade cultural alagoana


A origem do Coco Alagoano, para uns surgiu da mestiçagem entre indígenas e negros, para outros, sua origem vem de Angola, mas, José Aloísio Vilela (jornalista, folclorista, conferencista. Alagoano, natural de Viçosa), situa o embrião do Coco entre os negros dos Palmares. A cadência do ritmo teria se dado quando os negros rachavam o coco para a retirada da amêndoa. O folguedo está associado às festividades juninas, mas pode acontecer em quaisquer festividades importantes. O Coco de Roda é uma das mais primitivas manifestações do Coco. Com coreografia simples, é formada uma roda de dançadores, onde as palmas, os cantos entoados e o sapateado de um ou dois pares de dançadores, que se colocam no centro da roda, escolhem, através da umbigada, outros pares para os substituírem. O Coco tradicional é assim.

Bom lembrá-lo quando se aproxima o Dia do Folclore e quando grupos comprometidos com os folguedos populares: A Liga de Coco de Roda, Liga dos Bois, Baque Alagoano e artistas do Clube do Coco preparam, em parceria com a Secretaria Municipal de Ação Cultural, órgão realizador do evento, o Viva Cultura Especial, que acontecerá dia 22 de agosto, na Praça Multieventos, na Pajuçara. E o que é melhor: a entrada é gratuita. O cachê dos artistas será revertido para a gravação do primeiro CD coletânea do Clube do Coco. Após o dia 15 de setembro, as gravações dessa coletânea serão iniciadas. O CD que ainda precisará de recurso para prensagem, deverá sair no inicio do ano que vem.

O Clube do Coco surgiu a partir de uma ideia do artista Jurandir Amadeu Bozo, alagoano, com suas raízes fincadas em Pão de Açúcar. Segundo Bozo: “O Clube do Coco é uma ideia que pretende reunir os cantadores da nova geração para a promoção e difusão do Coco de Roda. São artista que já cantam coco de alguma forma em seus trabalhos, sejam eles coletivos ou individuais”.

A sua ideia teve a adesão imediata de Zé do Boi, presidente da Liga dos Cocos de Roda de Maceió, e do artista e também educador popular, Rogério Dias. Daí para a frente, outros artistas se identificaram com o projeto, que num crescendo vem ganhando simpatizantes e associados.
Bozo é um artista articulado, com reflexões sérias sobre o folclore – palavra que revela ter medo -, sobre os que ele chama de “intelectuais do folclore”, que se arvoram em “burocratas” culturais e que pregam um purismo utópico fazendo frente às novas manifestações dos folguedos. Sobre aquilo a que eles denominam de “estilizações”, e por isso repudiam, fica em evidência a inviabilização do diálogo entre o que representaria o tradicional e o novo. Entendido como fruto da modernidade, as derivações que presenciamos, são reflexos das novas definições de cultura na contemporaneidade. São novos os signos e eles remetem aos folguedos da cultura popular, vários estranhamentos.

São bastante pertinentes os questionamentos de Bozo.

Eu saliento a forte presença da Indústria Cultural - uma realidade que não podemos esquecer -, quando no dizer do próprio artista popular, ao se referir ao Clube do Coco: “o que se pretende com isso?- ao menos proporcionar a eles oportunidades de ter contato com outros cantadores que buscam na pesquisa uma saída pra se manter uma identidade de raiz e assim tornar possível e viável uma cena forte no Estado. – se eles querem essa preservação? – não tenho encontrado resistência quando falamos em tentar manter as tradições do Coco de Roda alagoano de forma mais original, mas não podemos esquecer que tem que ser um espetáculo e não mais uma apresentação. Sendo assim agradaremos a todos, turistas, puristas e “coquistas”, pois hoje o Guerreiro está cada vez mais escasso pela distância entre a realidade cronológica do Guerreiro, com a realidade atual dos jovens e crianças. E prossegue: “Temos que pensar que temos que envolver esses jovens e essas crianças num mundo de fantasia, alegria e divertimento, e assim todos vão brincar a nossa cultura popular e se identificar a ela, e não porque é importante e porque mostra isso ou aquilo... tem que ir porque é massa, porque é divertido e faz bem a alma. Acabem com isso de transformar a cultura popular em matéria de universidade, chega de estudiosos e intelectuais falarem tanto. Está na hora de ouvir quem realmente faz a coisa estar viva”. Finaliza Bozo.

Essa conversa com o artista dá mostras de um painel de dupla face da realidade. Uma, é a vivenciada por aqueles que tentam manter o espaço aberto para as manifestações populares. A outra, é o comportamento dos intelectuais. Vivência por parte dos artistas. Teorização por parte dos intelectuais, que no mínimo possibilita seminários e seminários, onde questionamentos como por exemplo: a preservação da cultura popular, o que ela significa, de fato, como salvá-la, sejam discutidos, muito mais como forma de carícia e ostentação egóica.Vivemos em uma sociedade em que cultura de massa é um dos novos conceitos. Uma cultura que naufraga a cultura popular e que não funciona como receptáculo das genuínas manifestações do espírito do povo. São conceitos que surgem para dar o arcabouço, como bem percebe Jurandir, para a transformação da apresentação, da brincadeira, em puro espetáculo. Em lucro para alguém, sem dúvida. Em outras palavras: a cultura popular é apropriada pela cultura de massa, diga-se: Indústria Cultural, sendo convertida em produto de consumo.Mas é para os artistas que essa missão é ofertada.
Como é possível a eles fazerem frente e resistirem aos interesses dessa Indústria que sem piedade, retira a aura da arte e a transforma em subcultura? O Clube do Coco, com certeza, poderá, dentro de algum tempo, dizer dessa experiência. Uma brilhante ideia, a de Bozo. Que os deuses da arte o abençoem!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Depois da Vida: um filme para além da morte

No final da década de 1980, assisti Blade Runner (1982), de Ridley Scott. Esse filme me deixou impressionada pela maneira como trazia a discussão sobre o caos resultante da modernidade, como promessa para a emancipação do homem contemporâneo. E não apenas isso. Mas o olhar com vieses múltiplos onde como não poderia deixar de ser, estão presentes a filosofia, a antropologia, sociologia e as questões da religião, dentro de um contexto futurista, que, de passagem, à época do lançamento do filme, já nos alcançou, me intrigou bastante. O confronto paralelo que remonta as perguntas sem resposta da criatura ao seu criador é culminante. Mexe com qualquer um. De lá pra cá, sempre revisito o filme e descubro a cada leitura refeita, novas percepções sobre ele.

Agora me debruço sobre outro espetáculo do cinema. Desta vez, Depois da Vida, (1998) do diretor japonês Hirokazu Kore-Eda. Fazendo um paralelo entre ele e Blade Runner, ambos propõem a quem vê a obra cinematográfica, momentos distintos que acabam por promover dois tipos de discussões que se complementam. No primeiro, somos convidados a entrar no mundo aonde a realidade da reprodutibilidade técnica chega à produção de um ser idêntico ao humano, feito a partir da engenharia genética. Ao ultrapassarmos o limite da divinização da criatura, inevitavelmente nos precipitamos na orfandade de Deus, como criador. Reproduzimos pela segunda vez, a nossa saída do paraíso, sem possibilidade de retorno. A racionalidade interrompe o mistério e castra o mito, definitivamente.

No segundo filme, o convite é feito a partir de um mergulho do homem para dentro de si mesmo. Logo de início, após a morte (depois da vida), as portas se abrem e as pessoas vão chegando. Há uma porta de entrada e lá fora há apenas neblina. Tudo é suave, e morrer não parece diferente de viver, apenas, é preciso que se escolha uma lembrança para seguir adiante. Seguir adiante, aí sim, é como um teste, como a chave que vai abrir outro portal. O modo como a pessoa se conduziu através do experimento da vida, terá repercussão na hora da escolha da lembrança: indecisões, dúvidas, temores e apreensões, são indicativas da situação que envolve cada um dos personagens, nos mais variados comportamentos.

Em qualquer parte do planeta, as mesmas questões que envolvem a vida do ser humano são colocadas, evidentes e paradoxais. Cada pessoa que morre é chamada a reviver todo o tempo vivido. E aí, novamente, somos confrontados através das personagens com nossas escolhas filosóficas, antropológicas, sociológicas e religiosas, que são reflexos dos caminhos trilhados, do tempo que gastamos com a existência. Estar consciente do processo, de existir, de escolher enquanto se está vivendo, faz a grande diferença, no instante em que se é chamado para significar a vida, em apenas uma lembrança.

Percebe-se a importância dos cinco sentidos, como fator preponderante na fruição dessa jornada. Eles funcionam como janelas do corpo, como antenas que nos ligam à alma. Extasiam-nos quando conseguimos partir das sensações corpóreas, como possibilidades da materialidade, para adentrar às experiências anímicas. Quando ampliamos a nossa consciência, para além do emocional, indo aos sentimentos mais profundos. A descrição dos mortos acerca das sensações através dos toques físicos, dos cheiros, dos gostos. Tudo isso vai crescendo no decorrer do filme e as cenas revelam que em qualquer parte a vida se faz e acontece muito mais pelos pequenos feitos que pelos feitos grandes e vistosos. A vitória e os louros estão para aqueles que ampliam seus sentidos. Para os que sentem a existência. Para os que cheiram e que olham e que abraçam e que vão se construindo dentro da condição humana e dos seus limites.

Mas a premissa principal, o ponto de partida para a escolha e o sentido de uma única lembrança que justifique a existência é o amor. E nesse aspecto, Hore-Eda é simplesmente fantástico, porque essa necessidade se apresenta sem ser nomeada. A gente é chamada a refletir sobre isso. A cada morto, o qual é solicitado que se escolha a sua lembrança, somos remetidos às nossas. O que eu escolheria para seguir em frente depois da vida? Do que eu me deixaria impregnar como bálsamo ou como troféu para seguir pelos mistérios? O que valeria para pontuar a minha existência em detrimento a todas as outras vivências que tive?

Novamente, num paralelo com Blade Runner, a mesma questão da memória aparece para os replicantes, só que através de recursos fotográficos falsos. A memória dentro desse expediente, serve apenas para forjar uma trajetória da vida que não aconteceu e que por isso mesmo, não representa a história de uma existência. No caso dos replicantes, é um passaporte para burlar a sua criação sem os processos evolutivos, sem os laços afetivos, sem a presença do divino. As lembranças tão buscadas por eles é uma tentativa de humanizar-se: Um objeto humano, criado à imagem e semelhança do próprio homem, tentando se sobrepor à sua condição de simples produto mercadológico, com prazo de vencimento.

Em Depois da Vida, a criatura, criada à imagem e semelhança do seu Criador se vê diante dessa situação, sendo exposta a uma realidade antagônica a outra, proposta em Blade Runner: a exigência de percorrer a memória para recontar a si mesmo, sua própria história, como dádiva dos mistérios de Deus. Ele precisa justificar a sua existência, num único instante de felicidade, como condição primordial para retornar ao paraíso.

Hore-Eda sugere que a vida, mais que um filme, é a metáfora onde a linguagem do cinema é por excelência, a lembrança em forma de imagens. É também a sala de projeções onde a memória do próprio tempo nos registra. Somos os atores da vida, podendo ser ou não, os protagonistas da arte de existir.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O monsenhor Luis Marques, dois padres e os ex-coroinhas

O que entra em julgamento, afinal?


Mais um escândalo envolvendo um monsenhor e padres da Igreja Católica, ocupa o cenário no mundo da notícia. Ex-coroinhas resolvem denunciar abusos sexuais sofridos. No Cada Minuto, jornal onde escrevo, informação satisfaz a curiosidade dos leitores, os comentários se multiplicam. Alguns defendem os rapazes envolvidos, outros, os sacerdotes, outros a Igreja, enquanto instituição. Alguém insinua que em outras cidades alagoanas há o que ser investigado à respeito do mesmo assunto, outros elogiam a coragem de Roberto Cabrini, o trabalho do SBT, alguns acusam os ex-coroinhas por extorsão e chantagem. Ainda, há quem chame o advogado, Daniel Fernandes, contratado dos padres, como Advogado do Diabo. Quem está com a razão?
Pela manhã, ao fazer a minha leitura costumeira pelos jornais de Maceió, me deparo logo de cara, com a notícia, que me leva a ver o vídeo, e nele, as cenas desfocadas, mas que dão pra perceber, do ato sexual praticado, entre um monsenhor e um jovem. A notícia causa estardalhaço, revolta, pontos de vista divergentes, indignação e muito disse-me-disse. Em Arapiraca, principalmente, palco aonde o caso vinha se dando. A princípio, é natural até, a gente tender a enxergar os fatos pelos olhos do repórter. O formato da notícia, a carga emocional, a intensidade, é dada pela entonação da voz do jornalista, pela força das palavras, pelo peso das suas expressões.
Mas o fato é que realmente a coisa aconteceu. As imagens, é sabido, falam mais do que as palavras, e ainda; sobre fatos, as justificativas são nulas. Nulíssimas. Pelo menos deveriam ser. Mas, afinal de contas, quem são os réus e quem são as vítimas? Eu diria que muito mais que as imagens, e muito além dos julgamentos, os pesos e a balança que pesam e que julgam o caso deverão ser especiais. O que está em julgamento? A Fé em Cristo, nos sacerdotes, na Igreja? O que precisa ser avaliado? A condição da natureza humana imperfeita? A degradação de valores? A conivência, leia-se omissão, a partir da atitude do bispo em Penedo( que tinha conhecimento dessa fita)? A possível extorsão praticada pelos ex-coroinhas? A ausência de ética desses sacerdotes?
O monsenhor Luis Marques foi categórico, quando em entrevista a Cabrini, sem saber o que viria adiante, respondeu que as duas palavras mais importantes para ele eram sinceridade e caridade. Mais adiante ele fala sobre a mentira que há no mundo. Ao ouvi-lo falar e ao assistir o vídeo, tem-se a impressão de que se está vendo duas pessoas distintas. Nada impressionante. Isso faz parte de uma outra parte da mesma pessoa. Os rapazes, Fabiano, Flávio e Anderson, de maioridade, também parecem outras pessoas, apesar dos depoimentos, das vozes pesarosas, da revelação de traumas. Ambos ex-coroinhas, agora, fora das obrigações na Igreja, possivelmente livres do assédio do monsenhor, voltam a estar com ele. Por quê?
Grosso modo: Um, mantendo relações sexuais, outro filmando e os três, em seguida, fazendo relatos tensos ao repórter do SBT. Há dinheiro envolvido. R$ 30.000,00. Há negociação e acordo. Há advogado intermediando esse acordo. Há, no dizer do rapaz que fez a filmagem, “a vontade de dar um basta naquilo”. Mas o que dizer do dinheiro? Esses fatos e esses detalhes são o que vêm à margem. É a famosa ponta do iceberg, enquanto ficam submersas as questões éticas, morais, o caráter religioso, a comunidade católica, a Igreja, a Fé dos que se sentem traídos. Há um Cristo em cada um, da forma como cada um o concebe, que fica à deriva, que é consubstancialmente expulso dos ritos sacramentais, transpassado pela lança do desrespeito de um homem contra outro. No caso, de sacerdotes contra crianças, porque estas estão sendo sacaneadas atrás das sacristias, no momento em que as pessoas se dividem entre taxar de réus, os verdadeiros réus, e de vítimas, as verdadeiras vítimas.
Seria um tipo de vingança desses jovens, extorquirem esses padres? Extorquirem, ao mesmo tempo em que tornarem público, a situação existente nessas paróquias? Seria a prática distorcida de uma sinceridade consigo mesmos, na tentativa de se libertarem de um passado tramático, e o exercício da caridade para com os coroinhas que estão em seus lugares, e, possivelmente sendo novas vítimas? Em tempos tão caóticos, qual a ética que norteia as atitudes das pessoas? Qual a tradução para as palavras: sinceridade, caridade e mentira, embutidas nas respostas de um monsenhor a uma entrevista, onde ele as pronuncia, sem ao menos titubear diante de um repórter?.
O advogado afirma que se trata de homossexualidade. E antes? Esses jovens não foram meninos? A quem Cristo olhará com mais caridade? Para a natureza humana imperfeita dos seus sacerdotes ou para a inocência desfeita das crianças? “Ai de quem escandalizar uma criança”, disse Jesus. O monsenhor afirma que Cristo perdoa o pecador. Inclusive o que pratica um pecado mortal, tal qual ele classificou como sendo a pedofilia. Basta que o homem se arrependa. Basta então que a Igreja se arrependa da omissão? Ainda agora pessoas continuam dando as suas opiniões no Cada Minuto. A notícia é, sobretudo, bombástica. Quem está com a razão? O coração de Jesus é sagrado e bom. E justo. Jesus está entre os dois lados de uma mesma moeda: a natureza pecadora dos seus representantes e a impureza praticada contra as crianças, seus coroinhas. Mas Ele tem discernimento. Nós, não!

segunda-feira, 8 de março de 2010

A natureza da estética e o prazer na sociedade de consumo

Um conterrâneo amigo enviou para mim um excelente texto de Antônio Cícero, da Folha de São Paulo Ilustrada, que se intitula: “Mind the gap”, um termo inglês que nas estações do metrô, em Londres, significa “cuidado com o vão” ou “atenção ao vão” e daí o termo vai sendo ampliado até chegar à natureza estética, apreendida por ele. O excelente e delicioso texto de Antônio Cícero faz vir à minha mente a obra, Dialética do Esclarecimento, dos frankfurtianos, Adorno e Horkheimer, que versa sobre a cultura, o que inclui a estética, fruição, dentro dos moldes da Indústria Cultural. O sentido de Arte e de Cultura, sendo revirados nessa nossa época chamada Modernidade.

Parto das idéias de Platão sobre o bom e o belo que sempre me perturbam, (...) como ponto de partida e vou até Aristóteles, que diferentemente de Platão, acredita que o belo seja inerente ao homem, afinal, segundo ele, a beleza de uma obra de arte é assim concedida por critérios tais como proposição, simetria e ordenação, tudo em sua justa medida. Esse conceito, hoje, mais que nunca – me permito opinar -, é um tanto cerceador, redutor, e a meu ver, limita a estética, (dentro dessa vertente) ao mesmo tempo em que coloca limites à criação artística. Ou seja, determina regras à produção do artista.

A revolução burguesa (séc XVIII) a princípio é libertadora da arte e dos artistas, utilizada como veículo para as ideologias do poder das duas poderosas instituições: a Igreja e a Monarquia. Os artistas podem, enfim, respirar a libertação da sua criatividade. Mesmo assim, é possível a eles escolherem entre engrossar as fileiras da nova porta aberta pela burguesia ou permanecer sendo servidores do antigo sistema. Pena que essa autonomização tenha durado pouco, visto que assim que o Estado Burguês se tornou PODER, novamente impôs à arte e aos artistas, a veiculação da sua ideologia. Flaubert, escritor e pensador francês, sentindo a hegemonia burguesa no apogeu do séc XIX, época da revolução industrial, vai denunciar que a arte não está a serviço de ninguém e de nada, mas de si mesma.

Diante de um mundo burguês anti-artístico, digamos assim, é preciso fazer nascer um local para a arte pela arte, como negação àquele mundinho também utilitário. A arte então passa a ser feita para a fruição dos próprios artistas e não mais para a sociedade, porque se afasta das elites e dos populares. Artesanato e arte são substituídos pela indústria, e é essa indústria que é denunciada por Adorno e Horkheimer, que percebem a apropriação e o surgimento do que eles denominam de Indústria Cultural. O esvaziamento, a banalização da arte, ocorre com a perda dessa magia, que deriva dessa criação, individual, que torna única cada produção do artista. Perde-se, portanto, aquilo que Walter Benjamim, outro frankfurtiano, chama de aura.


Antônio Cícero se refere ao famoso vaso sanitário que Marcel Duchamp, levou para uma exposição. É ele quem diz que “o conceito de "ready made", cunhado pelo artista plástico Marcel Duchamp, designa um objeto já existente que, deslocado do seu contexto e colocado numa exposição ou num museu, pede para ser apreciado esteticamente”. Para mim isso causa inquietação contestadora. Sinceramente eu não veria esse urinol senão como um urinol. Eu não conseguiria ter fruição estética naquilo. A minha referência quanto ao signo, a própria semiologia, barraria quaisquer tentativas (se eu tentasse o que possivelmente não o faria). Pra mim, um urinol é um urinol em qualquer lugar, porque além do mais, ele é fruto de uma reprodução em série, o que não representa criação em si, mas cópia de um original, aquele sim, um primordial objeto de arte.
O que significa dizer que se tudo hoje pode ser interpretado como sendo capaz de despertar o prazer estético, a arte perdeu a sua aura e o seu significado como criação, necessidade, de uma linguagem anímica. Desse modo, a grande confusão se instala... E como diz o autor de Mind the gap, artistas e críticos, desavisados, (e eu, até podendo ser intransigente), digo, interessados em se mostrar 'modernos' ou seja, 'civilizados', passam a considerar obsoleto o que de fato não é. Terminam por reforçar a ideologia da indústria de massa, da cultura de massa, que torna a seu bel-prazer, qualquer coisa em obra de arte, qualquer Xuxa em cantora e atriz... Com o intuito de criar e vender os tais produtos culturais de baixíssima qualidade. Isso representa o que há de mais alienador, porque entre outras coisas, determina, inclusive, o que é prazer a ser fruído e o que não é. (Veja-se as festas de casamento, aniversários de 15 anos, formatura)

Até aí a indústria cultural define todos os momentos de prazer do 'evento'. Mesmo o nosso próprio prazer é policiado. É tudo tão igual que cansa: Sabe-se, inclusive, a sequência do que vai ser servido e que será ganho (acessórios) para 'brincar' quando chegar a hora, Algo simplesmente ridículo para não dizer imbecilizante. Estamos na era da reprodutibilidade técnica. Com a desculpa de se estar 'democratizando' a arte, levando todos a poderem fruí-la, a indústria cultural, na verdade, não democratiza nada, porque não favorece o conhecimento nem a cultura, propriamente dita, tampouco é emancipatória. E, abalizada em Adorno, que me consente, é melhor não se ter cultura do que se ter uma semi-cultura, de massa, de cima pra baixo, apenas pra servir ao capitalismo industrial, ou seja, a arte transformada em coisa, cai na mediocridade em função do lucro.

Há fruição estética, sim, para quem ainda consegue ter senso crítico, sensibilidade e sentido, livres da alienação. Esses podem fruir o prazer verdadeiro, individual, consciente. Podem sim, até vendo um lata d’água velha, e fazendo dela poesia, como faz a exemplo disso, o poeta de Campina Grande, Jessier Quirino... Afinal, sem arte, cultura e prazer autêntico, aonde iremos repousar nossas angústias e nosso sentido humano de existir e de ser?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

PELO LABIRINTO DE ODETE

Ia pelo caminho lembrando disso e daquilo. Comprei as coisas numa pressa danada. Disse a Odete que ela comeria lasanha. Disse só pra me ver livre da cara de decepção dela me dizendo: “Quando vi que não tinha lasanha, perdi a alegria da festa”. Como pode alguém deixar um encontro da família sem significado, estando rodeada de parentes e de afeto, só porque faltou lasanha? Despautério. Pura provocação. Não seria de outra forma pra ela. Então prometi, fingindo dar muito caso à reclamação: “Tá certo, minha querida; dá próxima vez que a gente se encontrar de novo, você vai comer o que deseja”. Nada está bom pra ela. Nunca. Infelicidade. Meu desejo de ser compassiva é quase desfeito nos melindres - essa coisa meio parecida com armadilha-, que vivo dando nomezinhos e usando de eufemismo para não dizer que é mau agradecimento. Odete é uma mal agradecida. Isso sim. Vive de fazer chantagem emocional com quem quer que seja que queira gostar dela, e dar demonstração disso.
Tempos atrás eu me aliviava das aflições que ela me impunha, indo me restabelecer num cantinho do quintal, pedindo bem compadecida a Nossa Senhora do Livramento, que me desse paciência. Minha resistência, eu ia buscá-la, nas lições do catecismo, para barrar desejos ruins que passavam pela minha cabeça. Agora não. Às vezes me acho dona de uma maldade sem limites. Outras vezes me acho boa demais. Não gosto de sentir nem uma coisa nem outra. Prefiro estar entre ser má e ser boa. Dá uma sensação de equilíbrio e quando eu lembro das palavras de Arquimedes dizendo: “Dá-me um ponto de apoio e eu levantarei o mundo”, interpreto isso como: andar pelo meio é o ideal. Alegra-me saber que a filosofia chega a mim e funciona como parâmetro pra muita situação.
Uma vez me peguei numa iluminada manhã, em Belo Horizonte, recitando Olavo Bilac, deslumbrada que fiquei com a natureza. Antônio e Gui olharam pra mim como se eu fosse uma louca, sem entenderem nada. Pois é... A natureza ali, era mesmo, um seio de mãe a transbordar carinhos. Não fiz caso nenhum do espanto deles. Vali-me em vaticinar bem por alto: “olha gente, isso é Olavo Bilac. É interdiscursividade!”. Saí andando na frente dos dois, descendo uma ladeira arborizada, respirando profundamente o ar e a poética da manhã, transbordante, e transbordando um orgulhinho bem pseudo-intelectual, àquela maneira de ‘entenda quem puder o que eu estou falando, porque se vocês não notaram ainda, escuto o que falam os pensadores e os poetas mortos’. Quer dizer, leio, viajo pela imortalidade.
Às vezes me faço de superior: Querem sair dos meus labirintosos pensamentos? Estou falando alemão? Pois eu não sou nenhuma Ariadne não. Meu novelo de lã só serve pra fazer o meu tricôzinho. Cada um que vá atrás de entender as coisas, de ler, por exemplo, mitologia grega, pra saber quem é Ariadne.
Odete, só Odete é que quase me tira do sério. Para ela nem meus orgulhos pessoais, nem minhas dores, funcionam. Sequer existem. Sendo o centro do universo, ela é que nem um solzão. Daqueles bem grandes, faiscando de incandescência, que tomam a abóboda celeste toda. Seus problemas são maiores que os dos outros. Aliás, são os únicos que merecem ser sofridos. Meu Deus! Sinto pena de Odete, e como isso me faz mal. Pena daquela mania de ser vítima. Daquela cara de quem perdeu o último ônibus ou esqueceu a mala dentro dele. Não adianta eu dizer pra ela que aqui não é o paraíso e que todo mundo sofre, se decepciona, se contraria. Nada faz efeito. Também tenho raiva. Raiva de olhar pra ela com aqueles olhos de pálpebras caídas pela metade, e raiva dela ficar me olhando, imperturbável. Calada, ali, macerando dor e me matando na unha como se mata piolho.
Amália metida a saber das coisas e a dar conselhos, foi me pedir desculpas por ter me dito uma vez, de forma bem insidiosa, que Odete precisava da presença dos parentes. Desculpou-se só porque me viu duas semanas seguidas, na casa dela. Amália não se enxerga. Abusei daquela pretensão: “Ô Amália, mas você acredita mesmo, que eu estou aqui fazendo companhia a Odete, por sua causa, é?” Dei uma rasteira nela, se achando superior, boazinha, caridosa e toda cristã. De primeira linha. Crente que tinha movido o meu coração. E aí sim, me senti muito bem obrigada. Detesto essas palmatórias do mundo. Pior ainda é que detesto a idéia de que Amália tenha mexido em minha humanidade faltosa e por isso, eu tenha reagido da maneira como reagi. Ela me viu fazendo o que disse que era preciso fazer.
Meu coração que transborda de carinhos diante da natureza exuberante, nem sempre transborda misericordioso às dores alheias.. Mas quem manda que pessoas, iguais a Amália, torçam os narizes e se metam onde não foram chamadas? O amor pelos outros exige esforço. Amália não sabe disso ou faz de conta? Conheço Odete. Incorrigível. Petrificada em seus rancores, não aceita se afastar um centímetro sequer do que tem como verdades. Aferra-se até aos próprios sofrimentos, repete-os e abusa deles sempre que pode. Se não viver sofrendo, não presta. Reedita ingratidões. Martiriza-se religiosamente, para receber o céu como descanso. Dois minutos perto dela e a gente, se não tiver cuidado, mergulha na tristeza.
Sou metida a explicar psicologicamente as reações das pessoas. Sou que nem Amália. Só que faço julgamentos menos primários, disfarçados de observações. Alicerço-me, em leitura de cabeceira, me refiro a Jung, às vezes a Freud. Abuso de citações que leio nos livros. Vai ver também que é isso que me faz ter tanta raiva dela: ser obrigada a me confrontar com aquilo que tenho em mim. Mesmo assim, não evito Amália. Quando ela chega, boto cadeira confortável pra ela sentar e sento junto. Entre ela e Odete. Preciso reconhecer e aceitar, que em mim mora essa Amália sombria, acusatória. Coisas minhas, indesejáveis, revelam-se nela. Escondo-me de algumas tantas partes de mim, porque ainda teimo em viver achando que diante dos outros, devo usar a máscara de boa. Mas ela aponta minhas falhas. Sou ‘pouquinha’. Sozinha comigo mesma, reconheço que sou também má, mas só assumo essa condição em segredo. Tenho raiva quando vem alguém, assim como Amália, e julga minhas desumanidades. Prefiro justificar covardias, tendo pena e raiva de Odete que só olha pra si própria.
Estou à entrada do seu labirinto. Nessa situação, meu coração, deveria postar-se, ser um ponto de apoio igual à noção de equilíbrio de Arquimedes. Deveria ser um seio de mãe a transbordar carinhos verdadeiros para ela, tais quais os parnasianos carinhos de Olavo Bilac à natureza. Mas nada funciona assim. Nem que eu quisesse. Odete não liga a mínima à filosofia nem à poesia; meus bálsamos preferidos para curar as feridas da alma.
Tateio na densidade do seu tortuoso lugar. Procuro por ela, vagando em sua própria construção, cheia de corredores de amargura. Queria ver Amália, aqui, numa situação dessas, pelejando, invés de ficar me dizendo indiretas sem me olhar nos olhos: “Olhe Odete, seus parentes podem sim, virem lhe fazer companhia. Não vêm porque não querem. Você sabe né?!”.
O que me enfraquece é me saber humana. É conhecer como é perigoso estar com Odete, sem se contaminar das tristezas dela, e acordar as pessoais, adormecidas. Mas minha fraqueza também é minha força, porque como digo, conheço Odete e suas confusões interiores, trazidas à tona de maneira a nos tornar vulneráveis. Presas fáceis.
Vou em frente. Vou fazer a lasanha. Quero vê-la sorrir sem graça e não dar valor nenhum à minha disposição em fazê-la menos desolada. É minha obrigação de parente próxima. Próxima até demais. Quero ver como sofro a ingratidão dela, sem me ressentir nem deixar escapar: “Ô Odete, você bem que podia ser menos mal agradecida, né?” Não digo um ai. Não digo. Ponho-me à prova. Aqui, vou usar o mesmo expediente de Amália, que num minuto se elege mediadora dos problemas dos outros. Vou fingir ter ares de quem está por cima. (Alma reparadora das aflições alheias, a de Amália!). Essa disposição de corrigir os desacertos inscientes, também é minha. É onde encontro apoio em prosseguir. Tenho pretensões de ir mais além, de me ampliar em generosidade decente, à custa de ultrapassar meus limites. Não pra me sentir boa, mas pra me sentir forte.
Essas misericórdias de falação, não exigem de quem as dizem, maiores esforços. A mão na massa, mesmo, fica pra quem recebe as admoestações. Hei de aprender com a insatisfação de Odete, sobre como encarar as obscuridades que não construí e lidar com elas. Minha humanidade incompleta pede complementação. O sofrimento dela precisa da falácia de protesto de Amália. As duas são casa e botão. O tempo todo. Não fazem outra coisa: uma sofre e a outra se compadece. Complementam-se.
Há alguns meses, resolvi deliberadamente carregar cruzes.
Trago um fio de lã, atado à cintura. Resolvo-me a adentrar no destino de Odete, conhecendo as ciladas astuciosas da sua alma doente. Ela vive um, que acredita ser o dela. Enquanto pelejo em seu calvário, abandono cruzes pelo caminho. Não sou vítima de maldições nem destinos. Delibero os caminhos que me levam pela vida. Transito por eles, à luz da consciência. Carrego os pesos que devo carregar e deixo-os cair nas ocasiões devidas. Só suportarei aflições necessárias. Quando estou ardendo nelas, sei que descansarei depois. Uma coisa não existe sem o seu oposto. No ponto de intersecção de uma e outra, haverá, decerto, a reconciliação entre bondade e maldade. Uma mandorla. Uma nova condição pessoal, redentora, surgida desse paradoxo. Odete e Amália, inertes, me dão o fio e me tecem ao mesmo tempo. São às avessas, misericordiosas comigo. As duas são Ariadne. E eu, em suas mãos, vou me desenrolando aos pouquinhos, unindo pontos, até chegar a mim. Tecida e outra. Na outra extremidade, onde termina o novelo.