segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

PELO LABIRINTO DE ODETE

Ia pelo caminho lembrando disso e daquilo. Comprei as coisas numa pressa danada. Disse a Odete que ela comeria lasanha. Disse só pra me ver livre da cara de decepção dela me dizendo: “Quando vi que não tinha lasanha, perdi a alegria da festa”. Como pode alguém deixar um encontro da família sem significado, estando rodeada de parentes e de afeto, só porque faltou lasanha? Despautério. Pura provocação. Não seria de outra forma pra ela. Então prometi, fingindo dar muito caso à reclamação: “Tá certo, minha querida; dá próxima vez que a gente se encontrar de novo, você vai comer o que deseja”. Nada está bom pra ela. Nunca. Infelicidade. Meu desejo de ser compassiva é quase desfeito nos melindres - essa coisa meio parecida com armadilha-, que vivo dando nomezinhos e usando de eufemismo para não dizer que é mau agradecimento. Odete é uma mal agradecida. Isso sim. Vive de fazer chantagem emocional com quem quer que seja que queira gostar dela, e dar demonstração disso.
Tempos atrás eu me aliviava das aflições que ela me impunha, indo me restabelecer num cantinho do quintal, pedindo bem compadecida a Nossa Senhora do Livramento, que me desse paciência. Minha resistência, eu ia buscá-la, nas lições do catecismo, para barrar desejos ruins que passavam pela minha cabeça. Agora não. Às vezes me acho dona de uma maldade sem limites. Outras vezes me acho boa demais. Não gosto de sentir nem uma coisa nem outra. Prefiro estar entre ser má e ser boa. Dá uma sensação de equilíbrio e quando eu lembro das palavras de Arquimedes dizendo: “Dá-me um ponto de apoio e eu levantarei o mundo”, interpreto isso como: andar pelo meio é o ideal. Alegra-me saber que a filosofia chega a mim e funciona como parâmetro pra muita situação.
Uma vez me peguei numa iluminada manhã, em Belo Horizonte, recitando Olavo Bilac, deslumbrada que fiquei com a natureza. Antônio e Gui olharam pra mim como se eu fosse uma louca, sem entenderem nada. Pois é... A natureza ali, era mesmo, um seio de mãe a transbordar carinhos. Não fiz caso nenhum do espanto deles. Vali-me em vaticinar bem por alto: “olha gente, isso é Olavo Bilac. É interdiscursividade!”. Saí andando na frente dos dois, descendo uma ladeira arborizada, respirando profundamente o ar e a poética da manhã, transbordante, e transbordando um orgulhinho bem pseudo-intelectual, àquela maneira de ‘entenda quem puder o que eu estou falando, porque se vocês não notaram ainda, escuto o que falam os pensadores e os poetas mortos’. Quer dizer, leio, viajo pela imortalidade.
Às vezes me faço de superior: Querem sair dos meus labirintosos pensamentos? Estou falando alemão? Pois eu não sou nenhuma Ariadne não. Meu novelo de lã só serve pra fazer o meu tricôzinho. Cada um que vá atrás de entender as coisas, de ler, por exemplo, mitologia grega, pra saber quem é Ariadne.
Odete, só Odete é que quase me tira do sério. Para ela nem meus orgulhos pessoais, nem minhas dores, funcionam. Sequer existem. Sendo o centro do universo, ela é que nem um solzão. Daqueles bem grandes, faiscando de incandescência, que tomam a abóboda celeste toda. Seus problemas são maiores que os dos outros. Aliás, são os únicos que merecem ser sofridos. Meu Deus! Sinto pena de Odete, e como isso me faz mal. Pena daquela mania de ser vítima. Daquela cara de quem perdeu o último ônibus ou esqueceu a mala dentro dele. Não adianta eu dizer pra ela que aqui não é o paraíso e que todo mundo sofre, se decepciona, se contraria. Nada faz efeito. Também tenho raiva. Raiva de olhar pra ela com aqueles olhos de pálpebras caídas pela metade, e raiva dela ficar me olhando, imperturbável. Calada, ali, macerando dor e me matando na unha como se mata piolho.
Amália metida a saber das coisas e a dar conselhos, foi me pedir desculpas por ter me dito uma vez, de forma bem insidiosa, que Odete precisava da presença dos parentes. Desculpou-se só porque me viu duas semanas seguidas, na casa dela. Amália não se enxerga. Abusei daquela pretensão: “Ô Amália, mas você acredita mesmo, que eu estou aqui fazendo companhia a Odete, por sua causa, é?” Dei uma rasteira nela, se achando superior, boazinha, caridosa e toda cristã. De primeira linha. Crente que tinha movido o meu coração. E aí sim, me senti muito bem obrigada. Detesto essas palmatórias do mundo. Pior ainda é que detesto a idéia de que Amália tenha mexido em minha humanidade faltosa e por isso, eu tenha reagido da maneira como reagi. Ela me viu fazendo o que disse que era preciso fazer.
Meu coração que transborda de carinhos diante da natureza exuberante, nem sempre transborda misericordioso às dores alheias.. Mas quem manda que pessoas, iguais a Amália, torçam os narizes e se metam onde não foram chamadas? O amor pelos outros exige esforço. Amália não sabe disso ou faz de conta? Conheço Odete. Incorrigível. Petrificada em seus rancores, não aceita se afastar um centímetro sequer do que tem como verdades. Aferra-se até aos próprios sofrimentos, repete-os e abusa deles sempre que pode. Se não viver sofrendo, não presta. Reedita ingratidões. Martiriza-se religiosamente, para receber o céu como descanso. Dois minutos perto dela e a gente, se não tiver cuidado, mergulha na tristeza.
Sou metida a explicar psicologicamente as reações das pessoas. Sou que nem Amália. Só que faço julgamentos menos primários, disfarçados de observações. Alicerço-me, em leitura de cabeceira, me refiro a Jung, às vezes a Freud. Abuso de citações que leio nos livros. Vai ver também que é isso que me faz ter tanta raiva dela: ser obrigada a me confrontar com aquilo que tenho em mim. Mesmo assim, não evito Amália. Quando ela chega, boto cadeira confortável pra ela sentar e sento junto. Entre ela e Odete. Preciso reconhecer e aceitar, que em mim mora essa Amália sombria, acusatória. Coisas minhas, indesejáveis, revelam-se nela. Escondo-me de algumas tantas partes de mim, porque ainda teimo em viver achando que diante dos outros, devo usar a máscara de boa. Mas ela aponta minhas falhas. Sou ‘pouquinha’. Sozinha comigo mesma, reconheço que sou também má, mas só assumo essa condição em segredo. Tenho raiva quando vem alguém, assim como Amália, e julga minhas desumanidades. Prefiro justificar covardias, tendo pena e raiva de Odete que só olha pra si própria.
Estou à entrada do seu labirinto. Nessa situação, meu coração, deveria postar-se, ser um ponto de apoio igual à noção de equilíbrio de Arquimedes. Deveria ser um seio de mãe a transbordar carinhos verdadeiros para ela, tais quais os parnasianos carinhos de Olavo Bilac à natureza. Mas nada funciona assim. Nem que eu quisesse. Odete não liga a mínima à filosofia nem à poesia; meus bálsamos preferidos para curar as feridas da alma.
Tateio na densidade do seu tortuoso lugar. Procuro por ela, vagando em sua própria construção, cheia de corredores de amargura. Queria ver Amália, aqui, numa situação dessas, pelejando, invés de ficar me dizendo indiretas sem me olhar nos olhos: “Olhe Odete, seus parentes podem sim, virem lhe fazer companhia. Não vêm porque não querem. Você sabe né?!”.
O que me enfraquece é me saber humana. É conhecer como é perigoso estar com Odete, sem se contaminar das tristezas dela, e acordar as pessoais, adormecidas. Mas minha fraqueza também é minha força, porque como digo, conheço Odete e suas confusões interiores, trazidas à tona de maneira a nos tornar vulneráveis. Presas fáceis.
Vou em frente. Vou fazer a lasanha. Quero vê-la sorrir sem graça e não dar valor nenhum à minha disposição em fazê-la menos desolada. É minha obrigação de parente próxima. Próxima até demais. Quero ver como sofro a ingratidão dela, sem me ressentir nem deixar escapar: “Ô Odete, você bem que podia ser menos mal agradecida, né?” Não digo um ai. Não digo. Ponho-me à prova. Aqui, vou usar o mesmo expediente de Amália, que num minuto se elege mediadora dos problemas dos outros. Vou fingir ter ares de quem está por cima. (Alma reparadora das aflições alheias, a de Amália!). Essa disposição de corrigir os desacertos inscientes, também é minha. É onde encontro apoio em prosseguir. Tenho pretensões de ir mais além, de me ampliar em generosidade decente, à custa de ultrapassar meus limites. Não pra me sentir boa, mas pra me sentir forte.
Essas misericórdias de falação, não exigem de quem as dizem, maiores esforços. A mão na massa, mesmo, fica pra quem recebe as admoestações. Hei de aprender com a insatisfação de Odete, sobre como encarar as obscuridades que não construí e lidar com elas. Minha humanidade incompleta pede complementação. O sofrimento dela precisa da falácia de protesto de Amália. As duas são casa e botão. O tempo todo. Não fazem outra coisa: uma sofre e a outra se compadece. Complementam-se.
Há alguns meses, resolvi deliberadamente carregar cruzes.
Trago um fio de lã, atado à cintura. Resolvo-me a adentrar no destino de Odete, conhecendo as ciladas astuciosas da sua alma doente. Ela vive um, que acredita ser o dela. Enquanto pelejo em seu calvário, abandono cruzes pelo caminho. Não sou vítima de maldições nem destinos. Delibero os caminhos que me levam pela vida. Transito por eles, à luz da consciência. Carrego os pesos que devo carregar e deixo-os cair nas ocasiões devidas. Só suportarei aflições necessárias. Quando estou ardendo nelas, sei que descansarei depois. Uma coisa não existe sem o seu oposto. No ponto de intersecção de uma e outra, haverá, decerto, a reconciliação entre bondade e maldade. Uma mandorla. Uma nova condição pessoal, redentora, surgida desse paradoxo. Odete e Amália, inertes, me dão o fio e me tecem ao mesmo tempo. São às avessas, misericordiosas comigo. As duas são Ariadne. E eu, em suas mãos, vou me desenrolando aos pouquinhos, unindo pontos, até chegar a mim. Tecida e outra. Na outra extremidade, onde termina o novelo.