sexta-feira, 12 de março de 2010

O monsenhor Luis Marques, dois padres e os ex-coroinhas

O que entra em julgamento, afinal?


Mais um escândalo envolvendo um monsenhor e padres da Igreja Católica, ocupa o cenário no mundo da notícia. Ex-coroinhas resolvem denunciar abusos sexuais sofridos. No Cada Minuto, jornal onde escrevo, informação satisfaz a curiosidade dos leitores, os comentários se multiplicam. Alguns defendem os rapazes envolvidos, outros, os sacerdotes, outros a Igreja, enquanto instituição. Alguém insinua que em outras cidades alagoanas há o que ser investigado à respeito do mesmo assunto, outros elogiam a coragem de Roberto Cabrini, o trabalho do SBT, alguns acusam os ex-coroinhas por extorsão e chantagem. Ainda, há quem chame o advogado, Daniel Fernandes, contratado dos padres, como Advogado do Diabo. Quem está com a razão?
Pela manhã, ao fazer a minha leitura costumeira pelos jornais de Maceió, me deparo logo de cara, com a notícia, que me leva a ver o vídeo, e nele, as cenas desfocadas, mas que dão pra perceber, do ato sexual praticado, entre um monsenhor e um jovem. A notícia causa estardalhaço, revolta, pontos de vista divergentes, indignação e muito disse-me-disse. Em Arapiraca, principalmente, palco aonde o caso vinha se dando. A princípio, é natural até, a gente tender a enxergar os fatos pelos olhos do repórter. O formato da notícia, a carga emocional, a intensidade, é dada pela entonação da voz do jornalista, pela força das palavras, pelo peso das suas expressões.
Mas o fato é que realmente a coisa aconteceu. As imagens, é sabido, falam mais do que as palavras, e ainda; sobre fatos, as justificativas são nulas. Nulíssimas. Pelo menos deveriam ser. Mas, afinal de contas, quem são os réus e quem são as vítimas? Eu diria que muito mais que as imagens, e muito além dos julgamentos, os pesos e a balança que pesam e que julgam o caso deverão ser especiais. O que está em julgamento? A Fé em Cristo, nos sacerdotes, na Igreja? O que precisa ser avaliado? A condição da natureza humana imperfeita? A degradação de valores? A conivência, leia-se omissão, a partir da atitude do bispo em Penedo( que tinha conhecimento dessa fita)? A possível extorsão praticada pelos ex-coroinhas? A ausência de ética desses sacerdotes?
O monsenhor Luis Marques foi categórico, quando em entrevista a Cabrini, sem saber o que viria adiante, respondeu que as duas palavras mais importantes para ele eram sinceridade e caridade. Mais adiante ele fala sobre a mentira que há no mundo. Ao ouvi-lo falar e ao assistir o vídeo, tem-se a impressão de que se está vendo duas pessoas distintas. Nada impressionante. Isso faz parte de uma outra parte da mesma pessoa. Os rapazes, Fabiano, Flávio e Anderson, de maioridade, também parecem outras pessoas, apesar dos depoimentos, das vozes pesarosas, da revelação de traumas. Ambos ex-coroinhas, agora, fora das obrigações na Igreja, possivelmente livres do assédio do monsenhor, voltam a estar com ele. Por quê?
Grosso modo: Um, mantendo relações sexuais, outro filmando e os três, em seguida, fazendo relatos tensos ao repórter do SBT. Há dinheiro envolvido. R$ 30.000,00. Há negociação e acordo. Há advogado intermediando esse acordo. Há, no dizer do rapaz que fez a filmagem, “a vontade de dar um basta naquilo”. Mas o que dizer do dinheiro? Esses fatos e esses detalhes são o que vêm à margem. É a famosa ponta do iceberg, enquanto ficam submersas as questões éticas, morais, o caráter religioso, a comunidade católica, a Igreja, a Fé dos que se sentem traídos. Há um Cristo em cada um, da forma como cada um o concebe, que fica à deriva, que é consubstancialmente expulso dos ritos sacramentais, transpassado pela lança do desrespeito de um homem contra outro. No caso, de sacerdotes contra crianças, porque estas estão sendo sacaneadas atrás das sacristias, no momento em que as pessoas se dividem entre taxar de réus, os verdadeiros réus, e de vítimas, as verdadeiras vítimas.
Seria um tipo de vingança desses jovens, extorquirem esses padres? Extorquirem, ao mesmo tempo em que tornarem público, a situação existente nessas paróquias? Seria a prática distorcida de uma sinceridade consigo mesmos, na tentativa de se libertarem de um passado tramático, e o exercício da caridade para com os coroinhas que estão em seus lugares, e, possivelmente sendo novas vítimas? Em tempos tão caóticos, qual a ética que norteia as atitudes das pessoas? Qual a tradução para as palavras: sinceridade, caridade e mentira, embutidas nas respostas de um monsenhor a uma entrevista, onde ele as pronuncia, sem ao menos titubear diante de um repórter?.
O advogado afirma que se trata de homossexualidade. E antes? Esses jovens não foram meninos? A quem Cristo olhará com mais caridade? Para a natureza humana imperfeita dos seus sacerdotes ou para a inocência desfeita das crianças? “Ai de quem escandalizar uma criança”, disse Jesus. O monsenhor afirma que Cristo perdoa o pecador. Inclusive o que pratica um pecado mortal, tal qual ele classificou como sendo a pedofilia. Basta que o homem se arrependa. Basta então que a Igreja se arrependa da omissão? Ainda agora pessoas continuam dando as suas opiniões no Cada Minuto. A notícia é, sobretudo, bombástica. Quem está com a razão? O coração de Jesus é sagrado e bom. E justo. Jesus está entre os dois lados de uma mesma moeda: a natureza pecadora dos seus representantes e a impureza praticada contra as crianças, seus coroinhas. Mas Ele tem discernimento. Nós, não!

segunda-feira, 8 de março de 2010

A natureza da estética e o prazer na sociedade de consumo

Um conterrâneo amigo enviou para mim um excelente texto de Antônio Cícero, da Folha de São Paulo Ilustrada, que se intitula: “Mind the gap”, um termo inglês que nas estações do metrô, em Londres, significa “cuidado com o vão” ou “atenção ao vão” e daí o termo vai sendo ampliado até chegar à natureza estética, apreendida por ele. O excelente e delicioso texto de Antônio Cícero faz vir à minha mente a obra, Dialética do Esclarecimento, dos frankfurtianos, Adorno e Horkheimer, que versa sobre a cultura, o que inclui a estética, fruição, dentro dos moldes da Indústria Cultural. O sentido de Arte e de Cultura, sendo revirados nessa nossa época chamada Modernidade.

Parto das idéias de Platão sobre o bom e o belo que sempre me perturbam, (...) como ponto de partida e vou até Aristóteles, que diferentemente de Platão, acredita que o belo seja inerente ao homem, afinal, segundo ele, a beleza de uma obra de arte é assim concedida por critérios tais como proposição, simetria e ordenação, tudo em sua justa medida. Esse conceito, hoje, mais que nunca – me permito opinar -, é um tanto cerceador, redutor, e a meu ver, limita a estética, (dentro dessa vertente) ao mesmo tempo em que coloca limites à criação artística. Ou seja, determina regras à produção do artista.

A revolução burguesa (séc XVIII) a princípio é libertadora da arte e dos artistas, utilizada como veículo para as ideologias do poder das duas poderosas instituições: a Igreja e a Monarquia. Os artistas podem, enfim, respirar a libertação da sua criatividade. Mesmo assim, é possível a eles escolherem entre engrossar as fileiras da nova porta aberta pela burguesia ou permanecer sendo servidores do antigo sistema. Pena que essa autonomização tenha durado pouco, visto que assim que o Estado Burguês se tornou PODER, novamente impôs à arte e aos artistas, a veiculação da sua ideologia. Flaubert, escritor e pensador francês, sentindo a hegemonia burguesa no apogeu do séc XIX, época da revolução industrial, vai denunciar que a arte não está a serviço de ninguém e de nada, mas de si mesma.

Diante de um mundo burguês anti-artístico, digamos assim, é preciso fazer nascer um local para a arte pela arte, como negação àquele mundinho também utilitário. A arte então passa a ser feita para a fruição dos próprios artistas e não mais para a sociedade, porque se afasta das elites e dos populares. Artesanato e arte são substituídos pela indústria, e é essa indústria que é denunciada por Adorno e Horkheimer, que percebem a apropriação e o surgimento do que eles denominam de Indústria Cultural. O esvaziamento, a banalização da arte, ocorre com a perda dessa magia, que deriva dessa criação, individual, que torna única cada produção do artista. Perde-se, portanto, aquilo que Walter Benjamim, outro frankfurtiano, chama de aura.


Antônio Cícero se refere ao famoso vaso sanitário que Marcel Duchamp, levou para uma exposição. É ele quem diz que “o conceito de "ready made", cunhado pelo artista plástico Marcel Duchamp, designa um objeto já existente que, deslocado do seu contexto e colocado numa exposição ou num museu, pede para ser apreciado esteticamente”. Para mim isso causa inquietação contestadora. Sinceramente eu não veria esse urinol senão como um urinol. Eu não conseguiria ter fruição estética naquilo. A minha referência quanto ao signo, a própria semiologia, barraria quaisquer tentativas (se eu tentasse o que possivelmente não o faria). Pra mim, um urinol é um urinol em qualquer lugar, porque além do mais, ele é fruto de uma reprodução em série, o que não representa criação em si, mas cópia de um original, aquele sim, um primordial objeto de arte.
O que significa dizer que se tudo hoje pode ser interpretado como sendo capaz de despertar o prazer estético, a arte perdeu a sua aura e o seu significado como criação, necessidade, de uma linguagem anímica. Desse modo, a grande confusão se instala... E como diz o autor de Mind the gap, artistas e críticos, desavisados, (e eu, até podendo ser intransigente), digo, interessados em se mostrar 'modernos' ou seja, 'civilizados', passam a considerar obsoleto o que de fato não é. Terminam por reforçar a ideologia da indústria de massa, da cultura de massa, que torna a seu bel-prazer, qualquer coisa em obra de arte, qualquer Xuxa em cantora e atriz... Com o intuito de criar e vender os tais produtos culturais de baixíssima qualidade. Isso representa o que há de mais alienador, porque entre outras coisas, determina, inclusive, o que é prazer a ser fruído e o que não é. (Veja-se as festas de casamento, aniversários de 15 anos, formatura)

Até aí a indústria cultural define todos os momentos de prazer do 'evento'. Mesmo o nosso próprio prazer é policiado. É tudo tão igual que cansa: Sabe-se, inclusive, a sequência do que vai ser servido e que será ganho (acessórios) para 'brincar' quando chegar a hora, Algo simplesmente ridículo para não dizer imbecilizante. Estamos na era da reprodutibilidade técnica. Com a desculpa de se estar 'democratizando' a arte, levando todos a poderem fruí-la, a indústria cultural, na verdade, não democratiza nada, porque não favorece o conhecimento nem a cultura, propriamente dita, tampouco é emancipatória. E, abalizada em Adorno, que me consente, é melhor não se ter cultura do que se ter uma semi-cultura, de massa, de cima pra baixo, apenas pra servir ao capitalismo industrial, ou seja, a arte transformada em coisa, cai na mediocridade em função do lucro.

Há fruição estética, sim, para quem ainda consegue ter senso crítico, sensibilidade e sentido, livres da alienação. Esses podem fruir o prazer verdadeiro, individual, consciente. Podem sim, até vendo um lata d’água velha, e fazendo dela poesia, como faz a exemplo disso, o poeta de Campina Grande, Jessier Quirino... Afinal, sem arte, cultura e prazer autêntico, aonde iremos repousar nossas angústias e nosso sentido humano de existir e de ser?