sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sem precisar da lógica para entender afetos

O sol de hoje tá fraquinho. Aparece e desaparece. Olhei pela janela logo cedo, e me lembrei de Ciça, que nem sequer me avisou que ia gazear a faxina. Pois é, gazeou logo ontem quando eu achei de deixar uns quatro pratos sujos pra ela lavar. Me dei mal. Não gosto de lavar pratos. Uma vez Raulina me contou uma estória sobre ter ouvido alguém dizer por trás dela: 'lavando prato sempre'. Era uma voz de provocação saída do nada, sem dono. Ela também não gostava desse ofício chato, e eu reclamo sempre, que não aparece ninguém para elogiar um prato que a gente lava bem lavado. Não aparece.

Ciça me deixou na mão, desligou o celular durante o dia todo de anteontem e de ontem, que era pra não ser incomodada. Eita, que mulherzinha cheia de astúcia, aquela.
Outro dia peguei a danada mentindo descaradamente. Tava trabalhando aqui em casa e dizendo a alguém pelo telefone que estava no médico. Botei meus sentidos de molho e entendi que ela mente pra mim também. Por que teria que ser diferente comigo?

Estou resfriada, nariz obstruído, corizando feito uma doida. Mal posso respirar. Quando acordei hoje, fui pedindo a Deus para ocupar meu coração só com coisa boa. Troquei meu horário de falar com Ele, porque à noite me distraio, deito e durmo pesado. Nem um 'Pelo sinal' eu faço. Durmo como bicho, sem sequer lembrar do meu compromisso com o divino. Pior é Ciça, que nem em Deus fala. Nem agora que anda com a cabeça cheia de desencantamento amoroso, precisando de alívio. Vem buscar em mim, logo eu, que ela acha que sou mais sabida do que ela. Quer que eu dê respostas às suas aflições. Digo a ela, meio com misericórdia: 'eu não sei lhe responder isso, nem aquilo, Ciça'. O que eu me arrisco a fazer é arriscar mesmo, ponderar, procurar descobrir ou encontrar um caminho lógico pras coisas. E nem sempre as atitudes nossas ou alheias seguem uma lógica. São labirintos tão intrincados que a gente corre o risco de se tentar se adentrar muito, se perder neles.

Não sei dizer se um fogão de quatro bocas que ela ganhou do namorado, significa prova de amor. Por que a gente sempre precisa dessas certezas? É pouco, pouco, muito pouco, receber toda noite o dito cujo em casa pra dormir com ela. É pouco? O que é que faz a gente se sentir segura com um homem?
Mulher vive nessa angústia de querer saber se é amada. Racionalizo: Ô Ciça, quanto custou o fogão?. Você pediu ou ele deu sem você pedir?. Como foi que ele chegou com o fogão em sua casa?. Ela vai respondendo, se inclinando, ela mesma, a se convencer e me mostrar comprovações do amor dele por ela, através dessa compra. Quer minha confirmação, e eu dou pra ela ficar descansada, salva, justificada pelo afeto do homem dela. Mas ainda é pouco. Ainda há dúvidas que ela vem expor aflita novamente. Ainda bem não acomoda angústias, outras já chegam.

Hoje de madrugada acordei sufocada, sem fôlego. Usei o descongestionante e sosseguei. Aprígio acordou também, me abraçou apertado, me deu alento. Ô instante bom. Ali, na cama, Aprígio e eu bem juntinhos, sem dizer quase palavra nenhuma, pra não estragar o que o abraço dizia, me senti rainha, cheia de certezas. Não pensei se aquilo era prova de nada. Me veio à cabeça só objetividades: minhas jardineiras, as flores, minhas avencas, begônias, uma catenga que eu tinha visto à tarde no meio do jardim, passeando, escorregadia e feliz. Eu também gazeei a minha faxina. Aquela faxina de perder o momento pensando em ler e explicar afetos.

Essa manhã tá tão leve... Esse solzinho fraco indo e vindo... Quando desci para o quintal, me esperavam flores inauguradas de um tom rosa bem forte, enchendo de graça e romantismo uma das minhas jardineiras. Ciça deve andar pelo mundo batendo perna. Quando se angustia não pára em lugar nenhum tentando sossegar o coração. Mas o que aconteceu é que eu esgotei a minha raiva dela. Ô abraço bom o de Aprígio!






segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Ilusão da Eterna Juventude

Quando o medo de envelhecer se converte em fuga da realidade

  • Ontem à noite assisti a um excelente filme de Woody Allen: Você vai conhecer o homem dos seus sonhos. Neste ele apresenta, entre outros conflitos que estão no centro e na periferia da nossa existência, uma situação que a gente já está até cansada de ver na vida real: Maridos e mulheres de meia-idade, envolvidos com problemas de relacionamento, que espelham a decadência das relações de afeto, de convivência, contaminados pelos novos valores da sociedade moderna.

  • Entre tantas questões, o filme nos leva a penetrar no medo do envelhecimento, que a cada dia angustia a maioria das pessoas, de ambos os sexos. Quando tudo aponta para o moderno, no sentido de ‘novo’, é natural que as pessoas que envelhecem, generalizando, tenham verdadeiro pavor disso. Afinal, a imagem do velho está associada, hoje, à destituição do seu valor pessoal, social e produtivo. Ser velho é sinal de ser um peso para os outros.

  • Nada há, além disso: a juventude, o prazer sexual, a capacidade de fazer sexo, o consumo desenfreado por produtos que são uma promessa de felicidade e são vistos por isso, como resposta ao sentido da vida A ‘obrigação’ cega em se conservar ‘jovem’ tem levado muita gente a ter atitudes que muitas vezes são verdadeiras falta de senso, para não dizer ridículas. É interessante ver como tanta gente compra a idéia que a propaganda anuncia, o que as tornam ainda mais infelizes e inadequadas.

  • Woody Allen ilumina o nosso olhar, chamando a atenção do expectador para um casal que envelhece. De repente o marido quer ‘voltar’ a ser jovem, o que desencadeia o fim de uma relação de quarenta anos com a sua mulher. (Não vou contar o enredo). As situações um tanto quanto ridículas pelas quais o personagem passa, ilustra situações que têm acontecido bem próximo a gente. Às vezes até na casa da gente, com nossos vizinhos e amigos.

  • São cenas que apontam para uma completa confusão existencial, em desfechos que aprofundam os personagens numa angústia ainda maior. Resultado da negação da negação. A tentativa de fugir de uma realidade, quando não se tem alicerce para encarar naturalmente, mais uma fase da vida. E quando se compra essa ilusão, deixa-se de cumprir a obrigação do auto-respeito e do respeito à própria velhice. Deixa-se de respeitar o ser humano, sua finitude dentro das dimensões do tempo.

  • No mínimo engolir todos os ‘valores’ da sociedade moderna, como se fossem verdades inquestionáveis, levanta questões subjetivas sobre a própria pessoa que envelhece: em que ponto do nosso desenvolvimento psicológico, interrompemos o nosso crescimento rumo à maturidade? Por que nos negamos amadurecer? Por que não percebemos que dentro dessa disposição, nos tornamos meros objetos e deixamos de ser vistos e de nos vermos como pessoas?
  • Qual o sentido de negarmos o tempo vivido em nosso corpo? De abrirmos mão da história que construímos em um relacionamento que começou na juventude? Por que tão facilmente (aparentemente) abrimos mão das pessoas que criaram laços de afeto conosco? Por que estamos abandonando as histórias de nossas vidas para criarmos outras, sobre frágeis pilares de simulações? Talvez porque tenhamos vivido o tempo todo, apenas uma pequena dimensão da existência. Talvez porque nos tenhamos tornado objetos numa sociedade onde não é quase possível explicar o homem como um ser que faz história, cultura, mas como um mero produto substituível por outro, tão logo envelheça.

  • Envelhecer é outra maneira experiencial de viver, de crescer por e para dentro. É vislumbrar a vida sem os véus da ilusão. É olhar uma flor e saber o que ela significa realmente. É olhar a existência e poder dar-lhe significado. É poder enfim, caminhar em direção ao destino que nos espera a todos, sem negar o tempo que nos consome, nem o espaço que nos delimita. Mas aproveitá-los dignamente. É a chance que se tem de ensinar aos mais jovens as grandes lições aprendidas.
  • Negar tudo isso em tentativas de fuga é mergulhar na sabotagem de falsos valores, que acabam por esmagar as pessoas que chegam à meia idade, como parte do lixo que aceitam ser, ao se deixarem triturar pela angústia, na busca ilusória por soluções que acabam levando ao vazio, à tristeza e à impossibilidade de amarem, respeitarem e serem cúmplices de si mesmas e dos outros: seus amigos e, sobremaneira, seus parceiros, que também envelhecem.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Arte Primitiva Moderna em Santana do Ipanema

Um ensaio crítico sobre o trabalho de dois artistas sertanejos


  • Sobre outras coisas que vi na feirinha da Economia Solidária é uma pena que eu não esteja conseguindo ilustrar o Ensaio Geral com fotografias, desde muito tempo. (Sempre que tento colocar alguma, acontece um problema).
  • Hoje, gostaria de mostrar pelo menos dois dos quadros que vi expostos. São trabalhos de dois artistas: ambos sertanejos, com estilos e olhares bem distintos, sobre a realidade. Um dos artistas revela sua constante apreensão do cotidiano, em cenas que acontecem sobre cenários que estão sempre situados nas periferias, coisa bem típica das nossas cidades do interior. Suas cores são fortes, às vezes borradas, chapadas, são pintadas em telas, sobre desenhos livres, sem perspectiva aérea ou linear, sinais característicos da arte naif.
  • Nelas, o artista apresenta o submundo marginal, denso e muitas vezes triste. Mulheres em prostituição, quase despidas, exibem seios flácidos, pele enrugada e acompanham homens não menos sofridos, que assumem corpos que denunciam a embriaguez constante, o ócio. O bar que os contém a todos, é lugar de refúgio às dores de uma realidade massacrante.

  • Outros trabalhos do mesmo artista santanense trazem cenários religiosos. São procissões, onde a mesma gente marginalizada, suja, descalça, surge descendo ladeiras. Um bêbado caminha ao lado, com sua garrafa de pinga na mão. Figuras que se misturam. Crianças, mulheres grávidas, homens barbados, expressam suas desolações, contrições e, não raro, uma delas se sobressai pelo jeito hilário com que aparece na cena. Realmente” a arte imita a vida”.

  • É comum que cachorros magros apareçam nas telas em constante vigilância, deitados perto dos seus donos embriagados. Certas personagens são ainda mais esquisitas, desdentadas, despenteadas, barrigudas, em completa desordem e decrepitude física. Ao trazer à praça a realidade de um cotidiano que sobrevive escondido das nossas vistas, mas que está tão próximo da gente, o artista consegue chocar a maioria das pessoas, que criticam a sua arte.

  • O segundo artista retrata cenas do cotidiano que marcam o simbolismo da imagem que se tem do semi-árido. Cavaleiros em cenas de vaquejadas, terreiro sob a luz do ocaso, jumentos carregando água. Seu traço é limpo, sua pintura é fluida e revela também traços característicos da arte primitiva moderna. Cada artista é único em sua maneira de expressão artística. Mas ao ver o trabalho desse segundo artista, sempre me pergunto sobre aquilo que chamo de repetição de certo modo de ver a realidade, quando ela é transposta para as telas.

  • A meu ver alguns artistas se subordinam e encurralam a própria criatividade, a essas imagens que reproduzem um “modo de ser sertanejo”. Imagens que estão destinadas a perpetuar no imaginário de quem olha esses trabalhos, uma idéia já gasta – por não corresponder à realidade atual -, de um sertão que parece ter parado no tempo. Um sertão de imagens que sofreram um congelamento no tempo e no espaço.

  • Há muito que a motocicleta tem tomado o lugar do cavalo, embora o sertanejo tenha transferido o selim* do cavalo para o assento da moto. A antena parabólica ocupa os céus, muda a paisagem, embora o verão seja árido, poeirento. Os artistas precisam atualizar os signos do nordeste. Apontar para as transformações que vêm ocorrendo. Pintar parabólicas entre mandacarus, motocicletas no curral... Ver o mundo que está acontecendo dentro do seu próprio universo. Criar novas imagens que falem, denunciem, ou que simplesmente levem o fruidor a conceber e conhecer novas versões sobre essa realidade, em beleza, em tristeza, em pormenores.

  • Ainda na feirinha, tive o enorme prazer de saborear o trabalho do artista santanense. Belo trabalho, ainda que o seu valor estético, seu poder denunciador, não seja entendido pela maioria. Trabalhos que possuem um alto grau de sensibilidade, sobretudo, na questão social. Forte, genuíno e até assustador. Mas que ultrapassa a repetição, os signos viciados e se projeta, grande, em dimensão e criatividade.

  • Selim: Pequena sela rasa

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Feirinha da Economia Solidária em Santana do Ipanema


O Projeto Nacional de Comercialização Solidária realiza feirinha na Praça Adelson Isaac de Miranda, no centro da cidade, desde ontem. Participam artesãos, artistas, agricultores e apicultores do interior do estado.

Ao todo são dezoito barracas distribuídas ao lado da praça. Além de Santana do Ipanema, que sedia a feira, as cidades de: Atalaia, Pão de Açúcar, São José da Tapera, Palmeira dos Índios, Carneiros, Maravilha, Marechal Deodoro, marcam presença com a oferta de produtos feitos, na maioria, por grupos que se organizam na fabricação de peças artesanais.


Girlene Leonardo Lopes, 29 anos, representa nesse evento, o seu grupo composto de oito artesãs, residentes em Atalaia. A sua barraca chama a atenção pela beleza das peças feitas com a fibra da bananeira. Os trabalhos se sobressaem pela delicadeza, textura e acabamento. São porta-jóias, garrafas, caixinhas e pequenos bibelôs. Para fazer esse tipo de artesanato, o trabalho para as mulheres começa no tratamento que dão às folhas da planta. Lavam, secam, engomam, para daí, produzirem cada peça. O efeito final enche os olhos de quem gosta de artesanato.


O preço é bastante acessível. Levando em conta o caminho percorrido para chegar até o consumidor. Mesmo com as parcerias que têm com o empresário Celso Tenório, fornecedor da matéria prima, além de outras, com o Banco do Brasil e o SEBRAE, o grupo reclama que nem sempre pode contar com outros parceiros, como a prefeitura da cidade, por exemplo.


A realização da feira conta com a participação do IMS (Instituto Moreira Salles), Marista, SENAI, Secretaria Nacional de Economia Solidária, Ministério de Trabalho e Emprego e tem a parceria do Fórum Brasileiro de Economia Solidária. O evento termina às 22h de hoje.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Site FILMOLOGIA: Carta aberta ao público

Ministradores fazem balanço do Projeto de Oficinas de Cinema em Maceió



Após a realização da última oficina de Cinema, semana passada, no Cine SESI Pajuçara, Ranieri Brandão e Ricardo Lessa, jornalistas e críticos de cinema, fazem carta aberta ao público no site Filmologia. Nela, corajosamente, questionam o que eles consideraram um fracasso: Desta vez a oficina de cinema não vingou. Sequer, segundo os ministradores, atingiu o ápice esperado: a participação do público, a sua permanência nos dias seguintes na sala de projeções do cinema.

Com o mesmo empenho com que eu, particularmente, disponibilizei o espaço do Ensaio Geral para noticiar e divulgar a oficina (não por ser Ranieri Brandão, o meu filho, nem Ricardo Lessa, nosso amigo e colega de profissão, mas porque acredito na ideia de se debater cinema em Maceió), cedo novamente o espaço para trazer ao público a auto-crítica feita por eles. Rever o que foi feito, olhar sem medo para o que aconteceu e então, avaliar, assumir que o saldo desse acontecimento foi um fracasso, é uma ótima maneira de crescer com a experiência e procurar acertar o que não deu certo. A palavra do momento e a disposição é REFAZER. Recomeçar, tentar novamente.

Talvez dentro mesmo de novos formatos, a partir de filmes e diretores ainda mais comerciais. Acredito que a crítica bem construída é sempre possível e qualquer imagem pode ser a fagulha. Basta que não se perca o foco: o debate. Levar através da imagem, a qual como me disse Lessa em entrevista, é a paixão do espectador - se não me engano -, o público à sala de projeção do Cine SESI. Trazer o público para o debate através da imagem que o próprio público já traz como objeto de paixão. E não faltam imagens para quem gosta de filme. Quem sabe? Ou seja: o participante já traz consigo a imagem que o levou a gostar de filmes. A oficina pode partir dessa premissa, para debater o cinema. Caminhos a serem pensados.
Para quem gosta de cinema, para quem foi ou não à última oficina, aí está o link da carta aberta. http://www.filmologia.com.br/?page_id=1943
Confira!

sábado, 15 de janeiro de 2011

O que a catástrofe no Rio de Janeiro quer nos dizer?


A dolorosa resposta da Natureza

Passei o dia de ontem assistindo a tragédia que acometeu a região serrana do Rio de Janeiro. É impressionante a quantidade de lama que soterrou casas, moradores, animais, plantas. Assim como impressiona a rapidez com que tudo acontece, mudando a realidade e a vida de centenas de pessoas. As imagens da desolação, tristeza, perda e do caos, nos enternece, nos machuca a todos. Junto com aquelas pessoas, seus rostos, seu sofrimento espelhado na amargura das suas falas, no embargo das suas vozes entrecortadas pela dor, todos nós, creio, cada qual a seu modo, recebemos a mensagem dessa catástrofe: Alguma coisa anda errada no relacionamento entre o mundo (Natureza) e o homem. Entre o homem e seus semelhantes, entre a Vida na Terra e a sua preservação, entre o Criador e a criatura.

São colocações que buscam abranger o pensamento coletivo de uma forma mais extensa. Há os que pensam ecologicamente, politicamente, os que pensam humanisticamente, os que pensam a partir de uma visão religiosa, sem contar ainda, com muitas outras linhas de raciocínio sobre os últimos acontecimentos. Mas a realidade está aí: Dura, com imagens que dão conta e denunciam e ainda apontam para a falha na responsabilidade dos que governam, em se tratando da vida dos que são governados. O que aparece em forma de catástrofe é apenas a ponta do iceberg. E só a ponta dele mostra o alto grau de destruição que ele contém e que está submerso.

A natureza após ter nos falado, com insistência, agora nos agride, revidando as agressões recebidas. Nós, que pensamos dominá-la, que a instrumentalizamos, fingimos esquecer ou não temos a consciência do que diz Michel Bosquet (Ecologia e Liberdade, 1977): “O domínio total do homem sobre a Natureza implica inevitavelmente um domínio do homem pelas técnicas de domínio” E é o que tem ocorrido. Estamos muito mais interessados nas técnicas de domínio, para praticarmos a expansão, de nossa territorialidade, de nossas posses. Ocupamos cada vez mais espaços e empurramos os menos favorecidos, em sua maioria, a ocuparem lugares que não deveriam ser ocupados. Lembro que também os ricos foram vítimas e a repórter de uma rede de TV afirmou que dessa vez a tragédia tinha sido “democrática”. Se não fosse tão triste, seria no mínimo engraçada, a colocação dela.

Num momento como esse, é que sentimos, de fato, o que representamos diante do cosmo. A nossa pequenez. É preciso que tiremos lições dessas experiências que não só aqui no Brasil, em Alagoas ( as enchentes), mas no mundo inteiro, vêm acontecendo. Há muito que deixamos de respeitar a Vida – a nossa, a dos vegetais, dos animais -, e a vida do planeta que habitamos. Deve ser essa a mensagem que nos atinge, a todos e de forma traumática. Parece que só uma catástrofe com essas proporções, consegue, ainda, mobilizar os afetos, a solidariedade, o nosso senso de coletividade e comunhão, a quanto sermos gente e não deuses, e do quanto somos indefesos diante da Natureza, apesar da nossa arrogância de dominadores dela. Somos obrigados a contemplar a nós mesmos, na nossa condição humana, efêmera e finita. É preciso repensar a Vida para salvar o que resta de nós e salvaguardar o planeta Terra.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Hoje é dia de oficina de cinema no Cine Sesi


Em debate o cinema de Martin Scorsese

Começa hoje pela manhã e vai até sábado, das 10h às 12h, a quarta oficina de cinema no cine Sesi Pajuçara: A Anti-fantasia de Martin Scorsese. Os ministradores serão Ranieri Brandão e Ricardo Lessa. O objetivo das oficinas é promover a discussão sobre a arte cinematográfica e desenvolver junto com o público freqüentador, o pensamento sobre o cinema: pensante e pensado.


As oficinas vêm acontecendo desde o ano passado e têm como público, geralmente, estudantes e universitários. O interesse dos jornalistas Brandão e Lessa é que esse público se expanda ainda mais, e que alcance outras pessoas e outras faixas etárias também. O debate sobre cinema é possível para todos. Em entrevista com os idealizadores, quando perguntei sobre como fidelizar e trabalhar o interesse do público, tive como resposta, a questão da imagem. A imagem como projeção. Como emissora, ao mesmo tempo em que receptora, da atenção do público, do seu amor pelo cinema.


Talvez seja essa a falha nos meios culturais e da mídia, em outros lugares e, especificamente, aqui de Maceió: A desatenção pela imagem e para o que ela está dizendo. O que faz com que a atenção dispensada ao cinema, seja um tanto displicente. Os filmes são capazes de atrair milhares de pessoas, no mundo inteiro, para as salas de cinema, porque a técnica cinematográfica promoveu a democratização coletiva da imagem. Mas o cinema como veículo para ampliar a consciência da coletividade continua sendo ainda um projeto. A imagem coletivizada, no entanto, raramente é processada para além dos olhos.


Toda imagem, seja ela qual for, traz mensagens. Um filme de baixa qualidade traz mensagens, assim como uma música de baixa qualidade, um objeto... Tudo traz a sua mensagem. O que nos falta é a capacidade de ‘ler’ essa mensagem. De percebê-la como favorável ou não. A proposta de discutir e debater o cinema faz dessas oficinas o local onde a leitura das imagens do mundo projetado nas telas, sob a ótica de consagrados diretores (Almodóvar, Tarantino, Scorsese e tantos outros), vêm à luz e se mostram. Ou nos mostram a nós mesmos. Afinal, é disso que trata o cinema: do homem, das suas alegrias, frustações, contradições, vitórias. É o registro, por imagens, da vida humana.

Os ingressos serão vendidos na bilheteria do cine Sesi até hoje, pessoal! Corra lá que ainda dá tempo!


Boa sorte, Ricardo Lessa e Ranieri Brandão, e que essa oficina seja bastante proveitosa para vocês e para o público!
Parabéns por essa iniciativa!!!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Conversando com Ricardo Lessa: o assunto é oficina de cinema

"A crítica de cinema é antes de tudo um sonho maquiavélico"

Há apenas um dia para o início da quarta oficina de Cinema: A Anti-fantasia de Martin Scorsese, que acontecerá na próxima quinta-feira, sexta e sábado, das 10h às 12h, no Cine Sesi Pajuçara, trago as opiniões sobre cinema, crítica, e assuntos pertinentes, através do olhar do jornalista Ricardo Lessa, em entrevista concedida ao Ensaio Geral. Lessa é o outro idealizador do projeto, ministrador dessa oficina de cinema em parceria com Ranieri Brandão, e também um dos editores da revista virtual Filmologia.
Ensaio Geral - Em sua quarta edição as Oficinas de Cinema fazem parte de um projeto bem ousado, seu e do Ranieri Brandão. Como você vê Ricardo, a possibilidade dessas oficinas poderem gerar um público fiel, amante da discussão e da crítica, realmente crítica, sobre cinema, e conseguirem o espaço que essa arte tem direito dentro do universo da cultura alagoana?
RLessa – O que me deixa mais feliz (e tenho certeza que é uma felicidade compartilhada pelo Ranieri) é saber que de algum modo, o cinema para além das montanhas, sobrevive nas ruínas do pensamento cinematográfico em Maceió. Mais do que gerar um público fiel (porque fidelidade é algo tão pessoal e distinto, de pessoa para pessoa), temos sempre a intenção de gerar um pensamento fidelíssimo, um pensamento que possa se revoltar, que possa explodir, contrariar, assassinar tudo aquilo que sempre foi tão impossibilitado na nossa região – o pensamento por um cinema pensante e pensado.
Ensaio Geral - Para um bom observador, é possível perceber que o que vocês têm como enfrentamento nesse projeto é o trabalho duro de começar do começo (desculpe a redundância). Digo isso, no sentido de que diferente de outras profissões e mesmo especificações profissionais, na medicina, por exemplo, o profissional já tem um 'público' à sua espera. No caso de vocês, é preciso criar esse público. Como trabalhar o interesse dessas pessoas?
RLessa – É impossível não criar um interesse (uma paixão, na vera) quando se assiste a um filme perfeito na hora ideal. Trabalhar o interesse das pessoas talvez não seja o melhor modo de fazê-las gostarem de cinema (que é diferente do “gostar de filmes”), é necessário, a meu ver, conceber a imagem: quando amamos alguém, amamos a imagem que nos é projetada daquele ser. O interesse está concebido, ali, na imagem. E eis o melhor modo para criar um público cinematográfico: dar-lhes a imagem de(o) cinema.
Ensaio Geral - Em se tratando de algo novo, e tendo em conta que as pessoas, na maioria, vão ao cinema apenas assistir filmes, ou seja, sem utilizar nenhum pressuposto ou juízo de valor à obra fílmica, a crítica que se vê por aqui, a meu ver, não é crítica. Se você se oferece para fazer crítica de cinema à redação dos jornais impressos das mais conhecidas empresas jornalísticas aqui de Maceió, as pessoas dizem que "aqui já tem gente fazendo crítica de cinema". O que é a crítica de cinema?
RLessa – A crítica de cinema é antes de tudo um sonho maquiavélico, porque ela é antes de tudo, imaginação teórica, digo, não é possível escrever uma crítica sem antes sonhar – e o próprio momento em que, magicamente estamos imersos em um grande filme de cinema, é o mais maquiavélico dos sonhos. Ao acordar (isso é, ao fim do filme), presenciamos a mais torturante realidade: que o cinema, pela enésima vez, nos enganou, nos torturou, nos fez chorar, amar, e depois nos abandonou (à luz de nossos olhos), para que como nos pesadelos mais dilacerantes, ao seu fim, o filme fica preso eternamente à nossa memória, após escravizar nossos olhos daquela forma tão poderosa e dolorosa.
Ensaio Geral - Na verdade o público que terá interesse em ler essa entrevista, certamente faz parte do público que já se liga no assunto. Quando vocês fizeram a Oficina de Cinema sobre Almodóvar, tiveram alguma expectativa de um público maior. Afinal, Almodóvar é festejado nas rodas onde as pessoas versam sobre arte e cultura. Você não acha que muitas pessoas, generalizando, que dizem gostar de Almodóvar, se apropriam desse, digamos, símbolo, para dizerem que conhecem a obra sem a conhecerem?
RLessa – Para o bem ou para o mal o que mais existe é o pseudo-intelectualismo quando se trata de artistas como o Almodóvar, que é popularíssimo, ao mesmo tempo em que o seu público mais ativo seja considerado “culto” (eles que geralmente se auto-avaliam assim). Acho que todos nós somos (ou pelo menos em algum momento de nossas vidas fomos) um pouco pseudo-intelectuais, que nada mais é do que negar aquilo que você não sabe. A negação da negação, ou melhor, a negação da ingenuidade. É um conhecimento atrofiático, porque o público fiel de Almodóvar que diz adorá-lo assistindo apenas dois ou três filmes do cineasta, ao invés de exercitar o conhecimento assumindo o seu desconhecimento perante a validade artística do espanhol, prefere engajar-se na bandeira da homossexualidade (porque, pensávamos que o público que iria à Oficina quando o diretor foi o Almodóvar, seria desses que alçam a bandeira da liberdade sexual, amargo engano), quando muito antes dessa bandeira, Almodóvar é um cineasta da imagem e do verbo. Sátira, homossexualidade, perversão, assassinato, é tudo secundário, terciário...
Ensaio Geral - Vivemos em uma época que tudo o que pode ser transformado em signo indicial é transformado nele. Será que o gosto pela cultura, pela arte, hoje, serve apenas como acessório para umas tantas pessoas? Algo para agregar valor pseudo-intelectual? Será que a simulação também permeia os grupos que se dizem conhecedores disso e daquilo?
RLessa - Sim, sim, sim. Quando existe demasiada auto-afirmação (preciso me vestir assim para mostrar que gosto das bandas X, Y, Z, W...; preciso cortar o meu cabelo assim, para mostrar que renego tudo aquilo que é meu de nascença para tentar uma metamorfose vazia em busca do estrangeiro, daquilo que é “superior”, etc), é porque existe a necessidade indicial de encontrar um acessório cultuado e tentar transformá-lo em uma auto-promoção de si mesmo. É tudo simulação, se não for simulacro, porque esses grupos negam aquilo que sempre lhes foram caros, para tentar alcançar um padrão “intelectual” vazio, efêmero.
Ensaio Geral - (Voltando à Oficina) Por que Scorsese? Quais os critérios que vocês utilizam para escolher os diretores de cinema a serem abordados?
RLessa – Não temos um critério bem definido. A Oficina do Scorsese já era para ter ocorrido há alguns meses, não foi possível então naquela altura por causa da imensa quantidade de filmes (principalmente quando comparamos a sua filmografia ao dos outros diretores abordados pela Oficina: Tarantino, Almodóvar e Burton) realizados pelo cineasta norte-americano. E o tempo era curto. Os grandes filmes do Scorsese e os últimos filmes que ele fez, são bastante conhecidos e cultuados pela maior parte do público que freqüenta a oficina. Então, porque não fazer Scorsese? Tinha tudo o que buscamos em um cineasta que consiga atrair admiradores: qualidade, quantidade e popularidade.
Ensaio Geral - Vocês já pensaram em fazer oficinas de cinema para crianças? Abordando desenhos animados, filmes do interesse deles? Têm algum projeto para atrair o público infantil?
RLessa - Sabe que não? O primeiro filme que vi em um cinema foi uma animação. Não sei até que ponto isso funcionaria. É preciso ter público para que isso ocorra. E para esse novo público talvez a forma de publicidade que fazemos desde a primeira oficina não funcionasse. Teríamos que arranjar uma nova forma de alcançá-los. E isso não é nada fácil.
Ensaio Geral - Fale Ricardo...
RLessa - Opa, acho que já falei bastante. RS. No mais, espero que a Oficina seja bem aproveitada por todos. Será um aprendizado geral, para os instrutores e espectadores. Poucas coisas são tão engrandecedoras quanto compartilhar uma experiência. Nos vemos no Cine Sesi, então.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Anti-fantasia de Martin Scorsese: Entrevista com o jornalista Ranieri Brandão


A crítica e o debate sobre cinema em Maceió. Existem?

Ranieri Brandão e Ricardo Lessa são jovens jornalistas, criadores e editores da revista virtual FILMOLOGIA, que além da profissão, têm em comum, o amor pelo cinema. Aliás, um amor apaixonado, que faz com que tenham se atrevido, esta é a palavra mais acertada, a desenvolverem um projeto para discutir cinema em Maceió. E discutir cinema em Maceió é mesmo um desafio. Parece que a arte cinematográfica, ou seja; a importância do cinema como canal que expressa de modo bem abrangente, todas as outras artes, e as contradições humanas existentes, ainda não foi ‘descoberto’ como lugar de debate, inclusive, pelos meios culturais e pela mídia da capital alagoana. Fala-se sobre filmes, sinopses. Não sobre o Cinema. A própria ‘crítica’ que se diz ser feita em Maceió – me refiro à crítica dos jornais impressos locais, em especial -, a que é feita principalmente pelos jornais que se destacam pelo alto índice de leitores, não poderia ser chamada de crítica, porque sejamos sinceros, está ainda em fase embrionária, infelizmente. Em sua quarta edição, a nova Oficina traz para o debate: A Anti-fantasia de Martin Scorsese, que será realizada nos dias 13,14 e 15, das 10h às 12h, no Cine Sesi Pajuçara. Seria interessante que os críticos de cinema da mídia impressa alagoana participassem. Vale a pena.

Ensaio Geral - Como surgiu a idéia de oferecer as oficinas de cinema ao público interessado de Maceió?

RBrandão – Na verdade, essa é uma ideia que Ricardo e eu roubamos. Os críticos do sul do país fazem muitas oficinas em seus estados. É um meio muito eficiente de conversar sobre cinema e, em se tratando de Maceió, de localizar as pessoas que gostam e que, por um motivo ou por outro, não temos a chance de encontrar em sessões de cinema ou coisas do gênero.

Ensaio Geral - Como sabemos, o cinema é arte. Como os grupos voltados para a cultura alagoana se comportam quando o assunto é cinema?

RBrandão - Bom, sem querer generalizar, a atenção dispensada ao cinema em programas “de cultura” feitos em Alagoas é um tanto displicente. Nesses programas, sempre divulgadores de nomes pouco conhecidos, o valor é dado mais para quem produz música ou pintura. Quem escreve é chamado quando é um escritor de livros. O papel do crítico, tanto nos nossos jornais quanto na nossa sociedade, precisa urgentemente ser criado (sim, criado, porque ainda hoje temos só um nome por aqui, o de Elinaldo Barros), para, depois, ser valorado e receber a atenção que merece. É muito simples assistir a um filme e se tornar fã dele. Difícil é debatê-lo. É isso que falta, como um todo (não só com o cinema, mas com as outras formas de expressão), aqui em Maceió.

Ensaio Geral - Você acha que as pessoas absorvem o cinema como arte, assim como o teatro, as artes visuais?

RBrandão - Acredito que sim, mas em parte. Com as oficinas aprendemos junto com o público a absorver mais e mais as coisas do cinema. Fora das oficinas (e não estou dizendo que as oficinas salvam Maceió de forma alguma; assim também como o Filmologia não salva: se tratam só de espaços algo inéditos) vejo que o cinema e as outras artes parecem funcionar mais como certo tipo de status. Por exemplo, para fazer parte de um grupo em específico há de se gostar de cinema, de certo tipo de música, de certo tipo de roupa, de certo tipo de comportamento. O cinema, hoje, em Maceió, numa observação minha bem superficial, aviso, me parece vir associado antes ao status mesmo, à figura que representa na sociedade. São geralmente esses que dizem gostar muito de Almodóvar, por exemplo, que não apareceram na oficina que Ricardo e eu realizamos. Almodóvar acaba por se tornar uma grife que faz parte de uma personalidade e não um cineasta a ser debatido.

Ensaio Geral - Como jornalistas apaixonados pelo cinema, você e Ricardo, percebe-se, têm trabalhado em função de criarem um público que dê a arte cinematográfica a sua devida atenção e consequentemente, o seu lugar, aqui em Maceió. Quais as dificuldades encontradas?

RBrandão - As dificuldades de sempre: encontrar o público e debater com ele, fazê-lo perder a timidez. Demos dois tiros no escuro, Ricardo e eu. O primeiro foi inventar de fazer as oficinas aqui em Maceió, coisa inédita, que ninguém tinha feito antes. Digo, oficinas sobre cineastas, seus cinemas, sobre o debate. Corremos para o Marcão (gerente do SESI) que, de pronto, “comprou” nossa ideia. Ficamos à espera do público, como ficamos até hoje. Sempre é uma alegria e uma tristeza quando vemos os mesmos rostos nas oficinas, como se o público de cinema fosse somente aquele aqui na nossa cidade. O segundo tiro foi termos criado o Filmologia aqui, com redatores daqui, que nem sequer sabíamos se tinham prática com a crítica. Ainda bem que estamos começando a pegar um ritmo agora. Resumindo, nossas dificuldades todas são baseadas no encontro com o público.

Ensaio Geral - Quem frequenta as oficinas?

RBrandão – Geralmente estudantes, universitários. Um pessoal da nossa mesma faixa etária. Mas aparecem pessoas acima dessa faixa, claro, e, geralmente, entabulam ótimos debates, que deixam a oficina bem viva. Perguntam, questionam, duvidam. É muito bom e produtivo. Na oficina sobre Pedro Almodóvar foi até um senhor, já com mais de 50, creio. Ele ficou calado durante os três dias, mas foi uma presença inesquecível para Ricardo e eu, porque vimos que a oficina começara, ali, a estender mais um pouco o alvo de seu público.

Ensaio Geral - O que é que esse público busca, enfim?

RBrandão - Acho que informação com formação. A notícia e a opinião. Resumindo, creio que nosso público procura mesmo uma boa conversa, e procura algo que sacie sua curiosidade (temporariamente, porque Scorsese, nosso cineasta da próxima oficina, parafreaseia Frank Capra e diz que o antídoto para o cinema é sempre mais cinema) e que o deixe mais afinado com as ideias dos cineastas abordados.

Ensaio Geral - Para encerrar gostaria que você falasse um pouco sobre a oficina que está para acontecer...

RBrandão - Bom, sem dúvida essa será a oficina mais épica que realizaremos. Ou que realizamos até hoje. Serão 35 filmes abordados, dos 43 que Scorsese dirigiu desde 1959. Começaremos em 1963 e vamos concluir com 2010, com A Ilha do Medo, o longa recente de Scorsese. Claro que não poderemos falar detalhadamente sobre todos esses filmes. Falaremos dos mais urgentes, embora as questões pertinentes no cinema de Scorsese estão em todos os seus filmes e isso pode gerar algum interesse inédito em algum filme pouco conhecido. Vai depender, logicamente, da participação do público e de seu interesse. Esperamos que seja a melhor de todas as oficinas. Não em termos de público, mas em termos de debate e de informações trocadas entre nós, instrutores, e eles, o público.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Festa de Bom Jesus dos Navegantes em Pão de Açúcar



Artistas e músicos se encontram e fazem festa alternativa

Todos os anos, Pão de Açúcar, cidade localizada no semi-árido alagoano, distante 230km de Maceió, festeja a tradicional Festa de Bom Jesus dos Navegantes. Com o número de turistas que tem aumentado sempre a cada evento, a Cidade Branca, como é denominada, tem também pequenos bares, onde além de inúmeras pessoas, músicos, poetas, artistas e jornalistas conterrâneos se encontram e fazem sua festa paralela e alternativa.

Os bares vão sendo consagrados por apresentarem uma proposta diferente de diversão. Isso se caracteriza pela natureza democrática com a qual os freqüentadores deixam de ser apenas receptores/consumidores das músicas (os que dançam e cantam acompanhando o show de artistas que cantam sobre os grandes palcos montados na rua). Nesses bares, ao contrário, os que querem, se integram e fazem seu próprio show, de modo bem pessoal, espontâneo e cheio de criatividade. Artistas e cantores se revezam, cada um com seu estilo e seu gênero musical distintos. Canta-se e toca-se de tudo: Violões, flauta, sax, zabumba, ganzá, pandeiro. Em Pão de Açúcar não faltam artistas nem músicos de qualidade.

É um show genuíno marcado pela diversidade musical, pelo improviso, pelo direito de qualquer um poder mostrar o que sabe fazer (e até o que não sabe), já que artistas e não-artistas se misturam, cantam, se divertem. Os freqüentadores fazem do evento uma grande festa. Sem contar que é possível além de beber, cantar e dançar, bater um bom papo. Tudo acontece num crescendo e há momentos de grande euforia, quando entre outros, músicos como Jucélio, Wilbert Fialho, Bozo (os dois últimos integrantes do saudoso Grupo Poeira Nordestina), todos conhecidos na capital alagoana, dão um show de interpretação. Sem contar que todos têm o privilégio de cantar sendo acompanhados por eles, em seus instrumentos.

Ano passado na mesma ocasião, preferi dar ênfase aos aspectos da festa que acontece nos espaços abertos. Salientei o caráter repetitivo, a mesmice, a euforia e o prazer imediatos, o engessamento dos jovens que consomem produtos que lhe são oferecidos: músicas sem conteúdo ou se considerarmos o conteúdo vemos o mau gosto, a banalização das letras, a pobreza musical. Mensagens deturpadas sobre liberdade, respeito e auto-estima. Retorno à velha conversa polêmica sobre a cultura massiva e entre outros pormenores, sobre a alienação cultural e social. Se mergulhasse nessa questão teria que levantar questionamentos que envolveriam conceitos sobre o que é popular e o que é popularidade, só para começar. Isso fica para adiante.

Dessa vez voltei para casa, alegre da minha terra, dos meus conterrâneos, gente simples, artistas, e não artistas, músicos e não músicos, poetas, jornalistas, desse povo que tem em comum a Terra de Jaciobá, Pão de Açúcar, a Branca Cidade, a Mãe de onde todos nasceram. Nós; os filhos todos que somos. Lá estão o Bar de Geo e a Toca do Índio. São quase vizinhos e ambos têm a vista voltada para o Velho Chico. Ficam a poucos metros de onde estão os grandes palcos, com aquelas indumentárias todas. São, sobretudo, locais marcados pela simplicidade. Uma simplicidade extrema, mas que têm se consolidado como duas grandes referências, para quem quer a alegria do encontro com os amigos, com a arte e a cultura paodeaçucarense.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ESCASSEZ DA PALAVRA

Há dias que não escrevo ordenadamente. Estou seca como pedra. Não me sai aqui de dentro uma mínima palavra, embora eu sempre esteja falando comigo mesma, incansavelmente. Estou estéril. Não de sentimentos, mas de colocá-los sobre o papel. Às vezes acontece assim. Tranco-me por dentro. Viro secura, deserto. Não sei exteriorizar nada. Estranho as palavras quando as junto e elas também me estranham. Escondem-se e se camuflam. São como um emaranhado de símbolos que não consigo por em ordem. É como se eu tivesse: tecido, linha, agulha e não soubesse coser. Nesses últimos dias tenho experimentado sentimentos diversos, que se multiplicam, se enlarguecem, e com os quais sonho em escrever, como num desejo místico de alcançar plenitude.

Sinto falta de mover a palavra pra lá e pra cá, em dizer coisas, em deixar falar minhas personalidades outras, que se fazem passar por personagens e que saem de mim e ganham vida e vão encher a minha de poesia.

Perco, vez por outra, a chave da minha própria saída para o mundo de fora. Converso pra dentro confusão de letras e palavras de introversão. Isso ocorre, surge-me, quando a minha mente se enche de cores e de imagens. Vou dormir com uma disposição e acordo com outra. Cada sentimento, cada idéia, cada emoção, não quer mais ser letra. Quer ser cor, quer ser desenho que vem surgindo de algum lugar, outro, meu. Entendi que quando um canal em mim se impõe, outro logo se fecha. Por assim dizer, algo entra em dormência, para algo acordar. Desconfio que eu seja duas. Aliás, sou mais de duas. Mais de duas pessoas além dessas: uma querendo fazer literatura, a outra desejando telas em branco, tintas, solvente, pincéis. Outra ainda, querendo entender psicologicamente as outras duas e o mundo.Tem mais, têm muitas outras eu que se agregam às letras, e tantas eu às cores, às formas, ao mundo não menos maravilhoso da luz e da sombra.

Resisto ao leme e, possivelmente, vou guiando o barco da minha vida. Pego-me querendo escrever, sentir através das letras, mas estou mineral, inorgânica. Estou sem a argamassa para unir palavras, para dizer o que penso e o que sinto. Eu, que tenho os sentidos abertos às sensações do mundo material que me experimenta, e que me faz refleti-lo como existência interior, esses dias - e não poucas vezes -, estou privada de fazê-lo. Só sei sentir pelo azul, o vermelho e o amarelo, misturados, multifacetados, dando vida às novas cores em diversos e infinitos tons. Até onde me sei, tudo é cor. Cores para a dor das tristezas, cor para a festa das alegrias, para o peso da inércia e para a vibração do entusiasmo. Estou isso: o canal de todas as pessoas que vivem dentro do que vou sendo, enquanto caminho pela vida. E a pessoa em mim, a que me toma o leme, a que me tem agora, me põe a externar sentimentos através de signos plásticos. Os meus e os do meu pequeno mundo, esse, onde tento me caber, inumerável,em uma só.