sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ESCASSEZ DA PALAVRA

Há dias que não escrevo ordenadamente. Estou seca como pedra. Não me sai aqui de dentro uma mínima palavra, embora eu sempre esteja falando comigo mesma, incansavelmente. Estou estéril. Não de sentimentos, mas de colocá-los sobre o papel. Às vezes acontece assim. Tranco-me por dentro. Viro secura, deserto. Não sei exteriorizar nada. Estranho as palavras quando as junto e elas também me estranham. Escondem-se e se camuflam. São como um emaranhado de símbolos que não consigo por em ordem. É como se eu tivesse: tecido, linha, agulha e não soubesse coser. Nesses últimos dias tenho experimentado sentimentos diversos, que se multiplicam, se enlarguecem, e com os quais sonho em escrever, como num desejo místico de alcançar plenitude.

Sinto falta de mover a palavra pra lá e pra cá, em dizer coisas, em deixar falar minhas personalidades outras, que se fazem passar por personagens e que saem de mim e ganham vida e vão encher a minha de poesia.

Perco, vez por outra, a chave da minha própria saída para o mundo de fora. Converso pra dentro confusão de letras e palavras de introversão. Isso ocorre, surge-me, quando a minha mente se enche de cores e de imagens. Vou dormir com uma disposição e acordo com outra. Cada sentimento, cada idéia, cada emoção, não quer mais ser letra. Quer ser cor, quer ser desenho que vem surgindo de algum lugar, outro, meu. Entendi que quando um canal em mim se impõe, outro logo se fecha. Por assim dizer, algo entra em dormência, para algo acordar. Desconfio que eu seja duas. Aliás, sou mais de duas. Mais de duas pessoas além dessas: uma querendo fazer literatura, a outra desejando telas em branco, tintas, solvente, pincéis. Outra ainda, querendo entender psicologicamente as outras duas e o mundo.Tem mais, têm muitas outras eu que se agregam às letras, e tantas eu às cores, às formas, ao mundo não menos maravilhoso da luz e da sombra.

Resisto ao leme e, possivelmente, vou guiando o barco da minha vida. Pego-me querendo escrever, sentir através das letras, mas estou mineral, inorgânica. Estou sem a argamassa para unir palavras, para dizer o que penso e o que sinto. Eu, que tenho os sentidos abertos às sensações do mundo material que me experimenta, e que me faz refleti-lo como existência interior, esses dias - e não poucas vezes -, estou privada de fazê-lo. Só sei sentir pelo azul, o vermelho e o amarelo, misturados, multifacetados, dando vida às novas cores em diversos e infinitos tons. Até onde me sei, tudo é cor. Cores para a dor das tristezas, cor para a festa das alegrias, para o peso da inércia e para a vibração do entusiasmo. Estou isso: o canal de todas as pessoas que vivem dentro do que vou sendo, enquanto caminho pela vida. E a pessoa em mim, a que me toma o leme, a que me tem agora, me põe a externar sentimentos através de signos plásticos. Os meus e os do meu pequeno mundo, esse, onde tento me caber, inumerável,em uma só.

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