segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Em política favor com favor se paga

Quem leva vantagem nessa troca?

Essa é uma das experiências mais desconcertantes: Uma cidade pequena faz com que as pessoas sejam aproximadas. Muitas vezes os casamentos entre conterrâneos fazem com que de alguma forma todos sejam parentes, próximos ou distantes. As famílias acabam se entrelaçando. A adolescência é uma fase em que se estreita laços entre amigos, contraparentes, conterrâneos e contemporâneos. É o tempo em que a identificação com ideologias sociais e políticas se manifesta. O desejo de justiça, igualdade, fraternidade, aproxima aqueles que apuram a sensibilidade, questionando os acontecimentos da vida.

É também a ocasião em que a gente reorganiza, orientados por essas identificações, nossas relações pessoais, selecionando-as. Amigos de infância e adolescência, conterrâneos, contemporâneos, ou seguem conosco ideais comuns, ou se afastam de nós e nós deles. Com os que defendem como nós, nossas bandeiras, a amizade parece centrar esforços em aprofundar raízes, encontrar sentido, eco e direcionamento. Algo nos fortalece. Enquanto idealistas, procuramos realizar através da empatia com os outros, nossas expectativas e sonhos de um mundo mais humano e justo.

O que não sabemos, pela própria inexperiência, é que o interesse ideológico e, claro, político, dos jovens, se divide em duas vertentes: De um lado, os idealistas puramente idealistas, que são movidos pelo autêntico sentimento humanitário. Do outro, os de natureza propensa à vida política. Os primeiros amargarão o preço do romantismo sempre marcado pelo otimismo e esperança. Os outros tirarão através da prática, em sua maioria, o máximo proveito do caminho objetivo do fazer política. Infelizmente aquela política viciada.

Nesses termos, as amizades que pareciam aprofundadas, a associação e entendimento íntimo entre amigos, sofre transformações profundas. O idealista poucas vezes consegue perceber a tempo, as novas nuances que vão mudando, não a sua relação com o outro, mas a relação do outro com ele. É que gente como eles – e não somos poucos -, demora para entender que a máxima de Aristóteles: “O homem é um animal político”, deixa sem marcar a divisa, entre os idealistas politizados, dos políticos que se perdem dos seus ideais. A gente mistura tudo no mesmo barco, apanha, para depois compreender os distanciamentos, sempre pagando um preço alto por esta diferença.

Em política, favor com favor se paga. Amizades comuns não ficam à parte, nesse contexto, onde as coisas funcionam dentro de outros critérios, que quase sempre se apresentam totalmente ancorados sobre ‘leis’ específicas, pouco éticas, morais ou humanistas. É um expediente onde a tendência no exercício da prática política, a muito foi transformada em vício. Em procedimento questionável. O favor nunca é favor, e muito menos, gratuito. E muito menos ainda, justo. Tudo tem um preço a ser pago. Parece que em política, nesse universo, as relações interpessoais não admitem laços genuínos de amizade, mas outros laços que, constantemente modificáveis, promovem à classe política, a sustentação do poder, que passa como um trator, sobre qualquer coisa ou pessoa.

Para um pedido de um conterrâneo, o mover de um dedo do ‘amigo político’, move montanhas. E as montanhas, para ele, são sempre simples de remover. É um parente - de quem está pedindo o favor -, precisando de uma vaga para ser internado num hospital da rede pública de saúde, com urgência, e que por culpa do próprio sistema social e econômico do Governo, não tem condições de pagar um Plano de Saúde. Alguém que vem realmente necessitado daquela urgência: um infartado, uma pessoa vítima de AVC (acidente vascular cerebral, comumente conhecido como derrame). A desgraça alheia favorece o político e compromete o necessitado.

Porque para a maioria dos políticos a atitude de compaixão e humanidade, pura e simples, já se perdeu. Não o move mais. O que o move é o interesse de barganha e a vantagem a ser tirada assim que dela precise. Cada ato de falsa solidariedade é contado como uma possível peça que se guarda na manga, a ser usada em benefício deles quando assim precisarem. Para todos os pontos, sem tirar nenhum, serão dados os nós.

Não é necessário que se esteja na bancada da Assembléia Legislativa para que a manipulação de outrem em prol de interesses próprios ou de partidos políticos seja processada. Ocupar altos cargos assegura esse proceder a quem se acha confortável a exercê-lo. Ao recorrer ao já distante amigo, contrai-se com ele um débito impagável. O pior é que se recorre a ele por se ter a certeza de que o que você pede, não é um favor, mas sim, algo que o seu direito de cidadão permite. Você, incorrigível idealista, pede com respeito à amizade, aquilo que ambos, político e idealista SABEM, não é necessário pedir, que deve ser exigido ou simplesmente concedido, como parte do direito de qualquer cidadão: ter acesso, por exemplo, às condições de saúde que mantenha vivo, com dignidade, uma pessoa doente.

Quem tem o poder atende ao outro, subvertendo a lógica racional do pedido, e fazendo barganha para tirar o máximo proveito da necessidade daquele que pede. É que o contato com o poder muda as pessoas. O poder é um forte e perigoso arquétipo humano. Ele inverte quaisquer que sejam os sensos de moralidade, ética e humanismo. Aquilo que é tão fácil para o político conseguir, aquele favor tão pequeno, que no fundo é obrigação dele garantir aos cidadãos, serve para que ele procure manter aquele que em outras condições, outro tempo, foi seu amigo, sob seus pés, sendo sempre, seu devedor.

Se não há consciência clara, por parte de quem faz o apelo, a relação que passa a ser estabelecida, a cobrança por esse favor, o manterá preso. É aí quando, dolorosamente, o amigo de antigamente (amigo?), percebe o quanto pode ser transformado em peça de manipulação no jogo do poder do outro, pelo outro e para o outro.

O que significa que os antigos laços de amizade estão perdidos. Em política, amizades são esquecidas em função de outros critérios que passam a atuar nas relações. Tudo é troca. E essa troca é desonesta, desumana e fria, pois que se estabelece a partir da vulnerabilidade (doenças, necessidades outras) de quem pede. Tudo é convertido em poder de alguém que tem as ferramentas para conseguir o que quer nas mãos, e que a utiliza, sem qualquer escrúpulo, em benefício próprio ou do sistema que representa.

Quem pede, seja quem for, tem que pagar. Tem, no mínimo, que servir de degrau, na malha dos interesses de quem, sem trabalho nenhum, nomeia como favor, alguma coisa que não exigiu dele nenhum esforço. Por vezes, algo que um simples telefonema resolve.

Quem leva vantagem nessa troca?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mais cultura para os estudantes


O papel da escola não é só o de ensinar a ler e escrever


Os trabalhos expostos por 120 artistas, no Centro de Convenções continuam levando ao local, um público cada vez mais diversificado.


A presença de estudantes da rede pública de ensino, tem feito do ambiente do Salão de Arte da Marinha, um espaço movimentado. A curiosidade é o elemento principal desses jovens, que transitam pelo lugar. O objetivo é fazer com que eles apreciem as obras, aprendam a identificar o trabalho dos artistas e passem a valorizar a cultura alagoana. É o que pontua Fredy Correia, escultor e curador do evento. Ele mesmo acompanhou uma dessas caravanas de estudantes, mostrando e explicando, um por um, os trabalhos e as características de cada artista.

Muito boa a iniciativa dessas escolas. Afinal, não é possível valorizar aquilo que não se conhece. Muito menos, ter orgulho da terra onde se nasce e ou se vive, se não há interesse, nem responsabilidade por parte dos educadores, nem dos órgãos do Governo, responsáveis pela divulgação da arte, em despertar a sensibilidade dos estudantes, para algo tão negligenciado, mas tão importante, como a cultura. Um dos canais da expressão humana, onde a história do homem, sua trajetória, vão sendo construídas.


É preciso sempre mais atitudes dessa natureza, para que se possa criar condições capazes de mover os jovens e desenvolver neles, o seu senso crítico, seus sentidos, sua capacidade de, pelo menos, tentar entender o seu próprio significado no mundo em que vivem. O papel da escola não é apenas o de ensinar a ler, fazer conta e escrever.


É claro que é possível viver com os cinco sentidos pouco desenvolvidos, mas isso determina que a vida vá sendo vivida e desperdiçada no 'piloto automático'. No campo da inconsciência, da falta da criatividade, da cansativa repetição de um modo comum para todo mundo, de viver quase de olhos fechados. Vive-se o tempo de vida na superficialidade, sem que se desenvolva o máximo das potencialidades possíveis e sem que se tome posse das muitas possibilidades, sobre o real prazer de se estar vivendo e tendo participação ativa na vida.


Parabéns então aos educadores e às escolas que têm levado seus alunos para a visitação à Mostra coletiva de artes visuais, aqui em Maceió.

Lembrando a todos que ainda neste ano, a Marinha do Brasil edita em dezembro, seu 27° Salão de Arte.


Com encerramento marcado para o dia 14 o evento permanece em cena até dia 20. Ótima prorrogação.


Visitar a exposição é bom!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sobre a façanha de ser criança na infância

O que está sendo perdido pelo mundo infantil?

Na noite da última terça-feira (1º/02), presenciamos, eu e outras dezenas de pessoas, que no momento estávamos em um daqueles restaurantes da Amélia Rosa, em Jatiúca, uma cena no mínimo intrigante. Um homem perto dos seus 40 anos entrou na avenida pela contramão. Bêbado, desorientado, quase se choca com um ônibus urbano. Foi um susto para todo mundo.

A confusão não acabou aí. É que o senhor transportava em seu veículo, uma adolescente e duas quase-meninas. Assustadas, as duas tiveram a reação que muita criança tem e se expuseram: uma delas saltou do carro ainda em movimento, que por sorte, àquelas alturas, já estava bem lento. A outra desceu em seguida. Pelo aspecto de ambas, não era difícil para ninguém imaginar o que realmente acontecia, tinha acontecido ou estava para acontecer.

O homem, ao ser abordado pelo que acreditei serem policiais à paisana, que estavam sentados em uma mesa próxima à minha, apresentou a adolescente como mãe das duas outras, que deveriam ter aproximadamente 12 a 13 anos. Que falta de criatividade dele! Esse flagrante aconteceu ali, à nossa vista. Algo degradante, sem dúvida. Uma situação inesperada que dá a amostra, in loco, da prostituição infantil em Maceió.

Telefonemas foram feitos por parte do pessoal que tentava manter o homem no local. Mas essas ligações não moveram a quem as recebeu. Com o tempo passando, nós tivemos a decepção humilhante, registre-se isso, de assistir aquele senhor entrar no veículo, ir embora, ileso, enquanto as meninas seguiram em um táxi, que deve ter sido chamado por ele. A quantos processos aquele homem iria responder? Entrar pela contramão em uma avenida movimentada, estar visivelmente embriagado, estar com menores dentro do carro?

Apesar da boa intenção do pessoal, o homem seguiu livre, e na certa louco para encontrar os amigos e contar o fato, debochando da situação constrangedora que ficamos todos. Porque fomos nós e os policiais, ou o que sejam aquelas pessoas que tentaram fazer valer a justiça, os envergonhados. Fomos atingidos pela vergonha de presenciar a falta de vergonha alheia. A frustração de ver que aquele homem estava se indo, sem sentir culpa, nem medo, nem sentimento algum. E sem que ninguém pudesse detê-lo, apesar das inúmeras testemunhas que éramos.

Hoje pela manhã fui agraciada pela leitura de um excelente texto de Ana Clara Martins, estudante de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas, já em seu último ano, onde ela apresenta sua percepção sobre aspectos da infância. Lembrei do fato que presenciamos, envolvendo aquelas ainda-crianças.

O que está mudando com as nossas crianças? Para onde está indo a fantasia? A quase perfeição inconsciente que a inocência, em natural doação, contemplava o mundo infantil? Onde começa a dissipação dos suportes emocionais que deverão servir de ancoragem aos adultos de mais tarde?. Para quem quiser refletir sobre isso, eu recomendo o texto de Ana. Aí está:

http://www.filmologia.com.br/?page_id=2272

Vale a pena mergulhar por suas palavras. Vale a pena mesmo!



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Show para alagoano nenhum botar defeito


“Não há quem não morra de amores pelo meu lugar”


O artista alagoano Eliezer Setton se apresentou ontem à noite no Teatro Gustavo Leite, como parte da programação de abertura do 26º Salão de Arte da Marinha, para um público significativo composto por representantes do corpo da Marinha, patrocinadores, convidados e artistas.


Com um repertório musical bem azul, branco e vermelho, cores da bandeira das Alagoas, o cantor e compositor soube conduzir a platéia entusiasmada que o acompanhou em dezenas de canções pitorescas, dos folguedos populares alagoanos. Por vezes, de sua autoria, outras, colhidas e extraídas com critério, uma de suas marcas pessoais, que demonstra a conduta de pesquisador de Setton, quando se trata de trazer para seus trabalhos, o cerne da cultura popular alagoana.


Entre uma música e outra, o artista conversava com o público. Uma conversa descontraída, inteligente e cheia de humor, preenchida de informações e curiosidades, sobre cada interpretação que viria em seguida. Hinos dos conhecidos times de futebol, CRB, CSA e ASA, da autoria do compositor foram cantados. Foi grande a empatia e a interação entre artista e platéia.


O show de Eliezer Setton encantou a todos e consagrou a abertura do acontecimento. Tudo muito bem costurado com o espírito que o evento propaga: a promoção da cultura, a revelação de talentos, a injeção de ânimo e esperança, da qual não só os artistas visuais, mas a amplitude da diversidade das expressões artísticas de Alagoas sente necessidade.


A exposição aberta ao público, das 14h às 22h, é uma ‘pequena’ mostra da arte contemporânea que é feita em Alagoas. E é também algo grande. Grande e louvável, não pelas dimensões físicas do espaço, mas pelo desempenho daqueles que promovam a arte trazendo-a pela mão e expandindo o seu território. Grande ainda, pelos nomes que a arte alagoana segue escrevendo sobre os véus da bandeira das Alagoas, essa Estrela Radiosa, magna estrela, onde brilham como luzes, a criação dos artistas. Que testemunhe a verve alagoana de Eliezer Setton.