Para tecer novas histórias


Amanheci.
Josa me disse para não ficar triste com os reveses da vida. ‘Se ficar mulher, fica pior!’. Hoje o dia é outro. Essa coisa de ficar meio pra baixo, foi ontem e eu já aprendi a dormir e acordar como se a experiência de viver fosse algo novinho em folha. Fico fazendo estréias, anunciando a mim mesma, um espetáculo improvisado. Eu me dou ao luxo de dirigir e atuar em cena. Parece que vai chover daqui a pouco. O céu está nublado e as jias escondidas pela casa chacoalham. Um vento frio atravessa a minha memória. Escuto a voz da minha mãe cantando uma canção de amor. Em que parte do meu tempo vivido, chega onde estou essa voz e essa lembrança? Sinto por causa dela, segurança e aconchego. Uma alegria sustentada por aromas de uma manhã, talvez, com o mesmo cheiro dessa manhã de hoje. Cá pra nós, a vida exala uns cheiros que quando digo às pessoas, só Alvinho entende, porque sente também. Ninguém mais que eu conheça. São coisas da minha memória que não sei como, consigo guardá-las pelo olfato. Fragrâncias de um dia, de uma data, de acontecimentos. Joana, a minha irmã do meio, sente quando falta açúcar, nos doces que faz, pelo cheiro da fervura. Esse talento eu não tenho.

Ainda ontem invoquei a Deus batendo em sua porta: ‘Não é por nada não, meu Deus, mas preciso alcançar uma Graça, com certa urgência’. Na mesma hora me ocorreu uma dúvida enorme; a de não saber como se deve pedir. Depois amoleci a alma, feliz, porque senti a satisfação de entender que para quem tem o poder de sondar corações, no mais profundo deles, deve saber ouvir, e já consertando, o meu pedido, se eu o fizer errado. Me consola ter a certeza dessa fezinha de nada, que me deixa ficar aproximada do coração divino. Essa minha, assim mesmo, miudinha, miudinha, mas ao meu alcance, do jeitinho que sei exercitá-la. Um dia desses, Manta me disse que aproveitava qualquer coisa ruim que lhe acontecia, para oferecer como sacrifício a Deus. Até uma afta que aparecia na boca, servia para trocar com Ele pelo favor de uma Graça alcançada. Isso me fez lembrar José de Rosa que doente e mal sentado num banco de hospital, sem fôlego, dizia em voz alta: ‘Mais sofreu Nosso Senhor Jesus Cristo’ e que aguentou o próprio calvário, que não tinha o peso da cruz, mas tinha a falta de ar, até o médico chegar e socorrê-lo e ainda de quebra, fortaleceu sua fé.

Respiro aliviada o ar dessa manhã nublada, de quase inverno. Ando louca pra ver a chuva caindo através dos vidros da janela. Quando chove é certo eu chover por dentro também. Ouço o tamborilar dos pingos nas velhas telhas da minha casa, eu, menina ainda. Vejo os veios d’água que escorrem pelo meio-fio do calçamento. Caminho à escola e minhas galochas fazem um barulho engraçado. Alvinho pediu que me enviassem uma carta, onde ele quer que eu saiba que tem pena de mim, na capital. Mas não é pena. É saudade, a palavra que ele não sabe dizer ainda. Agora, o meu filho está em meus braços e me olha com tanta doçura que tenho vontade chorar. O rio São Francisco navega por dentro de mim. Manta fez chá e me adverte que está escrito na Bíblia que a boca fala do que está cheio o coração. Sou feliz na sua companhia. Me sinto amada e dona da alegria, que ela me garante, ter vindo de Deus como um dom para mim. No mês de São José, santo de sua devoção, saio do quarto para não vê-la morrer. Choro. 

Pelos vidros da janela, agora mesmo, volto a mim, uma senhora com rugas. O ontem e o hoje se confundem. Eu própria me confundo entre o que fui de mim e entre todas as pessoas que tenho sido e que carrego comigo. Tenho a sensação e sinto o cheiro do tempo que me tem vestido com as marcas de todas as narrativas da minha vida. Veste sobre veste.

Hoje é outro dia, certamente.
Ofereço à vida a tristeza do dia de ontem e a alegria com a qual me visto  hoje, talvez a minha melhor vestimenta.
É para tecer novas histórias, as do presente, que amanheci nesse sábado.

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