quinta-feira, 30 de junho de 2011

O baluarte vivo do folclore e da alma de Alagoas


Balé Folcórico de Alagoas - Foto WEB
Durante a programação que marcou os festejos juninos em Santana do Ipanema, na noite do dia 21, o encerramento das apresentações ficou a cargo do Balé Folclórico de Alagoas, do Grupo TRANSART. Sempre fico maravilhada quando vejo rapazes e moças se movimentarem em cena. Emocionada, como alagoana, amante dos folguedos folclóricos do meu lugar, e interessada, como jornalista, observadora social, em ver nos rostos dos expectadores, em especial em seus olhares e sorrisos, suas mais variadas expressões. Posso afirmar que são muitas e variadas. Mas todas elas, sem exceção, irradiam empatia com o que vêem.

Quem não gosta de apreciar a beleza de um espetáculo cheio de cores, danças coreografadas, figurinos e músicas do cancioneiro popular alagoano? As manifestações folclóricas, quando evocadas, trazem até nós modelos de pura alegria, de uma festa que nasce do coração e da alma do povo e tem a magia de nos levar ao encontro das emoções dos nossos antepassados. Elas nos lembram da capacidade que o homem, e só o homem tem, de criar beleza, de marcar sua presença na jornada da vida, fazendo da arte, o lugar da sua imortalidade.

As apresentações folclóricas, como parte do universo artístico, oferecem momentos de constatação do lado iluminado do humano, e é como se nos aproximasse da perfeição e dos propósitos da divindade. Convida-nos à sensação de um arrebatamento íntimo de profunda numinosidade, e nos coloca de frente à possibilidade da experiência do sagrado. Em maior ou menor grau, o semblante da assistência, composta de crianças, jovens, adultos e idosos, ali na Praça Dr. Adelson Isaac de Miranda, no centro da cidade, refletia que de alguma forma, as pessoas haviam entrado em contato com algum tipo de sensação.

Há uma infinidade de elementos, todos extremamente pessoais, que nos levam a tomar posse de um espetáculo. Quanto mais se tem conhecimento, mais se aguçam os sentidos, que ampliam a nossa capacidade de compreensão e de sentimento às coisas que se nos são apresentadas. Isso é verdade. A própria fruição, o prazer e o significado de uma experiência, variam de pessoa a pessoa. Naquele instante maravilhoso, cheio de tanta energia, cada um se emocionou de uma forma única. Quantas pessoas se sentiram tocadas pela energia transmitida do padrão humano do rigor da ancestralidade? Quem valorou o balé folclórico, como um baluarte vivo do folclore alagoano?

Para a maioria, entretanto, aquilo pode não ter passado por agregação metafórica nenhuma, ficando reduzido à primária emoção bem superficial, provocada apenas pela beleza da exibição. Contando apenas como mais um divertimento, talvez excêntrico e provisório. Isso quer dizer, não simbolizado, consumido simplesmente, sem que se tenha nenhuma ligação mais profunda e consciente daquilo. Muitos não alcançaram a importância e a natureza do Balé Folclórico de Alagoas, como um local de resistência, senão de preservação, como lembrança que nos alerta para aquilo que é ser alagoano: Uma gente alegre, radiosa, criativa, cheia de cor e de luz. A prova disso é que de todos os Estados brasileiros, somos o que possui o maior número de folguedos.

Diante da apresentação de oito peças do nosso folclore, típicas das festas juninas: Coco de Roda, Paidegua e a Boneca, Xaxado, Vaqueiros e Rendeiras, cavalhada, Taieira, Folia, Baianas e Guerreiro/Maracatu o balé folclórico tem o poder de redimir nossas angústias e nos elevar acima das nossas misérias, da realidade de uma gente constelada na imagem de um Estado, como lugar de violência, de povo violento, de terra de ninguém, de injustiças e impunidades, descasos e desonestidades vistas a olhos nus e que nos envergonham diante do restante da Nação. Os folguedos populares remetem à condição histórica, de registro feito por aqueles que nos antecederam. É bela a história que se conta das Alagoas e de sua gente, através dos folguedos.

A diversidade e a compreensão da sua importância no cenário da arte popular alagoana não podem morrer. Precisamos ser ensinadas quanto à relação biunívoca entre folclore e sentimento. Um como sendo o reduto do outro, a sua alma objetivada. Precisamos aprender o que é inerente à manifestação artística genuína e à história. É por isso que é tão urgente que defendamos nossos locais de cultura popular, com unhas e dentes.



terça-feira, 28 de junho de 2011

Chegou a hora de apagar a velinha!

Eu e Diogo  no Festival de Inverno/Garanhuns-2010


A Diogo, meu filho...

Há exatamente 30 anos, numa noite junina como foi a de ontem, senti as primeiras contrações que culminariam com a chegada do meu primogênito ao planeta Terra, no dia seguinte. Eram 16:10h do dia 28 de junho de 1981. 

Guardo na memória como se fora recentemente inaugurada; a atmosfera da sala de cirurgia, as cores da tarde, as conversas entre os médicos, a presença da minha mãe e o cheiro de éter impregnando o local. Algum tempo depois, talvez minutos, pois que perdi a dimensão dele, escutei o choro forte do meu menino e chorei junto com ele, a alegria de tê-lo trazido à experiência da vida.

Meu pequeno anjo sem asas era comprido, carequinha, feio e desengonçado, como quem, desdobrado, depois de nove meses, ali dentro, e agora do lado de fora de mim, se excedesse alongando bracinhos e perninhas magrelas que se agitavam. Conferi cada dedinho: Contei-os. Estavam todos ali no lugar... Era tudo perfeito! Serenei...

Lá fora dos muros do hospital, escutava-se o barulho de bombas, sentia-se o odor da pólvora, e da fumaça, ouviam-se gritos, e como naquele ano o inverno foi rigoroso, fazia muito frio. O dia anoiteceu e eu tinha a certeza de que era outra pessoa, diferente. Sentia um misto de alegria e medo. Sairíamos dali, a criança, para o mundo desconhecido que o esperava e eu, para outra realidade evidente e inescapável, que me conferia a condição e a responsabilidade de ser mãe.

No decorrer desses 10.950 dias, que parecem nada diante de tudo, acumulo sobre a vida que caminha apressada, inapagáveis registros: a primeira palavra balbuciada, as birras da infância, a teimosia, as quedas, as palmadas, os machucados, os brinquedos preferidos e as travessuras de uma criança sempre danada.

Trago comigo reminiscências de todos os seus Natais, Carnavais, os Dias da Criança, as mordidas, em tempos distintos, de dois cães, os medos de alma, o vocabulário ‘exótico’ da puberdade, o alvoroço da adolescência, a faculdade, a formatura, o Exército, as farras homéricas, rapel, mergulho submarino, bungee jump, as tatuagens, a Medicina, as especializações, o casamento. Você virou gente grande!

Nesta data, eu sempre refaço os caminhos da minha lembrança e volto feliz, àquele início de final de tarde, véspera de São Pedro, quando enfim nos conhecemos. Para mim, a poética do paradoxo materno: No seu primeiro entardecer, o meu filho estendia sobre mim, junto com o sol, as luzes avermelhadas do ocaso, e me ensinava naquele instante, sobre o ir além das minhas próprias sombras.

Desde então o meu experimento da sua presença é viver intensamente a luz solar dos dias, e nos finais de tarde, acender lâmpadas para iluminar as noites da vida. Mãe e filho. Criamos laços e perpetuamos afetos ao longo dos anos, e sobre a amizade e o respeito de adultos, aprendemos a construí-los juntos, como pessoas. Sobretudo, como amigos verdadeiros.

Felicidade é comemorar seu tempo de existência e poder ouvir o som da sua gargalhada, descontraída, de menino alegre, que encharca meu coração de profundo contentamento. O seu maior dom é o de estar sempre à vontade no mundo... É genuína a sua alegria ruidosa, que festeja o amor à vida e às pessoas, porque ela ocupa, contamina e ecoa em todos os lugares de dentro e de fora de você. A vida é o presente que sempre lhe oferecerei, porque viver é uma experiência incrível e inesgotável.

Que Nossa Senhora do Livramento, a quem eu o consagrei, Santa Rita dos Impossíveis e o Espírito Santo de Deus o abençoem! Ame e Seja Feliz, meu filho!

domingo, 26 de junho de 2011

A PALAVRA É PARA DIZER: A Festa da Juventude em Santana do Ipanema é só pa...

A PALAVRA É PARA DIZER: A Festa da Juventude de Santana do Ipanema é só pa...: "Santana do Ipanema/AL Foto - WEB Depois da decisão que interrompeu a realização daquilo que parecia ser a principal atração da Festa da..."

A Festa da Juventude em Santana do Ipanema é só para os jovens?


Santana do Ipanema/AL  Foto - WEB
Depois da decisão que interrompeu a realização daquilo que parecia ser a principal atração da Festa da Juventude: o polêmico o Cavalo de Pau, o assunto agora gira em torno das atrações que substituirão o evento. No ranking a expectativa é de que conhecidas bandas, que mudam de artistas, mas que têm a mesma proposta musical façam parte do celeiro de entretenimento de Santana do Ipanema. Embora a programação oficial ainda não esteja disponível aos interessados, é de se esperar que ela seja elaborada da mesma forma que nos anos anteriores, quando as comemorações privilegiam o segmento jovem da cidade e determinam, em grande parte, a presença massiva do turista, que se encaixa nessa faixa etária, que chega para a festa.

Li certa vez, que uma sociedade está em franco processo de desenvolvimento e crescimento intelectual, quando as crianças, as mulheres e os idosos são levados em consideração. Tendemos a seccionar as etapas da vida, dando ênfase à juventude, como o lugar onde ela é mais importante, ou como o espaço de maior valor da existência.

É certo como próprio do jovem, o carregar da semente que promove a transformação da sociedade, em seus mais amplos aspectos, mas é certo também, que não é a juventude quem pode decidir, soberana, os rumos da vida social. Mas é isso que tem acontecido, até mesmo quando se programa uma festa como essa.

Desde a década de 1960, mais especificamente, como um marco de transformações, o mundo mercadológico do sistema capitalista, viu na juventude a possibilidade de destacá-la como, principalmente, consumidora contumaz de seus produtos. Aproveita-se o ímpeto do jovem e o desvia para processos outros, que não aqueles que realmente promovem as mudanças sociais necessárias.

Elege-se a juventude como a menina dos olhos da existência humana, como se a vida só tivesse valor para quem é jovem. Tudo que a antecede ou a precede, fica à mercê do tempo. Entregamos nas mãos dessas gerações de quase adultos, aquilo que pertence àqueles que já viveram as experiências da vida, e que têm lições importantes a dar.

Estamos diante da exclusão da lógica em função do ímpeto. A juventude é o tempo da paixão do humano e não da sua Razão. Os jovens sinalizam às mudanças, mas cabe aos adultos, aos idosos, a quem de direito, aplicarem sobre elas sua sabedoria e o seu conhecimento. Há que se pesar na balança da convivência, dos princípios (que inquestionáveis, são diferentes dos valores que mudam constantemente), para o nascimento saudável de algo novo, abalizado pelos que têm a experiência aguçada.

Acontece que estamos enterrando nossas cabeças na terra, como avestruzes, abrindo mão dos nossos lugares e da importância da etapa de nossas vidas, na construção de um mundo melhor. Desde que os mecanismos de promoção da juventude foram aplicados, o mundo, categoricamente, perdeu seu juízo de senso. É como se tivessem calado a sua consciência. O crivo de julgamento das dinâmicas sociais, sob a ótica da alma, da experiência e do exemplo, como representantes da subjetividade humana, tem se perdido.

E essa perda é a conseqüência causada pelo cerceamento da voz da maturidade, que se encontra na fase adulta e anciã da vida, que hoje se submete sem poder reclamar, à ditadura do novo. Como elementos que suprimem os mais velhos, estão entre outros, a constante exclusão das pessoas, nos processos sociais, de entrosamento, entretenimento, relacionamento...

A opinião de um idoso é dispensada. E essa falta de respeito é reforçada entre muitas outras coisas e situações, pelo modo como as próprias instituições que lidam com gestão pública, em seus mais diversos âmbitos: saúde, educação, cultura, se comportam participando de maneira até inconsciente, na propagação do conceito que desloca o direito ao divertimento, à festa, enfim, a tudo o que diz respeito à celebração da vida, para o único ‘setor’ digno, capaz e eleito, para aproveitá-lo.

Como as crianças (não só de parque de diversão precisa uma criança), os adultos e os idosos podem participar da Festa da Juventude celebrando igualmente a alegria da vida? O que poderia ser oferecido aos santanenses que visitam a sua terra, ávidos de comemorarem o reencontro com os amigos? O que a comissão da organização do evento poderia proporcionar a essas pessoas?

Uma programação que compreendesse todo o tempo da festa e que respeitasse todos os segmentos sociais seria de bom-tom. Que se destinasse à promoção da cultura local, também. Ideias e habilidosos santanenses para levarem isso a termo, não faltam.







sábado, 25 de junho de 2011

Sobre as músicas dos forrós eletrônicos

Grupo de forró Pé-de-Serra  (Foto -WEB)
Ao se levantar a polêmica em torno da qualidade musical que as bandas, ditas, de forró eletrônico oferecem ao público, e que são contratadas pelas prefeituras municipais para animarem o São João, o cerne da discussão gravita em torno da linha divisória entre cultura popular e cultura de massa, como premissa para possíveis posicionamentos, sem contar com outros que também podem servir de ponto de partida. Ao ser questionada a pobreza das letras das músicas e as mensagens tendenciosas que denigrem a imagem da mulher, estamos entrando no universo da cultura e da arte amplamente bombardeados e esgotados em suas funções, como canais autênticos da interpretação do processo histórico da sociedade.

Esse bombardeio acontece de diversas formas e se estende para outras modalidades, onde certos elementos que faziam parte da nossa simbologia agonizam à pressa de serem engolidos sem deixarem vestígios. 

A discussão que envolve cultura popular e cultura de massa parece exigir sua ampliação para o entendimento do que também seja: popular e do que é popularidade, que são duas palavras distintas. E ainda entre situar o que significa ‘moderno’ e qual relação que esta palavra tem com evolução social.

Quanto mais o apelo comercial avança, mais o espaço da cultura e da arte genuínos fica reduzido. Isso pode ser o começo da explicação do expurgo que tem sido feito, violentamente, da boa música, do bom filme, do valor do teatro, do verdadeiro entretenimento, do prazer como fruição, usufruto, em detrimento da euforia vazia e de pouquíssima duração, sobre o que quer que seja. 

É o indício a alma da urgência, com a qual as pessoas se movem, curtem os shows, as companhias, a vida. Se observarmos com atenção, não estamos registrando quase mais nada do tempo que vivemos, porque tudo é descartável.

A mediocridade das letras musicais espelha a descontinuidade do ato de pensar, de inquirir, de questionar - qualidades que sempre foram elementos veiculados pela arte -, até mesmo o que a música em seu mau gosto está dizendo. 

A melodia repetitiva revela a falta de criatividade e aponta para certa inércia conformista por parte dos que consomem algo sempre igual, como se estivessem comendo uma mesma comida todos os dias, sem terem sequer interesse em saber se existem outros sabores. 

É como se dissessem: Está tudo bom assim mesmo. A facilidade com que os produtos ‘culturais’ de massa, são divulgados, promovem a popularidade que define o sucesso, que aprova o apelo, que determina o consumo e o gosto das pessoas, por isso ou por aquilo, ou ainda por ambos.

Há quem afirme que as músicas prestam e é por isso que as bandas fazem sucesso indo até para programas de TV, como o de Faustão. Isso é um exemplo da popularidade atingida pelos ‘produtos culturais’. Não de qualidade artística. Isso que se oferece é resto simbólico da nossa cultura. 

No sentido da ausência de signos que tenham analogia com o que representam e que transmitam uma consciência que simbolize a lógica, o sentimento. Essa ausência prejudica a nossa capacidade de avaliação, do conteúdo das músicas. Essas que denigrem abertamente a condição da mulher na sociedade são um exemplo. 

Se diversas músicas estimulam a traição masculina ou de ambos os sexos, e são vistas como comportamento natural, certamente a resposta estará no fato de estarmos vivendo tempos modernos. Será?

Em outras palavras acreditamos estar evoluídos demais. Saímos da condição de animais irracionais e progredimos para a consciência. Desenvolvemos a inteligência, os sentimentos, aprimoramos as relações com os outros e fizemos da arte e da cultura, locais de registro do avanço da nossa condição humana. 

Fizemos belas canções, pintamos obras de arte fantásticas, poetizamos a vida, mas, ao que parece, estamos abrindo mão de toda a nossa evolução. Queremos a urgência, o descartável, o inaudível, a inércia e a acomodação alienante. Pensar é um exercício doloroso...

Queremos apenas obedecer ao ‘dever’ de nos esquecermos da consciência que conquistamos, e mergulharmos na condição de atônitos buscadores de prazeres momentâneos exíguos. 

Nós, que estamos nos tornando tão miseravelmente descartáveis, quanto à maioria das músicas que nos mantêm apaticamente ‘entretidos’.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Viva São João do Carneirinho!


De cabelos cacheados, vestes feitas de pele animal, e trazendo no colo um carneirinho, São João Menino, entre bandeirolas, nos devota um olhar suave e um quase sorriso. No salão, meninas e meninos correm de um lado a outro, enquanto professoras se desdobram no ofício de contê-los, para enfim, formar a grande quadrilha. 

Olho em torno: decoração com palhas de coqueiro, música, balões, bandeiras que cruzam toda a extensão do lugar. Parece, a princípio, tudo igual há anos atrás. Os símbolos juninos ali estão presentes. Só faltou a fogueira, feita com papel celofane vermelho, imitando o fogo.

De um modo geral, tudo parece perfeito. Mas uma coisa chama a atenção e se destaca entre todas as informações visuais da festa: a produção das roupas das matutinhas. De alguns anos para cá, as adaptações feitas no vestuário das meninas é algo impressionante. 

Muito do traje simplório, aquela roupinha de chita, com babados rendados, chapéu de palha, sandália rasteira, está sendo trocado por uma extravagante indumentária que ‘sobrecarrega’ a representação simbólica e dificulta a própria leitura do símbolo. Essa observação seria o bastante para que se levantasse a questão da tradição, resgate cultural, com muitas opiniões a favor e contra.

A verdade é que as roupas vão para muito além do característico e recriam sobre o típico, algo apenas alegórico. Ou seja; os elementos do símbolo evoluem (?) para o distanciamento e para a quebra, possivelmente, da correspondência entre ele, o símbolo, e o simbolizado. É claro que as gerações que se sucedem trazem a sua marca e a imprimem ao seu tempo. 

Simbolizar é algo característico do homem, que vai, naturalmente, fazendo adaptações aos festejos. A palavra resgate, em se tratando de manifestações culturais, sempre me soa como se quiséssemos salvar algo, sem admitir adequações, como se, por exemplo, os festejos juninos tivessem que ser exatamente do jeito que aconteciam no nosso ‘tempo’.

A dinâmica mercadológica, alma do sistema econômico que regula e interfere diretamente em nossas vidas, tem determinado esse distanciamento entre o simbolizado e o símbolo, deformando-o e à sua essência. Isso acontece em grande parte, por não sabermos, no mínimo, o que celebramos. Por não conhecermos a importância dos nossos festejos e o que significam, e por isso vivê-los como uma festa apenas. Ou mais uma ocasião de ostentação estimulada pelo consumo. 

É possível percebermos a questão, na forma como as roupas estão sendo elaboradas. Os adereços fazem as crianças parecerem fantasiadas e artificiais. Contudo, é preciso que se recupere a mensagem dos festejos juninos, ensinando para elas o valor do simbolismo, o porquê das roupas, e o que se comemora.

A questão não é resgatar um tempo, mas recuperar a essência, a personalidade cultural de um povo. O que não se pode perder é a natureza do significado das coisas, porque nesse caso, não se corre o risco, quando das adequações que as novas gerações vão imprimindo, de haver a quebra e a perda desse significado, através da perigosa agregação de elementos culturais exógenos, determinados por valores que não são nossos, nem nos representam. 

Quando uma representação simbólica se perde, o ritual, como sendo a sua parte mais sagrada, se acaba e aí sim, começamos a ser e os nossos festejos, meras representações patéticas de não se sabe o quê.

Algumas crianças traziam chapéus de vaqueiro em vez de chapéu de palha. Uma excelente inovação. Afinal, isso reforça o símbolo do homem do campo, dançador de quadrilha, que festeja a alegria em ver sua roça de milho vingada. Alguns poucos vestidos traziam nas saias, pequenos bonecos de pano representando Maria Bonita e Lampião. Isso não era visto antigamente, mas é bastante louvável. 

Há uma atualização simbólica, que festeja elementos da nossa história regional. A maioria das meninas, no entanto, trazia o peso de vestidos enormes que dificultavam, inclusive, os passos de dança, sob o olhar envaidecido das mães, como produtoras.

Até quando São João do Carneirinho vai ter acesso aos festejos juninos? Porque a cada ano que passa, o verdadeiro espírito de religiosidade, como ritual, assim como a alma matuta da festa estão sendo esvaziados, sem que percebamos ou façamos algo para recuperá-los. Mas ainda dá tempo.





segunda-feira, 20 de junho de 2011

A infância estava aqui. Onde se encontra agora?

                                                                                                         Maria Eduarda
                                                                                            Foto: Elisângela Brandão

Antigamente e até os dias de hoje, ainda, a criança é vista com frequência pela maioria dos pais, como um pequeno adulto. Isso ‘justificava’ a forma como essas crianças são punidas quando fazem, naturalmente, coisas que é próprio de uma criança fazer. Não se entende que criança é criança. Afinal, a infância pressupõe além de uma etapa importante na vida de uma pessoa, um lugar especial de começar a prática de ser alguém. O mundo perfeito nessa fase da vida advém da inocência, que brota da própria condição de inconsciência infantil.

A criança é feliz, vivendo uma realidade que totaliza o seu bem-estar, mediante tudo o que a cerca. Sequer é capaz de entender a si mesma como alguém separada da mãe, durante o comecinho da vida. Mas será que essa definição de infância e de sua condição de harmonia, com um mundo perfeito, a qual se refere uma publicação intitulada: A Família – Conflitos e Perspectivas, da década de 1970, ainda são válidos nos dias de hoje?

São 41 anos que nos separam desses conceitos sobre a infância, numa contextualização brasileira, onde se questionava, por exemplo, como o sexo se manifestava na criança. Ali, especialistas no assunto, como Paulo de Tarso Monte Serrat, paulista, médico psiquiatra, premiado em 1999, com o Jubileu de Ouro, diploma de mérito ético-profissional, pontuava que os pais só percebiam tais manifestações quando a criança sinalizava através da formulação de perguntas que se relacionavam a origem dos seres vivos, identificados com a sua própria origem.

A recente leitura, que fiz ontem, no Portal CadaMinuto do excelente texto de Michelle Farias : Sexualização da moda infantil preocupa famílias alagoanas, traz para a reflexão questões que envolvem a oferta pelas lojas, de vestuário infantil - saliente-se feminino -, que expõe a criança a um tipo de expressão de sexualidade, bastante questionável. Destaco duas, que me chamam a atenção: o posicionamento dos pais a respeito do assunto e a presença da mídia como influenciadora do comportamento infantil acerca das roupas e acessórios sexualizados.

A ‘dobradinha’ entre a mídia e a criança, surgem com indícios que evidenciam o controle de ambos sobre a situação. É verdade comprovada, a influência que a mídia exerce sobre a criança. E a matéria é interessante justamente por trazer para o palco, uma amostra dessa realidade. Mas isso nos lança, de imediato, à ampliação desse horizonte identificador de criança e mídia - que são o somatório - do que não está explícito. Quem determina a ‘fragilidade’ da autoridade paterna e materna? Quem deve continuar no controle dessa situação? A mídia influenciadora? A criança que faz birra pra escolher e usar o que quiser ou seus pais?

Crianças, por mais espertas e inteligentes que sejam, são apenas crianças, que deverão sob a sadia influência dos pais, construírem os alicerces seguros dos adultos que serão. Somos nós os adultos, aqueles que sabem o que é bom para uma criança e o que não é. A seleção do que será concedido como alicerce a ela, cabe à gente fazê-la. Vermos as crianças como adultos pequenos, revela o quanto estamos confusos, quanto a nossa própria maturidade e nossa condição de adultos que precisam saber basicamente quem somos e o que queremos, e ainda o que é bom ou não, para ser excluído ou estimulado, dentro do ambiente familiar.

Talvez a ensurdecedora propaganda de liberdade total na criação dos filhos, diga-se, geradora dessa indisciplina, seja a causa de nem sabermos mais filtrar o que serve de alimento à formação de uma criança, nem mesmo à nossa. A educação voltada à sexualidade, não prescinde do olhar crítico refinado e de sabedoria, para que tenhamos a capacidade de avaliação do que, sobretudo, determina o comportamento das crianças frente à mídia. Antes dela e da sua influência, está a dificuldade dos pais em entenderem o que se passa, para serem razoáveis e manterem a autoridade que lhes compete, sobre os desejos das crianças.

Se não se tem maturidade suficiente, nem entendimento da situação, é possível que os pais também nem se apercebam do quanto estão sendo influenciados pela mídia. Sem se darem por conta renunciam ao dever de educar sexualmente suas crianças. Fazem parte das racionalizações, colocarmos a resolução dos problemas para além de onde estamos. Brecar um tipo de vestimenta é muito mais do que frustrar uma criança em seu desejo. É acima de tudo, estabelecer um parâmetro para educá-la sexualmente. É evitar que ela se vista para ser atraente, vendendo uma imagem sexual e não sensual centralizada no corpóreo, como único atributo feminino.

A única forma de coibirmos esse tipo de coisa é termos consciência do que ela representa como proposta e pressuposto norteador para nossas crianças, quantos aos futuros relacionamentos, que elas terão. Inclusive na relação e no grau de importância sobre seus próprios corpos. E essa é uma questão séria. Estamos literalmente permitindo a desvalorização e a redução do âmbito de valorização do sexo feminino, e em consequência, perpetuando um comportamento equivocado nas crianças do sexo masculino, em resposta à mensagem que permitimos que as meninas enviem, através da apelação do vestuário. Eis uma das razões, pela qual a atitude à nossa interferência na escolha do vestuário das crianças, é justificada, eficaz e resoluta.
De outra forma, permitimos a perda do espaço da infância no mundo atual. É um fato que a comportamento infantil cada dia se aproxima mais do adulto, com prejuízo à imaginação e à simbologia infantil. Mesmo com a diferença entre a nossa geração e a geração das crianças, haverá sempre a necessidade da imposição de limites, para que se possa obter uma consciência de vida social, que não exclua os perigos à sexualidade infantil.

A maior parte do sofrimento humano está ligada às relações humanas e às questões ligadas à sexualidade. A gente não pode deixar de querer aprofundar o assunto e se posicionar acerca disso. E tal atitude é dever, principalmente, dos pais.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Pão de Açúcar festeja seus 400 anos de povamento


Um lugar onde a lua beija as águas do rio São Francisco

Ano de povoamento, citado por Moreno Brandão. Claro, que baseado na versão histórica, registrada pelo colonizador português. Data de 1611, a presença das gentes; brancas e indígenas, que fizeram do lugar, diga-se de passagem, belo, local de moradia para todos. Antes, porém, ainda segundo o jornalista, historiador, poeta e, sobretudo, pãodeaçucarense, Moreno Brandão: Havia apenas um troço de índios Hurumari e uma floresta bonita, ao pé da qual o São Francisco deslizava embalando a sombra verde dos cedros altos”.

O que quer dizer que os nativos da região já ali se encontravam, desde antes da chegada dos portugueses; vivendo, pescando, caçando e admirando as noites de luar, onde a lua beijava as águas do Velho Chico - o Rio Opara dos indígenas -, que em Tupi Guarani significa rio-mar. Mas, convenhamos, que a pesquisa do historiador, embora não contendo dia ou mês, registra o acontecimento em tal ano.

É no decorrer do ano de 1611, no século 17, que no Brasil começa a ser construído o convento do Carmo, no Rio de Janeiro. Em Portugal, Dom João Coutinho assume o cargo de reitor da Universidade de Coimbra e em Londres, no Palácio Whitehall, acontece a primeira apresentação da peça: ‘A Tempestade’ de Shakespeare.

Pão de Açúcar, a Jaciobá dos Hurumari, de uns tempos para cá escrita em nova grafia: Urumaris, localizada no que hoje é a semiarideza alagoana, era reconhecida como povoação, enquanto lá fora, para além dos mares, a Europa ostentava a sua garbosa condição de continente civilizado. Aqui, nossa mata ainda virgem, repleta de verdes, como se fora um paraíso, começava a se chocar de fato, com a realidade da cultura do trabalho do homem branco, antagonista à cultura do trabalho indígena.

Aqui, onde os costumes do colonizador, que compreendem além de outras especificidades, uma fé e uma religião, seriam impostos à força ao nativo, a partir de uma visão e de um conceito etnocêntrico. Aqui ainda, os conceitos pejorativos e ditatoriais de ‘cultura’ intrinsecamente associados à civilidade, passarão a vingar. Comportamento e premissa que, infelizmente, persistem e norteiam posicionamentos de muita gente, até os dias de hoje.

Porém, lá atrás, há não apenas uma história, mas diversas histórias, que vêm sendo tecidas e que constroem um mosaico dinâmico e efetivo, da relação entre povos, costumes, religião, olhares e experiências que se confundem ao longo do tempo, e que conta parte da trajetória feita dos que estamos vivendo a realidade dessa ampla miscigenação, da qual somos frutos, herdeiros e representantes.

A cidade se prepara para no mês de julho comemorar os 400 anos do seu povoamento. Durante as comemorações não podemos esquecer a marca indelével que, mais do que trazemos, somos, de vários povos e várias histórias. Minha bisavó materna era neta de índios, meus avôs paternos eram descendentes de portugueses. Somos os pãodeaçucarenses, inumeráveis, em cada um que somos. Vimos e louvamos com a voz e os olhos dos nossos antepassados indígenas, o espelho da lua: Jaciobá.

E dos nossos próprios olhares, conferimos o registro histórico dos nossos antepassados portugueses, sobre a mesma lua bela e brilhante que faz do lugar e de sua gente, expectadores e testemunhas do seu reflexo sobre as águas do Velho Chico.

Cidade Branca... Não há outro nome tão significativo ao lugar quanto o que o chamavam os indígenas. Torno minhas as palavras de Jorge de Lima, poeta alagoano, quando lamenta em seu poema, Rio de São Francisco:

“Jaciobá - espelho da Lua, por que te chamam Pão de Açúcar?”

terça-feira, 7 de junho de 2011

No campo de aviação em Santana do Ipanema

Mais estarrecedor que ver através dos vídeos amadores, cenas do capotamento da Hillux, que terminou com a morte de uma pessoa, no Campo de Aviação em Santana do Ipanema dias atrás, é acompanhar a reação e o comportamento das pessoas, segundos após as mesmas cenas que são, de fato, chocantes. Em dois novos vídeos divulgados aqui no CadaMinuto, ouve-se expressões que detonam a nossa noção do que significa a palavra chocante, porque se apresentam e acabam se convertendo em falas bizarras, que denunciam e servem como termômetros às emoções, como apreciações generalizadas, certamente,  acerca da juventude.

Na sequência de imagens a ‘plateia’ invade o palco da cena principal correndo. Alguns, é verdade, caminham meio atônitos, enquanto a música local continua a tocar alto, ainda, por algum tempo. Alguém próximo daquele que está registrando a ocorrência, talvez quem sabe(?) o próprio cinegrafista amador, fala com uma voz cheia de adrenalina, como se estivesse assistindo cenas de um filme, desses que espetacularizam ações humanas e que nos dão a impressão de que somos super-heróis imbatíveis. Será que se espera que, naturalmente, a vítima arremessada para fora do automóvel, se levante imediatamente após a queda, limpe a poeira do chão e, sorridente, acene para essa mesma plateia, sob os seus aplausos?. 

Caralho véi, caraca véi, a maior queda do cara no chão aqui...” São exclamações que soam emocionadas. Sim, porque a gente costuma acreditar que a palavra emoção só se destina àquilo que vem para fora da gente, como manifestação de bons afetos. As emoções questionáveis também são afetos. Afetos ou afetações questionáveis?. Digamos que o que se ouve são quase afetações. Enquanto isso a gente passa um tempão envolvido com as cenas capturadas pelo vídeo. Temos os ouvidos surdos e corremos o risco de não percebermos que o que está fora desse foco, também está contido na cena e participa igualmente, mesmo quando do recorte feito pelo vídeo, de uma realidade dialética, acontecendo, vista como sendo apenas, coadjuvante dela mesma. O que fica imperceptível à maioria é o cenário completo, subtraído pelo espaço do visor, onde o espetáculo enfoca o que fica aparentemente intangível: o espectador e a sua reação.

É justamente a plateia que sinaliza a emoção através dos afetos que também precisam ser capturados da cena. Logo por trás da imagem que nos absorve, está imerso à maioria, o som das vozes, que deveríamos ouvi-las também. Estamos tão acostumados à leitura da imagem (e que leitura!) que abrimos mão de todos os outros sentidos que nos auxiliam na significação dos acontecimentos. Parece que o que acontece ‘dentro’ do visor, extrai dele a realidade geradora daquelas imagens, criando uma experiência unicamente virtual, em forma de fantasia. Daí que toda a análise da ocorrência tende a ser feita dentro dos limites desse recorte tecnológico, enquadrada pelo vídeo-amador. Mas o que excede desse contexto focado pela imagem, contém, senão respostas relevantes, a indicação para se investigar o comportamento e afetividade dos jovens.

Os acontecimentos são o palco onde as relações e reações de afeto, solidariedade e o respeito às pessoas, exibe um perfil de significação da vida. Acompanhar com atenção a fala desse jovem deveria ser uma questão séria de escuta, para a sociedade. Que mundinho é esse, onde a disposição à euforia é visível, pelas alternações da voz de um rapaz, e parece ilustrar um momento de privilégio em estar ali e em assistir cenas tão espetaculares? Coisas que a gente vê em filmes. O sentir, o medo de perder a vida, o ser solidário à vida do outro é sentimento disponível somente para ‘gente velha’. Tem-se a sensação de que o elo coletivo de preservação à vida, como condição comum a todos, está sendo quebrado. Mas, se a vida do outro não me interessa, é porque não estou conseguindo entender o valor da própria vida.

No geral tem-se a impressão que estavam os jovens, em uma daquelas arenas romanas, onde gladiadores recebiam o indulto da vida, concedidos por expectadores eufóricos, ávidos de cenas sangrentas, como entretenimento. Isso que parecia estar lá atrás, diante desses quadros apreendidos da realidade, se mostra agora sob outros aspectos, que incluem as demandas da sociedade atual. Essa, que quando em anos atrás, prenunciava transformações, a minha avó dizia ironicamente: “são os ‘refitetes’ da bela sociedade” (nunca encontrei essa palavra no dicionário), mas ela bem que poderia constar na lista das palavras que englobam estranhamentos, diante do que temos visto e vivido ultimamente.

Com algumas ressalvas, o segmento jovem deste nosso mundo moderno, parece não prescindir de pão e circo, como mecanismos necessários para curtir a vida. Mas que tipo de alimento e de que diversão eles precisam? Da euforia estampada através de reações que contrariam a nossa lógica de preservação e sobrevivência ou do entusiasmo real pela vida?  Cavalos de pau constituem uma das manifestações visíveis dos desafios e do espírito de aventura tão freqüentes no comportamento dos jovens de todos os tempos. Cenas que dão mostras do real perigo dessas brincadeiras, como o fim de uma vida humana, remetida pela porta de um veículo que capota sob o olhar da plateia, mostra que pelo menos um dos conceitos de entretenimento atual, pode incluir como requisito de diversão, um perigo ainda maior; a banalização da vida.

Ainda que a maioria presente ao local não tenha presenciado o acidente através da captura de uma lente, parece haver, com exceções, é claro, um compartilhar coletivizado, na ultrapassagem de um limite essencial entre o real e o fantástico, que infelizmente, já dispensa a sensibilização, como reação natural de humanidade. Os acidentes e suas consequências ocorrem, mas se transformam em cenas isoladas, detonadoras de notícias e euforias impactantes, como um merecido espetáculo que agrega ‘valor’ e frenesi ao entretenimento. O significado da vida vem apresentando ‘ruídos’ que acontecem dos vazios provocados pelo barulho ensurdecedor dos divertimentos sufocantes, exauridos na ausência de sentidos mais profundos e nobres da existência humana. É urgente que se atente sobre isso.