domingo, 31 de julho de 2011

Amor declarado

Ester foi desta para uma melhor. Morreu como o hamster de Negão; silenciosamente, num cantinho da gaiola. Só demos fé quando as formigas começaram a rodeá-lo. Deitadinha virada pra parede deu um suspiro agoniado curto e rouco, e quando a gente foi acudi-la, ela já tinha ido embora. 

Dois dias antes, eu tinha chamado o padre Inácio lá, que levou os santos óleos para benzê-la. Foi dar a Unção dos Enfermos a ela. Aquele óleo roxo eu fui ver pra que servia: era pra fortalecê-la na provação da doença e dar força pra ela enfrentar a dor e a morte, que a gente notava, àquela hora, ser da vontade de Deus. ‘Reze comigo dona Ester’ dizia o padre. O que? Ela respondia. É pra rezar o quê?

Todo mundo que estava no quarto riu. O dia da morte se aproximando e ela fazendo graça. Não estranhava morrer não. Nunca estranhou.  Lembro quando o meu primo Maneco bateu as botas. Ela não derramou uma lágrima sequer, que não tinha precisão disso não, minha gente. “Só chorei quando a minha mãe morreu e pronto. Tem precisão disso não”, e avisou à Anita, a mulher dele: “Veja lá mulher, arrume o Maneco bem direitinho, que é pra ele não chegar no céu desarrumado”. 

Olhando pra ele dentro do caixão no meio da sala, todo aprumado, dava até vontade de rir mesmo. Ia bonito sim. Maneco ia que ia, uma beleza, para a derradeira viagem. Odeto, e não sei como se coloca um nome desses num homem, o seu marido, quando morreu, na hora do féretro sair de casa, Ester disse alto pra quem quisesse ouvir: “Vá simbora hôme que eu não quero me encontrar com você tão cedo!” 

Na hora do jantar pensei nas coisas dela. Nas suas gavetas que seriam reviradas pelos familiares, naquelas panelas velhas cheias de remendos feitos com durepox, na gravura do Sagrado Coração de Jesus pendurado logo na primeira sala, numa parede de frente pra porta da rua. Pra onde iria aquilo tudo? Aí voltou a preocupação que eu tenho de morrer sem estar esperando, assim de surpresa, e deixar meus escritos, minhas calcinhas com os elásticos sem validade, umas coisas precisando de conserto, meus perfumes novinhos, ainda na caixa. ‘Olhe João, se eu morrer primeiro do que você, entregue a minha câmera fotográfica pro Negão, que é dele’. João me desacredita me olha de través e diz, enfezado a depender da hora, que jogo muita conversa fora: ‘Mulher, não gaste pensamento com besteira, não. Vá pensar em coisa real pra fazer’. Ora, e morrer não é real, não? Outro dia quis explicar um pensamento meu, sobre que talvez a gente fosse as personagens de um sonhador universal, cósmico, será?. Será que somos parte de um sonho? E ele me repreendeu com um: ‘por favor, não estou a fim de ouvir devaneios essa hora, me desculpe’.

Quero dizer a João que cheguei à conclusão de que Ester, como quase ninguém faz ou entende, sabia que não se pode separar a vida da morte. Que as duas andam de braços dados. Que é preciso estar vivo para depois morrer. Era sabida até demais, Ester. A confirmação de certos pensamentos meus, aparecem quando menos espero. Chegam assim, assim. Tento puxar conversa com ele. Entabulo uma, aliciente, começando pela chuvarada boa que cai. ‘Estará chovendo em Lagoa Grande, hein, rapaz? A comida ta boa? Quer mais suco?’ Fico rodeando ele pelas beiradas, até chegar ao miolo: ‘O que será que os familiares encontram nos pertences de quem morre? Alguns segredos? ‘Você que acha da ideia, de que viver e morrer, são opostos que se alternam sem parar? ‘Eu não acho é nada. E pronto’. Coitado! João tem um medo danado de morrer.

Hoje de manhãzinha, chuvinha fina caindo, eu preparando o café, ele chegou à cozinha anunciando: ‘às cinco da tarde vamos acompanhar um enterro’. É que a tia Maria descansou e Audálio ligou pra ele avisando. Na ida fui contando o tanto de gente que já morreu. Umas cem caminhadas a cemitérios, nesses anos todos. Será? É coisa pra se anotar num caderninho, senão a gente perde a conta. Só nesse ano já foram umas seis vezes. Na volta pra casa, João foi tomado de uma clareza de consciência tamanha, que me assustou. Até aceitou que vai morrer um dia e me disse pesaroso: ‘sabe mulher, eu queria deixar tudo certinho antes de morrer, porque se eu for primeiro, você fica sem humilhação de nada, sem se apertar por dinheiro, essas coisas... ’ Parece até meio amoral da minha parte, mas me peguei fazendo uma porção de planos para o caso de eu ficar viúva: vender o carro velho, jogar aquele guarda-roupa aos pedaços no lixo, comprar outro novinho, colocar chuveiro elétrico nos banheiros, mandar fazer móveis pra cozinha... 

Olhei pra João que naquele instante, aos meus olhos assumiu sem saber, um jeitão de herói. Comparando bem, um santo, com auréola na cabeça e tudo. Ele ficou desse tamanhão. Um mundo de dignidade. Um homenzarrão. Me senti grata. Uma espécie de admiração por ele me tomou todinha. E se eu disser que chega me arrepiei? Aquilo saindo da boca dele, numa hora daquela, soou como declaração de amor e me deu uma certeza egoísta medonha. Sabe que lá bem dentro de mim eu fiquei foi feliz? ‘E não é que esse homem me quer bem mesmo?!’

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Ocupar o Conjunto Carminha é mesmo uma resposta à população alagoana?

O problema com os envolvidos com o tráfico de drogas é maior do que se imagina

Está claro que alguém ‘entregou’ Maria de Lourdes Farias de Melo, uma mulher jovem, de 26 anos, mãe de filhos dependentes dela ainda, aos traficantes de drogas do Conjunto Carminha, no Benedito Bentes. O modo cruel que caracteriza o perfil do grupo causa verdadeiro terror aos moradores do local e em quem quer que seja. Muito pior do que isso é o medo de saber, que entre a população e os traficantes, existe alguém que tem acesso aos dois lados e é um perigoso delator.

A história de horror, com requinte de crueldades, começa a ser conhecida pela sociedade alagoana de forma direta. Antes, a distância entre nós e o lugar onde episódios iguais a esse e outros que presenciamos recentemente, aconteciam, era o elemento que nos mantinha temporariamente seguros. A crença de que isso só acontecia nos grandes centros, caiu por terra. Estamos vivenciando aquilo que assistíamos a pouco tempo, pela TV.

O que é evidente, é que não existe para os habitantes do conjunto, mais do que duas alternativas: ou se permanece calado ou se vai embora. O castigo para quem procura colocar o dedo na situação existente é a condenação à morte. Coisa que o grupo faz questão de deixar claro, através de apresentações visuais bizarras. Quem não pode ir embora, tem que ficar calado.

Por que então, dona Maria de Lourdes não se calou? Será que um dos seus filhos estava sendo aliciados pelos traficantes? O que a incomodava tanto? Não se sabe por quais motivos ela preferiu se arriscar. Talvez fosse ingênua, ao ponto de não entender que assim o fazia, e que escondidos por trás dos traficantes, estão redes criminosas organizadas, organismos legalizados que exercem o poder, que têm porte de armas e que veiculam trocas de informações que favorecem a todos os envolvidos em dividirem os lucros da venda de drogas.

Não seria menos infantil da nossa parte, achar que esses grupos agem sem nenhuma logística, sem apoio ou sem parcerias. Eles são apenas a parte apresentável da sujeira, que inclui corrupção, tráfego de influência, comparsas delatores. São as pontas de lança dos senhores arqueiros que estão lá no topo das organizações derramando e garantindo a manutenção das drogas. O alimento apodrecido à sociedade já comprometidamente doente.

Se a informação dada por um morador do Conjunto Carminha: a de que Maria de Lourdes teria sido morta, brutalmente, por estar passando informações para a polícia for comprovada, por que a polícia não começa seus trabalhos investigando quem entregou a mulher aos traficantes? Quem é o perigoso ‘cabueta’ que funciona como, digamos, agente duplo, que transita entre a polícia e os traficantes, tem conhecimento das denúncias e de quem os denuncia?

terça-feira, 26 de julho de 2011

Zeneto: o telegrafista que virou cronista


Zeneto: o telegrafista que virou cronista
Portal Maltanet

Conversei em entrevista com José Peixoto Noya, conhecido como Zeneto, que lançou no último sábado, 23, o seu primeiro livro de crônicas, intitulado: O Marechal que Virou Major. Natural de Santana do Ipanema, filho de Darras Noya, chefe dos Correios por 30 anos e que tem o seu nome dado ao Museu de Arte da cidade, e de dona Marinita Peixoto Noya, outrora diretora do histórico Grupo Escolar Padre Francisco Correia e uma das primeiras professoras estaduais, o cronista aposentou-se como funcionário público federal. Foi telegrafista do antigo Departamento dos Correios e Telégrafos, e encerrou a carreira, no antigo Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, atual DNIT.

“A “turminha” de Santana na década de sessenta em diante era muito unida, principalmente quando o motivo era falar dos outros em uma boa farra, geralmente no Cabaré de Jaraguá, a única Universidade do gênero em que se valia a pena freqüentar.” (da crônica: Boate São Jorge)

Zeneto começou escrevendo crônicas sem a intenção de ser cronista. Muitos dos seus textos encontram-se no Portal Maltanet, que tem oportunizado espaços em seu site, aos conhecidos talentos da cidade, além de revelar outros. A ideia de publicá-las surgiu naturalmente.

O autor, como todo bom cronista, lança múltiplos olhares sobre temas próprios do seu tempo, registrando histórias pitorescas de pessoas reais, que se tornam através da literatura, personagens principais de casos hilariantes, reveladores, frutos da construção do ser humano.

Sua crônica tem o poder de requisitar e extrair do cotidiano, figuras que nasceram, trabalharam e viveram sua existência, principalmente em Santana do Ipanema, como o palco que abrigou as inúmeras vivências, que sem serem colhidas e transformadas em livro, passariam silenciosas sob o manto que esconde idiossincrasias; essa forma de ver, de reagir e sentir de cada um.

A leitura dos seus escritos concede ao leitor entrar pelos recortes feitos da memória. Seus relatos pontuam parte da história santanense exposta à temporalidade, esculpidos nas ações do povo da sua terra, numa abrangência tal que inclui os mais diversos setores sociais da cidade. Zeneto traz para o presente a vida de conterrâneos, seus serviços prestados à comunidade, e nos coloca ao mesmo tempo, dentro desses lugares, agora, atemporais.

Para o autor, o livro tem essa missão: a subversão do tempo, como objeto de recuperação de cenas prosaicas da vida cotidiana, através da edição de feitos e casos passados. O cinturão, Mané Buchudo, No Fim do Fio do Espinhaço, são algumas das crônicas do autor as quais li recentemente. Tratam de histórias que envolvem lembranças parentais, de funcionários públicos e amigos. São entremeadas de detalhes sobre o funcionamento de repartições, datas, cenários.

Zeneto, enfim, nos contempla e compartilha conosco do vigor da sua memória, com a história, e nos deleita com suas saudades, que nos tomam, deliciosamente.

Vale a pena conferir!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Família Brandão - 'ala feminina'

Thaminha, Didada, Ely e Babi Brandão

Elas...

Núbia, minha cunhada e Babi, minha sobrinha

Meus irmãos: Paulinho e Thaminha. Atrás: Dadinha, Ely, Eu e Núbia

Babi, Ely, Thaminha e Didada

Família Brandão

domingo, 17 de julho de 2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

Dos mistérios brancos da névoa

Manhã de neblina - Foto WEB
A viagem aconteceu por dentro da neblina espessa. A paisagem escondida em uma brancura fosca me obrigava a acender todos os sentidos. Lembrei da cegueira branca de Saramago. Seria assim? Lembrei também de quando me sentava no batente da porta com Francisquinho. Éramos crianças. Ficávamos de adivinhar quem se aproximava. Tudo era vulto esguio no meio daquela alvura toda. Eu expirava o ar pela boca para ver a fumaça fria saindo por ela. A neblina dava tangibilidade às nossas vozes. Francisquinho me dizia sorrindo e todo cheio de inocência, que a cor da voz da gente era branca. Brumosa bruma, alva, era tudo parecido com a poesia de Cruz e Souza.

Jásper chegou de mansinho, ergueu o rabo peludo e passou entre a gente se enroscando dengoso, querendo mimo. Nenhum pingo de sol e já era dia. Uma manhã de final de julho, próxima do meu aniversário. Novos vultos alongados. ‘Hoje não chove, vai fazer um solzão’. Uma voz de dentro de casa falou sozinha pelos corredores: ‘Hoje faz é sol!’. Francisquinho absorto entre a visão esbranquiçada do tempo e os passos que se aproximavam na calçada, nem ligou em saber o porquê de não haver chuva naquele dia. Mas eu quis saber: ‘Você adivinha é Raulina?’ Adivinhava não. Aquilo ali, neblina, era sinal de que a chuva estava suspensa no céu. Paradinha, paradinha. É aviso do tempo, que o povo mais velho sabia, e eu aprendi com a minha mãe. Você sabia que quando é de noite e não tem estrela no céu é porque vem chuva? Ah! Isso eu sabia, que meu pai já tinha me ensinado.

Voltei à vista para a estrada tentando enxergar as coisas lá fora. Nadinha. Os vidros opacos, como as garrafas frias na geladeira, suadas, aumentaram o frio que eu sentia. Por falar nisso: Que fim levou aquela garrafa de alumínio tão boa? As coisas vão sumindo da vida da gente e a gente só sente falta desse jeito. Uma lembrança puxa a outra. O motorista do carro, homem novo, tentou puxar conversa com a moça que ia do lado: ‘Se prepare pro sol que vai fazer mais tarde!’ Sem resposta, ficou de se concentrar na estrada, meio desapontado. Eu, por minha vez, pensei no perigo de ter um animal solto em qualquer trecho da pista adiante. Antecipei-me neurótica. Quis divisar surpresas desagradáveis, me proteger do impacto, sair sã e salva, caso acontecesse um acidente. Cadê o sol que não aparece?

Aos poucos aquela alvura toda foi subindo. Francisquinho era um agasalho só, de pijama de flanela, meias, casaco quentinho, tudo em cores ideais para meninos, e eu também, estampada de florzinhas sobre um pálido amarelo. Uma nesga de luz apareceu lá pras bandas da torre da igreja. O homem que vendia peixe, a mulher da tapioca, meu pai trazendo o pão da Rua de Cima, a mulher loura e de olhar penetrante, carregando uma sombrinha pendurada no braço direito, ia trabalhar nos Correios. Todos surgiram do nada e abandonaram a condição de fantasmas. Reconhecíveis, romperam e encerraram os mistérios brancos da névoa, esse vão imenso, onde em determinados momentos, a cegueira tem a cor da luz.

É isso, quando voltar para casa, vou procurar a minha garrafa de alumínio. Não. Vou procurar saber é de Raulina, que faz tempo que não a vejo... Que tipo de cegueira é essa na vida? Ô meu Deus, dai-me aquela que tem cor. Como o cultivo da amizade, de quem se gosta tanto, pode ficar escondido na parte obscura da neblina?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

As escolhas determinam quem somos


A tarde de ontem foi uma daquelas: tipicamente hibernais. A chuva e o frio chegaram juntos. A casa vestida sobriamente mergulhou-nos em sombras próprias e em um silêncio quebrado por pingos rítmicos e pesados, de quando as águas se precipitam fortes sobre os telhados, e caem no chão. O inverno parece que chegou de verdade por aqui. Esses dias teimam em me levar de volta ao passado. Ontem, porém, acomodei as lembranças num lugar bem cuidado da memória e escolhi ver filmes.

Vi duas histórias que envolvem conflitos humanos, sob dois aspectos diferentes, mas que no final caracterizam as escolhas que estão sempre nos sendo ofertadas pelas circunstâncias da vida. Ao final, aquilo me fez pensar sobre que escolher algo, pressupõe estarmos diante de mais de uma oferta. E que cada uma delas aponta para caminhos diferentes, possibilidades diferentes, resultados diferentes. Muitas vezes, senão todas, escolher é arbitrar conflitos. 

Decidir implica em colocarmos na balança, muito mais que pesos e duas medidas. Como fazemos nossas escolhas? Quais os parâmetros para decidirmos entre uma coisa e outra? Toda a intenção para situar a importância de sabermos escolher, passa pelo crivo de termos consciência de que a todo instante estamos diante de opções e de identificá-las. O certo é que os caminhos que fazemos no decorrer da vida, sempre nos levam a alguma coisa, a algum lugar ou a lugar nenhum.

E o pior é que só numa determinada altura da vida, é que surgem, para valer, os questionamentos em busca de premissas, que justifiquem o onde, o quando e o porquê, de estarmos em determinado lugar ou situação. De sermos o que somos, satisfeitos ou não com isso. É nesse ponto nevrálgico que nos apercebemos que as escolhas sempre existiram e que muitas vezes não tivemos a clareza de enxergá-las. É que nunca ou quase nunca, demos atenção a isso.

Nascemos e fomos ‘escolhidos’ desde muito cedo, pelas verdades do senso comum, arraigadas por processos culturais estanques, por instituições políticas e ideológicas, sociais e religiosas preexistentes, por valores familiares ‘hereditários’ transmitidos, que juntos e com seus dedos em riste, nos apontaram os caminhos para fazermos estradas, o modo de vida para seguirmos, e até os modelos de felicidade que não ousamos sequer duvidar. A possibilidade de livrar-se dos véus da ilusão, do emaranhado e arcabouços estruturais que nos prendem - ao que parece -, só se dá quando caminhamos lá pela metade da vida.

A existência da humanidade meteu-se em mecanismos cruéis. São eles que escolhem a vida que teremos, antes mesmo de conhecermos o que significa escolher. A verdade é que muita gente pode bater o pé e dizer que vivemos a liberdade de escolha. Escolhemos a roupa que compramos e o livro que lemos. O filme que vamos assistir e o carro que adquirimos. Mas não compreendemos nem conhecemos, a influência de sob qual signo, as nossas escolhas vão sendo orientadas.

O índice, como signo, aquele que reina em um mundo de constante simulação, supõe que o conhecimento de algo pode não ser provável de acontecer ou mesmo ser, senão em aparência muito reduzida. A verdade é que somos impregnados e influenciados em todas as extensões dos nossos atos, quando nossas escolhas não estão submetidas aos níveis de consciência e conhecimento de juízo de valor pessoal.

Hoje amanheceu chovendo forte. Nem sempre uma manhã sombria é determinante para que se acredite que choverá o dia inteiro. Agora mesmo, contrariando o que quase tive certeza de estar acontecendo, o sol apareceu... Isso é tão-somente um detalhe. Chovendo ou não, escolho, para hoje à tarde, entre me refugiar nas lembranças do passado ou assistir outros dois filmes, a segunda opção. Quero estar envolvida com as leituras de imagens que me darão a possibilidades de pensar a vida no tempo presente.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Santana do Ipanema/AL Foto - WEB
Ontem (6), Santana do Ipanema, através da prefeita Renilde Bulhões, convocou a mídia local para anunciar a programação da 49ª Festa da Juventude/2011. A principal e talvez mais esperada informação trata-se da atração Cavalo de Pau.

O evento não vai acontecer. Decisão de bom senso, pelo menos até que o acontecimento seja - pelo menos como querem alguns -, transformado em esporte, atendendo a regras e normas próprias. Agora é esperar para ver a recepção e os efeitos dessa notícia sobre os fiéis freqüentadores da festa. A comissão organizadora tem às mãos um excelente termômetro, quando da avaliação dos resultados no final do período festivo.

Diante da suspensão da atração, os jovens santanenses, ao que parece, nada fizeram ainda para preencher essa lacuna, já que partiu dos próprios jovens de anos atrás, a ideia da brincadeira. É de se imaginar com isso que a frustração foi superior, e em muito, à aceitação do desafio, de tentarem reinventar ou criar uma nova atração. Talvez nenhuma outra ‘diversão’ seja tão detonadora de adrenalina como aquela. Mas, para a alegria da maioria, não faltarão os shows que atraem tanta gente.

Seguindo a mesma pauta e orientação dos anos anteriores em sua programação, a Festa da Juventude traz os mesmos ingredientes das outras edições. É isso: Se a opção em editar a receita de sempre, garante a satisfação da maioria, é ela quem vence. Afinal... Em time que está ganhando, não se mexe, já diz o velho ditado.

Aí está a tão esperada programação:
   11.07.11 - Segunda-Feira 
Local: Tênis Club Santanense
18h00 – Torneio de Buraco
              
12.07.11 – Terça-Feira
Local: Tênis Club Santanense
18h00 – Torneio de Buraco
 
13.07.11 – Quarta-Feira
Local: Ginásio de Esporte Cônego Luiz Cirilo
19h00 – Torneio de Futsal
 
14.07.11 – Quinta-Feira
Local da saída: São José da Tapera para
S. do Ipanema
09h30 – Corrida Ciclística
Local: Olho D’Água das Flores para
S. do Ipanema
15h00 – Corrida Pedestre
 
15.07.11 – Sexta-Feira
Local: Praça Dr. Adelson Isaac de Miranda
20h00 – Escolha da Rainha da Juventude
Show Artístico
21h00 – Garota Safada
23h00 – Galã
01h00 – Soddy Guetto

16.07.11 – Sábado
Local: Largo Cônego José Bulhões
12h30 – Corrida de Jegues / Desfile de Carroças de burros
Local: Tênis Club Santananse
13h00 – 12º Reencontro da Festa da Juventude
Local: Largo Cônego José Bulhões
14h30 – Competição de Som
Show Artístico
Local: Praça Dr. Adelson Isaac de Miranda
20h00 – Jorge de Altinho
23h00 - Eliane
02h00 – Rafael e Gabriel
 
17.07.11 – Domingo
11h00 – Gincana Motociclística
14h00 – Gincana Automobilística
Show Artístico
Local: Praça Dr. Adelson Isaac de Miranda
21h00 – Saia Rodada
23h00 – Calcinha Preta
01h00 – Max Lima 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

À minha gente de Pão de Açúcar: Agora é pensar o futuro!

Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus em Pão de Açúcar/AL

O Iate Clube Pão de Açúcar foi palco da mais importante celebração do aniversário de 400 anos da fundação da cidade. As famílias foram chegando e encheram a pracinha em frente ao local. Já ali tinha início os momentos de grande emoção entre os conterrâneos, a alegria do encontro, os abraços fraternos e as conversas animadas. Às 19h do dia 1º de julho tivemos, a gente de Pão de Açúcar, o extremo orgulho de sermos filhos do Espelho da Lua.

Acomodados no salão do clube, misturamos os tempos, num grandioso momento metalingüístico: uma história acontecendo para fazer a leitura de outra já feita. Presentes e ausentes estivemos unidos pela memória. Os homenageados receberam por direito, o justo merecimento de saírem das fronteiras erigidas por aqueles que criam títulos de honra para alguns poucos, geralmente políticos ou ‘bem-nascidos’, e deixam os demais no esquecimento, como simples figurantes de suas narrativas de privilegiados. A cidade é feita por todos.

A festa ressuscitou ausências. Para cada nome evocado, delirávamos em nossas saudades, à memória dos seus rostos, das suas características, da sua função social. Pedreiros, pescadores, professores, artesãos, músicos, o artista Joãozinho Lisboa, poetas, médicos, serviçais da saúde pública do antigo F-SESP. Quem pode esquecer a saudosa Lu, a merendeira do Bráulio Cavalcante? Além dela, conosco estavam todos aqueles que resgatamos pela lembrança do nosso afeto e reconhecimento.

Mas é também grande o sujeito que perambula pelas ruas. O pedinte e o louco que se tornam presenças emblemáticas no cotidiano do lugar, e que fazem parte de nossas saudades quando desaparecem. À minha geração, Maria-Doida, Cassimiro, além de tantos outros, produziram cenas e pérolas espetaculares para uma espécie de ensaio literário virtual, que resiste no imaginário da população, através de atitudes e comportamentos, extravagâncias e excentricidades, que jamais passariam despercebidos por nós.

Faço questão de salientar e fazer jus, à figura legendária de Rosa de Lia, negra centenária, da qual sinto orgulho de ter sido sua amiga íntima. Ela, que conhecia como ninguém, o retrato e a alma da cidade, as famílias que habitavam a Pão de Açúcar do final do século 19, as histórias pitorescas, além de ter sido a memória viva das gentes e da terra de Jaciobá, tão mal aproveitada por todos nós. Foi-se com ela, sem sombra de dúvida, o maior cabedal de um tempo, que faz parte do arquivo morto, ficando na condição que meu grande amigo, o poeta conterrâneo Zé Paulo, nomeia como ‘desvio de cultura’.

É o ponto negro que surge do vácuo da ausência da ‘fotografia’ de certo período da vida da cidade. Nele, ficam soterradas as pessoas, suas produções de cunho artístico, cultural, etnográfico. É por isso que Pão de Açúcar precisa de imediato, conferir e preservar feitos e nomes do presente, trazendo para a realidade tangível os fatos e os elementos que marcam a sua trajetória. Isso requer a criação de instituições que materializem, atualizem, agreguem e legitimem a alma do seu povo. Como faremos isso acontecer?

Em 2011, poetas, músicos, artistas, artesãos, escritores, médicos, loucos, populares, também estão atualizando, construindo e escrevendo as páginas da vida em Pão de Açúcar. Quem é a essa gente? Quem são essas personagens? Parabenizo a iniciativa dos gestores públicos e da sua equipe de assessores, pela bela iniciativa, decerto inesquecível para todos nós. Agora é a vez de recolher, cuidadosamente, tudo aquilo que constará das futuras memórias para as novas gerações. Não há tempo a perder!