terça-feira, 12 de julho de 2011

Dos mistérios brancos da névoa

Manhã de neblina - Foto WEB
A viagem aconteceu por dentro da neblina espessa. A paisagem escondida em uma brancura fosca me obrigava a acender todos os sentidos. Lembrei da cegueira branca de Saramago. Seria assim? Lembrei também de quando me sentava no batente da porta com Francisquinho. Éramos crianças. Ficávamos de adivinhar quem se aproximava. Tudo era vulto esguio no meio daquela alvura toda. Eu expirava o ar pela boca para ver a fumaça fria saindo por ela. A neblina dava tangibilidade às nossas vozes. Francisquinho me dizia sorrindo e todo cheio de inocência, que a cor da voz da gente era branca. Brumosa bruma, alva, era tudo parecido com a poesia de Cruz e Souza.

Jásper chegou de mansinho, ergueu o rabo peludo e passou entre a gente se enroscando dengoso, querendo mimo. Nenhum pingo de sol e já era dia. Uma manhã de final de julho, próxima do meu aniversário. Novos vultos alongados. ‘Hoje não chove, vai fazer um solzão’. Uma voz de dentro de casa falou sozinha pelos corredores: ‘Hoje faz é sol!’. Francisquinho absorto entre a visão esbranquiçada do tempo e os passos que se aproximavam na calçada, nem ligou em saber o porquê de não haver chuva naquele dia. Mas eu quis saber: ‘Você adivinha é Raulina?’ Adivinhava não. Aquilo ali, neblina, era sinal de que a chuva estava suspensa no céu. Paradinha, paradinha. É aviso do tempo, que o povo mais velho sabia, e eu aprendi com a minha mãe. Você sabia que quando é de noite e não tem estrela no céu é porque vem chuva? Ah! Isso eu sabia, que meu pai já tinha me ensinado.

Voltei à vista para a estrada tentando enxergar as coisas lá fora. Nadinha. Os vidros opacos, como as garrafas frias na geladeira, suadas, aumentaram o frio que eu sentia. Por falar nisso: Que fim levou aquela garrafa de alumínio tão boa? As coisas vão sumindo da vida da gente e a gente só sente falta desse jeito. Uma lembrança puxa a outra. O motorista do carro, homem novo, tentou puxar conversa com a moça que ia do lado: ‘Se prepare pro sol que vai fazer mais tarde!’ Sem resposta, ficou de se concentrar na estrada, meio desapontado. Eu, por minha vez, pensei no perigo de ter um animal solto em qualquer trecho da pista adiante. Antecipei-me neurótica. Quis divisar surpresas desagradáveis, me proteger do impacto, sair sã e salva, caso acontecesse um acidente. Cadê o sol que não aparece?

Aos poucos aquela alvura toda foi subindo. Francisquinho era um agasalho só, de pijama de flanela, meias, casaco quentinho, tudo em cores ideais para meninos, e eu também, estampada de florzinhas sobre um pálido amarelo. Uma nesga de luz apareceu lá pras bandas da torre da igreja. O homem que vendia peixe, a mulher da tapioca, meu pai trazendo o pão da Rua de Cima, a mulher loura e de olhar penetrante, carregando uma sombrinha pendurada no braço direito, ia trabalhar nos Correios. Todos surgiram do nada e abandonaram a condição de fantasmas. Reconhecíveis, romperam e encerraram os mistérios brancos da névoa, esse vão imenso, onde em determinados momentos, a cegueira tem a cor da luz.

É isso, quando voltar para casa, vou procurar a minha garrafa de alumínio. Não. Vou procurar saber é de Raulina, que faz tempo que não a vejo... Que tipo de cegueira é essa na vida? Ô meu Deus, dai-me aquela que tem cor. Como o cultivo da amizade, de quem se gosta tanto, pode ficar escondido na parte obscura da neblina?

3 comentários:

  1. Gó, ler o que vc escreve sempre me anima a alma, principalmente numa tarde fria e chuvosa,coração palpitante de tanta emoçao.saudades, mulher

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  2. Gó, minha admiração cresce com a ansiedade da leitura...

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  3. Goretti querida, seu texto é lindo, profundo, de grande expressividade. Lembra-me ensaios de Freud, Melanie Klein, Lacan e Winnicott, desbravadores da alma humana...
    Adorei amiga.
    Parabéns.
    Beijos.
    Solange.

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