quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Surpresa

Ilustração: Goretti Brandão
Saio da cama, que o galo já me reclama:
Acorda 'mulé' que a hora é chegada!
Há quanto tempo eu dormi, 
que nem princesa encantada?
Não há palácio, nem hera, 
sequer o beijo esperado.
E no espelho que me aguarda, 
uma senhora de idade, que eu não conheço, 
é verdade!
Teima em afirmar que sou eu...
Em que sonhos se perdeu,
a mocinha que sonhava?








sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Mulher: um animalzinho de estimação?


Ilustração: Goretti Brandão
O mosaico de opiniões e posicionamentos sobre o Projeto de Lei da autoria da deputada baiana Luiza Maia, que tem como objetivo a proibição do financiamento público de coreografias e músicas que colaboram para denegrir o sexo feminino é tratado como polêmico. Por outro lado a sua preocupação com a imagem cada vez mais banalizada da mulher, que as letras de determinadas músicas divulgam, propicia a discussão a respeito do assunto. Isso é, no mínimo, um bom começo.

À notícia estampada vejo a opinião das pessoas, que ficam divididas entre concordarem ou não com a aplicação da lei, caso o projeto consiga passar pelas três comissões que o avaliarão. Alguns criticam a atitude da deputada, achando que há coisa melhor a se fazer no momento. Outros afirmam e em muitas ocasiões, até com certa razão, que as mulheres: “elas gostam de ser esculhambadas” e ainda, que: “(...) toca aí uma dessas músicas prá ver se não tem um monte de mulher que começa a rebolar até o chão (...)”. Não há como duvidar disso, visto que tal comentário evidencia os fatos que estamos presenciando, cada vez com mais freqüência e ‘naturalidade’.

Na maioria dos comentários, no entanto, as pessoas concordam que algo precisa ser feito, mediante a situação que expõe a mulher de maneira vexatória e com aviltamentos, como ser comparada a um animalzinho de estimação ou um peculiar objeto sexual. A polêmica que foi levantada sobre essa questão é complexa, como outras, e nos ajuda a perceber que abaixo dela, é evidente o que nem sempre é evidente para muitos, ou seja: trata-se de encadeamentos que avolumam uma situação de amplo espectro, envolvendo vários elementos, que estão sendo constantemente infiltrados, como se fossem genuínos dispositivos culturais, firmados sobre tendências comportamentais surgidas naturalmente pela vivência social.

A nossa ‘cultura’ musical é pobre e reflete a nossa pobreza de discernimento, que se confirma, quando manifestações através da aceitação por parte de um número cada vez maior de mulheres e homens, que sequer questionam o teor da sua mensagem, são bastante visíveis. A assimilação fácil e indiscriminada, em praticamente todos os níveis sociais de músicas, que levam à distorção à própria conduta feminina é um problema grave.

É verdade que há muita coisa e em muitos setores da sociedade a serem alvos de Projetos de Lei, por parte de qualquer deputado, mas a preocupação de Luiza Maia é louvável, embora eu não creia que para problemas como esse, uma lei apenas possa revertê-lo, mas pode sim, pelo menos, ampliar nosso interesse sobre ele e suscitar nossa capacidade de questioná-lo. 

O seu posicionamento, em questões que envolvem um olhar sobre ‘produtos culturais’ indesejáveis e ameaçadores à condição social dos sujeitos, embora incipiente e digno de observações, deve ser entendido como uma prática política. E importante.  

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Hoje é Dia do Folclore

Ilustração: Goretti Brandão

Se há um folguedo que tenho verdadeira devoção é o Pastoril. Ainda menina, dancei anos a fio, na escola que estudei. Apaixonada pelo cordão azul, eu subia no palco do auditório, durante o encerramento do período escolar. Era o mês de dezembro. As diversas canções, que aprendi a cantá-las para acompanhar todas as jornadas, lembro-me delas e canto até hoje.

A primeira vez que participei de um pastoril eu nem estudava ainda. Saí de borboleta, com asas feitas de arame e revestidas com filó amarelo. Nem sei que idade tinha, mas lembro que éramos, eu e outra menina, duas borboletas, uma azul e uma amarela, que entraríamos em cena - numa modalidade de pastoril para crianças pequenas, do jardim da infância -, como de fato entramos, depois de termos chorado, assustadas; presas que ficamos as duas, por nossas asas que se engancharam.

Na minha cidade sertaneja, Pão de Açúcar, havia um belo pastoril ensaiado por dona Zélia, uma senhora alta, morena e animada, que se apresentava no coreto em frente à Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, durante as festividades natalinas. Aquilo era um espetáculo! A comunidade toda levava cadeiras e se arrumava, lado a lado, para ver o pastoril dançar. Mesmo criança, eu sentia uma profusão, densa e envolvente, que transpirava harmonia.

Era como se todos da cidade fôssemos uma coisa só partilhando instantes únicos de intensa magia. As pastorinhas em fila, vestidas de vermelho e azul me encantavam, o som rítmico dos pandeirinhos tocando, os personagens: o pastor, a cigana, a borboleta. Tudo aquilo, visto ano após ano, era muito mais do que uma simples apresentação ou festejo, era um ritual que consolidava alguma coisa entre todos. Realizava-se ali a consolidação da identidade coletiva. Outro dia, assistindo um filme de Fellini, senti essa mesma sensação diante de uma cena, espetacular, onde havia um ritual que comemorava a passagem do inverno para a primavera.

As pessoas traziam para a praça o que não era mais usado em casa e faziam uma enorme fogueira queimando tudo, enquanto dançavam, finalmente, em torno dela. Via-se, ou melhor, sentia-se claramente, o fortalecimento da identidade ordinária àquelas pessoas, que juntas celebram o que tem influência e importância para todos: uma nova estação iniciada com o término da outra. A ritualização surge para materializar essa passagem. Aquilo ali é folclórico, se entendemos que folclore não se restringe apenas aos folguedos, mas a tudo o que diz respeito ao sentimento, ao pensamento e à ação que envolve um número significativo de pessoas.

Transferir o conjunto das experiências comuns para as representações metafóricas nos espaços da cultura é uma maneira onde a vivência do folclore é realizada. Nossos rituais: a dança, a roupa típica, as comidas, as crenças se exercitadas, são extensões que fortalecem nossa identidade e funcionam como somatório de preservação da personalidade das gentes, dos espaços demográficos, enquanto cidades, regiões e países, distintos. Mesmo com as mudanças trazidas com a globalização; a mestiçagem de pensamento, das constantes interações entre nossas experiências e a dos outros, é importante que não percamos a força expressiva daquilo que pontua quem somos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

AoPH e o Guerreiro do Mestre Benon fazem a terra tremer

No mês do folclore o projeto cultural da Ao Pharmacêutico agita os amantes dos folguedos alagoanos
Foto: Web

A Farmácia de Manipulação Ao Pharmacêutico que já é destaque no que se refere a apoiar e promover a cultura alagoana, volta à cena cultural, fazendo a Festa do Guerreiro em sua casa, dia 20, às 19h, na Sede do Guerreiro Treme Terra, em frente ao Centro Comunitário Hélio Porto Lages, na Chã de Bebedouro. O evento faz parte do seu projeto cultural, o AoPH iniciado agora em 2011.

Não é a toa que sua imagem se vincula à identidade artística e cultural das Alagoas, sendo materializada, principalmente, na expressão genuína da folgança popular, quando esta é possível de ser veiculada, pela alma brincante da sua gente. Tal compromisso dos que fazem a Ao Pharmacêutico repercute outros momentos e ajudam a criar outras instâncias, que contribuem para reparar, camadas e camadas de versões estereotipadas, a partir de outros retratos, que recompõem a nossa imagem, na força dos trajes alegóricos, na poesia das cores, nos sons e através das cantorias, que reacendem além da nossa autoestima de alagoanos, nossas referências folclóricas.

Outras iniciativas voltadas à cultura, também fazem parte do trabalho social da empresa, como, por exemplo, apoiar o Projeto Papel no Varal, que tem a coordenação de Ricardo Cabús, e tem levado a poesia aos mais diversos locais; museus, bares, restaurantes, sempre com excelente acolhida das pessoas. 

O apoio ao Projeto Ponto de Leitura, uma realização da Ideário, uma organização cultural aqui de Alagoas, que incentiva a leitura e o acesso ao livro, para crianças e adolescentes, de creches e unidades de ensino públicas, é ainda outro investimento sócio-cultural da Ao Pharmacêutico, que se engaja na dinâmica da democratização da leitura.


Fecundo em propiciar ganhos culturais e sociais, o compromisso de responsabilidade social da empresa contempla a sua reconhecida história no cenário do mercado farmacêutico e de saúde, pela sua seriedade profissional que confere à farmácia, a respeitabilidade, como um ganho que fortalece a credibilidade à oferta dos seus produtos, no atendimento ao cliente e nas relações amigáveis entre a empresa e o consumidor.


Parabéns aos compadres Tadeu e Círia pela ideia desse projeto maravilhoso!!!!

Nós, jornalistas

Um fato em duas fotos:

Encontro bem bacana, na Casa de Tavares Bastos - ALE, na Sala da Imprensa, com os amigos e colegas de profissão:  Camila Ferraz, Wadson Correia e Nigel Santana



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ficando doida


Ilustração: Goretti Brandão
Quando Aprígio me disse sem meias palavras que não sabia pra que serviam os filhos, evitei olhar pra ele bem nos olhos e desconversei. Mudei o assunto e fiz que nem tinha ouvido aquele disparate. Ora pra que servem os filhos?! Escolhi que ia era ter pena dele. Saí da sala e caminhei pra cozinha atrás do quê fazer, só pra não dizer tudo o que eu tinha vontade. Pensei que a hora era aquela de colocar em prática aquele negócio de aceitar cada um, como cada um é. Eu tenho resolvido que aceito. Que hei de aceitar, que é para me sentir capaz de ultrapassar limites pessoais. Essa coisa de me espiritualizar.
Não encontrei o que me agradasse na cozinha e lembrei das minhas begônias. Fui vê-las. As mudas que eu fiz parece que não vingam.

Aprígio sai com cada uma! Às vezes eu acho que é só pra puxar briga, discussão besta. Sabe como é homem insatisfeito, né? Tem que descarregar aquele desconforto em algum cristão. De preferência na mulher dele. Comigo, ele choca, mas não tira os pintos. Fica que nem galo de briga na rinha, doido pra pular no pescoço do rival. Se eu der um espaçozinho de nada, ele avança. Coisa mais sem precisão essa. Não é mais fácil sentar e dizer o que está sentindo? O que é que você tem, homem?.

Hoje acordei indisposta. Meio do mes de agosto. Tem muito vento e faz frio em todo canto. Eu me deixei ficar na cama, como se não tivesse nada pra fazer, até que Josa chegou pela esquina e gritou bem na janela do meu quarto: ‘Isaura, ô Isaura, você taí?’ Levantei com preguiça, abri o vidro da janela, olhei pra fora. Saí da cama me arrastando. ‘Estou doente,  Josa’. Quer dizer: me sinto doente por dentro. Cansada, talvez. Ela também. Estava ali pra me pedir socorro. Queria que eu intercedesse por ela. Tem medo que os irmãos a mandem pra um daqueles lugares onde tratam malucos. 'Tem até graça, Josa: Mandam não. Se aquiete, mulher’. Sem nada melhor no momento, pra distrair a coitada e a mim mesma, fui buscar a minha câmera e fotografei a pobre com os olhos cheios d’água. ‘Venha cá, veja se você tem cara de doida’. Tinha não. ‘Lá em casa doença tem que aparecer no corpo senão não é doença. Até o nome da minha é difícil, nome de doença de gente rica, Isaura’. Como é que gente, pobre e ignorante como o povo lá de casa, pode entender isso?

Tenho vontade mas não choro que assim fragilizo. Perco o controle das coisas que me incomodam e afundo na dor dela. Pensar que não, entro na minha. Hoje tudo me dói. Dói, igual uma palavra bonita, que a gente deixa passar, porque não lembra como se escreve e não tem dicionário pra conferir a grafia.

Outro dia, uma terça-feira, quem apareceu aqui em casa, foi Aurora. Chegou murcha, com cara de enterro, querendo vinte reais emprestados para pagar uma conta de luz atrasada. Contou uma estória cheia de lacunas sobre a doença de Chico, um traste alheio que ela alimentava a pão-de-ló, e de como ele tinha morrido. Sobre a mulher dele, debulhou tanto drama que me abusei. Queria era parecer que nem uma santa, e de santidade eu ando cheia. Ela pensa que me engana aquela astuciosa. Ainda bem não pede uma coisa e já vem outra: ‘Ô Dona Isaura, a senhora não tem não, umas roupinhas aí que não queira, pra me dar? Uma sandalinha?’ Com aquela voz tão macia, tem quem diga do que Aurora é capaz? Não. Não tem. Olho pra ela, eu, serena por fora, e por dentro me acabando de raiva. Fia-duma-mãe, um prato sujo na pia, ela não me pede pra lavar. Não me dá nada de graça. Pensa que sou rica e vive de me dar botadas.

À conversa mole dela, que passou o tempo todo inventando um jeito de levar meu dinheiro, que eu não dei, eu disse a Aprígio: ‘ Acho é pouco’. Ele me olhou surpreso, por cima dos óculos. Tem vezes que destilo fel. Coisa minha, ruindade, guardada aqui dentro. Sou capaz de fazer conjeturas terríveis e dizer coisas abomináveis. ‘É que a gente vive num ninho de cobras’. Tentei justificar. Lembrei de Irene, que veio ontem lavar e passar a roupa, ficou desconsolada debulhando assunto e até me aconselhou que eu não quisesse nenhuma amiga em minha casa: ‘Hoje não se pode confiar mais em ninguém não, dona Isaura. A gente tem que abrir é o ‘ôio’. Que aflição essa minha, a de sentir que, os temores da maioria das mulheres é o de serem trocadas por outras.

Aprígio veio se queixar de um mau jeito que deu nas costas e me encontrou com a cara feia, meio querendo briga. Sem perder tempo se armou de suposições e quis ganhar a peleja antes que ela começasse, dizendo que meus repentes são neuroses graves. Neurose pra mim é dor que não encontrou resposta, rebati. Ai, ai. Irene é quem sabe: ‘Mulher tem que ser boazinha o tempo todo, né?. Não pode nem se enfezar, que tá ficando doida, é dona Isaura?’

Revelação

Ilustração: Goretti Brandão
Um quarto de olhar para dentro de mim,
Confunde o que meu espelho me diz.
Vejo-me em desfile patético no meio de uma rua.
Meio baliza, meio dançarina sem ritmo.
De microfone em punho, eis que um sujeito me exibe:
"Queria ser bailarina, mas é minha"
E eu, que me assisto ao mesmo tempo, não-sei-como, da plateia,
em ridícula subalternidade personificada, 
contesto.
Enxergo-me: represento mal o que queria ter sido.
Tomo-me da calçada, e me aventuro a contrariar a sua assertiva,
Destroná-lo da sua demonstração de poder exposto em público.
Cruzo em sentido contrário; a rua, a banda, que toca atrás de mim, a baliza desengonçada,
E mergulho de propósito na multidão.
Eu vou ser outra.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Uma criança está morta, vítima da violência, de viciados em droga


Ilustração: Goretti Brandão
Percorrer as páginas dos jornais, diariamente, só confirma o quanto estamos sendo presas da insegurança. Ela é provocada pelo temor, diante das informações que nos chegam através dos meios de comunicação. Os perigos reais, cada vez mais próximos a nós, dos nossos filhos, pais, amigos, propicia debates e opiniões constantes. 

Todos têm o que dizer, todos têm seus pontos de vista e todos, enfim, sentem a incapacidade de resolver o problema. Parece não haver solução para o retorno à tranqüilidade social, em curto, médio ou longo prazo. A impressão que se tem é a de que os passos dados pelas instituições, para conter os acontecimentos, não conseguem alcançar, para ao menos brecar, ações negativas, que incluem roubos, furtos, tráfico de drogas, traficantes, homicídios, falcatruas, desmandos.




Aqui em Santana, uma criança de apenas 4 anos, morreu ontem, inocentemente, vítima de viciados em droga. Estamos de um lado: a sociedade, e do outro, a delinqüência galopante e assustadora. O medo de sair de casa se tornou real. Há quem procure manter a tranqüilidade e ser confiante, não entrar em desespero, mas o medo da violência, ela que personifica a desordem e o desajuste do que está por trás de tudo, sinaliza à contramão de um retrato que aparece estampado na maioria dos rostos das pessoas, em suas falas, em suas preocupações.

De agora em diante estamos nos tornando pessoas ainda mais estressadas e medrosas.

Aonde vamos parar? Quando isso vai terminar?

Porque apesar dos esforços dos bem intencionados, apesar da criação de Comunidades Acolhedoras, dos Núcleos Ressocializadores, da aplicação de novos modelos de ressocialização, de outros mecanismos de defesa e segurança sociais tão necessárias, e que alguns têm comprovado a sua eficácia, a difícil experiência do contato direto e imediato com seus algozes, relatado pelas vítimas diárias de ações criminosas, que os demais cidadãos vemos na TV e na internet, ouvimos pelo rádio, lemos nos jornais e nos sentimos cada vez mais ameaçados, dão mostras de que há esse descompasso, entre ações delituosas e a reação protetora, que diga-se, é sempre compensatória.

Neste caso, a reação deveria estar à frente, como ação profilática, prevendo e evitando reações criminosas, que desestabilizam a paz social.

A delinqüência chega em primeiro lugar e causa danos às famílias. Estamos, sem exceções, feridos, desguarnecidos e assustados. Todos. E sem sabermos como pegar esse leão de grandes proporções e tamanha nocividade. Tal situação evidencia o quanto negligenciamos os sinais de alerta, através dos sintomas que de muito tempo vêm desfilando diante dos nossos olhos. O que vivenciamos hoje, não nasceu agora, mas, há anos atrás. São algumas das conseqüências das estruturas sociais, políticas e econômicas que regem o mundo moderno.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Envelhecer: uma pretensão da alma


Era 1h da manhã de hoje quando a minha mãe ligou para desejar um feliz aniversário. Eu dormia e acordei assustada com o barulho da chamada. Literalmente, à primeira hora do dia 2 de agosto de 2011, celebramos, eu e ela, a minha chegada ao mundo, que até hoje, 51 anos depois, me perturba, me inquieta, emociona, e me fascina.

De volta à cama, pensei a vida, seus significados, que com o passar do tempo, sempre requerem de nós, novas leituras. Atualizo as minhas; como quem assiste a um filme mais de uma vez, ou volta às páginas de um livro lido tempos atrás. Cada vez que se retorna às cenas, ao cenário da nossa própria história, é possível embutir novas emoções, remover angústias e colocar ação em buracos que ali se encontravam, esperando para serem ocupados.

Aprofundar a tessitura do já feito dá dimensão ao tempo e extrapola o espaço. Não me interessa durar apenas, comemorando anos estendidos na comiseração da medicina, que prolonga dias à idade avançada que se aproxima. Quero viver intensamente, perdurar, não para constar na lista das estatísticas de prolongamento vitais.

Quero sim, poder com a idade, expandir a minha clareza sobre os significados da vida. Ter crescimento psicológico, promover a simbiose entre meus mundos: o interno e o externo. Crescer, em detrimento das limitações físicas, adentrando a longevidade, mas, de modo a romper as redomas do tempo, para que eu possa alcançar o miolo da minha sobrevivência, a real longevidade, eterna, porque não conhece ponto final e vai além dele e de mim.

Estando inserida na realidade do mundo de hoje, que corre numa busca desenfreada pela eterna juventude, não me preocupam as fórmulas e os mecanismos para esconder a idade que tenho, porque existe a diferença entre o envelhecer e o ser velho. E o tempo, ele não só destrói, mas nos fortalece ao mesmo tempo em que enfraquece. Quando se trata de apreciarmos os seus efeitos sobre a alma e sobre os aspectos da fisiologia.

A visão que temos do tempo, como Cronos - divindade suprema da segunda geração de deuses da mitologia grega -, que no dizer do poeta português, Fernando Pessoa: “Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre”, exclui o perdurar, como outra sua característica. Ele, o tempo, prossegue indiferente à nossa idade ou à nossa condição de seres que envelhecem. O que o ele devora é a nossa juventude. Quando se ouve o comentário de que o tempo estragou as pessoas, é a fala da juventude propagada, não a da idade.

Aniversario. Estou na meia-idade.
Ao invés de seguir de braços dados com a hipocrisia da cultura que eleva a juventude e ao mesmo tempo a engendra, desatende, banaliza e acaba por mantê-la aprisionada em suas malhas, eu aceito incorporar a velhice, preservando e transmitindo o que tenho aprendido com a minha própria experiência. Dou forma nos resguardos da vida real, ao vigor do meu caráter.