Revelação

Ilustração: Goretti Brandão
Um quarto de olhar para dentro de mim,
Confunde o que meu espelho me diz.
Vejo-me em desfile patético no meio de uma rua.
Meio baliza, meio dançarina sem ritmo.
De microfone em punho, eis que um sujeito me exibe:
"Queria ser bailarina, mas é minha"
E eu, que me assisto ao mesmo tempo, não-sei-como, da plateia,
em ridícula subalternidade personificada, 
contesto.
Enxergo-me: represento mal o que queria ter sido.
Tomo-me da calçada, e me aventuro a contrariar a sua assertiva,
Destroná-lo da sua demonstração de poder exposto em público.
Cruzo em sentido contrário; a rua, a banda, que toca atrás de mim, a baliza desengonçada,
E mergulho de propósito na multidão.
Eu vou ser outra.

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