segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um passeio por entre estandes e livros

Só na tarde da sexta-feira, pude sair de Santana do Ipanema a Maceió e visitar a bienal. Cruzando a porta, logo de entrada, deparei-me com um cordão em formato de quadrado, que mantinha, dentro dele cerca de umas dez pequenas crianças, fardadas - coisa de escolinha -, agrupadas e bem unidas, ladeadas por professoras diligentes. Todos pareciam estar aturdidos e curiosos. O cordão; uma forma de protegê-las e não perdê-las, em meio à grande movimentação dos espaços do Centro de Convenções.


Mais adiante, um artista franzino, fazia curtas idas e vindas, por um dos corredores. Aquele jeito de quem marcou encontro naquele local e chegou primeiro. Ansiedade em efetivar o encontro. Encontrou um amigo. Baixinho, vestido de uma forma vistosa, que o punha em destaque entre os outros visitantes. Abraço efusivo. Em alguns instantes houve uma espécie de cerco em torno dele. É que outros amigos se achegaram. Novos abraços e conversa animada.


Em um estande, uma mulher folheava páginas de um livro de gravuras de Debret. Interessou-se por ele. Quis ver o preço e procurou alguém que a pudesse informar. Todos ocupados, ela caminhou até a senhora que estava no caixa. Distraída em passar o cartão de um casal que comprara um livro, a outra mal levantou a cabeça. Preço? Está atrás do livro. Ela buscou ansiosa, mas não encontrou. Voltou a reabri-lo, folheou novamente: belos esboços, aquarelas fantásticas. Encheu os olhos e suspirou quase aflita. Procurou ajuda mais uma vez. Ficou sabendo do preço. Abriu a bolsa, como se fosse conferir se tinha dinheiro. Certificou-se de que as notas estavam ali. Ainda com a bolsa aberta, desviou os olhos para cima e para a direita. Fez contas mentalmente, as refez... Fechou a bolsa e o livro e em silêncio o colocou de volta na prateleira. Saiu dali com ares de frustração.


Na sala Luitgarde Barros, a palestra: Comunicação e Novas Mídias: Um aporte psicanalítico havia terminado. A porta se abriu e dentre os primeiros a saírem, estava um jovem casal. Juntos, seguiram pelos corredores e percorreram diversos estandes. Em um, especialmente, correram olhos e avançaram mãos sobre livros de psicologia. Dois volumes das Cartas de Jung ativaram o desejo de posse de uma mulher que colocou um deles debaixo do braço, numa atitude de: este aqui é meu, embora tivessem dezenas dele para vender, e ficou circulando pelo local, esmiuçando outros.


Um homem de meia-idade avistou uma amiga de infância no estande em frente ao que estava visitando. Atravessou a pequena distância e ficou a observá-la, pensando, talvez, se valeria à pena concretizar o encontro. A mulher, de costas, olhava livros da L&M, num daqueles expositores giratórios. Interessou-se por um cujo título era: Compreender Hannah Arendt, de outra editora. Sentindo-se observada, virou-se e reconheceu o amigo. Soltou o livro, saiu do local, e foi abraçá-lo. Distantes da infância, a aposentadoria surgiu no final da conversa, exibindo a maturidade de ambos, indisfarçável nos cabelos tingidos dele.


Fernando Moraes, conhecido escritor, transparecia sua imagem e seus gestos, através das paredes de vidro da Sala Audálio Dantas. Bebia goles pequenos de água, aquietando um pigarro persistente, enquanto falava sobre seus livros biográficos, Olga e Chatô, cujo contexto trazia à cena, a ditadura militar, o PCB, Getúlio Vargas, para uma platéia concentrada em ouvi-lo. Em meio a tudo, corri meu olhar sobre o ambiente e me convenci, mais uma vez, de que o encontro com o Outro é inevitável, e que com o advento de tantos meio às novas mídias, corremos o risco - se não soubermos divisar e tirarmos proveito do que elas oferecem de melhor -, de abrirmos mão dessa forma mais simples e mais satisfatória da comunicação.


Essa que não tem mediação tecnológica, através de redes sociais, que para muitos parece estar se transformando na única forma de comunicação possível. Estarmos frente a frente com o nosso interlocutor, fazendo a nossa palavra e a dele sair pela boca, ouvir a voz do Outro, mergulhar através dos sentidos, nas manifestações emocionais, sempre tão necessárias, dos que nos cercam.

Na saída do evento, vinha pensando que imaginar não é igual a simbolizar, e a vida não pode ser sustentada só por imagens. A gente precisa ter experiências no mundo real, trocas reais, com pessoas reais, para podermos ter conteúdos e dar significados à comunicação. A realização da Bienal Internacional do Livro de Alagoas, não se resumiu na promoção do conhecimento, ou no esforço para se consolidar a cultura da leitura, mas trouxe consigo a possibilidade do encontro com o Outro, que está tanto dentro, como fora de nós.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Para quem vai ao Centro de Convenções hoje à noite

Ricardo Cabús autografa livros no estande da Biblioteca Pública de Alagoas
Para quem vai ao Centro de Convenções hoje à noite
Ricardo Cabús - Foto Web
 
Nesta quinta-feira, 27, na V Bienal Internacional do Livro de Alagoas, das 19h às 22h, o professor universitário, poeta, Ricardo Cabús, estará no estande da Biblioteca Pública de Alagoas, onde autografará seus livros: Cacos Inconexos, A Galinha Saudosa e Estações Partidas.

Ricardo, só para lembrar, está a frente do Projeto Papel no Varal, um projeto cultural do Instituto Lumeeiro, destinado a tornar a poesia conhecida e apreciada pela população e que tem acontecido, praticamente, em todos os lugares possíveis, que acolham a leitura poética: escolas, livrarias, bares, restaurantes, museus, através de saraus, sempre com sucesso de público.

Os preços dos livros de Cabús são bem acessíveis: R$ 25,00, R$ 15,00 e R$ 10,00.

Quem adquirir, seja qual for, senão os três, levará para casa excelentes companhias, porque as leituras, sem dúvida alguma, valerão à pena!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Como picada de formiga


 É coisa das minhas lembranças mesmo. Vem de uma manhã cheia de neblina, que não se distingue o formato das coisas, só o jeito do andar das pessoas, que nem fantasmas distorcidos naquele pedaço de rua larga. Depois vem qualquer sonoridade da voz da minha avó, que sem enxergar direito, mobilizava a casa toda procurando os óculos. A minha casa  cheia de muita gente. 

Da gente, meninos; nus da cintura pra cima, das agonias de minha mãe que se vexava por qualquer coisa, do meu pai, que saiu atrás dos amigos e voltou  acidentado, duma viagem que fez junto com mulheres alegres, que minha mãe ficou sabendo depois. Há também uma festa de Ano Novo, interrompida com a notícia de um suicídio, que veio comprometer o meu vestido azul, de gola branca; incompleto, sem o belo laço vermelho que foi arrancado, sem nem perguntarem se eu permitia. Chorei por causa daquilo.

A lembrança de que numa curva de estrada, em meio à secura da vegetação hostil, dois meninos barrigudos sentados no chão, me olharam, parecidos dois anjos sujos e sem asas, protegendo um cachorro vira-lata, que se passava por protetor deles. Foi então que eu vi a paisagem duma única árvore florada. Toda amarelinha, sem uma folha. Só flor. Uma craibeira, que sua beleza entrou pelos meus olhos e deixou a minha alma agitada de tanto amarelo. 

Meu coração ficou cheio dágua e eu derramei pelos olhos, a emoção, de ver meninos, cachorro e aquele amarelão, tudo misturado em um desenho do sertão alagoano, todo colorido. Depois veio um jipe, que despejou soldados no meio da praça. Todo mundo ia ser vacinado. Houve pavor entre os meninos que se escondiam, enquanto outros choravam. Então a minha avó segurou firme a minha mão, falou em coisa igual à picada de formigas. Entreguei o braço.

   Passaram cortejos fúnebres de crianças, duma rua esquecida. Corremos pra ver. Pareciam enceradas, pintadas de azul, de olhinhos fechados, mãos cruzadas sobre o peito. Tudo indo ser anjo no céu. Diziam. Passou um carro de boi, com rodas que rangiam; cheio de moringas e esteiras. Os bois iam se agüentando, um, encostado no outro.  É tudo coisa da minha lembrança: A neblina com seus fantasmas, aquela história de agulhada de vacina, parecer picada de formiga é tudo mentira. É como saudade. Toda vez que lembro, ela dói.

                         
                                                                               
                                                                           Maceió-Al, 27/10/2005.

Enfrentando o nosso lado sombrio: (2) Ouvindo o que a sombra tem a nos dizer

Violeta em: O desfecho
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Enfrentando nosso lado sombrio (1)

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domingo, 23 de outubro de 2011

O ataque do cão branco: um sonho

Cães de diversas raças invadem a cozinha.
Lugar às avessas, mal cuidado, com porta e janela que deixam -me ver um confuso quintal ensolarado, onde pessoas desconhecidas, de uma mesma família, oferecem certo tipo de serviço. Não sei o que busco, mas, o que quero, percebo, é produzido lá fora. 

Os cães são afastados, mas a porta continua aberta. Próximo de onde estou, uma cadeira pode me servir de escada - antecipo a precisão de proteger-me -, e subirei à mesa, se preciso for. Temo a ferocidade de um enorme rottweiller que, ameaçador, me fita. Sou vista por outros cães, que vêm em meu encalço. Alguém os põe para fora. Eis-me sozinha. Todos somem dentro do quintal.

Branco, inesperado, trai-me um cão enorme, avançando sobre mim. Defendo-me com o braço direito e recebo a mordida que deixa suspenso no ar o animal. Não grito, embora doa-me sua mandíbula cerrada, doa-me o susto e o medo. Não sangro. De súbito o cão cessa o ataque e vai embora. Jovens rapazes entram no local. Ninguém está preocupado com o que aconteceu comigo. 

Estou só e alivio-me da dor e do medo. Escapei, e procuro um canto da cozinha para refugiar-me. No entanto, uma mulher doméstica, de meia-idade, descuidada de si mesma, despenteada e mal vestida, me olha com afeto, me busca e limpa minhas feridas, que só então as percebo, na parte interna do meu antebraço, marcado por profundos sulcos deixados pelos dentes do cão. Ela lamenta em meu lugar, meu sofrimento, enquanto eu apenas me deixo ser cuidada.

Maceió, final de outubro.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A sensação de impunidade que nos persegue

Operação que desvendou fraude envolvendo o TC é explicada pela Polícia Federal


Quinta-feira, 20, amanheceu com mais uma notícia-bomba. Desta feita, o Tribunal de Contas do Estado é o alvo principal. A Operação Rodoleiro busca acusados e os levam para cinco dias de apreensão na sede da Polícia Federal. Lá serão interrogados para responderem ao que pesa sobre suas cabeças. Trata-se de mais alguns milhões desviados dos cofres públicos, o que daria para solucionar uma porção de problemas que persistem no Estado de Alagoas. Essa gente tem vendido a alma ao diabo.

Como punir essas pessoas? O ressarcimento do dinheiro público desviado deve funcionar como uma medida punitiva aos acusados. Além disso, velocidade nos processos é o que deve haver, para que não continuemos a sentir aquela nossa conhecida já de datas anteriores, sensação de impunidade.

Para tal, ações de improbidade, como uma resposta à sociedade, bloqueando os bens desses acusados e garantindo a volta do dinheiro roubado para o lugar que lhe cabe. Isso é o que ouvimos dizer autoridades competentes e que, certamente, nos alivia.

Cidadãos injustiçados é o que somos e estamos aceitando sê-lo. Estamos a desenvolver a arte de sermos mágicos. Os ilusórios enganadores de nós mesmos, que posando de desavisados, fazemos milagre para vivermos dignamente de salários suados que recebemos além de pagarmos nossos impostos como pagamos, enquanto outros nos roubam.

Estamos divididos entre a descrença e a apatia social, motivados a reagir com satisfação momentânea, às ações que a parceria entre Polícia Federal - bem intencionada e cumprindo o seu papel, é verdade -, o Ministério Público Federal e a Controladoria Geral da União realizam através de investigações que trazem ao nosso conhecimento, os que assaltam o erário público. Parece que isso nos basta.

A anestesia nos conforma, como se o fato de se chegar aos acusados, prendê-los, interrogá-los, significasse a completa aplicação da justiça social, que merecemos como resposta. Parece servirem-nos de consolo as descobertas das falcatruas e não é raro nos regozijarmos em companhia de amigos, entusiasmados, pela emoção simplória que condizem com as compensações insignificantes, à descoberta dos crimes que são trazidos ao nosso conhecimento, cada vez mais freqüentes: o desvio de recursos públicos.

As operações não param por aí. Outras e mais outras serão empreendidas. Mais pessoas serão descobertas com a ‘mão na botija’. Elas serão presas, interrogadas, indiciadas e depois, como muitos de nós temos visto, serão tão logo sejam liberadas, alvo de aplausos, admiração, solidariedade e até merecedores de ‘reconhecimento’. Estamos nos acostumando a toda sorte de desvios; Os materiais, os morais... Nada mais parece fazer ferver o nosso sangue.

Somos, ainda, alguns, cidadãos desiludidos e descrentes, e os órgãos que procuram colocar ordem nessa desordem toda, assim como nós, também são passíveis de desilusão. Porque na maioria das vezes, os resultados finais, quase não coroam suas ações. Estamos, todos, nocauteados pelo golpe da falta de vergonha alheia que nos corrói e travados por instâncias que minimizam punições ou contribuem com a nossa ‘sensação’ de impunidade.