Como picada de formiga


 É coisa das minhas lembranças mesmo. Vem de uma manhã cheia de neblina, que não se distingue o formato das coisas, só o jeito do andar das pessoas, que nem fantasmas distorcidos naquele pedaço de rua larga. Depois vem qualquer sonoridade da voz da minha avó, que sem enxergar direito, mobilizava a casa toda procurando os óculos. A minha casa  cheia de muita gente. 

Da gente, meninos; nus da cintura pra cima, das agonias de minha mãe que se vexava por qualquer coisa, do meu pai, que saiu atrás dos amigos e voltou  acidentado, duma viagem que fez junto com mulheres alegres, que minha mãe ficou sabendo depois. Há também uma festa de Ano Novo, interrompida com a notícia de um suicídio, que veio comprometer o meu vestido azul, de gola branca; incompleto, sem o belo laço vermelho que foi arrancado, sem nem perguntarem se eu permitia. Chorei por causa daquilo.

A lembrança de que numa curva de estrada, em meio à secura da vegetação hostil, dois meninos barrigudos sentados no chão, me olharam, parecidos dois anjos sujos e sem asas, protegendo um cachorro vira-lata, que se passava por protetor deles. Foi então que eu vi a paisagem duma única árvore florada. Toda amarelinha, sem uma folha. Só flor. Uma craibeira, que sua beleza entrou pelos meus olhos e deixou a minha alma agitada de tanto amarelo. 

Meu coração ficou cheio dágua e eu derramei pelos olhos, a emoção, de ver meninos, cachorro e aquele amarelão, tudo misturado em um desenho do sertão alagoano, todo colorido. Depois veio um jipe, que despejou soldados no meio da praça. Todo mundo ia ser vacinado. Houve pavor entre os meninos que se escondiam, enquanto outros choravam. Então a minha avó segurou firme a minha mão, falou em coisa igual à picada de formigas. Entreguei o braço.

   Passaram cortejos fúnebres de crianças, duma rua esquecida. Corremos pra ver. Pareciam enceradas, pintadas de azul, de olhinhos fechados, mãos cruzadas sobre o peito. Tudo indo ser anjo no céu. Diziam. Passou um carro de boi, com rodas que rangiam; cheio de moringas e esteiras. Os bois iam se agüentando, um, encostado no outro.  É tudo coisa da minha lembrança: A neblina com seus fantasmas, aquela história de agulhada de vacina, parecer picada de formiga é tudo mentira. É como saudade. Toda vez que lembro, ela dói.

                         
                                                                               
                                                                           Maceió-Al, 27/10/2005.

Comentários

  1. lindo o seu texto com a doçura do amarelão das flores e com a delicadeza dos seus olhos que sabiamente registraram momentos tão sublimes, às vezes áridos e ácidos como a paisagem que os envolveu e cercou... picada de formiga dói. até nos outros como nesse caso que vou contar: minha filha, savana, com dois anos, certa vez levou uma ferroada de uma formiga preta. daquelas grandes. a bichinha chorou pra danar. não foi em mim, mas fiquei com ódio das tais formigas que até hoje quando vejo uma ela não escapa. mato-a sem dó nem piedade... valeu! gostei do seu texto!

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  2. Tão linda minha escritora quando assume a doçura dos sentimentos.Mirya

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  3. Iria de Souza Sena4 de novembro de 2011 04:13

    Lindo Goreth,vc muito me orgulha.Bjos

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