terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Misturando povos: o sertanejo alagoano ao chinês da Ilha de Taiwan

Um pensamento, talvez mestiço...


Nem tão longe, nem tão perto, a depender do ponto de partida, mas distante alguns quilômetros da capital alagoana, diferenciado pela mudança de clima, que é uma determinante na diferente paisagem, o sertanejo que vive nos rincões, expostos à luz do sol quente, como se costuma dizer por aqui, é um sujeito sem meio termo: Sebite, falador joga o seu palavreado, comum aos costumes da sua região e da sua gente, é um sabe-tudo.

Há, porém, o acanhado e quase mudo, que esconde a fala, e compensa o silêncio rindo muito em resposta àquilo que ouve, além de conservar por anos a fio, um olhar para baixo, que não ultrapassa a cintura do interlocutor, até o dia em que se sinta confiado e igual, para olhá-lo da cintura pra cima. Conheço e convivo com os dois tipos. Ambos se aprontam para irem à feira na ‘rua’. Na cidade, um teatro de marionetes atrai o homem simples, de alma pueril, que fica deslumbrado com as andanças e com as mensagens passadas ao povo pelos fantoches.

Lá estão misturados às crianças: o vaqueiro, a rezadeira, sertanejos das mais variadas idades, compartilhando da alegria da ‘brincadeira’, onde podem se ver a si mesmos, e sem saber compondo a cena que registro, meio metalingüística: feito de poesia que assiste a poética que reproduz a vida e que faz reverberar ainda mais poesia, nos rudimentos de um lirismo singular que, sobretudo, sempre serviu como veículo de informação. Muito usado nos programas infantis de TV, a manifestação, rueira, genuína expressão popular, está condenada ao desaparecimento.

Em 1993, o diretor Hou Hsiao-Hsien, trouxe às telas do cinema, o filme, O Mestre das Marionetes, que mostra a vida de Li Tienlu, um manipulador de fantoches, como narrador da própria história. O cenário é a Ilha de Taiwan, próxima a China continental, que durante 50 anos viveu a ocupação japonesa. Sobre o pequeno palco, os fantoches se expressam acompanhados por um grupo de músicos. Pelos caminhos da arte, eles pontuam e dão ênfase à realidade e aos acontecimentos da vida política e pessoal. Suas tradições, superstições, sua música, questões culturais que envolvem desde costumes alimentares, até os religiosos.

Em se tratando da Ilha de Taiwan e do sertão de Alagoas e apesar da distância que separa sertanejos alagoanos de chineses taiuaneses, oriente e ocidente parece compartilhar de uma mesma fonte, de onde são originados padrões comuns comportamentais, que diferem na exteriorização dos mesmos, influenciados pela expressão cultural específica de cada país. 

Talvez seja o resultado, também, da influência cultural entre povos. Da mistura existente desde muitos séculos entre nações. Mundos que acontecem dentro do mundo. Coisas da globalização... Mestiçagem... Este assunto é para o historiador e paleógrafo francês, Serge Gruzinski. Estou só especulando...

Um comentário:

  1. Isso me fez lembrar que a fome ,a sede e a raiva, a bondade e a maldade mora na raiz da sociedade ,tanto reprimida, tanto quanto faminta! Seja em Taiwan, ou no Sertão das Alagoas!

    Belo Texto, Gó!

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