quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Noite de dezembro


Sinto o cheiro do Natal todos os anos. É um cheiro que guardo comigo desde a infância e que volta por essa época. Nos meus registros sensoriais, o tempo, todo ele e a todo tempo, exala aromas específicos. Aromas sagrados, que têm o poder de me conduzir e iniciar nos mistérios natalinos. Retorno por dentro das minhas lembranças, até chegar aonde quero ir, e  aqui estou: 

A sala irradia a luz dezembrina. Deve ser a das nove da manhã, essa hora que traz a minha avó do seu quarto, carregando uma caixa grande de papelão. Estamos eu e meus irmãos, crianças, a sua volta. Um grande galho seco, cheio de hastes por ela escolhido, acha-se posto dentro de um jarro pintado de dourado. Estou diante do que será a nossa Árvore de Natal.

Todas as extensões da planta estão cobertas de algodão. Aberta a caixa, suas mãos habilidosas e pacientes retiram do seu interior, luminosas e delicadas bolas natalinas. A curiosidade cresce - a gente, meninos e meninas -, delira querendo pegar as coisas e ajudar a pendurá-las. Um vento leve e quente invade os quatro cantos da sala, percorre os limites do seu contorno e desperdiça sobre os móveis e sobre nós, suados, a sua fragrância de Seiva de Alfazema, como um sopro vital dela roubado.

Adiante está a mesa onde a lapinha será arrumada. Estragética, ela se encaixa e reforça o ângulo reto onde as paredes se encontram. Minha avó dá voltas, idas e vindas, e outra vez retorna ao quarto. Sua silhueta baixinha e rechonchuda reaparece sorridente. Anda segurando as sandálias nos pés e parece deslizar sobre o chão de cimento, como se distraidamente, se ousasse bailarina, ainda que imodesta e fora de hora. Seus olhos pequenos nos vasculham e vão buscar nossos pensamentos iniciados apenas: “Não, primeiro vou montar a Árvore, depois a lapinha”. Ninguém discorda da adivinha, que sabe lê por dentro da gente.

Aí está, pois, o serviço terminado. Bolas de diversas cores e tamanhos balançam dependuradas. A meninada bate palmas, dá palpites, corre pela sala. O pisca-pisca é cuidadosamente posto fazendo círculos entre os galhos. É preciso testá-lo. As luzes se acendem. Novos gritos, novas palmas. As crianças nos abraçamos umas às outras celebrando o instante que nos enche a todos de descomedida satisfação. É preciso pregar acima do portal, que dá entrada à sala de jantar, os dizeres natalinos de Feliz Natal, Boas Festas e Próspero Ano Novo.

Timidamente São José sai da caixa, todo envolto em folha de jornal. Depois Maria, depois o Menino Jesus, exageradamente maior em tamanho que os pais. A manjedoura, os bois, as vacas, os cordeiros, o jumentinho, o camelo, o espelho que vai servir de lago, os patinhos, o galo, pastores, os três Reis Magos, imponentes, com vestes que apresentam majestade e brilhos dourados. O tempo não passa para o anjinho que da mesma idade, em todos os dezembros da minha infância, vai ser colocado acima, sobre a entrada da manjedoura e nos saudará com a mensagem de Paz na Terra aos homens de boa vontade.

Um cheiro de caju se anuncia vindo da cozinha. Minha avó fala sobre a viagem de Maria e José para Belém, na orla do deserto da Judéia, por causa do recenseamento exigido aos judeus pelo império Romano, sobre a natividade da criança-Deus que se fez homem dentre os outros, enquanto vai assentando a Sagrada Família em seus devidos lugares. O silêncio reverencial ocupa o momento. Os Reis Magos andarão da porta de entrada, sobre os móveis, para não serem pisados, até chegarem na data certa, ao local onde Jesus se encontra, repetindo o feito e a viagem que fizeram, seguindo a Estrela de Davi. Ela, que feita artesanalmente pela dona da casa, cintila enorme, sob o efeito da areia brilhante, pairando sobre a cena.

O momento é carregado de simbologias cristãs. Distancio-me para ver com olhos adultos, o que cada um de nós está fazendo àquela hora e me consinto a alegria de vermo-nos felizes, vivendo instantes que o tempo não pode mediar com horas. Estão ali e aqui, eternizados, e salvos pela memória, que me lança sobre o tempo e através dele, e que me leva a este lugar que não tem lugar, nem é mais um lugar, é um sentimento vivo, feito de imagens fiéis que me tragam e que me participam, como se fora uma película, um filme, que atuo e assisto ao mesmo tempo, em noites de dezembro, como a de hoje.

Dedico estas lembranças aos meus irmãos, que junto comigo viveram a alegria e a Graça de ter como nossa avó, Mãe Tina, que nos ensinou tudo o que sabia sobre a vida, o Natal e o Espírito Santo de Deus...

2 comentários:

  1. Oh! Que doce lembrança essa sua, mãe Tina de riso farto e ímpar a iluminar seu Natal. Felizes fomos nós, que tivemos e temos nossas recordações.
    Mirya

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  2. Nossa, admirável Goretti e suas lembranças tão vívidas que ao mesmo tempo que lia, lembrei das minhas...Não tão detalhadas como voce a fez, mas em Essência, sim. E também tive Minha Muito Amada Avózinha Maria como a Protagonista dos Natais e tantas Celebrações. Ela sentia de forma intensa essa época e herdei o Presépio que ela, minha Avó, amava ampliar a cada lugar novo e procurava adquirir novos Personagens e chegou a quase 300! Hoje é pequeno, mas A Sagrada Família, os Reis Magos e seu servo e camelo, o Burrinho, Um Anjo, o Galo, Pastores e Muitas Ovelhinhas, sobreviveram a tantas mudanças de locais. Certo tempo, ela me disse que tinha essa Missão de montar e quando partisse, seria minha a Missão (senão...tem uma clásula). Assim o fiz, até nascer minha Filha Ana Clara, a qual passei a Mesma Missão, mas fico por perto, curtindo e dando aqueles pitacos que ela não curte muito [risos]. Nem sei porque passei a Missão tão cedo e logo para ela, mas deve haver um motivo...Sentir menos saudades dos Natais da Infância? E O Natal tem uma Mistura que não sei definir ao certo, dentro de mim: Saudade? Nostalgia? Uma certa tristeza! Será dos tempos de Infância, onde a Ingenuidade fazia a Festa e eu escrevia ao Papai Noel, crendo mesmo, e tudo era...Mais Natal porque mais puro? Não sei... Grata, amada, pelo texto com gosto de Saudade e Alegria...E Um Lindo Natal! Vou, Hoje, Fazer o Mais Divertido Natal que puder...é preciso celebrar a Esperança. Muita Luz! Ceci Rêgo

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