terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O cheiro da vida


A paisagem passa ligeiro. Aridez de quase deserto - é como estar vendo por dentro de Isaura -, o seu deserto tão bem escondido, entre a alma e as suas vísceras. (Pudera ver por dentro das outras pessoas, como tão bem percebo Isaura: as suas teias de aranha, seus velames, suas folhas queimadas, a árvore seca que aponta galhos aflitos e afiados, contra um céu que dita um único tom de azul, para o que a vista oferece). 
A desolada visão, ao contrário do que deveria motivar tristezas, emite uma ponta de alegria que reverbera lá dentro e como uma onda de emoção, vem para fora em forma de um solitário sorrisinho disfarçado. 
O carro corre pela estrada. Um homem que viaja desconsolado declara ao motorista que “mulher só vai é com tabica na bunda”. Isaura e outra mulher que se sentara no mesmo banco, se entreolham e disfarçam o riso, ambas, cobrindo a boca com uma das mãos. Por que teriam sorrido? Isaura sabe o porquê de se rir. É que a invadiu um estranho gosto de vitória, por também aos homens, serem complicadas as mulheres. 

Empatamos, pensou, sentindo-se justificada. 

Sequer veio a si a ideia da grosseria do homem, e se veio, dela saiu de imediato. Por que haveria de avaliar o tanto de machismo que havia naquele desabafo? Estava ali um sujeito genérico. Olhou para trás e fitou o seu rosto. Conferiu: mais uma dessas criaturas rudes. Um homem igual a tantos outros, cujo 'pensar' e sobre o que diz é tão previsível, que nem é preciso adivinhar. Confunde-me ainda e às vezes, são aqueles, os de aparência mais polida, quando do contrário do que se acha, vivem endossando generalidades. 

Tornou a olhar para fora mais uma vez. Longe, um sem-número de garças desenhava bordados alados, costurando o vento como se fosse uma peça de roupa. Haveriam de vestir suas aleatórias imaginações. Ao que ela continuava pensando: sobre quantas daquelas mulheres que faziam com ela a mesma viagem, teriam levado safanões dos seus 'santos' maridos?

Lufadas de ar quente entraram pelas janelas do automóvel. Novamente o espaço hostil trouxera-se para dentro dos seus pensamentos. Involuntária, Isaura respirou o cheiro dezembrino. Fechou os olhos e imergiu incorporada ao seu mundo interno. Estava tudo tão cheio de rispidez... Para quê? Tinha-se com a alma repleta de tronchura a querer estrangular o aroma cheio de signos. Tentava evadi-lo, ironicamente, pelos seus cinco sentidos; as suas antenas de captar afetos. 

Diante de tal despropósito, Isaura se meteu de permeio por entre as suas entranhas, e encetou-se da visão da paisagem aspirada, à essência do perfume  dela exalado. Permitiu-se invadir o aroma e nele consentiu-se contaminar. Ela não haveria de deixar que aquela fragrância saísse de mim por aí afora, porque é o cheiro da vida quem acrisola o meu deserto.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Perdido

Sou a inteireza de onde te arrebentas em fragmentos.
Por isso a mim consinto trafegar as desagregações dos seus passos errantes.

Perdido estás, e ao teu extravio e a ti, eu te maldigo.

Maldigo-te por ignorares a tua sombra que ti devasta,
e que indignada, perverte e confunde tua fome e tua sede,

que o condena à inapetência e o abandona, mendigo, à mais cruel autofagia.
Tu és vácuo, e eu bendigo o teu vazio, 
único reduto e sentido que de ti resta 
e que me alimenta viva e constante.

Tornei-me saprófaga e nutro minhas raízes dos teus restos,

e me alicerço, incorruptível, no labirinto que ti consome
e que o faz perder-se.

Conheço-te em todos os teus atalhos,
porque ando sobre os teus muros,
e sei de todas as vezes que erras o caminho

Rápido. Percorra-te em todos os lugares de ti
Se ti achares, me acharás...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Meia-idade

Entardeço acumulando primaveras e flores, 
com a modéstia senhoril de uma jardineira,
que entendeu das cíclicas estações os enredos:
como o encharcar de begônias o excesso de zelo,
como ver na brincadeira dos ponteiros
do relógio, os números do tempo sobre os jardins.

Um gato preto roça o rabo por entre as minhas pernas e mia
Maria Emília que engelha murchando como um maracujá,
quer despejar em minha casa as novidades da rua
e encher meus ouvidos de pecaminosos vexames.

Queria fazer bolhas de sabão, 
com as artérias do mamoeiro acolá,
para me livrar de maledicências e afugentar mesquinhezas. 

À narrativa do instante perturbo o que fui em menina.

Movo, com o dedo indicador, pedaços de infância que trafegam na poeira de um facho de luz, 
e entram em diagonal pelas fendas da porta.
Para me espelhar como gente grande na sala de jantar,
Deixo-me cravar pela seta de fogo, viro sombra,

 e  me meto, impreterível, 
no rumo de pequenas formigas, 
que descem em fila indiana pelo pé da mesa.

Eu quero me sentir é como Deus se sente.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Garida

Na tarde quente, o fogão de lenha metia fogo pelas ventas.
A parede era negra, 
as vigas eram negras, 
as telhas enegrecidas.
As imagens despejam-me a fuligem por dentro.
À panela, douravam os lambe-dedos e frigia o vento.
No quintal, a goiabeira, o pé de café e o silêncio.
O pilão dormia em um canto.
As folhagens oscilavam e enverdeciam a vista.
Mais tarde, cadeira de balanço lá fora,
A ver chegar as primeiras estrelas,
A rua inteira era um pavilhão de repertórios e imensidões,
e ninguém sabia que depois, amontoados,
serviriam à saudade, que como uma serpente, 
sibila sobre as páginas onde se cravam as lembranças.
Um fantasma alto e magro assobia uma canção,
me sorri, me traz no colo e me conta estórias de trancoso:
Era uma vez uma Margarida,
que viajou para o céu...



Figurado


Pássaro inocente, cujas asas distanciaram-me o universo e o vôo
Entrou pela minha varanda e brigou com a transparência,
sem entender o vidro da porta,
assim como não sei ultrapassar o meu destino.

Sou eu sim, a subir discretos relevos,
A arriscar-me em rasantes vôos.
Minhas asas feitas em casa, de velhos lençóis sobre os ombros,
Alça-me até agora sobre a mesa da cozinha,
sobre janelas da fachada, 
voando sobre um  céu feito de calçada e cimento,
sobre o tempo da memória das coisas.

Dessas coisas é que me saiu do peito a ave,
quebrantando a limpidez, agora, sem entender a porta.
Sem o refúgio no mistério do vidro, desguarneço.
Perdi-me do mundo do faz-de-conta,
Perdi das asas o vôo tecido em algodão
E os fragmentos pontiagudos transluzidos,
cobrem o limiar da porta,
entre mim e os meus medos.
Para atravessá-la, haverei de dilacerar os pés.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Jucélio Souza, esse talentoso artista de Pão de Açúcar

Jucélio Souza


Quando Jucélio Virgínio Maciel de Souza veio ao mundo, um daqueles anjos dos que falaram a Drummond, disse a ele: “Vai Jucélio, vai ser músico na vida”. Estudante do último ano de Direito na Universidade Federal de Alagoas, militar do Corpo de Bombeiros, ele é um negro bonito, de olhos vivazes, um sorriso cativante, estatura mediana, extrovertido e vivendo seus 29 anos com a intensidade que persegue os artistas. Conterrâneo de Bráulio Cavalcante, nascido de Pão de Açúcar, que no dizer do falecido poeta, Marcus Vinícius* foi o lugar do pandeiro inquieto de Zé Negão, José Elias do Nascimento, seu pai.


Herança musical. De pai para filho

Apesar de preferir tocar sax tenor é o sax soprano o instrumento mais permanente em sua vida profissional. Vida e talento musical para Jucélio estão marcados, logicamente, por conexões com a história de vida e da música na existência do seu pai, um artista, também, de vários instrumentos – ele tocava sanfona, trombone, contrabaixo (tuba) e o pandeiro -, instrumento que mais destaque lhe concedeu e que se associou, inseparável à sua lembrança.

Da família dos saxofones Jucélio toca: alto, tenor, soprano e barítono. Toca ainda, clarinete, flauta e flautim. Estes são os Instrumentos com que o artista se apresenta profissionalmente. Brincando, como costuma dizer, ele toca gaita, teclado, banjo e ainda estuda violino faz um ano.
Zé Negão e o seu pandeiro

Em outros tempos e outra Pão de Açúcar acontecida entre 1932 até 1995, ano da sua morte, Zé Negão, como era popularmente conhecido, viveu a seu tempo e deixou registrado nas páginas da história da cidade e no afeto dos que o conheceram, o exemplo de vida de um homem que soube superar as adversidades. Tendo ficado cego ainda jovem, o artista sustentou condignamente a sua família, sem precisar depender dos outros para isso. 

Sobre o seu pai, Jucélio é enfático: “O que me marcou até hoje, e isso me caracteriza muito, foi ele ter me ensinado a exigir sinceridade e ser sincero o tempo todo, porque ele sofria muito com a falsidade daqueles que se aproveitavam da cegueira dele, para usá-lo como motivo de chacota, muitas das vezes que ele chorava em casa, era pelo fato de os outros zombarem muito por ele ser cego, aí ele sempre perguntava a Deus, na esperança de uma resposta: porque ele teve que viver tanto tempo cego... Meu pai morreu quando cegou apesar de parecer uma fênix todos os dias que acordava”

A determinação e a garra que conduzem Jucélio provêm daí, e o artista surgiu há 22 anos, quando o seu pai pediu que ele, uma criança de sete anos, o acompanhasse para tocar triângulo, em substituição ao colega que após ter tomado umas e outras, não poderia tocar. O local era o povoado Rua Nova, e para ele, a lembrança daquele dia permanece viva e o emociona até hoje. Como todos os que experimentam o mundo das artes, o menino sentiu a magia daquele momento e segundo ele, ver que as pessoas o olhavam enquanto tocava o instrumento, admiradas por ele ser tão pequeno ainda, tocando a noite toda, fez com que pela primeira vez, ele se sentisse importante. Após aquele dia o seu pai o matriculou na Sociedade Musical Guarani, a tradicional escola de música de Pão de Açúcar.

A música e o artista
O artista em apresentação com sua flauta

Para Jucélio são muitas as exigências que a música faz ao artista. Música exige fidelidade e dedicação exclusivas. Ele acredita que o artista que resolve viver da música precisa abdicar de momentos preciosos com seus amigos e familiares. Por isso a mudança no curso da própria vida: a faculdade, os concursos e a aprovação no serviço público, como bombeiro. Aqui em Alagoas, que contextualiza situações nada razoáveis e de pouco reconhecimento ao trabalho artístico musical, os momentos mais propícios para os ganhos financeiros com a música, é justamente quando mais se deseja estar reunido com essas pessoas. O artista observou que nas fotos de família, sempre faltava alguém. E esse alguém, era sempre ele.

A falta de incentivos, entre outras contendas, e por fim, os condicionamentos e modismos a certos gostos musicais, ainda de acordo com ele, respondem em grande parte, pelo esvaziamento na contratação de artistas profissionais nos eventos mais frequentes. Músicos-de-quatro-notas é como ele faz referência, àqueles que tocam músicas, que só precisam de quatro acordes. “As pessoas fazem festinhas em casa e não procuram um músico que se dedicou a ser profissional. Ele é mais caro, obviamente. O contratante vai buscar um menino novinho que está brincando de ser músico. O reconhecimento esperado não existe”.

O artista optou em dançar conforme a música, procurando satisfazer musicalmente a todos os que o procuram. Ele encara esta opção como uma das condições do seu profissionalismo. A realidade é que Jucélio não vive inteiramente da música. Mas, reconhecido pelo seu talento, ele continua subindo em palcos com Altemar Dutra Jr, Salgadinho, Sem Compromisso, tocando ao lado de pessoas que têm seus lugares já definidos no cenário nacional e internacional, abrindo shows, inclusive, para Alcione, Djavan, Belo, Exaltassamba e tantos outros.

“Hoje eu escolho com quem tocar”

Ter estabilidade financeira como servidor público é um dos fatores que garantem ao artista poder escolher com quem tocar. Outro fator, ainda mais importante, é o espaço que conseguiu no âmbito musical alagoano, adquirido com o seu comprovado talento. O mavioso som que sai dos instrumentos que toca, de apurada qualidade musical, o faz ganhar em alguns meses do ano, até quatro vezes mais do que recebe como bombeiro e no mínimo duas vezes mais do que no ano todo. Ele ilustra a situação de quem vive somente da música em Alagoas: “As bandas pagam um cachê de sessenta reais para o artista tocar por 3h. Essa quantia eu ganhava quando entrei no Boca de Forno há 12 anos. Viver de música, nunca mais. Mas preciso dela para viver”, pondera Jucélio.

Músico free-lancer, ele toca com todo mundo e sem preferências, seguindo apenas algumas rotinas. Todas as sextas-feiras e aos domingos toca em restaurantes conhecidos e bem freqüentados de Maceió. É neles que Jucélio coloca em prática o seu projeto SOLO*. Sua apresentação nesses restaurantes é para ele sua vitrine. Daí é que surgem as contratações para tocar em residências, para públicos mais diferenciados, que querem música mais sofisticada, como bossa, jazz, clássicos internacionais. Ele também faz parte do Projeto Nosso Samba, que acontece sempre nos primeiros e terceiros sábados do mês, em um já tradicional restaurante localizado no bairro de Jaraguá. Também toca com a Boca de Forno, Allisson Cunha, com Bruno Palagani, leia-se, mais um excepcional artista. Toca com Igbonan Rocha e outros.

E sobre a música e os novos músicos de Pão de Açúcar?

“Nossa terrinha é um gigante que sangra pelo calcanhar, morrendo musicalmente”.

Voltando para a realidade atual da música em Pão de Açúcar e à Sociedade Musical Guarani, o artista se refere a ela como sendo o seu berço musical. Ele, diz que infelizmente, apesar da cidade ser reconhecidamente um lugar de expressivos talentos musicais, vive-se um caos. Desde que de lá saiu, em 1999, as coisas só pioraram. Sem investimentos por parte de quem quer que seja a arte continua sendo menosprezada. Ele menciona a safra musical paodeaçucarense, dos artistas que somam engenho à música mundo afora, a exemplo de Billy Magno, (e quem de nós não conhece Billy?), exímio músico poli-instrumentista. Mas... o que fazer com os jovens músicos, Jucélio? “Creio que retomar as retretas, ajudar de alguma forma a esses meninos a encherem a barriga, pois com fome não há estímulo pra nada”, enfatiza ele.

Às palavras ditas delineiam esse artista, que desde pequeno sofreu a discriminação e o preconceito social por causa de sua cor. Zé Negão, seu pai, dizia que a queda que uma pessoa levasse não importava, e sim, a maneira como ela iria se levantar. Seus instrumentos musicais e, sobretudo, o ritmo de extasiar - como versejou Marcus Vinícius -, que ele infringia ao pandeiro, certamente, violava e ultrapassava todas as suas angústias. Angústias de um homem que perdeu a visão aos quatorze anos, mas que enxergava pela luz da musicalidade. “Meu pai é a história mais magnífica que Pão de Açúcar já construiu”, diz o artista. Mas, certamente, a maior proeza, a mais singular, é a dele ter tido com a música tal intimidade, que por ela foi presenteado. Foi um anjo, um dáimon da música, daqueles que tocam harpas e flautas, que disse a Jucélio: Vai menino, assim como o seu pai, vai ser músico na vida!



*Marcus Vinícius (1937-1976) - Jornalista e poeta natural de Pão de Açúcar
*Projeto SOLO – Projeto musical do artista Jucélio Souza, onde ele se faz acompanhar em suas apresentações em restaurantes, apenas com seu som e um notebook.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Em um desses domingos...


O espectro do que fora a árvore a mantém ainda de pé entre telhados e prédios. Tediosa em sua ressequidão, ela é só a lembrança da mobilidade, e do metabolismo que no pretérito e só nele, agora referido, houvera habitado. Exposta à insensibilidade, esquece-se do viço e da seiva e o que eram folhas, são agora distorções que suportam a indiferença do assobio dos ventos, à memória dos últimos dias, aqueles, quando os pássaros foram-se embora para nunca mais voltar. 

Calaram-se de uma só vez todos os cantos, ou foram-se calando aos poucos, da vez que o respirar se ausentava da folhagem? Lembra-se, porém, o último bem-te-vi, que chegando ao telhado vizinho, enxergara desolado, o silêncio e a tristeza que emudecera seu cantar,  e soubera então que aquilo era um presságio. Vira, que a vez de petrificar-se em extrema rigidez, chegara ao vegetal. Lembra-se, também, a mulher, que da sua varanda, ao chegar para morar ali, assistira a árvore frondosa ser a mãe de seus frutos. Eu a vejo como uma aparência vã, talvez, se de olhá-la, contemplar apenas seu tédio e deixar fora de mim, o lamento que pertence à mulher, ou ausentar-me à memória do bem-te-vi, que vira naquele momento, na ferrugem das folhas, o fim dos galhos e o crepúsculo da árvore.

Ao que vejo, minha vista se ressente e se escarça em fissuras e fibroses. Filamento-me pelos caminhos da alma, e a seiva que  me percorre as artérias,  verga-me todos os dias, sob dores que não são as minhas. Castigam-me saudades alheias e castiga-me o fado de distribuir pedaços da alma que é minha, por sobre tais insípidas imagens do mundo. Desfolho-me, como em outubro se desnudam as craibeiras, até que me possa salvar, a reminiscência da árvore à história dos seus dias. Ao fantasma que assisto, maculado, só a imodéstia de que estimo uma obra de arte, sucederá ao meu desejo de que se tenha tornado. 

domingo, 21 de outubro de 2012

Dor para curar a dor, que nem essa coisa de blues...

Vinham de uma longa caminhada, quando pela primeira vez, ela observou que havia muitos  frege-moscas bem nos beiços da pista. Em um deles avistou Edite, uma idosa e excêntrica senhora e conhecida de ambos, que lhe cumprimentou com uma cara de pra-mim-tanto-faz-como-tanto-fez. Isaura  por sua vez, trazia consigo e há tempos, uma tristeza profunda disfarçada de indiferença. Adiantou-se e mostrou, 'Olhe quem está ali, Olavo?!' e seguiu em frente. Olhou para trás e viu quando o marido foi ao encontro de Edite. 'Nunca que eu soubesse que ele tinha tanto apreço por ela. Logo Olavo, que de tão estranho, vive de evitar as pessoas', pensou.
Ao que parecia um hábito seu, diário, automático, seguir pelo caminho de sempre, pela rua lógica, aquela à sua frente, que formava um ângulo reto com a que seguia, e que a levava à sua casa, Isaura o contrariou e seguiu andando na mesma direção em que vinha. Talvez porque suas pernas a levassem, talvez porque a indiferença a tivesse distraído, e distraída não entendera que naquele momento uma outra Isaura dentro dela, atrevida, fizera a escolha de caminhar outras andanças. 
Quando se deu conta, perdera-se e com ela a noção de onde se encontrava. Aonde estou indo? Tentou em vão lembrar de um ponto de referência que a levasse de volta à sua vidinha cotidiana e previsível, de tão repetitiva que tem sido. Isaura fez esforços em vão para reconhecer aqueles estranhos lugares. Sabe apenas que está andando em pontas-de-rua, porque todas as pontas de rua se parecem. Mas o lugar é completamente desconhecido, embora Isaura tenha a certeza de que está em território conhecido. Como assim? Ela, infelizmente, não sabe explicar como.
É a cidade onde mora, mas essas ruas não lhe pertencem, porque tanto quanto Isaura, essas ruas a desconhecem. As casas emparelhadas vedam constatações e negam a intenção em saber sobre que distância ela está da sua. Aqui, a casa é só um desejo decodificado e retido entre fachadas de janelas e portas que se repetem por onde Isaura passa. Caminha, mas não sabe para onde ir, porque petrificada em uma única lembrança, a sua memória esqueceu que em volta da sua casa há arredores. E que em todo canto se podem achar referências.
Mas, ao tudo indica, todos os signos que a poderiam levá-la de volta quebraram-se em dissociações. Isaura, ela mesma, é um signo quebrado, como estilhaços de vidro espalhados pelo chão, excluindo inteireza e  nunca assentindo perfeita recomposição. Todas os caminhos tornam-na a sua própria encruzilhada. Sozinha, ocorre-lhe um sobressalto e  ela então compreende que é só e tão-somente, a sua tristeza, o seu ponto de partida. Porque ela tem sido o único sentimento que a reconhece. À intenção de ir ao seu lugar de chegar, sua própria dor sabota o seu intento, embota a geografia do seu curso, atulha em sua memória, os pontos cardeais e a faz esquecer a sua bússola em um dos bolsos da calça. 
Só a tristeza de estar perdida e sem rumo, pode ser maior do que a tristeza que a sobrecarrega. A dor que cura a dor, como antídoto - que é que nem essa coisa de blues -, é quem vai levar Isaura de volta pra casa. Ela  entendeu, e por fim, reiniciará o retorno, reencontrará Olavo e olhará de novo para Edite, que surpresa de outra forma de surpresa, verá na mesma Isaura uma Isaura que é outra. Uma Isaura que reconhece todas as ruas de voltar, porque recuperou seus signos e recompôs a memória. Ela sabe aonde ir. Aquele disfarce de indiferente que usara por sobre a  tristeza, fez a tristeza errar-lhe o caminho até perdê-la de si. Era a tristeza que reclamava reconhecimento e como tristeza queria ser encarada, só para poder daí, trazer Isaura para os seus próprios arredores, arrebatados da memória. Com única companheira, ela sinalizava que as trilhas para a casa, percorriam os caminhos da alegria. A casa, perdida, era ela mesma, Isaura, esquecida de ser feliz. Ela lembrou, finalmente.



sábado, 20 de outubro de 2012

Do poeta Zé Paulo à sua poesia Memória da Flor

“(...) o poeta José Paulo vive em Pão de Açúcar, à beira do rio São Francisco, olhando todos os dias o curso do rio, conversando com a sua gente, sertaneja como ele, fonte de sua inspiração e razão da sua existência”. 


Na década de 1980, Zé Paulo cultivava um cabelo tipo black power, escrevia poemas e a cozinha de sua casa era o local onde reunia amigos para estudar e discutir o marxismo-leninismo. Sua mãe, dona Ubaldina, era uma mulher vigorosa, atenta às coisas do mundo e possuía um talento inquestionável para dizer suas verdades, misturando humor e sarcasmo. Em um desses encontros, ela me perguntou se de onde eu vinha, existia uma coisa chamada pente, porque "o seu amigo Zé Paulo precisa de um para pentear os cabelos". Do seu pai, Seu Otacílio, um homem reservado, a frase que até hoje guardo dele, quando uma vez, na sala de estar, se referiu aos tempos modernos: "O homem que casa nos dias de hoje está praticando pra corno". Foram-se os anos e ficaram as pétalas dessas flores, que contive na memória. 

Um poeta em movimento, é como bem o define o historiador Geraldo Majella. Os contornos que a sua sombra projeta, desenham o poeta caminhando sobre o calçamento das praças do centro de Pão de Açúcar. Tardes afora, abrigado do sol quente sob as grandes árvores, ele é assim: uma silhueta levemente vergada sob o viver às formas do mundo e de falar sobre ele em forma de poesia. Zé Paulo é fantasmagórico, em seu jeito silencioso de percorrer as mesmas provincianas ruas, de visitar amigos, de emprestar para eles os seus livros, de dizer sobre as coisas que o cercam, jogando frases quase soltas, fazendo extensos intervalos, marcados pelo costume que tem de pousar a mão direita sobre o coração, por seguidos minutos, às vezes ate bem longos.

Parece que ele alinhava pensamentos, como se fosse aos poucos costurando os desdobramentos e como se ficasse esperando que algo de dentro dele fornecesse as palavras. Não é raro abstrair-se em meio à nossa conversa, para um lugar que invalida o momento presencial e que parece arrebatá-lo da realidade compartilhada por todos, para uma viagem para dentro do seu universo, que dilatado até o verso, permite que a flor que ele viu, branca e azul, seja apenas uma memória. A memória da flor. Essa é a belíssima poesia de Zé Paulo, musicada pelo artista alagoano Júnior Almeida, que dá nome ao seu novo trabalho. O lançamento está marcado para hoje à noite, no Teatro Gustavo Leite, no Centro de Convenções.

“Do amor que é ilusão e prazer, antes de significar, move-se ou não se move no céu a abstração”, eu troco a ordem dos versos, para da flor decifrar a memória e para brincar com esse amigo, poeta da minha terra, que há 30 anos publica seus poemas. Zé Paulo me disse que não encontrou a poesia ou foi encontrado por ela: “Poetas não nascem nem encontram. Poetas são simplesmente poetas”. E quando eu perguntei como era ter um poema tão bem casado com a uma melodia, ele me respondeu que: “A música existe nos poemas, no conjunto individual do autor, no conjunto dos poemas de todos os autores. Criei a Cidade Virtual onde a música percorre a cidade fazendo a sua segurança. Esta virtualidade provém do urbanismo”

A poesia constela a virtualidade do céu azul e branco sobre a cidade, suscetível de ser realizada e vista como uma enorme flor. A música é o vigilante da sua segurança e juntas, a melodia e a palavra, reforçam a premissa da racionalidade humana, como conciliadora entre urbanismo e sensibilidade. É então o verso que a expande até tocar nosso universo através de Zé Paulo, esse homem de pouca conversa e de tanto sentido, dono de um universo singular. Infinito, enorme, poético e demasiado, como a Memória da Flor.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Monólogo ou talvez uma vã filosofia a Dirceu Fonseca

"Não existe uma verdade cujo sujeito possa ser o seu detentor"

Você acredita mesmo, meu caríssimo Dirceu, meu locutor e interlocutor, emissor e meu receptor de tantos diletismos, em outros cenários paodeaçucarenses - mais plásticos e simbióticos -, que no espectro solar, a cor vermelha é signatária da corrupção e é também corruptora às outras cores?
 
E sobre aquelas pessoas que usaram a cor vermelha durante a campanha eleitoral, você acha mesmo que elas, ao usarem essa cor como símbolo do seu candidato, são todas elas corruptoras, meu respeitoso e inteligente filósofo?

Dentre todas as outras cores, que agora após as eleições, você vaticina: todos poderão usar, qual delas é signatária da arrogância? Qual a cor do ressentimento?
 
Sob o imenso manto azul que veste o nosso céu, e sobre o chão que a gente pisa, todos, sem exceção somos espectros solares. A vitória de um candidato não invalida opiniões contrárias, não significa que os interesses, diversos, que agregou a maioria sejam os mais certos, nem apaga a cor vermelha que muitas pessoas decentes e pensadoras como você, quiseram vestir. Não me refiro aos candidatos.

Refiro-me às cores: Azul e Vermelho. Elas são signatárias de virtudes e vícios. De corruptos, corruptores e corrompidos. As cores se influenciam umas às outras. Assim como entre o yin e o yang, o final do dia e o começo da noite há um ponto, mínimo e com um tempo ínfimo que seja, onde os dois lados de uma mesma moeda se misturam e se confundem e nessa mistura e confusão, corremos, todos, o risco de sermos contaminados pelos vícios e corrompermos nossas virtudes.

Uma cor que seja soberana em Pão de Açúcar, como você enuncia, só traduz arrogância e poder. E a democracia é legítima quando traduz equilíbrio.

Veja a bandeira de Alagoas. A nossa bandeira:

Ela é vermelha de um lado e azul de outra. Quem tem o maior poder e a maior de todas as soberanias, para fazer o melhor para o povo de Pão de Açúcar, somos nós mesmos. Após as eleições, o povo, nós, meu caríssimo Dirceu, somos a meu ver, signatários da cor branca. O branco sim, é a mistura de todas as cores, reveladas na transparência de todos os arco-íris. Nós, com nosso empenho, é que equilibraremos as cores (Idéias) e daremos curso ao nosso enredo.
 
Se a nós mesmos nos fazemos pejorativos, e sobre o povo-azul, você afirma que : "Estamos todos muito alegres (...) vamos escrever por aqui nosso enredo, nossa história... por enquanto, também se chamará SALVE JORGE!!!Rsrsrs", os que se vestem de vermelho podem, fazendo suas as palavras do grande poeta russo Maiakovski, responderem:  

“Não estamos alegres, é certo. Mas também porque razão haveríamos de ficar tristes? O mar da História é agitado”

SALVE TODOS OS PAODEAÇUCARENSES!!!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Salve Salve Pão de Açúcar, salve a terra da cultura... E viva a prefeitura!


O povo vota. A maioria elege

Li sobre a entrevista concedida pelo prefeito eleito Jorge Dantas, hoje pela manhã, a José Vicente, da rádio Jaciobá. Nela ele sinaliza suas disposições e seu plano de governo. Acredito que o momento seguinte para todos os eleitores da Onda Azul e do Mar Vermelho é acompanhar e conhecer o conteúdo do plano gestor de Jorge. Vencedores e vencidos nesta “batalha eleitoral”, estamos às portas da futura administração. 

É da obrigação de todos, é da responsabilidade de todos, e deve ser causa e efeito ao nosso interesse, para aquilo que vem adiante, porque saídos todos do período de campanha, entraremos em janeiro/2013 em outro contexto. Aos que escolheram votar em Jorge, a responsabilidade não é menor. 

Ao contrário, deve ser ainda maior, porque o que se deve comprovar na prática, é que o candidato eleito pela maioria tem realmente compromisso com essa maioria que o escolheu. Em nome dela e para mostrar que seus oponentes estão enganados, Jorge precisa executar ações, para concretizar e materializar as propostas feitas em campanha. O objetivo do seu mandato é promover mudanças e gerar desenvolvimento para Pão de Açúcar. 

Atitudes paternalistas não deveriam ser levadas em conta. Porque elas remetem a estratégias comuns, desonestas, e amplamente satisfatórias à grande parte de políticos. Não ao povo. Quando um político ajuda uma pessoa que não votou nele, não está fazendo mais que sua obrigação. Um gestor é gestor de uma cidade, do município. 

Ele não é o prefeito de quem o elegeu. É prefeito para uma população pãodeaçucarense, de 15.615 eleitores, dos quais, este ano, 14.287 compareceram às urnas e fizeram a sua escolha. Ele não pode perseguir quem não o escolheu. A escolha é livre. As pessoas têm o direito à liberdade de escolha. 

O bom político, o de boas intenções, chega junto de qualquer cidadão. Ninguém é obrigado a votar nele contra a vontade. E deve a todos tratar com distinção. Nenhum cidadão ‘deve’ nada a um político que se utiliza de uma necessidade sua, para dizer: “olhe aqui. Eu sei que você não vota em mim, mas eu vou lhe ajudar”, isso é coerção. 

Isso é cobrança de ‘reconhecimento’. Isso é encabrestar voto. Isso é exigir que a pessoa que foi ajudada, vote nele quando ele se candidatar novamente. Esses expedientes são antigos. São remotos, são dos tempos dos coronéis. O povo precisa dar a si mesmo o valor que merece.

Nenhum político, nenhum homem público tem o direito de coagir nenhum cidadão. Toda a ajuda que uma pessoa recebe de um político, vem do nosso próprio bolso. Vem dos nossos recursos, vem dos cofres públicos e são geridos pelo administrador da cidade. 

Quem deve favor a político é quem se vende a ele. Quem vende sua consciência social em troca de benefício pessoal é pior do que quem, supostamente, vende seu voto em troca de satisfações de necessidades imediatas. 

As mesmas palavras eu diria se Cacalo tivesse sido eleito. O povo vota. A maioria elege. Cabe à população de Pão de Açúcar, impulsionar, conferir e fazer com que se concretizem todas as ações que o plano gestor apresentará à população, para servirem de esteio e desenvolvimento nesses quatro anos de administração. Não esqueçamos, no entanto, que o exercício de cidadania não começa e termina com o voto. Vai adiante e a partir dele. 

Parabéns Jorge! A maioria do povo desta nossa Cidade Branca, onde a lua se deita sobre as águas do Velho Chico, confia em você! Pão de Açúcar precisa de quem cuide bem dela e de quem faça com que tenhamos orgulho de sermos paodeaçucarenses.

Para quem quiser conhecer e ter em mãos o conteúdo da entrevista do prefeito Jorge Dantas
http://minutosertao.com.br/index.php/blog/helio-fialho

sábado, 6 de outubro de 2012

Em quem você vai votar???

A imparcialidade não existe. Ser imparcial diante do que se coloca como escolha na vida em sociedade significa: Que não sacrifica a sua opinião à própria conveniência, nem às de outrem, segundo Aurélio Séc.XXI. Ser imparcial suporia uma despretensão que nós meros humanos não temos.

Existem ofertas e existe a possibilidade de escolha diante delas. Em um processo eleitoral, onde dois candidatos são ofertados aos eleitores, como é o caso de Pão de Açúcar, é feliz quem tem a convicção pessoal de quem é o melhor. Nesta eleição, eu já expus meu pensamento aqui neste espaço virtual, o meu voto é estratégico. É um voto de protesto, porque eu não encontro em nenhum dos dois candidatos, qual o melhor para a minha cidade. 

Minha escolha na hora de votar é conscientemente parcial e não poderia ser diferente. Mas os motivos para a minha parcialidade nascem da imparcialidade interior, vinda das minhas certezas de mulher, cidadã pãodeaçucarense, de pessoa consciente, politizada, graças a Deus. São as minhas certezas. Meu senso não é comum. Assim como em se tratando de pessoas esclarecidas, inteligentes e guiadas pelas suas instâncias internas, com certeza e com todo respeito, suas escolhas parciais, ainda que em desacordo com as minhas, também não estão alicerçadas no senso comum. 

Tenho direito de exercer minha cidadania, e o sufrágio, o voto, é ainda mais que uma escolha, um julgamento. Um julgamento popular, democrático, ainda que a gente saiba que o ato se acerca de mil e um ardis, que os desvirtuam, e que são conhecidos por todos nós; pobres e ricos, esclarecidos ou ignorantes de esclarecimentos. Todo mundo deveria ser prepotente na hora de votar. Porque o momento da decisão de quem vai gerir os nossos cofres, é um momento de grande poder e influência.

Poder e influência, que o povo deixa escapar e que poderia ser exercido, para compensar a opressão e despotismo, com os quais os candidatos se apresentam. Uns mais do que outros. Mas, presentes em todos eles. São exatamente duas formas de prepotência antagônicas entre povo e candidato. Duas parcialidades.

Como cidadãos, qualquer um pode colocar seus pontos de vista e colocar suas opiniões. A gente não pode impor nada, mas pode fazer uso da liberdade ‘orientar’ estradas. Isso é uma atitude democrática. Concordar ou não com o que está posto é outra história. Mas o direito a isso e fazer uso desse direito, todos temos.

Falo por mim: Meu voto é de longo prazo. É ideológico. Minha escolha é parcial, porque toda a escolha o É. Não voto em candidatos, não voto em suas propostas porque até que me provem o contrário, metade, será esquecida e engavetada. Voto na possibilidade de contribuir para que aquilo contra o que eu sempre lutei não se repita em minha cidade. 


Porque eu também sou capaz de enxergar as coisas e defender minhas certezas. Porque como eleitora eu tenho o direito a ser prepotente. Eu tenho nas mãos o poder e a influência que a democracia me confere.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Eu já contei?

Eu disse ao rapaz que ele chamasse Zé Raimundo, o taxista que é meu amigo, e você sabe de quem estou falando, não sabe, rapaz? -'Sei, garota'. O menino levou o carrinho até a porta do supermercado, todo apressado pra desocupar e pegar outro carrego, porque eu me vexo pra dar a gorjeta antes do tempo. Como é seu nome mesmo? Isnaldo. O primeiro táxi que chegou ele foi logo dizendo: é o da senhora, chegou, 'óia'. 
Não era ele não. Raiva danada do funcionário sorridente, achando que ele havia chamado o taxista errado. Uma mulher que anda acompanhada de uma menopausa parecida com a minha, sabe o que é ter raiva. Uma dessa, grande e desmesurada, por uma coisinha tão besta. Oscilação do humor é uma gastura. 
- Mas logo a senhora que parece que não tem tempo ruim, como pode? 
- Podendo, Josi. A raiva é que nem como uma coceira, que a gente não pode coçar, porque nem sabe onde está coçando. Quer ver raiva? É quando me lembro da prima de Audálio. Muito importante, toda cheia de propriedade,  com ares de sabe-tudo me dizendo outro dia: É síndrome climatérica. Coma isso, coma aquilo, aquilo outro e tome chá da folha da amora. Me dizendo o óbvio e se achando mais sabida do que eu. Eu tenho cara de desinformada tenho, Josi?. Sim, aonde eu ia mesmo nessa história? Eu já contei que quase pego o táxi errado? 
- Duas vezes. Três com essa, mãe. 
Tenha paciência, Nano. Mas eu terminei de contar como foi? A gente, eu e o menino já tínhamos colocado quase tudo dentro da mala do carro do homem. E ele olhando pra mim meio surpreso.
- A senhora me chamou mesmo, senhora?
Eu olhei para um carro que ia chegando e vi Zé Raimundo. Aí eu respondi ao taxista, já tirando minhas compras de dentro do carro dele: chamei não, senhor. O vexame do menino me atrapalhou. Como era mesmo o nome dele, Josi? Ela me olhou coçando a cabeça. Pensou, passou o dedo no rosto vasculhando espinha, encontrou uma, mexeu, remexeu. Olhou pra mim de novo, 'a gente tá ficando velha e esquecida, viu dona Amália?. Eu também não lembro mais não. A cabeça da gente né nada não, né dona Amália? Né nada'. 

Nano, eu já lhe contei do encontro que tive, no mesmo dia? Foi lá mesmo dentro do supermercado, com uma antiga conhecida que nem na menopausa está. Beijinho indo e vindo e a gente não lembrava o nome uma da outra. Pior é que usávamos o mesmo tipo de dissimulação, nos tratando por 'querida' o tempo todo. Contei? Que estalo eu tive agora. O nome dela é Valeska. Lembrei. 
- Já contou, mãe. Umas quatro vezes com essa.

Jarbas Ferreira-Kandinsky e o pop-rock alagoano

Tem muita gente que precisa ser conhecida no palco musical em Alagoas 


“Comecei a compor pra valer em 1990, com um pensamento mais sério e honesto, mas de um jeito simples, mas já pensando num trabalho mais bem elaborado no futuro. Eu fazia uma canção a cada seis meses. Eu não gostava da estrutura da música, destruía, e levava muito tempo pra construir outra, e assim era o meu jeito. Mostrar o meu trabalho em show viria a demorar muitos anos, por isso profissionalmente ainda é uma interrogação - prefiro ser um músico amador, sem experiência de palco” 

Da esquerda para a direita: Jarbas, Eduardo Callado, Fernando Coelho e Marcos Alves

Interessada em trazer para o conhecimento do público e divulgar outros tantos talentosos artistas alagoanos, apresento hoje o cantor e compositor Jarbas Ferreira. Quem o conhece o seu trabalho que levante o dedo. Eu posso levantar, sim. O pop-rock é a sua proposta que soma a sua banda, à diversidade desse estilo no cenário musical alagoano, ainda que pouco conhecido pelo grande público. O grupo é formado por artistas que não passam despercebidos, pelos que os trafegam pela música local: Marcus Alves (Luz de Candeeiro/Capa de Cangaia Véia), Eduardo Callado (Stonegarden/Kaddish) e Fernando Coelho (Santo Samba/CHIAR). Juntos eles fazem o Kandinsky, uma banda de rock vigorosa, sofisticada que emoldura as canções de Jarbas. 

Com forte identidade autoral, o artista mistura o charme do pop inglês com o lirismo poético da MPB. Imaginem o que resulta dessa fusão(?). As músicas são simples, melodiosamente simples, com letras que falam sobre afetos cotidianos e pessoais, ao mesmo tempo em que universalizados, as canções do Kandinsky mostram que a simplicidade é o expediente utilizado para fisgar naqueles que curtem o pop-rock e a banda, sentimentos constelados por elas. 

A história de Jarbas, entre outros percursos pelos caminhos da música, contabiliza três anos estudando violão clássico e popular. Há tempos, em 1989. Foi o cansaço de tocar músicas dos outros que inquietaram Jarbas e despertaram nele a intenção de compor. “Eu resolvi fazer minha primeira canção, que se chamava ÔNIBUS. Era uma crítica ao transporte público da cidade. Foi um obstáculo, como hoje ainda é. Mas eu não parei, gostei do obstáculo, e com o tempo fui aprimorando as melodias, arranjos e tons”, pontua ele. 

Passados 23 anos, a sua dedicação para ouvir muitas músicas, comprar muitos discos, e observar os grandes compositores da MPB, segundo o artista, o ajuda a absolver um pouco da estrutura de composição. 

“É um som retrô 

e ao mesmo tempo moderno e fácil de ser assimilado. As canções duram um máximo de cinco minutos. Às vezes a letra sai junto com a música. Depois só a letra. Depois só a música. Às vezes também, e a melodia chega por último. É um momento de inspiração, respiração e transpiração, uma espécie de mediunidade”, diz Jarbas falando ainda sobre com compõe e sobre a banda Kandinsky. 

“Trabalho árduo é fazer música” 

A participação do artista na cena musical alagoana é minúscula: um show com o Kandinsky em 29 de agosto de 2008, no Mandala. Uma apresentação na casa de um amigo com a Banda Gramophone Rock and Roll, em maio de 2011. Jarbas diz o que a gente, lamentavelmente, sabe: "Aqui em Alagoas temos uma legião de artistas maravilhosos, escondidos, dentro do Jazz, Blues, do Rock em seus variados segmentos. Isso é pop! Só falta os meios de comunicação - Rádio e TV -, abrirem mais espaços pra essa gente, e não ficar preso a dois estilos! Isso aliena o povo ,e os impedem de conhecer mais e mais artistas".


A banda Kandinsky está finalizando as gravações do novo Cd, Novos Românticos, com participações especiais de vários artistas da terra, e Jarbas em nome do grupo, agradece a todos.









Para contatos: http://www.myspace.com/tocakandinsky
tel: (82) 3334 1834 / 8878 1236

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

À poesia alagoana, a música de Mácleim


A costura poética da arte alagoana 
CD Esses Poetas - Gravado no Estúdio Carioca - Rio de Janeiro/RJ, 2007
Lançamento: 19/09/2012
Capa do CD

A primeira vez que Mácleim pisou em um palco formatado para espetáculos foi na época dos Festivais Universitários. Foi o Teatro Deodoro, o ventre que concebeu a sua vocação e sua meta. Mas, se for para falar em trajetória, foram os idos anos 70 que o introduziram na música, quando ainda adolescente se apresentava em grupos de baile.



Da época dos vinis e com o maior prazer, o artista tem a felicidade de ter uma música no antológico LP do III Festival Universitário de Música (D.C.E. UFAL). Em seguida, o grupo Beira Banda da Lagoa, do qual era integrante, gravou um Compacto Duplo, com uma canção sua. Mácelim tem 3 Cds lançados. Dois deles na Europa. Pananbiverá (1998), lançamento do selo francês Bongo Records e Internet Coco (2001), pelo selo suíço Soluar. Ao Vivo e Aos Outros (2006) foi um lançamento independente, pelo selo Batuta. Suas canções estão em inúmeras coletâneas no Brasil e em discos internacionais. Só para registro, por exemplo, no Montreaux Jazz Off.

O artista Mácleim 

A sensação de que estava se tornando repetitivo, nas letras e em seu discurso, foi a semente da ideia, que plantada há 12 anos brotou agora com, Esses Poetas, o seu novo CD. Àquela ocasião o artista pediu ao poeta Otávio Cabral um poema de sua autoria, para que pudesse musicar. Mácleim fará hoje à noite, o esperado lançamento do seu trabalho. Nele, o artista vai mais adiante, juntando preciosidades poéticas à sua poesia musical, talentosa e refinada. Caminhante, foi o primeiro poema, a ser musicado por ele. Durante esses anos aconteceram hiatos não planejados, passos lentos, vagareza, mas seguindo sempre, até que o surgimento daquilo que aos poucos foi sendo delineado como um projeto, diga-se, de grande ousadia, fosse concretizado: Musicar poetas alagoanos para fazer um CD. Com exceção de Jorge de Lima, e alguns outros de maior musculatura, Mácleim percebeu que pouco sabia da produção lítero-poética em Alagoas.

Foi o poeta Sidney Wanderley quem fez a apresentação de outros poetas alagoanos ao artista. As escolhas dos poemas e poetas são bem pessoais, baseadas em amizades, sem que se perca de vista a qualidade poética. Mácleim-Caminhante caminhou mais. Seu amigo Pedro Cabral, arquiteto, seu interlocutor nesse projeto, poeta e artista-plástico, o presenteou com um de seus quadros. Daí, mais uma ideia surgida para Mácleim que a introduziu ao projeto. 

Distendido, além das palavras e da música, ele ganhou, literalmente, cor, forma e consistência. Simbiose completa. A partir dos poemas e das composições musicais propostas por Mácleim, Pedro Cabral criou trabalhos de muita força, expressividade visual e plasticidade, em telas de 1,00mX1,30cm, que se atrelam ao lançamento do CD. Expostos, os de 13 quadros realizam a interpretação feita de imagens apresentadas como signos sentimentais, que extraídos da poesia musicada, se incorporam numa profusão de novos sentidos dentro de uma nova leitura, surgida dessa grandiosa costura poética.

O CD é primoroso e não poderia ser diferente. São 13 os poetas alagoanos: Arriete Vilela, Ledo Ivo, Jorge de Lima, José Geraldo, Edvaldo Damião, Jorge Cooper, Gonzaga Leão, Maurício Macedo, Sidney Wanderley, Diógenes Junior, Otávio Cabral, Ronaldo de Andrade e Paulo Renault. As composições de Mácleim, harmonizadas sob justa forma à poesia, garantem alimento nobre à alma da gente. Alagoanidades boiando à flor da pele, interdiscursivas, que dispostas na dose certa, contarão com a magia das palavras, da musicalidade, na voz e na sensibilidade de Mácleim, somadas as participações especiais de Leureny Barros, Clara Barreiros, Wilma Araújo, Júnior Almeida, Quarteto Pau Brasil, Fernando Melo, Chau do Pife e Cantoras do Pastoril Menino Jesus da Cambona e aos excelentes músicos que o acompanham. Por fim, a poesia dos pincéis de Pedro Cabral, que intimidará e aprisionará nossos olhos.

Uma noite assim, é certo que nem as musas gregas, inspiradoras da criação artística à sede da alma humana, gostariam de perder. É certeza que em meio aos presentes, e ao lado das musas, disfarçada, Minerva, a deusa romana, protetora das artes, confirme com sutileza e maestria a sua própria sensibilidade, movendo em nós nossos aplausos, distribuindo arrepios e enchendo nossos corações finitos e mortais com a infinitude do mais completo êxtase divino.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Só para doer mais

O menino olhou tão tristinho pra mim, que na mesma hora tive um desejo daqueles bem grandes de chorar. Contive as lágrimas, mas Dorinha é uma danada pra dar ênfase a coisa triste. Deu um daqueles suspiros cortados pela metade, na frente dele. "Coitado desse menino!" Não faça isso com ele, mulher, eu disse a ela, que me olhou meio como se eu fosse o desmancha 'desprazer' em pessoa. Mas ela sabia o que eu queria dizer com aquilo. E aí eu disse de outra forma, fazendo de conta que tinha acreditado que ela não me havia entendido: _ não atice os sentimentos do menino, que isso não é bom pra ele e você sabe. Aliás, não é bom pra ninguém, ficar tendo a dor alfinetada só para doer mais. Falei em voz baixinha pra ele não ouvir.
O chão da sala de jantar, onde ele brincava, estava cheio de heróis de plástico espalhados. Procurei, e nem sei como, por ximbras entre os brinquedos. Foi como uma saudade que chega de vez e toma a gente de assalto. Lembrei do meu irmão mais velho e das cores vítreas de suas ximbras e depois lembrei do jogo de castanhas, do cheiro dos cajus, do meio-fio da calçada, de Margarida, a flor da minha infância, do buraco da bica que vinha das telhas e de que a gente, pra ganhar o jogo, tinha que acertar as castanhas lá dentro. Fui tão longe que quando me dei conta, Dorinha tinha tornado à mesma frase: "Coitado desse menino". 
Isso me chateia. Profundamente. Ter dó declarado das pessoas é pedantice disfarçada de bondade. Foi com ela que eu aprendi a ter pena de todo mundo, sem nem ao menos saber se aquele sentimento merecia ser sentido. Pena de quê?  Aprígio ficava com raiva e me perguntava: "Pena de quê, hein?" Foi preciso eu casar com ele, pra primeiro me perguntar, o porquê de ter tanta pena desnecessária das pessoas. Pena indiscriminada, graças a Deus, eu não tenho mais. Aquilo me colocava como se eu fosse tão feliz e sempre tão feliz, e tão mais feliz que os outros, que eu me dava ao luxo de sentir pena deles. É demais. 
Mas o menino, o menino tem um olharzinho triste mesmo. Sobra muito branco no olho dele, a íris quase se escondendo por baixo da pálpebra superior. Olhar de santinho barroco. Igualzinho. Tanto brinquedo no chão e ele procurando por coisas que nunca encontra, porque nunca estão entre os brinquedos. É que nem quando falta uma coisa dentro da gente e a gente não sabe o que é. Dá tanta aflição... Pra quê Dorinha ir buscar adjetivo e dizê-lo alto, só pra marcar no coração do menino, um 'coitado' que pode nunca mais abandoná-lo, mesmo quando ele estiver grande?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A senhora sabia, mãe?

Cheia de prato, a pia. 
Seu Orlando, aqui do lado, trocou o madeiramento do telhado todinho. Isso é astúcia de cupim, comendo na casa dele e na minha. Comendo a madeira da rua toda. Canso só de olhar esse monte de prato sujo. Por onde começo? Pelos talheres, não. Odeio passar a esponja  ensaboada pelos garfos e colherinhas. Odeio repetir tarefa de todo dia. Sinto falta de alguém chegar pra mim e dizer: "Que belo trabalho, Violeta!". Não há quem o diga. Tarefeira é o que eu sou, essa palavra existindo ou não no dicionário. Custa-me aceitar que todo o santo dia, fico aqui, lavando pratos. Ofélia me disse que um dia desses estava nesse ofício, e ouviu uma voz dizendo bem baixinho no ouvido dela: "Lavando prato sempre..." Teria a ver com a nossa sina de mulher? Ela me perguntou. Não. Achei que foi coisa de voz de desdenho, eu disse. Mas, se tivesse sido comigo o que eu teria feito? Pernas, pra que te quero? Seria uma carreira só. Uma vez, Alvinho chegou lá na casa da nossa mãe, e me ouviu filosofando sobre dons, em  uma conversa velada, de fundo de cozinha. Éramos eu e minha irmã Celinha, assustadas, as duas, e eu me fazendo de corajosa sem ser, ia dizendo, inspirada, tanta palavra de confiança pra ela, que só Deus sabe. Pra ela e pra mim também, numa espécie de racionalização, que nos convencesse que tudo é obra dos ditos cujos mistérios que nos cercam, e que a gente nunca deve ter medo.

"Eu pensava que o nome dele era Elton 'Magalhões'. Mas né não. O nome é Magalhães. A senhora sabia, mãe?" A mãe nem aí, ocupada, nem respondeu. Se eu tivesse uma escada,  parava de lavar meus pratos, a encostaria na parede do muro e ia olhar a cara da menina. Menina não, que a voz já era de  uma mocinha de uns 14 anos. Foi o carro da campanha do candidato que passou pela rua fazendo zoada. O nome dele e o seu retrato estão espalhados por todas as bibocas da cidade, e a menina nem assim, se deu ao trabalho de ler a palavra? Pelo vidro da janela, olhei Adilson catando as folhas das minha buganvílias, sobre a grama do  jardim. O que a gente faz em um minuto, ele faz em dez, "dona Violeta, a senhora não se aperreie não, que eu faço devagar, porque gosto de fazer bem feito", e é isso que eu digo a Aprígio, sempre atrasado, querendo projetar seus atropelos, na lentidão que desliza as movimentações de Adilson no tempo.

Celinha tinha tido uma premonição. Um sonho que mostrara  pra ela, um acontecimento igualzinho como ia acontecer, e que findou acontecendo dias depois. Ela tinha um medo tão grande antever as coisas, e eu queria convencê-la de que ela era privilegiada. Mais do que eu, que nunca tive uma premonição sequer. Só certezas. Lavar prato todo dia, tem nem graça. Cozinhar, tomar banho, trocar de roupa, tem nem graça. Rotina de cupim dando fim à madeira, rotina de  expectador acompanhando novela, mesmice de cantarolar as mesmas músicas conforme seja a mágoa e evocar mágoas cantarolando as mesmas músicas. E a gente gastando o tempo de viver só pra repetir as mesmas coisas. Que chateação.

Isso é um dom, Celinha. Um dom precioso. Pode crer. Falei até no santíssimo Espírito de Deus, revelador, cheio da Ciência Divina. Alvinho desfez meu discurso me fazendo um susto. Achegou-se por trás de mim e sussurrou ao meu ouvido com voz cavernosa: Violeeeeeta. Olhei em volta, será que Celinha tinha ouvido o que eu ouvi? Será que eu também teria a permissão especial de quebrar a inalterabilidade do previsível no cotidiano? Gritei, insubordinada, um sonoro Nãaaaao. Celinha não conteve a gargalhada e eu me senti indecente e envergonhada. Pra que tanto palavrório, se um dom daqueles, eu tinha acabado de demonstrar, não queria pra mim?! Isso de sonho que vai contando as coisas antes delas acontecerem eu não quero. Gosto é de sonhar coisas confusas, enigmáticas, daquelas que a gente passa pra mais de três, quatro dias pensando nelas, maturando as ideias, juntando as partes. 

Eu nunca imaginei que a menina fosse atingir minha lavação de pratos - ela, mais para inocente do que para ignorante -, falando em voz alta, a palavra 'Magalhões'. A possibilidade da existência de um sobrenome desses, jamais havia passado pela minha cabeça. Não encontrei nenhum 'magalhões' no google, onde a gente encontra de tudo, né? Que nada?!. Eu também não imaginei que fosse encontrar um sertanejo alagoano daqueles bem rudes, logo de manhã cedinho, bem no meio da feira, acocorado, recitando sabedoria, 'que não tem coisa melhor do que uma mulé bonita, mas, mais bonita do que uma mulé bonita pra mim, é a minha família' 
_ E então?. Perguntou a mim uma mulher que ia passando: É isso mesmo, né dona? 

Nenhum anúncio nem antecipação de que aquilo ocorreria. Nada. Sou tocada pelo imprevisto que me traga para os diálogos com a vida. Depois eu pensei, que eu não tinha nada que dar uma de entendida de dons, pra aliviar a angústia de Celinha. Falar coisas sem convicção nem propriedade, só pra dizer coisa bonita é a maior idiotice. Dom maior, humano, é viver a certeza dessas rotinas, para  depois a gente poder  vê-las perfuradas pela imprevisibilidade, que quanto mais alheia, melhor. Eu gosto demais de encher minhas rotinas com gente. Eu gosto.








quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Essas dores do mundo

Certa vez escrevi um conto que se chama: Como Espinha de Peixe. Volto a lembrá-lo, porque hoje, dia do folclore, minha memória retorna à tradicional Festa de São Sebastião. Volto aos dias de todos os anos, quando pessoas humildes e muitas, marginalizadas, desciam do Alto da Carrapateira, lá em minha terra, pedindo ajuda para fazer a sua festa.

São Sebastião, crivado de flechas constelava em mim a memória inexistente de uma dor alheia, de vários furos, de onde jorrava sangue. O seu olhar, voltado para cima, supliciado, o fazia oscilar sobre o andar de quem o transportava, dentro de um oratório, como quem carrega uma criança pequena nos braços. Estarei enfeitando demais a minha narrativa? Seria o oratório apenas e tão-somente uma caixa de sapatos? Há tempos que misturo  as imagens em minha cabeça, e confundo o que foi, com aquilo que a poesia me faz pensar que houvera sido. 

Minha alma me ultrapassa, perigosamente, e segue em minha frente contaminando minhas memórias, pincelando a vida  já vivida, com a beleza que faz do passado um lugar de endeusamentos. Ou será que agora é que vejo a beleza que não percebia antes?. São Sebastião não envelhece, é ele o mesmo: jovem, alvo, cabelos encaracolados e loiros, com o peito nu alvejado por lanças, que todos os anos, em um determinado mês, passava pelas ruas, sacrificando-se ao expor seu próprio sofrimento publicamente, para receber óbolos para a festa a ser feita pelos seus devotos. Que ninguém veja nisso uma contradição, porque são os sacrifícios que santificam os santos. 

A palavra 'óbolo' é que me saiu límpida da memória e saltou para as teclas do computador. Quando percebi já buscava ver no dicionário se ao escrevê-la, havia usado a grafia correta. Tinha errado. Consertei. De onde me veio a palavra? Recorro à cena, gravíssima: a porta da minha casa, minha mãe, minha avó e eu, deslumbrada com os sons dos pífanos que acompanham o cortejo. Na nossa calçada, Sebastião - tão santificado -, um grupo de prostitutas, meninos fedorentos, homens cheirando a bebida e os tocadores fazem uma parada. Tem jeito de ser um disparate entender aquela formação.

Aquilo me separa em duas. Eu sou feliz pela alegria da música e triste pela dor do santo. Minha mãe me segura com discrição, mas com força e me força a conter a confusa efusividade. Olha-me e me imobiliza com a obliquidade dos seus olhos miúdos, sob duas lentes esverdeadas. Mas, se me deixassem livre, se não houvesse condenação ao meu gesto, eu seguiria a procissão daquela gente. 

Meu avô paterno tinha um óculos com as lentes iguais, iguais, às dela.  A escolha teria sido coincidência?  

Era sim, da minha avó, piedosa, boa católica, a palavra 'óbolo' que me atravessou e meteu-se por entre minhas próprias palavras. Os pífanos, a saudade do cortejo, que nem sei mais se existe, em Pão de Açúcar, me remetem à curiosidade que eu tinha em saber o porquê daquele suplício de São Sebastião, condenado a sofrer nos altares das imagens de si mesmo, pelas igrejas afora. Sofrendo uma dor, que eu imaginava, para sempre sofrida. Como seria estar em sofrimentos e ser acompanhado pela alegria dos pífanos? Sua dor solitária, a mim se agravava, diante da coletiva alegria de assumidos pecadores insensíveis.

Eis a palavra surgida da hora exata: "Entregue o óbolo, menina!" E eu entregava as moedas. Mas o santo haveria de saber que a dor que carregava sozinho, era a dor alienada daquela gente sofrida. As flechas deveriam arder-lhe o coração, mutilando os pulmões e a sua respiração com tão pouquíssimo ar, eu pensava. 
_ Eu tenho pena! 
_ Mas a dor, 'é lá nele', dizia minha avó, com medo que se eu entendesse o paradoxo, que ela já decifrara, sofrêssemos as duas, essas dores do mundo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Sete mulheres em mim

As duas mulheres, que vieram fazer uma visita onde eu, de visita me encontro, mais tarde entraram a andar comigo e trouxeram consigo mais outra mulher, que chamei-a de Desconhecida, porque eu nunca a havia visto. Vamos a uma festa daquelas das quais corro às léguas. Ali eu estou, junto a elas, num amplo galpão, que mais parece um ginásio de esportes. 
Procuro corrigir o lugar errado e o despropósito da festa, buscando descobrir algo inusitado, e  acabo encontrando: 
Vejo uma amiga que há muito não via, atravessar o ginásio, indiferente ao que se passa no entorno. Está mais jovem, vigorosa, sensual, muito mais do que estará de fato, depois de tantos anos sem nos vermos, e tendo o tempo causado seus estragos, em mim, nela também os causou. Estou certíssima disso. Eu a observo atentamente. Ela se deita sobre uma daquelas arquibancadas - que só de falar sinto-lhe a frieza do cimento -, exibindo charme e eu comento com Desconhecida: "Como fulana está bonita!"  que também tendo estado observando a presença da outra, concorda comigo.
Deve ter sido por não ter encontrado mais nada de interessante, que eu sigo sozinha noite afora e ao virar uma esquina me deparo, surpresa, com Generosa, essa mulher sempre confusa, que acredita que ser jovem é ser eternamente adolescente. Entendo ao encontrá-la, que sei exatamente, em que lugar estou ou que a festa está. Sinto-a carregando tristezas, das quais não se dá conta. Está doente, Generosa? Diga pra mim o que é que você tem! E ela, enigmática, me pede que eu chore. Fico aturdida.
Ao olhar para trás, percebo a presença de um homem de meia-idade, usando um chapéu, que se precipita do escuro da rua, como se viesse em nosso encalço. Entrelaço o meu braço com o braço dela e sugiro que nos apressemos em direção à sua casa. Alcançamos a entrada, ultrapassamos o muro. Estamos  protegidas. Ela então me chama pelo nome e me ordena mais uma vez: Chore Violeta! Chore, porque a dor que eu sinto, sei, não vai passar nunca mais. Sua dor é óssea, e ela me diz que tem a ver com o deus Mercúrio, que é rapto, coisa obscura... Mas porque eu é que tenho que chorar por uma dor que ainda não reconheço como minha e que ainda não dói em mim?. Talvez por isso não tenha sido convidada a entrar em sua casa.
Sigo adiante. Vou voltar para a festa, sei onde estou, mas não sei o caminho de volta, do qual me afastei apenas por tão poucas ruas. Amedronta-me a ideia de estar perdida na noite. Acode-me outra mulher, também saída das sombras, uma senhora, comum àquele lugar, e me ensina por onde devo seguir. Encontro-me diante do portão de entrada, mas não é para lá que eu quero retornar...