domingo, 29 de janeiro de 2012

Alegria! Alegria! O circo chegou!!

Alegria! Alegria! O circo chegou!!
Foto: Goretti Brandão

“Hoje tem marmelada?
- Tem sim senhor!
- Hoje tem palhaçada?
- Tem sim senhor!”


Na pequena cidade do interior, os rumores de que um circo havia chegado, levava curiosos de todas as idades ao local onde eram armados. Todos queriam ver aqueles artistas nômades, suas cabanas de lona, os animais e os homens trabalhando para erguer aquele templo dionisíaco. Coisa de um, dois dias, um palhaço sobre longas pernas de pau, acompanhado por um cortejo cada vez maior de crianças, anunciava oficialmente a sua chegada e a primeira apresentação do espetáculo, andando pelas ruas em efusivo rebuliço.

Era em sua maioria, circos pobres e pequenos, com mastro único, empanada cheia de furos, que atraíam para dentro da copa, a visão de um pisca-pisca estrelar a céu aberto. Dentro, para a assistência, cadeiras e a geral, feita de muitas tábuas e pouca segurança, cercavam um picadeiro de tablado, com cortina vermelha desgastada. À infância daqueles idos anos, mergulhados na memória da gente, oriunda das cidadezinhas, guardam-se circos rudimentares e decadentes, é verdade, mesmo assim, mensageiros de muita alegria.

Sejam de que tamanho forem, simples e básicos ou glamorosos e apoteóticos, os circos deixam carimbados em nós, noções das ciências da arte de viver. O equilíbrio é-nos constantemente apresentado, na matemática que sustenta corpos, que os embala sobre trapézios, que os fazem caber na junção de outros corpos contorcidos sobre pequenos metros quadrados de espaço, na sincronia de tempos entre outros, que trocam objetos em correspondência biunívoca.

É a lógica aritmética em forma de espetáculo que nos fascina. E até mesmo mais que a lógica, a fascinação vem do desafio que desconstrói o equilíbrio para reconstruí-lo em condições adversas. A desestabilização acontece para que se possa mostrar a habilidade em lidar com situações instáveis. A insegurança é vencida pelo controle do tempo, do lance e do retorno dos corpos ou dos objetos, a partir da altura e distância em que são lançados. Domínio, exatidão e vitória. É o que somos chamados a aplaudir.

As dançarinas obedecem à mesma ordem, quando dançam medindo passos, e os transformam magicamente em leveza. No entanto há outra faceta oferecida ao público. E ela é chamada ao picadeiro para invalidar unilateralidades e compensar os extremos da balança. Salvo a presença da lógica, é preciso que se dê vez ao seu oposto: a fantasia e a imaginação, porque não só de exatidões vive o homem. É na magia e no palhaço que entra em cena a condição do fantástico. O circo ensina que quando lógica e imaginação tiverem o mesmo peso, essa forma de equilíbrio será a virtude capaz de tornar pleno o espetáculo da vida.
_ “E o palhaço, o que é?
_ É ladrão de mulher!”

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Cidinha Madeiro: a poetisa da imagem


Foto:Cidinha Madeiro  vencedora do concurso da UNICRED Nacional
Nos lugares aonde se respira e transpira cultura, é quase impossível para alguém não conhecer Cidinha Madeiro. Poetiza da imagética, encontrou o amor à arte fotográfica, quando comprou com a sua mesada, sua primeira câmera fotográfica. Tinha entre 15 ou 16 anos. Daí em diante não parou mais. Participante de algumas exposições coletivas é vencedora do concurso nacional da UNICRED, tendo sua fotografia, Mar de Espumas, ilustrando o mês de novembro do calendário anual 2012 da instituição. Artista amadora, as suas imagens filtradas da realidade, têm garantido suas premiações, também, no Prêmio Espia, desde a primeira edição do evento. Convido os meus leitores à excelente conversa!
 
1 - Ensaio Geral - Cidinha, a diversidade das expressões artísticas, hoje, mais do que nunca, permite a interdiscursividade. Vendo os seus registros fotográficos, tem-se uma visão realista do cotidiano, de uma forma muito parecida com o que a escritora Adélia Prado faz, quando escreve. Singelezas da vida, que sem a lente humana da sensibilidade, não exporiam a relevância que têm. O que move você a recolher pérolas dentre cenas e coisas tão comuns?

CM - R - : Posso dizer que sou uma pessoa atenta para a vida,ou melhor,para as coisas boas da vida.Sou observadora das singelezas do dia-a-dia. Pequenos grandes detalhes do nosso cotidiano. Cito aqui a escritora carioca Ana Jácomo: “Meus olhos não são econômicos para o que é bonito, duas câmeras castanho-escuras que buscam oportunidades para registrar belezas disponíveis e algumas vezes até encabuladas”. A simplicidade das coisas me chama atenção, tenho olhos atentos para luz e cores, para pequenos detalhes do dia-a-dia. Na verdade, quem fotografa, talvez traga em si, uma vontade de “congelar” o tempo, guardar lembranças através das imagens. Fotografias são registros adoráveis de se ver. Costumo andar com máquina fotográfica na bolsa, isso tem me proporcionado oportunidades de registrar fatos inesperados do dia-a-dia,uma flor em botão, um pôr-do- sol, enfim, cenas e objetos diversos... Há cerca de 20 dias, estava eu no Rio de Janeiro, no carro de uma amiga, passando pela Urca, quando pedi pra ela reduzir a velocidade para que eu pudesse fotografar uma curva bonita do bairro. Em fração de segundos ouço gritos. Assustada, achei que fosse assalto, quando ouço do lado, uma voz vinda de outro carro: ”oi tudo bem?”. Quando olhei, percebi que era o Roberto Carlos, como eu estava com a câmera “ligada” na mão, fotografei de imediato. Daí, percebi que os gritos eram de tietagem. Até brinquei, sou “CHICÓLATRA”, vim ao Rio para o show do Chico (Buarque) e encontro o Roberto Carlos dando sopa num sinal vermelho. Coisas assim... Gosto de registrar o momento. Uma cena não se repete, cada instante é único. Gosto “desse” captar de imagens. Essa possibilidade de registrar o momento me fascina.
 
2- Ensaio Geral – Entre o fotógrafo e o objeto ou motivo a ser fotografado, está posta a lente que enquanto mediadora pode bloquear a captação de subjetividades, indo direto àquilo a ser fotografado, pura e simplesmente. Você acha que o espaço ‘limitado’ do visor da câmera delimita também a sensibilidade artística de quem fotografa ou não? Suas fotos são depositárias de sentimentos, observação apurada nos detalhes e beleza. Como isso acontece?
CM –R: De certa forma há uma limitação, mas não um impedimento. A fotografia é um registro de certo momento e pode traduzir de maneira melhor ou pior a cena ou o objeto fotografado. Isso sem qualquer recurso de retoques/ manipulação de fotos, que, por sinal, eu não utilizo gosto da imagem natural e não uma cena montada. Já me disseram: “fotografia é olho, você parece escolher o ângulo certo”. Se fotografo uma planta, uma flor, uma fruta, um pássaro, etc, eles não fazem pose pra mim, não sabem fazer o vento parar (risos). Da mesma forma que o mar não pára a onda para esperar o meu clique. Tenho um olhar poético, poderia dizer. Fotografo de forma empírica, “pela lente do amor”, como diz a canção. Tenho olhar atento. Por exemplo, não canso de ver pequenos detalhes do mar, do pescador em seu ofício; o ato de jogar a rede ao mar é de uma beleza indescritível... É cena para ver, rever e se extasiar. Não tenho nenhuma técnica especial, a não ser as minhas próprias, a minha intuição e sensibilidade. Parafraseando Otto Lara Resende, tenho olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. E esse espetáculo acontece à nossa volta. É só olhar com os olhos da alma.
 
3- Ensaio Geral - Costumo observar com calma os trabalhos dos meus entrevistados, porque eles me dão pistas sobre seus próprios terrenos, onde, naturalmente, vou adentrar. Você não possui máquina profissional e diz que fotografa por puro prazer. Mas, está claro, que você não constrói o seu repertório imagético de modo aleatório, mas situando aspectos elementares à vida. Enfim, há intenções. Que tipo de prazer é esse? Estético? Intimista?
CM- R: Não sei se há intenções reais da minha parte. Adoro fotografar sem compromisso, apenas pelo prazer de fotografar. Não me canso de admirar o belo. A natureza, além da beleza, tem a capacidade de se reinventar e se mostrar diferente em cada imagem, em cada ângulo, ainda que no mesmo lugar. O mar mostra seus matizes de cores que vão do turquesa ao verde turmalina. O azul do céu se faz diferente,o vento faz o balanço do coqueiro “posar” de outro modo. Na Barra de São Miguel, costumo sair de barco (adoro as embarcações mais simples, canoa a remo ou à vela, jangada) contemplando os encantos do mar, lagoa, rio, barco, pescador, peixe, pedra. Cada dia é um novo dia. Cada momento é único, não se repete, assim como cada imagem. Fotografar é ter olhos atentos para captar esse momento. Mais uma vez me valho de uma citação bonita: “Os fotógrafos têm a mesma função dos poetas: eternizar o momento que passa” (essa é de Mário Quintana).
 
4- Ensaio Geral – Em um universo onde as flores, cenas de folguedos, paisagens, estão bem presentes, as imagens que por certo revelam o que prende a sua atenção, ultrapassam a dureza da documentação fotográfica contemporânea dos meios de comunicação. Através da sua percepção, o que você documenta é um mundo suave e possível; colorido, harmônico e tranqüilizador e, ainda bem, acontecendo, apesar de tudo. É essa a proposta?
CM- R: Talvez, sim. É bom contemplar o simples. Assim como observar as diferenças que o tempo traz. Como transforma as pessoas, a paisagem urbana, rural, litorânea... Quando necessário, eu também fotografo os meus pacientes (algum detalhe que seja útil em termos de comparação da doença), mas não gosto de exibir essas imagens desnecessariamente; são imagens guardadas no consultório e com o próprio paciente, não imagens para divulgação, para contemplação ou coisa que o valha. Uma articulação muito edemaciada hoje pode estar bem melhor na semana seguinte, ou pior, a depender do caso. Nesse caso serve como parâmetro, de avaliação. Fotografias nos fazem voltar no tempo, rever pessoas, casas, cidades, árvores que deixaram de existir. É uma forma maravilhosa de registro. De ver o que construímos e que destruímos. E não deixa de ser agradável contemplar o que alegra a nossa alma, refletido na retina.
 
5- Ensaio Geral - A fotografia está consagrada, definitivamente, no campo artístico, conceituada como arte visual. Toda expressão artística pressupõe comunicação. Ela pode ser veículo de contestação, de denúncia, como também ser arauto de otimismo e de esperança. É do mineiro Sebastião Salgado, notável na fotografia mundial, a frase: "Espero que a pessoa que entre nas minhas exposições não seja a mesma ao sair". Você considera que uma boa fotografia, como produto de uma arte engajada, na expressão exata da palavra, tenha este poder transformador?
CM- R: Claro. Uma Imagem, um retrato, diz muito no seu silêncio. E é bacana que as pessoas saibam olhar de verdade, com olhos de quem quer ver sem o fantasma da indiferença. Que consigam refletir, valorizar a expressão, cada traço, grandes e pequeninos detalhes. Acredito que a arte tem poder transformador. “A vida é amiga da arte”. Não há dúvida que uma boa fotografia, como produto de uma arte, na expressão exata da palavra, tem poder transformador. A arte é um grande poder transformador.
 
6- Ensaio Geral – Você é figura constante nos meios culturais da cidade, e foi citada no Japress, o excelente blog de Joaquim Alves, como produtora cultural. Como você vê, em especial, a cultura alagoana?
CM – R: - Não sou produtora ou promotora cultural. Não sou. É uma brincadeira carinhosa do Joaquim. Mas, acredito que a arte, além de nos manter vivos, nos estimula a viver melhor. Sou consumidora de arte. Costumo ouvir boas músicas, leio muito, escrevo. A meu ver, a função do artista é produzir arte. A função nossa, do admirador da arte e do artista, é conhecer, valorizar, divulgar, “contagiar” as pessoas com o vírus da arte, do conhecimento. Participo de um grupo literário “meio” anárquico composto por poetas, escritores, compositores, músicos (digo “meio” anárquico porque as reuniões são espontâneas, não há formalidades, regularidade nas datas, local, etc), onde se respira cultura; Alagoas é um grande celeiro cultural. Aqui temos grandes músicos, compositores, poetas, escritores, cantores, produtores, grandes profissionais, grandes artistas! Artistas amantes da arte, que, lamentavelmente, não podem sobreviver da sua arte. São escassos os programas do governo para estimular a cultura local, o que é um contrassenso. As grandes festas/realizações populares que promovem cultura vêm, geralmente, da iniciativa privada. Ou, de alguma cabeça pensante, persistente, que consiga tal feito. Por exemplo: A FLIMAR, é um evento totalmente voltado para a cultura, oferece cultura a todas as classes, idealizado/organizado pelo genial Carlito (Lima), um secretário de cultura na acepção da palavra. Um exemplo positivo a ser seguido. O Carlito, por ser um inquieto apaixonado por Alagoas, incansável nas atividades culturais, há alguns anos instituiu o PRÊMIO ESPIA, promove a festa de entrega do prêmio em praça pública, de forma descontraída, outro exemplo positivo. Recentemente (19 de janeiro) houve um show em comemoração aos 30 anos de morte de Elis Regina, que foi literalmente um espetáculo. Belíssimo show protagonizado por prata da casa, eu poderia dizer “ouro da casa”. Produção, direção, músicos, cantores... Todos alagoanos de fato ou por adoção, alagoanos de coração. Teatro Gustavo Leite lotado. Quem viu gostaria de rever, quem não viu, lastima ter perdido. Detalhe: Um evento desse porte, desse quilate, não contou com o apoio da Secretaria de Cultura. Um exemplo negativo. Fato lamentável. Alagoas permanece rica de artistas, mas está pobre de políticas de fomentação de cultura. Num passado não muito remoto, Maceió exibia espetáculos musicais gratuitos semanalmente em espaços diversos: MISA, escadarias da Associação Comercial, teatros, museus e outros espaços. Produção local, artistas locais. Era programação regular, fazia parte da agenda cultural da cidade. As pessoas tinham oportunidade de conhecer a arte e o artista gratuitamente ou a preços populares. E é preciso conhecer para gostar, para identificar-se ou não. Alagoas precisa valorizar a riqueza do seu potencial, suas belezas, sua cultura, sua arte e seus artistas.
 
Ensaio Geral - Muito obrigada, Cidinha!
Veja mais fotografias da artista:
http://www.unicrednne.com.br/site/figuras/Vencedora-Concurso-2011-21.jpg

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Cidinha Madeiro, amanhã, no Ensaio Geral. Confira!

Alagoana de São Miguel dos Campos, conhecida nos meios culturais de Maceió, a médica reumatologista, será premiada na categoria de fotógrafa amadora, novamente, nesta sexta-feira, 27, no 7º Prêmio Espia – Notáveis da Cultura Alagoana, uma iniciativa de sucesso, do escritor Carlito Lima. A festa terá início previsto para as 16h, no Acarajé do Alagoinha, na orla da praia de Ponta Verde. Cidinha Madeiro vai conversar com a gente!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

(Des)Caminhos da Arte Alagoana: O ponto de vista de Paulo Caldas

Uma reportagem com o artista, desenhista, poeta e pintor


Discutindo as Artes Plásticas em Alagoas, é um grupo criado no Facebook, pelo artista plástico Paulo Caldas. Em tempos onde as pessoas estão cada vez mais, interagindo nas redes sociais, a sua intenção é promover a troca de conhecimentos e experiências de cada um. Assuntos tais como técnicas, materiais, questões que envolvem os processos da criação de trabalhos artísticos: perspectiva, texturas, desenhos, tons, são bem vindos. Além disso, o espaço está aberto aos debates e à manifestação crítica, por parte dos que fazem as artes plásticas alagoanas, que segundo a opinião do artista, precisam fazer uso de locais como esses, para veicular tais discussões.

O que falta para a interação?

Como mais de dois meses, o grupo é ainda inexpressivo, não por causa do reduzido número de participantes: 27 pessoas, na maioria artistas - e também outras, de destaque e influência no cenário da cultura de Alagoas e que se supõe, têm o que dizer -, mas pela letargia que trava a dinâmica desejada pelo criador do grupo. Paulo diz que ninguém tem interesse em levar uma discussão adiante, mesmo quando comenta sobre o que tem visto em matéria de arte, algumas pessoas ainda dão como resposta o que ele considera como “um frívolo ‘curtir’”. “Acho pouco para quem lida com arte, uma vez que arte é comunicação pura. Parece não terem o que falar... sei lá!. Acho que estão mais interessados em postar seus egos. E não é só na esfera daqui não”, lamenta Caldas.

Solitário: a ovelha desgarrada

O artista protagoniza situações, onde, solitário, aponta exemplos: “Participei da mostra/concurso sobre os contos e a vida de Aurélio Buarque. Achei aquela exposição de um nível de qualidade muito alto! Um belo acervo! Então pensei: porque não falar com os artistas para reivindicarmos uma aquisição - por parte do governo e dos patrocinadores - de todas as obras? e que esse acervo fizesse parte de um ponto a ser visitado por turistas, escolas, ou qualquer passante interessado em saber da história de um grande vulto da cultura brasileira, nascido nas alagoas?”

Peregrinação

Paulo falou com muitos artistas. Imaginou que os outros, fossem encampar a ideia, mas segundo ele, todos foram muito alheios ao projeto, como se não fizessem parte daquilo. Numa exposição do Instituto da Visão, encontrou uma artista conhecida, esposa de um artista alagoano famoso, já falecido, que na ocasião, conversava com outras cinco mulheres, todas de influência na área. “Foi engraçado como aconteceu: eu falava com uma, que dizia: quem vai gostar dessa ideia é a fulana. A fulana estava lá. Ah! Ela está ali... vamos falar com ela! Fomos. E a fulana disse: que boa ideia. Quem vai gostar é a fulaninha, que também estava lá. A fulaninha dizia: ah!!! Que ótima idéia!!! Quem vai gostar... e assim todas gostaram e ninguém fez nada ou me abriu uma porta”.

Sempre olhando para o problema da sobrevivência do artista, a partir do seu trabalho, o artista quer que se tenha um espaço, onde os que queiram possam exercer o ofício e vender a sua produção. Paulo Caldas, convidado para o Ocupe Jaraguá, um movimento que congrega artistas, produtores culturais e todos os que se interessam pela cultura alagoana, pondera que apesar do bairro ser histórico, romântico, é a Pajuçara, a grande passarela. Não só de turistas, como do povo nativo também. “Ali tem espaço pra todo mundo, menos para o artista. Espaço tem. Falta vontade”, assevera.
O artista arregaçou as mangas. Recorreu às Secretarias de Cultura Estadual e Municipal. Tentou ser ouvido na Secretaria de Planejamento. Lá sugeriram a necessidade da criação de uma entidade e de uma comissão de artistas para fazerem a reivindicação. “Cheguei a falar com alguns artistas, mas a resposta é sempre a mesma: Legal... vamo vê... é mermo... e pronto!. Por isso não levei adiante a história da formação e manutenção do grupo. Acho o comprometimento muito pouco.”


“Fui pro pau”

Exemplos vão e vêm e são pontuados por Paulo. Um deles envolve a primeira edição da exposição do ano passado, do Salão de Arte da Marinha. Os artistas haviam feito um acordo com o curador, que não haveria premiação, mas, em troca, haveria a publicação de um catálogo, que seria bom para todos os participantes. O catálogo não saiu. Ganhador do 1º lugar, Caldas procurou os artistas envolvidos para que fizessem uma cobrança, mas encontrou, “a mesma resposta fria e evasiva”, diz ele.
Ao cobrar o acordo feito, publicamente, em uma revista eletrônica, novamente, sozinho, teve a resposta de que a responsabilidade era da Marinha, patrocinadora do evento. O artista faz questão de afirmar que: “Quando faço uma cobrança não estou acusando ninguém. Apenas quero luz sobre a ribalta!” As colocações de Caldas encheriam e transbordariam espaços.
Quanto à falta de comentários às interrogações e assuntos levados à página, que interessariam naturalmente os artistas, tais atitudes dariam sinais daquilo que o próprio


Paulo Caldas aponta quando fala sobre a inércia do grupo - Acho que estão mais interessados em postar seus egos - ou revelaria que os participantes do Discutindo as Artes Plásticas em Alagoas, usam a proximidade virtual, na condição que a contigüidade não-virtual exige? Ou seja: adotando o que é parte e característica do real, nas redes sociais, que não criam vínculos e onde é possível, com um simples apertar de uma tecla, “deletar” qualquer relação pseudo-estabelecida, entre seus participantes, pois que não é permeada por compromisso algum?.

Ao que parece, a ideia de Paulo; aproveitar o espaço virtual no Facebook, como tentativa à proximidade, não efetivou, pelo menos até agora, a comunicação - entendida como local de discussão, aprofundamento e troca -, entre os artistas, tendendo a reproduzir a mesma apatia e descompromisso dos mesmos, quando presencialmente, em relação aos assuntos pertinentes, não só ao chamamento às reivindicações, como também ao preenchimento de lacunas que movimentem a cultura alagoana e que deem mais palpáveis condições à manutenção da criação artística.

Conheça mais sobre o artista:
Blog: Marinanasceu.blogspot.com
Portfolio http://www.flickr.com/photos/paulo-caldas/
Comunidade de artistas http://galeriaaberta.ning.com/profile/paulocaldas

sábado, 7 de janeiro de 2012

Anilda Leão, sob nossos aplausos

A plateia: O espetáculo chega ao fim e ela se curva lentamente, agradecida. Mulher inteligente, de múltiplas facetas intelectuais, eu testemunhei de Anilda Leão, a atriz em movimento, indo com uma amiga, que fazia parte do elenco, aos ensaios da peça: Onde Canta O Sabiá, e posteriormente à sua estreia, levada aos palcos pela Associação Teatral de Alagoas, ATA, no início da década de 1980, se não me falha a memória. Lembro-me bem de uma cena ensaiada por ela, que cantava acompanhada por um piano, a música: Gosto que me enrosco.

Anilda é uma dessas pessoas que nunca vão embora. O que é partir para alguém como ela, senão uma brincadeira de esconde-esconde que a morte faz, quando fecha a porta da nossa visão e nos priva de ver alguém presencialmente? Sua pessoa, suas palavras, sua escrita, transcendem a ausência e dão prosseguimento à sua existência. Simbiose, entre ela e nós, que a estende, infinda, para os que folheamos as páginas onde os seus sentimentos se deixam compartilhar conosco, e nos preenche e transborda da sua poesia e da sua presença.

Eis a escritora... Em um ínfimo recorte...

Otimista: “Que seria de nós sem a esperança? O sol nasce todos os dias para nos ajudar a viver e nós não temos o direito de nos voltar para o escuro se temos ao dispor tanta claridade.” (Extraído do livro: Eu em Trânsito, 2003) Seriam estas algumas das exatidões que ela recolheu no próprio ventre e escreveu com toda autoridade, no Soneto da menina que fui?

Observadora de tipos humanos: “O caboclo despejou os olhos gulosos pelo corpo da moça numa carícia muda. Ela, vendo que ele avançava, ergueu-se bruscamente, empurrando-o pela porta.
-Vai, Mané, te encontro às quatro horas no pé de trapiá.
O homem ainda lhe sapecou um beliscão na bunda e saiu assoviando pela ruazinha estreita. Ana Rosa murmurou sorrindo:
- Cabra safado... (
Conto: Cabra Safado)
 
Brilho de primeira grandeza, sem dúvida: Ela soube fazer acordos com o tempo e perdurará sendo contada pelas letras e versos escritos pela sua história. As cortinas reabrem. Uma claridade forte e incandescente se espalha sobre a plateia que prestigia os palcos das artes e da cultura das Alagoas. É a Luz poetizada de Anilda Leão que recebe nossos aplausos!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Apresentando Beta Basto

Uma artista plástica que é matéria em revistas estrangeiras

Ao passear pelos espaços onde quadros da artista Beta Basto estão expostos, o visitante pode se deparar com este que ilustra a página. Ele apresenta um ruidoso grupo de brincantes, festejando a alegria carnavalesca, sob a luz do dia. Pleno e límpido, o céu é de um azul impecavelmente ensolarado, que equilibra a cena através de uma linha horizontal que parece sustentar os lados que a emolduram de um canto a outro, onde bandeirolas dependuradas surpreendem a verticalidade de três grandes estandartes. O cenário é maceioense. Possivelmente, encontra-se o grupo no bairro de Jaraguá, porque a artista alagoana, participante da exposição Artistas Brasileiros, no Senado Federal, sinalizou em suas bandeiras, de onde e quem é aquela gente folgazã. Ela o faz referenciando um dos conhecidos times de futebol de Alagoas, o famoso Bloco Pinto da Madrugada, e outro bem sugerido, o Bloco Arte. Em um cartaz nas mãos de um dos brincantes, Beta se inclui na própria obra, assinando sua representação plástica, harmoniosamente colorida, alegre e que testemunha a disposições do espírito popular, revelando, sobremaneira, traços do temperamento alagoano.
 
Olá Beta!
 
Apreciar seus trabalhos é ver, além de outras coisas, o modo pessoal, de como você olha para dentro de si e para o entorno. Constante, a figura humana, até mais que a própria tela, é o suporte, a base, sobre a qual você faz brotar cenas de nudez, folclore e cenários de festividades populares. O calor da sua imaginação deixa uma trilha sobre seus quadros que lhe ‘escreve’ enquanto você nos presenteia com olhares que debulham o viver. Daí eu pergunto: Quem é a artista plástica Beta Basto?

Beta Basto - Quem é a artista beta basto? (É de sua preferência escrever as iniciais do nome e sobrenome em letras minúsculas) Uma mulher que não gosta do que é apenas bom. Sempre procura melhorar. Observar o que move minha criatividade. De uma lavadeira no rio, das fitas de um guerreiro voando no ar, ao corpo humano. Nada na sua essência. O brincante é vestido por mim, seu rosto é meu. Não gosto do quadro pronto. Deixo que o observador o termine. Se nu, que o observador o desnude ou cubra com flores e folhas. Quando viajo no cotidiano, que chamo naif* beta procuro mostrar coisas que já vi ou vivi... Mais inocentes possíveis... É um recordar!!!
As pessoas são curiosas no tocante à criação dos trabalhos de um artista. Como é que seus quadros nascem? O que vem primeiro? O desejo de produzir, e daí você busca inspiração, a inspiração vem primeiro ou ocorre tanto uma disposição quanto outra?

Beta Basto - A criatividade nasce de um exercício diário de observar... A vida, galerias, exposições de arte, nada escapa meus olhos... Daí a ideia surge do nada e esta ideia sempre acaba bem diferente... É surpreendente ver o trabalho depois de pronto. Acredito que criar é Divino, pois sinto que não fui eu sozinha que o fez.
 
Em seus quadros é possível ver trabalhos bem distintos. Chamam à atenção as figuras dos nossos folguedos pintadas por você: Impessoalidade nos rostos – a não caracterização do indivíduo parece ter a função de envolver o observador para todo o conjunto -, e que aparecem, não raro, sobre fundos geométricos, que apontam para invariantes, como se mesmo em tempos de transformações e intercâmbios culturais, alertassem para o mérito da sua constância, como identificadores da nossa cultura. É este o seu apelo?

Beta Basto - Não me prendo a padrões preestabelecidos. Faço pesquisa sobre folclore. Tenho pastas de fotos de brincantes. Quando vou pintar vejo foto por foto e guardo a minha pasta. Os brincantes vão usar roupas criadas por mim. Sem perder a identidade de cada folguedo. Gosto de mistério e simetria Daí os rostos parecidos, o olhar em direção a quem o vê. Gosto, de quando pinto, que fique a pergunta, por quê?? O quadro não deve terminar na ultima pincelada... Cada pessoa que observa, continua sua criação.
 
De outro modo, quando pinta seus nus artísticos percebe-se que a artista dá um mergulho no inconsciente. A presença de traços geométricos é por vezes persistente, desdobrando, e ‘quebrando’ as figuras que paradoxalmente se entrelaçam, sobrepondo-se à própria nudez; uma proposta que invalida leis físicas e libera a sua imaginação. Como esse tipo de trabalho é recebido pelo fruidor da sua arte?

Beta Basto - Quando pinto o nu, a criatividade fica, mas solta. Não estou presa a regras estabelecidas. Não gosto do nu erótico. Não acho bonito. Gosto do mistério. Dos corpos entrelaçado como se fossem um só. Deixo para quem vê desnudar meus nus, ou cobrir com as flores e folhas. Infelizmente, aqui em Maceió, apesar de serem os preferidos em elogios, não tem público para comprá- los. Já vendi um e a cliente devolveu, porque a mãe não queria um nu na casa da filha... (risos). Faço parte de grupos internacionais de arte, e lá fora eles adoram meus nus. Pedem-me para ficar nesta linha... Mas!!
 
Você começou a pintar em 1968, conta com quatro exposições individuais e várias coletivas. Também é ganhadora de prêmio em uma das edições de arte do Exército. Além disso, é alvo de matérias recentes em duas revistas estrangeiras: uma árabe e outra americana. Dona de maturidade artística, suas obras são de bom gosto e marcadas por um senso estético original e bem versátil. Têm personalidade e asseguram com louvor, o seu lugar no cenário das artes. Em alguns dos seus trabalhos parece haver referência à arte de Volpi e Picasso. Há em você o propósito em fazer isso?

Beta Basto - Não me espelho em nenhum artista. Van Gogh e Matisse, quando comecei a pintar em 1968, eram meus preferidos, pois o professor Lourenço Peixoto, ensinava mandando o aluno copiar. Passei um bom tempo, sem pintar até descobrir que conseguia criar... Mas desde Lourenço Peixoto, só pintei figuras humanas. Gosto do surrealismo**. Já tive minha fase... Não tão forte como os de Salvador Dali. Acho que até hoje uso um pouco do mistério do surrealismo... Lá longe, nas minhas figuras que se fundem no nu e no folclore!!

Gostaria que você ‘desnudasse’ para os leitores do Ensaio Geral, o quadro que ilustra esta página. Honrosamente Beta Basto, o espaço é todo seu...
Quando fiz este quadro de vários brincantes, de várias vertentes do folclore, fiz na intenção de unir, em um só quadro, a cor, vestimentas, adornos, como se fosse um retrato da alma de cada um deles... E a alegria única de participar de um folguedo!!
 
* Arte naif: criação artística instintiva e espontânea realizada por pintores autodidatas que sentem uma impulsão vital de contar suas experiências de vida.
 
**Surrealismo: Escola artística que busca retratar o espaço do inconsciente, através da abstração ou de imagens simbólicas.