terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

"Santo Anjo do Senhor, meu Zeloso Guardador"


Lucubrações de Isadora...
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Carta à minha avó


Mãe Tina, hoje eu acordei com saudades do seu quarto escurinho, do seu guardarroupa, que eu fantasiava e o enchia de mistérios, do seu cheirinho de Musk, aquele perfume que a senhora literalmente derramava pelo corpo todo, das nossas conversinhas miúdas e de pé-de-orelha, de tanta coisa, que me dói e ao mesmo tempo me faz sentir premiada. Escrevo para avisá-la de que o meu tempo chegou: vou ser a avó de Isadora, e diante desta nova fase em minha vida, tenho me lembrado da senhora, muito mais do que sempre lembrei, desde o dia que deixamos de nos ver.

Tudo é lembrança: os dias de domingo, os seus passinhos rápidos, andando sobre o passeio das praças, o terço envolvendo uma das mãos, junto com a echarpe, o missal, o tubinho azul-marinho do apostolado, sapatos de salto baixo, mas de salto, os olhos miudinhos e sempre adivinhos, saídos da missa matinal. O seu menor afastamento de casa me causava saudade. Era como se à sua saída, a condição da alegria também se ausentasse.

A senhora me mostrou e me ensinou, praticamente, tudo o que sei sobre como adentrar pelos caminhos da vida, como vencer barreiras e como pegar atalhos. No seu colo, contemplei universos distendidos, e aprendi a viver em cada um deles. Aprendi histórias sobre a vida dos santos, histórias da nossa família. Sua história - a divina comédia - de fazer inveja a qualquer humorista. As suas pelejas vitoriosas, dignas de fazerem sombra aos Doze trabalhos de Hércules. Construtora da própria teia, que nem as aranhas caseiras, me guiava soltando o fio que ia tecendo o meu destino.

Tão adiante do seu tempo! Tão jovem o tempo todo!

Tenho voltado à minha infância, só para me ver menina, sentada novamente em seu colo. Só para ouvir a sua voz me ensinando a rezar de novo o Santo Anjo, repetindo cada frase, como fizemos há tanto tempo, mas que perdura eterna, em minha memória, em algum lugar dela, em um dos melhores, que eu reconheço ter dentro de mim. Volto ao seu calor, à sua cama quentinha, para ser criança, sua neta, para viver a magia do amor que sempre existiu entre nós, para aprender a ser a avó maravilhosa que a senhora foi.

Quero os seus chás da tardinha, sua fé inabalável em Deus, suas devoções, seu sorriso fácil, sua generosidade e o dom curador do seu abraço. Aprender como se aplicam castigos, como funciona a didática do amor sem limites, mas que por amor impõe limites. Também, colher da lembrança do seu olhar severo quando necessário, a ordem, o ‘sangue-no-olho’, como premissa de autoridade adquirida pelo respeito e não pelo temor.

Escrevo para dizer que em meio à alegria da novidade, sinto medo e apreensão diante da responsabilidade de cumprir, não um papel, mas a precisão de viver e compartilhar com minha netinha, uma razão maior, com senso e consciência do meu dever, de contadora de história da vida que já vivi, das impressões que tenho colhido, de ser a transmissora de valores e, sobretudo, emissora de mensagens sinceras de esperança, confiança e de fé, em um mundo tão conturbado.

Que tal marcarmos um encontro? Pode ser através dos meus sonhos? É que talvez, presencialmente, eu possa explicar melhor que o que eu estou pedindo é ensinamento mesmo, para que eu faça valer a força, a sabedoria e maturidade, para viver a experiência de ser avó. É debulhar a Graça maior - que a senhora soube executar com tanta maestria -, comunicar e transmitir para mim, pelo exemplo diário mediados nas extensões da vida. Sempre distribuíndo alegria, muito humor e dando um banho de como se aproveita a existência, exercitando o maior dom da sua alma: a arte de amar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Conversinhas com o anjinho da guarda

Isadora, a menininha e o seu daimon do-pé-pra-trás

Platão, no Mito do Er acreditava que nascemos e trazemos conosco o que ele chamava de daimon: o portador do nosso destino. É ele quem nos guia. Minha avó gostava de usar o termo: 'Do-pé-pra-trás',quando se referia às pessoas que viviam a vida a seu próprio modo. Entendia-se de imediato, que seus caminhos, suas atitudes, eram diferenciadas, por vezes até consideradas destrambelhadas. Tais pessoas, desconstruíam noções preconcebidas e formalizadas pelas regras da 'normalidade' social.

Reverencio e torço para que o daimon, o genius, o anjo-da-guarda de Isadora, seja um desses do-pé-pra-trás, porque, certamente será sua inspiração. E junto a ela, a conduzirá pelos caminhos da sua própria individuação.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Contextos carnavalescos

Palco armado no centro da cidade, a banda iniciou a festa tocando marchinhas. Mal os músicos interpretavam a terceira música, algumas pessoas já acenavam pedindo que elas fossem substituídas pelas de forró. Diga-se, aquele que nada mais é do que restos simbólicos da nossa cultura. Barulho ensurdecedor, sons instalados em automóveis que nos estremecem por dentro, indefinição de ritmos, invasão da privacidade alheia, são algumas das situações observadas nos dias de Carnaval, onde cada um faz a sua festa particular.

Foi-se o tempo em que os festejos carnavalescos uniam pessoas em torno de ritmos que traduziam a animação cadenciada do frevo ou das escolas de samba. Pelo menos é a tendência registrada nas cidades sertanejas alagoanas, o que supõe sua reprodução em outras regiões, dentro e fora de Alagoas. Na confusão total, ouve-se de tudo e presencia-se falta de bom senso, seguida da demonstração de falta de educação, desrespeito pelos outros.

Instalados em automóveis é cada vez maior a parafernália de equipamentos sonoros. Cada qual traz consigo a sua festa e achando pouco, acampam nas praças, nas esquinas, nas ruas e colocam seus sons no volume máximo, obrigando as pessoas a ouvirem aquilo que eles gostam. Ninguém liga em saber se nas casas há idosos, pessoas doentes ou crianças pequenas. Não procuram saber se as incomodam. O principal objetivo parece ser o de competir com outros, que também disputam o espetáculo do show particular.

De péssimo gosto, as músicas são uma cantilena repetitiva, vazias de mensagens. E o que se presencia, tristemente, é a dissociação dos elementos que mantinham sentido às festas, como o Carnaval: a capacidade de agregação dos membros da comunidade, em torno de um festejo que tinha o objetivo de abrir as portas do lúdico como divertimento compartilhado por todos. Preocupa que as festas tendam a ser a reprodução exata de um mesmo falso divertimento. A originalidade e as características das festas populares, vão sendo estreitadas, até caberem, por fim, ao que parece, a apatia das mesmices.

Blocos de fantasiados, perdidos e sufocados pelos sons estridentes dos carros de particulares, saem patéticos, quase deslocados, sem os aplausos e sem os vivas da assistência, sem o séquito que se faziam acompanhar. Giram em torno da avenida principal, fazendo zigue-zagues e vão-se diluindo até voltar de onde partiram. Tentativas quase vãs, de devolver a folia aos foliões, que pelejam todos os anos para ocuparem seu espaço. No mais, tudo é confuso, desordenado e reflete um ambiente neurótico, fragmentado, onde cada qual é um, rodeado de outros uns não menos confusos.
 
Todos, porém, sendo parte da hoste dos pequenos soldados que funcionam incrementando a própria desconstrução. A impressão que se tem é que todos os elementos presentes nas festas atuais trazem no barulho, na insurreição sonora, a ausência de comportamento saudável à convivência em sociedade. É o vácuo na dinâmica do entrosamento e compartilhamento social. Um mecanismo necessário para escamotear o silêncio, a solidão e o individualismo egoísta. Apatia, aridez, e alienação galopante, são reforços aos sintomas doentios da sociedade moderna.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carnaval e fantasia: máscaras que desmascaram

As ruas do centro de Santana do Ipanema estão todas enfeitadas. As tradicionais marchinhas carnavalescas ecoam pelos locais por onde passam os transeuntes. Nos próximos quatro dias, a gente que gosta, aproveita para ser outra. A personalidade dionisíaca, sufocada durante os outros 362 dias do ano por condutas exigidas pelas convenções sociais, finalmente afloram.

Tomados pela alegria, feito uma loucura contagiante, a maioria, nos tornamos sacerdotes bacantes, introduzidos no cortejo de deuses alegres e despreocupados, égides do berço da civilização ocidental. É assim que, sempre que penso no espírito que norteia a multidão de foliões, me vêm à cabeça as festas regadas a vinho, sob os desígnios do deus errante, cujo séquito era composto de figuras dotadas de inúmeros dons.

É como se Dionísio nos visitasse, pobres mortais, nos guiando por caminhos libertários e nos livrando, ainda que por tão poucos dias, do peso da nossa própria condição de habitantes, de um mundo cada vez mais racional, prosaico e que torna quase impossível, uma brecha por onde possamos estender as possibilidades de experimentação da personalidade humana.

Os deuses do ocidente são como indícios dos padrões comportamentais, que de alguma maneira, fazem com que orbitemos atraídos à sua ação gravitacional. Sob as suas influências, podemos vestir partes de nós mesmos, que residem mergulhadas no mais profundo do que somos. Paradoxalmente, acredito que em muitas situações, é quando se veste a fantasia e as máscaras são colocadas, que estamos ritualizando - através de atitudes opostas -, o despir das verdadeiras e perigosas máscaras.

São essas que de tão grudadas em nós, fazem com que nos esqueçamos de ser algo para além do que somos exigidos de representar. E como representamos... Seria de certo modo sábio, procurar o significado da folia, indo adiante da própria folia. Ler nas entrelinhas, nos aproxima de sentidos que têm sido frequentemente apagados e distanciados de nós, em função da agressão sofrida pelo simbolismo coletivo, como sentimento, diminuído a ponto de observarmos as coisas, partindo da nossa própria pessoa e através dos signos que conseguimos ler, individualmente.

Não tão distante do presente, podia-se ver que grande parte dos fantasiados utilizava suas performances para falar mensagens. Essas pessoas desafiavam mistérios, propunham o exercício do pensar filosófico e instigavam os membros da sua comunidade – no caso dos carnavais da minha infância em Pão de Açúcar -, ultrapassando a realidade dogmática da morte, realizando o irrealizável, como ser transportado em uma urna funerária pelos amigos, indo visitar a casa de outros, ou sendo senhores idosos se vestiam de bebês. Tudo suscitava contradição, reflexão e senso crítico. Lembro dos nomes e dos rostos de foliões, que ficarão para sempre em minha memória.

Roberto Alvim, Eraldo Lacet Cruz, Seu Aquino, Augustinho, conhecido homossexual, que se fantasiava de mulher e atraía a raiva dos representantes do falso moralismo e o da polícia, que condensava e exprimia o preconceito social, o perseguindo e prendendo. Era, possivelmente, a única pessoa do sexo masculino vestido de mulher, ‘castigado’ nos Carnavais. Quem sabe, causasse desconforto nos senhores ‘homens de verdade’. Talvez, a genuína felicidade, como depositária e cerne do espírito carnavalesco, e a pertença antropológica da folia de Momo, estejam perdendo o sentido.

A fantasia, como expressão de modismo, pode até sugerir certa animação, mas, é a capacidade de liberação e o experimento de cada um em seus próprios personagens, que pode nos livrar das máscaras que estão grudadas em nossa pele. “Cair na folia” é muito mais do que deixar-se cair nos braços de extremados e irresponsáveis prazeres. Seja sentido, na força desta palavra, para quem experimenta o abraçar da alegria de poder vestir a fantasia anímica, possível de nos revelar, e não poucas vezes, nos redimir.

Na fila de entrada...


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Surpreendente! Menininha é encontrada dentro de um aquário!

 Lunar, o feminino em Isadora aumenta o número de mulheres que iluminarão o mundo

 A imagem se projetou na tela. De costas para expectadores ansiosos, eis que a criança queria preservar-se. Avós, tias, o pai e a mãe, esperávamos descobrir de quem se tratava aquele pequeno ser, dentro do aquário mais sagrado do mundo: o ventre da mãe. Deveríamos ter logo percebido que se tratava de Isadora, a menininha, a se esconder, propícia aos caprichos dos seus próprios mistérios. Coisa atribuída às mulheres. Assim somos, acusadas de incompreensíveis e impenetráveis, porque vivemos o mundo das sutilezas e da subjetividade. Não é a toa que a uma pergunta dirigida a nós, respondemos sem responder, sempre fazendo outra pergunta. Se alguém nos aborda, por exemplo:

- Quem temperou este peixe?
A gente responde perguntando:
- Por que? Ele não está bom?
Um, dos tantos aspectos, da natureza feminina.

Isadora cresce no mundo da mãe, e dentro dele, se prepara para chegar ao mundo de todos. Este lugar, cada vez mais confuso, violento, marcado pelo avanço tecnológico, pela sociedade da informação, que deixa pasma qualquer pessoa que pare para observar, que quanto mais avançamos e nos modernizamos, quanto mais nos informamos, mais foge de nós o conhecimento, mais nos desumanizamos.

Que quanto mais cresce a nossa conexão com o mundo, feita em questão de segundo apenas, mais nos isolamos em nosso solitário mundo pessoal. O campo das experiências dos sentimentos humanos está ficando deserto. E este é também um aspecto do mundo real, ainda que subjetivo, a ser cultivado no universo interior do homem, que está como que sendo transferido para espaços virtuais. A sacralidade do cultivo da imaginação pessoal e intransferível é esvaziada.

Não há tempo para o conhecimento de nós mesmos, que a todo tempo fazemos autoconstruções baseadas em falsificadas projeções do que queríamos ser, em correspondência àquilo que exigem que sejamos. Competitivo, o mundo prescreve que cada um faça exibição do que se tem, não do que se é. Produzimos uma imagem que muitas vezes difere daquilo que somos.
 
Simular tornou-se a maldição do mundo contemporâneo. E é sob a maldição que produzimos irrealidades ameaçadoras à riqueza da nossa vivência espiritual, substituída por doses cavalares de ilusão. Eis a desertificação da realidade e ao que tudo indica o princípio do fim, do homem afetivo, amoroso, que constrói laços fortes e procura impregnar de sentido sua trajetória vivida, buscando a tradução do seu locus interno, na experiência como habitante no mundo.

Como portadoras da Luz, as mulheres carregam tochas que espalham a claridade feminina pelos ambientes. É assim que acontece nos ritos do Mistério dos Elêusis, o culto da grande Ísis. O mito significa, também, o lançar de sementes sobre a terra, fazendo brotar nova vida, para alimentar a história da alma. Que Isadora, cujo nome significa: Presente da lua, dádiva de Ísis, e todas as menininhas, especialmente, que se preparam para habitar nosso mundo, portem a luz misteriosamente suave, lunar, que ilumina com precisão os novos passos que o feminino precisa andar e que são capazes de acender o caminho à consciência dos homens.

Que as sementes que você lançar sobre o chão da Terra, frutifiquem transformadas em encantamento e alegria, porque a alegria é um presente ao mundo, que nasce do coração da mulher.
Estamos esperando a sua chegada, menininha! Seja bem vinda!