quinta-feira, 29 de março de 2012

Uma ideia curiosa: Não tenho como negar




Goretti Brandão - Sertão Menino - OST 100x120m
A vida é curta. Não há como negar isso. Criança ainda, a morte é uma ideia vaga. A ausência das horas, com o significado que elas têm ou a própria condição de inocência, forja uma certeza inquestionável, de que morrer é coisa alheia. 

É para os outros. A gente nunca, mas, nunca mesmo, vai morrer. Pelo menos era assim que eu pensava aos sete, oito anos de idade. O tempo da infância é lento e a sua temperatura se mede por outros termômetros e se fixam na nossa mente, mais tarde, através de memórias que vão farejar cheiros, escutar onomatopéias, restos de conversas, objetos...

As minhas galochas, o barulho dos meus passos, pela avenida  esburacada, o frontispício do Grupo Escolar, a bandeira do Brasil hasteada, são lembranças que aparecem bem em cima do meu baú de relíquias sagradas.
Minha vida é, portanto, a sagração de miudezas, as quais mantêm o exato tamanho da minha altura, se assim posso dizer, porque revejo a meus pés, que pisam na lama da rua. Das mãos pequenas, meus lápis de cores espalhados sobre o chão frio de cimento, colorem ilustrações. E dos cheiros, as goiabas serpenteiam sob a luz do sol, entre os galhos, oferecendo perfume quase enjoativo. Quase.

Mais lembranças: Há um muro separando quintais, há vozes do lado de cá e do lado de lá. Um menino que se perdeu no meio da feira, veio ter à porta da minha casa chorando. Na sala da frente, o homem coberto de farrapos, bebe em goles avantajados, o café oferecido e, com as mãos ásperas e sujas, come pedaços de pão em grandes mordidas. Está com fome. Muita, coitado. “Nossa Senhora é quem há de lhe dar mais”, agradece e vai embora.

A infância é um grande misturar de estações. Do inverno, as goteiras pela casa, as bacias espalhadas, o tique-tique da água caindo, a impressão de que o mundo é parado, e dizerem que gira em dois movimentos é uma grande mentira, senão a gente caía no chão. Em que chão? Caía no espaço. Noção zero de espaço. A infância cabe a si mesma e faz as perguntas certas, nas horas certas. Quanta exatidão! 

E na primavera brotam das craibeiras, mulungus, barrigudas e canafístulas, singulares floradas. Quem anda pelo mato pode vê-las. Do caule de um Pau d’arco, se tiram cascas para fazer chá e o tronco do Anjico curte couro. Realidades imutáveis, ancoradas sobre um tempo que se arrasta enquanto a gente descobre coisas, leva safanões e aprende com quantos paus se faz uma jangada.

Como em uma fotografia, lembrei da minha boneca preferia, a minha Lucy. Amiga inseparável. Aonde foi?

Hoje eu acordei com uma ideia curiosa e contei quantos jogos de jantar já tivemos em minha casa, desde o início do casamento. Seis jogos, em quase três décadas. As mãos ensaboadas, os desleixos, deixaram quebrar a maioria. Fui conferir. Velhas caixas, em um dos quartos da casa, guardam peças soltas de cada exemplar. A poeira e a solidão de objetos que perderam funções ativam o meu desejo de mobilizar ainda mais memória, de contabilizar pires, xícaras, pratos de sobremesa. Hoje, todas as miudezas se fazem grandes e me contam.
O museu que me refaz  está guardado. Ele é cheio de coisas que falam, e, estranhamente, iguais às coisas da infância, elas continuam a requisitar e a exalar cheiros, onomatopéias e memórias que se colorem quase sozinhas, e que forjam em mim, uma arrojada certeza de que como os outros, eu também morrerei. A vida é infinita. Curto é o tempo que se tem para estar nela. Não tenho como negar isso!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Grafite & Vestuário

Este vídeo-amador, também uma produção minha, de Francimária Ribeiro e Roberto Wagner,  com edição de Ranieri Brandão é de 2009. Ele pretende levantar questões que dizem respeito ao vestuário, como forma/tentativa de se romper engessamentos, e da possibilidade das pessoas buscarem a sua própria identidade. Questiona-se também como, apesar de 'alternativos' grupos fechados se formam. O grafite aparece suporte visual ao próprio vídeo, mostrando ser um canal de comunicação, que também burla a mídia convencional e que consegue enviar mensagens de cunho social, nos espaços urbanos.

Pequeno vídeo: Morte e Vida Severina

O vídeo busca interpretar, ainda que de forma amadora, a primeira parte do poema de João Cabral de Melo Neto. Ele foi produzido por mim, Francimária Ribeiro e Roberto Wagner, em 2009.


terça-feira, 27 de março de 2012

Mônica Torres: Alma e Lembranças nas Cores e Crenças do Nordeste


Cores e Crenças do Nordeste
Trabalho da artista
Mônica Torres pode-se dizer, é uma artista plástica ‘inaugurada’ recentemente. Nascida em Palmeira dos Índios, autodidata, ela começou a pintar em 2004, incentivada pela sua mãe, dona Vitória. Seu trabalho é um registro onde estão misturados, símbolos, folclore, cenas, figuras humanas que situam o observador da sua arte, nos recônditos do nordeste. Tão extenso e múltiplo, mas, tão igual, quando se trata de compor imagens que retratam a alma da nossa gente, que se amplia a si mesma e é absorvida pela sensibilidade da artista. Peculiares, como as expressões humanas, por exemplo, pintadas por ela, são os semblantes que confundem nosso olhar e despertam sentimentos paradoxais, assim como é passear em corpo e caminhadas, pelo universo nordestino. Beleza, tristeza, alegria, modéstia, humildade, tudo acontecendo sob um céu de verão, quase eterno, com o qual Mônica se apropria, nos envolve, e nos coloca dentro das cenas, para nos transpassar com a força da resistência humana, nordestinamente nossa.
Em Cores e Crenças do Nordeste, sua terceira exposição individual, que tem início hoje, no Centro Cultural SESI, no bairro da Pajuçara, a artista - que acredita ter feito cerca de mil trabalhos artísticos -, traz para o público, 55 telas pintadas a óleo, com colagens, além de mais 25 garrafas recicladas, trabalhadas com filtro de café e colagens. Os quadros variam de tamanho, indo de 10x50cm, até 150x100cm. Aberta ao público a partir de hoje, a exposição pode ser visitada até dia 29 de abril, das 15h às 22h, das terças aos domingos. A curadoria é de Viviane Duarte Acioli.
Olá Mônica!!!
Ensaio Geral - Como ocorreu a ideia da exposição?
Mônica Torres - A ideia da exposição foi de minha curadora, Viviane Duarte Acioli, pois estava programada para julho.

EG - Como surge a inspiração na artista Mônica Torres?
MT - Minha inspiração não tem momento pra surgir, pode ser até quando estou cuidando do jardim, que adoro mexer na terra e cuidar de plantas...e na maioria das vezes a olhar revistas e fotos, já que pinto o cotidiano das pessoas e em especial o bairro de Jaraguá em Maceió, ao qual tenho muita curiosidade por suas Histórias e Casarões.
EG - As figuras nordestinas, a religiosidade do povo e o folclore são temas fortes em seu trabalho. Parece existir um apelo direto para que se veja aspectos da realidade dentro do contexto onde as imagens se harmonizam. Mas, para adiante do que está exposto, há intenções de despertar o fruidor das suas obras para algo mais? Você busca intimá-lo à reflexão desta realidade apresentada?
MT - Goretti, eu me identifico muito com o Nordeste, e a Fé do Nordestino, apesar de não seguir uma religião, pois creio eu, o artista não pode ter uma religião, e sim todas, por isso ele é um artista! Apesar de eu ser muito elétrica, vejo no olhar triste do nordestino que vive na seca e plantando, uma alegria em sua fé de que um dia irá chover bastante em sua terra, e assim prosperar na vida, quando sobe nos caminhões de romeiros em busca da terra do Padre Cícero Romão Batista, ou mesmo em Aparecida em São Paulo. Não sou ateia, eu apenas creio em Deus acima de tudo e confio nele, creio que ele está dentro de nós e não fora, como muitos acham...
EG - Cores fortes e alegres marcam e caracterizam suas telas. Chama a atenção suas namoradeiras, que na janela se mostram à espera de alguém, além de cenas bucólicas e típicas da roça, como o casamento ou o cotidiano das feiras nas cidades do interior, pelo nordeste afora. O que aproxima, a mantém atraída e o que identifica a artista Mônica Torres com esse universo?
MT - Minhas cores fortes acho que vem de minha alma, sou muito impulsiva, impetuosa e sempre faço e falo as coisas e só depois penso...ai quando vejo, já fiz e pronto. Também me acho uma pessoa forte, pois estou aqui a falar com vc, (risos). Na verdade acho que tudo o que desenho e pinto, vem de minha alma e lembranças que tive ou coisas e fatos que perdi de viver...
EG - É possível nos depararmos com rostos sombrios, que revelam as dificuldades e o sofrimento por que passam os viventes do nordeste. Também, o violeiro que faz modinha, a mulher que toca o pandeiro, destemida, a matuta vaidosa, outra, apaixonada que parece debulhar palavreado carinhoso, no 'pé-do-ouvido' do amado. Como artista, que você sabe recolher da vida, cenas onde as figuras apresentam estereótipos, que muitas vezes passam despercebidas por muita gente. O interesse em retratar tais figuras e em tais instantes, acrescenta ao seu registro artístico, algo que transborda e dá vida às personagens. Como é construído o diálogo entre você e as imagens que você cria?
MT  - As minhas Namoradeiras de olhares lânguidos??? Menina, essas eu tiro da tristeza e alegrias das Mulheres de vida fácil como se fala ainda no Interior do Nordeste. As acho grandes Mulheres que devem ser desenhadas, pintadas, faladas em versos e prosas, pois representam, todas, os sonho de mulheres que nunca tiveram uma chance na vida, e como estão matando as nossas mulheres em Alagoas e no Brasil!!!Tem também as mulheres sonhadoras, apaixonadas, vaidosas que somos todas nós e não uma só... Crio cada trabalho meu em minha mente só em olhar a tela em branco, eu a vejo, pronta e assinada, e se não for assim eu nem começo... Realmente eu acho que todos os meus trabalhos são um pouco de mim, é como um filho e sai de minhas entranhas, sonhos, dores, alegrias, sucesso e fracassos... Sai da saudade que ainda sinto de quem amei e já se foi e nunca mais verei por não estar nesse plano! Cada trabalho é apenas um pouco de mim e não sei como me definir!!!
EG - Religiosidade: Parece acontecer, como parte imprescindível da sua respiração artística. Uma legião de santos conhecidos dos nordestinos, estão inclusos dentre seus trabalhos. Pode-se dizer até que lhe acompanham. Isso tem a ver com questões pessoais ligadas à fé ou eles pontuam, simplesmente, a fé do homem nordestino?
MT - A fé do Homem Nordestina é incrivelmente bela, e incansável... Amo a História e criar a Arte Sacra, da minha maneira, tirando o sofrimento de cada Santo e trazendo a realidade atual... Por isso os faço, puxando pro folclore, e dou movimento a eles... E tenho uma mãe muito religiosa, que isso inspira muito... Apesar de eu não o ser ou seguir uma religião. Minha religião é minha fé é Deus!
EG - Gostaria que você falasse sobre o que espera receber do público que irá prestigiar sua exposição.
MT  - Espero que gostem, curtam e observem todos os detalhes, façam suas criticas boas ou ruins, pois cada quadro tem seu dono, cada pessoa se identifica com um, e o alagoano precisa dar mais atenção aos seus artistas e sua cultura... Espero que a maioria dos que forem ver minha EXPOSIÇÃO CORES E CRENÇAS DO NORDESTE, se identifique com um trabalho e quem sabe o leve para sua casa! Quero agradecer a minha curadora Viviane Duarte Acioli, por mais essa exposição e em especial a você, minha amiga e grande Jornalista/ Artista Plástica, Goretti Brandão.
EG – Sou eu quem agradece a honra de tê-la, aqui, no Ensaio Geral.

Para quem quiser conhecer mais sobre a artista e seu trabalho:
 
Armazém de Artes e Galeria de Artes plástica Mônica Alves Torres
Rua Roberto Simonsen, 555 a., Gruta de Lourdes
Maceió, Brasil – CEP: 57052-675

domingo, 18 de março de 2012

Briguinha


Ser único no mundo

Segundo Jung, as pessoas nascem originais! Isso quer dizer que nascemos únicos!!! No decorrer da vida, o que é uma pena, vamos, a maioria, nos tornando cópias uns dos outros, através de vários fatores. Por exemplo: Valores familiares escolhidos como ideais, cultura, lugares engessadores dentro dos mecanismos socias, que nos engessam... O processo de individuação é essa busca por desenvolvermos a nossa unicidade.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Para cicatrizar lembranças


Sol se pondo atrás da serra e Amélia pensando na vida. Procura ajustar vantagens, definir conceitos, se imaginar uma vencedora de todas as batalhas. Todas não, que assim também é demais. De algumas. Mas, de preferência, daquelas bem vultosas. Aquele tipo de batalha conquistada que perdura pra vida toda como exemplo à gente mesmo, de que se é forte o bastante. No mínimo, a autoestima alcança níveis tão altos, que todo o resto passa batido. Às vezes lembrar que foi possível saltar enormes fogueiras, convém à pessoa. Para Amélia, há anos na estrada, convém tudo. Cada pequena lembrança de haver sacudido a poeira das tristezas e desilusões, de haver cicatrizado tombos, passou a ser um entretenimento destinado aos finais da tarde para o início da noite. Aqui está, pois, bem sentada no sofá da sala de estar, apreciando as horas escurecendo o dia e assim ficará até ver as sombras descerem sobre os móveis. Não acende nenhuma luz da casa. É um propósito, como parte de um ritual, esperar que tudo escureça. Daí ela vai sair tateando até chegar aos interruptores.
Amélia é pontual, metódica e cuidadosa em retornar àquelas dores passadas, às que mais lhe doeram. Flagelação? Nem pensar! É aquilo mesmo de confrontar-se com memórias para ver se pode se comportar como se não tivessem acontecido com ela ou como se não tivesse sido ela a protagonista de ingratidões e desonestidades. Talvez porque comprove que está livre do peso das mágoas, talvez porque queira medir-se a si mesma: a antiga Amélia chorosa, a esta nova Amélia que aprendeu a se conhecer e a interpretar sutilezas embutidas nas passagens dolorosas de sua vida. Tem coisa melhor do que remexer pra lá e pra cá em emoções e descobri-las inertes?
Vez por outra, no entanto, quando pensa que não, é sacudida por reações inesperadas. O coração palpita, umedece os olhos e as lágrimas aparecem abundantes. Coisas que ainda não se podem abrir nem confrontar, de sorte que ela se julga no controle e que vaticina de si pra si: “O que não se é capaz de enfrentar, não se enfrenta!” Guarda as lembranças de volta, rapidamente, para que elas não evoquem outras e lhes invadam, puxem-na, e que puxem mais outras, e que ao final, ela sabe, volvam em sentido contrário e a traguem para um lugar sombrio e difícil de retornar.
Mas por que diabos isso acontece sempre que a tarde declina? Demora nada e tudo passa do dia pra noite. “Isso é tão sugestivo à reflexão”, Amélia comentou com a vizinha, numa conversinha de pé de muro. Pois é... É como fechar para balanço, remendar, remediar, consertar as fissuras do coração. Ir arrumando direitinho, as camadas de vida no fundo das gavetas de dentro da gente. Quem pode se livrar de lembranças? Mas com o tempo a gente sente alívio de ver que muitas desbotaram. Aquelas, bem pontiagudas, estão como agulhas rombudas, que a gente usa pra fazer peças de artesanato em estopa. É que nem coisa de alquimista procurando fórmulas para transformar lixo em ouro. É bem isso que Amélia é: alquimista. Segue aos pouquinhos penetrando velhas dores. Caprichosa no método, medindo limite, medindo a própria dor quase atemporal, se põe a arrancar as cascas de suas antigas feridas, usando como bálsamo, doses homeopáticas de dores menores sobre dores maiores, para cauterizar sofrimentos.
Retorna-se levantando para tatear interruptores, acender luzes, retirar-se com vida dos escombros evocados e remover-se da penumbra que escurece a sua presença sobre o sofá da sala. Sacode-se, patenteia-se, implode catástrofes e respira devagar, o odor das sombras que evaporaram. As lembranças de Amélia são que nem tensão de linha entre os dedos, mediando pontos na agulha, que ela cose, vitoriosa, bordando nelas extensas cicatrizes. São lembranças vantajosamente ajustadas em sua memória, que não se esquece de lembrá-la de velhas dores, ainda que elas, vencidas, já não saibam doer.

Insistência infantil


sábado, 10 de março de 2012

A cultura alagoana perde Dona Clarice, a mestra rendeira

Na foto, da esquerda para a direita, Dona Clarice
Na última quinta-feira, a mestra artesã, que tinha 79 anos, se submeteu a uma cirurgia de vesícula, no Hospital Chama, em Arapiraca, tendo passado bem. Apresentando complicações na manhã de hoje, veio a falecer. Dona Clarice deixa enlutadas suas três filhas, sua cidade e a cultura das Alagoas. Deixa-nos uma mulher que era um dos Patrimônios vivos da Terra dos Marechais. Seu sepultamento aconteceu em São Sebastião, sua terra natal, às16h30.
 
*Texto escrito em 2009 e publicado no Ensaio Geral/CadaMinuto

Há muito mais de dez anos, talvez, uns vinte e poucos, conheço dona Clarice, a mestra artesã da renda de bilro, lá de Salomé, que de uns tempos para cá tornou-se São Sebastião, cidade localizada no micro-clima do agreste alagoano. Tanto ela, como Gustavo Leite, foram-me apresentados pelo meu irmão, ambos em ocasiões distintas, entretanto, num desses encontros familiares, em torno da sua mesa da cozinha. 

Conheci-as sem cerimônias nem honrarias e sem os prefixos que acompanham e nomeiam as pessoas, mas que vêm a torná-las e a tais instantes, momentos luminosos. Diga-se de passagem, conhecer pessoas na cozinha de uma casa, dispensa quaisquer formalidades.

Dona Clarice e eu trocamos um aperto de mão e um abraço apertado. Pessoas como ela, costumam demonstrar plenamente a satisfação de conhecerem as outras e essas coisas se traduzem, também, em nenhuma reserva de contato físico, aproximado, afetuoso e forte. 

No entanto, abraçar dona Clarice é como trazer para o abraço uma taça de cristal. Mulher franzina, de baixa estatura, esconde no corpo frágil, a maestria das mãos e o talento que lhe ocupa com o ato de fazer, o debulhar das proezas da sua imaginação. Ela cristaliza o momento das linhas que se entrelaçam, na criação de rendas espetaculares, largas, estreitas, delicadas, de diversos motivos.

O belo artesanato é elaborado a partir de rústicos instrumentos. Bilros e linhas sobre uma almofada, e à frente dela, a mestra Clarice Severiano dos Santos, que joga as pequenas peças de madeira, para um canto e para outro, as peças que dançam um esquisito balé, no espaço vertiginoso das suas mãos. 

Um balé de dedos ágeis, como aranhas tecendo arte, para registrar no tempo a presença de uma mulher simples, que tem a natureza de uma daquelas Parcas, deusas gregas, que tecem o fio do destino humano.

Dona Clarice preconiza com suas rendas, a nossa intrínseca necessidade de criar e recriar o belo, como conexão àquilo que lembra a nós mesmos o que somos e do que somos capazes. E somos, ainda, capazes de resistir às intenções da massificação cultural que elimina a originalidade da criação individual, como expressão do eu sou.

quinta-feira, 8 de março de 2012

De olho na mulher

Festejar a entrada da mulher no mercado de trabalho e a sua evolução econômica, que determina maior liberdade, inclusive a sua liberdade sexual, é assunto em praticamente todos os veículos de informação de hoje. Pois é. Um dia especial no calendário para homenagear a mulher, suas conquistas e seus feitos. Mas, se debruçar sobre outras vertentes, associadas à propagada ascensão feminina, é tarefa que vale a pena.

Parar e refletir sobre a condição da mulher na sociedade atual, requer certa coragem para assumir que logo ao lado das nossas conquistas, está o seu oposto, e que ele é um preço alto que somos chamadas a pagar, quer queiramos ou não. 

Uma amiga jornalista do jornal Primeira Edição (http://primeiraedicao.com.br/noticia/2012/03/08/mercado-de-trabalho-x-familia-a-mulher-precisa-mesmo-definir-uma-so-posicao) quer saber minha opinião, sobre: Mercado de trabalho e família versus Mulher, e se eu acho que diante da evolução econômica e histórica da sociedade a mulher precisa definir onde ficar (carreira ou família). 

Em suma, há possibilidade de conciliação dentro da realidade em que vivemos?

Difícil opinar, se a gente não tiver certa compreensão dos contextos, da influência direta do Sr. Mercado, como a mola mestra do mundo moderno, e sua influência na construção de nossos conceitos e escolhas, e sobre o que realmente é importante para nós mulheres. 

Afinal, é cada vez mais complicado procedermos fazendo escolhas. Praticamente, somos guiados por mecanismos que escolhem quase tudo por nós.

Lutamos tanto tempo por igualdade de direitos dentro da sociedade, que nos esquecemos de definir em que se baseiam tais direitos. Direito à liberdade sexual, direito de sair do universo caseiro, com ocupações caseiras, direito a ocupar espaços antes destinados apenas ao homem? 

Quais os nossos princípios éticos e morais definidos para escolhermos como proceder diante de tanta liberdade? Que tipo de liberdade tinham ou têm os homens, que as mulheres queriam para si? Em que se baseia esta noção de liberdade e igualdade?

Acredito que pegamos como pressupostos, noções estereotipadas da liberdade questionável do masculino, e as sugamos como referência à nossa vida. E foi aí que deixamos de acrescentar à nova conquista da liberdade adquirida, um colorido novo, reflexivo e condizente às questões femininas. 

Saímos da condição de submissão e entramos em outras instâncias que reproduzem a mesma submissão disfarçada pela propaganda de tempos novos à mulher e camuflada pelo que a liberdade econômica nos proporcionou. 

Deixamos de rever a nossa condição, a nossa importância como mantenedoras, educadoras, filtradoras de humores, companheiras, como atividades menores, dando ênfase ao trabalho minucioso da mulher, como parte da estrutura social.

Deixamos de questionar o nosso lugar na dinâmica social, na família, na criação dos filhos. Apesar de vermos as mudanças, as novas condutas familiares, onde homens e mulheres têm a mesma obrigação perante a criação e educação dos filhos, algo de muito atemorizador tem aparecido dessas experiências. 

O que não está dando certo, afinal? Enquanto saímos, homens e mulheres para engrossar as fileiras de ‘operários’ do mercado, no modelo econômico atual, com o objetivo de melhorarmos o nível e as condições de vida da família, estamos contribuindo para a sua decadência.

E do que precisamos de verdade, para termos uma vida confortável? Sermos os consumistas que nos transformamos?
Vejo muitas jovens senhoras, que estão ‘escolhendo’ se posicionar no mercado com uma avidez de fazer pena. 

A realização de experiências voltadas para a sua interiorização, a experimentação de prazeres mais profundos, como a experiência de ser mãe, por exemplo, fica relegada a terceiro plano. 

Muitas extrapolam o limite dos anseios e querem cada vez mais. Mais títulos, mais sempre mais, sem pararem para se perguntar se essa necessidade é sua ou se está respondendo à proposta de realização do mercado. 

E tal proposta, sabemos, aposta no consumo como referência de sucesso. Se você pode consumir, você é feliz. Mas é só isso? A vida se resume apenas na satisfação de prazeres externos e pulverizados facilmente, para atender a outros?

São agregações à imagem e não à mulher, que é sempre mais fragmentada. Espírito e corpo, distintamente separados. Acredito que ninguém pode se sentir realizado parcialmente, a menos que se recuse experiências prazerosas no campo da realização pessoal, desde que se defina que tais realizações não são importantes. 

E quanto mais inconscientes estivermos das nossas próprias e particulares necessidades, mais iremos sofrer porque a nossa balança entre os mundos interno e externo, estarão desequilibradas. Há um preço a pagar por isso e nós temos que pagá-lo.

Basta ver a violência, o estupro, a morte, que tem aumentado entre as mulheres, vítimas dos companheiros, a fragmentação da historicidade da mulher no denegrir da imagem feminina, no abuso da propaganda e da publicidade que a veicula como um corpo-moeda-de-troca, com prazo de validade para uso. 

Tudo isso configura o desrespeito à importância da mulher como co-partícipe na construção da história da humanidade. E demonstra que o que se entende como liberdade e igualdade entre os sexos, está longe de ser algo concretizado em toda amplitude. Não é. Tem estrada para se percorrer ainda. Muita estrada.

E o que é pior é que pouquíssimas mulheres enxergam isso.