sábado, 23 de junho de 2012

Arte para aliviar a dor


Viva o Trio Nordestino!!

Para o sertanejo autêntico, desses acostumados a se vangloriarem das coisas do sertão, basta mesmo um triângulo, um zabumba e um bom cantor que saiba tirar notas de uma sanfona e que tenha a goela temperada, para que ele, satisfeito, arrepie os pelos e a alma. Refiro-me ao famoso trio nordestino, tão bem reproduzido pelos escultores populares, em suas peças de barro, que se apresenta quando chamados aos lugares, durante os festejos juninos.

A impressão que se tem, é a de que todos os trios são um só, fazendo a alegria de todos e na mesma hora. É a onipresença sertaneja que modela os artistas populares, em um mesmo formato de rosto e uma mesma missão – a de perpetuar as nossas matutas singelezas – a de espalhar canções, a evocar saudades das Marias Fulôs, tantas, e em todos os Estados nordestinos, que a seca por haver amarelado o marmeleiro, determina, por fim, a desesperança do seu amado e atrapalha o amor, condenando os amantes à separação.

Curral de Meninos e Bois - OST 1mx1,2m - Goretti Brandão
Cenários de desilusões e de corações partidos pelo determinismo ambiental, as genuínas canções sertanejas, entre outros, as ‘Luiz Gonzaguianas’, nos sacodem e apontam para ‘determinismos políticos’, cuja interferência ou cuja ausência dela, perpetuam o sofrimento social. A dor sertaneja encontra a única saída possível: a alquimia. A busca pela nossa pedra filosofal, misturando sofrimento, sentimento e povo, e transformando tudo em poesia.

Poetizando lamentos e reproduzindo trios, seus zabumbas, triângulos e sanfoneiros. Arte para aliviar a dor. No roçado a estiagem continua e a paisagem desolada nos convida a lançar um olhar sobre animais magros, carcaças e cantos tristes das aves agourentas. Mulheres empoeiradas, que caminham estrada afora, carregando crianças sujas, em busca das últimas águas das barragens. Indiciais, nossos signos são a pedra de toque, das vitoriosas campanhas políticas. Nossa sina define eleições.

Nas cidades sertanejas, os festejos juninos já começaram. Viajando, vê-se que as ruas principais das cidades, estão com enormes palcos armados. À noite, bandas que são migalhas do nosso autêntico forró, e sem nenhuma sintonia com a realidade sertaneja, darão ao povo a ilusão de que tudo está em ordem e de que a fome e a sede que nos cercam não é problema nosso. Pão e Circo. Mas nos recônditos do mato, ali na roça, o fogueirão ardendo, os matutos esperam pelo Trio Nordestino.

Tudo escuro no entorno, tudo seco, os gravetos estalam sob os pés dos que chegam. O sanfoneiro aparece no meio do terreiro. Chapéu de couro, gibão, se for de fazer tipo, camisa de xadrez de tecido barato, os artistas cumprimentam os compadres e as comadres. A pouca distância as crianças correm. Aprumados, ele dá um sinal com a cabeça para os comparsas, imposta a voz, e solta o canto, imitando os grandes artistas nordestinos. A brincadeira começa.

É a festa de São João. Diferente do que acontece lá na rua, tudo é genuíno. Aqui, o forró é arte de fato. Arte e resistência. É pura resistência.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Bom dia, Ozu!


 O cinema japonês: sobre a mediocridade da vida

A vida é simples, não fosse tanta coisa que a gente vai agregando, possuindo e se acercando para viver. Basta ver a quantidade de apetrechos que se tem em uma casa. Parte daquelas coisas está ali enchendo espaços, virando entulho, atrapalhando, e tão pouco ou nenhuma vez sendo utilizadas. Por que se compra tanta coisa? Por que essa procura insaciável por coisas que estimulam em nós, prazeres e sensações fugazes, que logo se esgotam e nos deixa atrás de mais coisas?

Yasujiro Ozu
Vida e Viver. Entre uma coisa e outra há bastante diferença. Respirar, correr, dormir corresponde às certificações de se estar vivo, mas viver supõe a utilização desses recursos básicos. De preferência, da melhor forma possível. Um dia a gente sai da vida, mas a vida permanece. É o milagre que se repete em todas as espécies que povoam a Natureza, esse útero onde o continuum acontece.

Cena do filme Bom Dia
Há uma linha invisível, entre a vida como condição e o viver como experiência. De um lado, a criatividade. Do outro, a mediocridade. A criatividade humana é a magia para que se ultrapasse o medíocre: as repetições, a reprodução, o corriqueiro e o enfadonho, que parece ser próprio da ‘formatação’ da vida. Correr atrás de sensações é repetir fórmulas vencidas e frustrantes. Viver pressupõe algo maior porque requisita sentimento e a vivência daquilo que só o coração é capaz de sentir.
Cena do filme

Foi Yasujiro Ozu, diretor japonês, quem me 'convidou' à produção deste texto. Seu filme Bom Dia (1959), torna tangível a linha entre a vida e o viver. Ele apresenta a história do cotidiano de uma comunidade no Japão. Um viver dentro dos moldes da vida repetitiva, onde as mulheres repetem mecanicamente, seus afazeres domésticos, e os homens trabalham. Não parece haver consciência pessoal da necessidade de experiências que possam enriquecer a vida.

Os enquadramentos da câmera evocam limitações: Uma ruazinha, estreita, e dois telhados, que emolduram a elevação do terreno ao fundo, recortam aquele mundinho, do universo possível lá adiante. O cenário onde a maior parte do filme acontece, esquarteja a amplitude da realidade, e nos prende àquele espaço reduzido, condenado à quase inexistência de novas percepções. De tão iguais até as casas daquele conjunto nos confundem.

Como as casas dos nossos conjuntos habitacionais, também nos confundem. Os espaços físicos repercutem aspectos da realidade humana. Em qualquer lugar do mundo nossos dramas são os mesmos: Na vida, a mediocridade ocupa o lugar da criatividade, mas nossos vazios continuam pedindo ocupação. Para isso é que somos chamados a viver. Em Ozu, as mulheres tecem intrigas umas com as outras, para preencherem a vida.

Os homens aposentados querem voltar ao trabalho, porque não encontram outras razões que justifiquem a vida . E na vida fora do cinema é isso que acontece à maioria.

Mesmo modernos, continuamos procurando preencher ausências emocionais, nos cercando de coisas que estimulam nossas sensações. Mas, convenhamos, isso é mediocridade. Se não fosse, essas coisas nos bastariam. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Hibernal


Dia de chuva. O tempo nublou de repente e as gotas d'água cairam pesadas... Da cozinha vi que a tarde sombria havia distanciado a paisagem. Hibernal é o meu desejo de deitar sob cobertas quentinhas, entrar em proposital letargia, adormecer-me. Porém, outros desejos me sacodem, como miúdas vontades que se aglutinam e estampam um inverno, que evoco da lembrança de outras chuvas. 

Movo antigos símbolos, remexo-os, trago-os à tona. Deixo que fiquem guardados os pijamas de flanelas feitos em casa, as galochas e o barulho dos passos nas poças lamacentas, da criança que em mim, atendia o chamado da mãe. Ela, que já não sou eu, mas, a pequena amadora atriz, eternizada no lugar que me lembra, e que repete encenações, só para alegrar-me do que fui. 

Estou certa de que fui embora. Tenho me feito em outras.

Minha mão é que retorna, às vezes, infantil. Tateando memórias, sentindo a gravíssima e afetada textura do cobertor de lã, espinhento...  Essas coisas eram, foram-se evaporadas. Esconderam-se como os guarda-roupas velhos, as camas velhas, assim como se foi o nosso gato Jásper e até mesmo a nossa casa, que no mesmo lugar, mudou de canto e perdeu trechos de histórias. Histórias que entranhadas nas velhas paredes, viraram poeira na última reforma. Poeira, sempre a poeira, empoeirando histórias e sepultando entulhos.

O final da tarde debruça um anoitecer lento e pesado sobre as coisas. Estou bem longe do mundo onde os símbolos que choviam sobre mim os meus próprios invernos, eram forjados. É outro o inverno. Este chove para dentro, e abre janelas para os meus sentidos internos. O que me chove é a soma de todos os invernos. Não é uma chuva de águas. Não é. É uma chuva de tempos.