terça-feira, 24 de julho de 2012

Eu e Isadora

Há poucos dias do nascimento de Isadora, senti que estava próxima a atravessar, de forma literal e não apenas simbólica, mais um limiar da minha própria história. Essa jornada épica, um tanto homérica, que somos chamados a fazer nas diversas fases da vida. Foi assim quando o pai dela entrou para a faculdade: ansiedade e medo e um misto de alegria e apreensão, que às vezes era também uma quase-tristeza, se apoderaram de mim. 

Entendi que meus rituais de passagem acontecem e são pontuados, perpendiculares, às fases da vida dos meus familiares. A alegria de assistir as proezas, conquistas e crescimento dos meus filhos, situaram em mim, na minha pessoa, a realidade de sair de um aposento para outro. De ocupar um lugar novo, re-significado,  primeiro, dentro de mim, depois, no seio da minha família e frente ao mundo.

Sair de onde se está acostumado é como sair de uma casa onde se morou muito tempo. E para a casa que estamos acostumados, temos nossos cantinhos, os lugares-comuns, de aconchego e reconhecimento. Lembro quando mudamos para a nossa casa nova, o quanto que o meu filho mais novo reclamava a falta desses cantinhos, apesar da nova ser maior, mais bonita e muito mais confortável.

Minhas quase-tristezas, são definidas por mim, hoje, como o ter que me despedir da sensação de segurança, que inclui o saber-se quem é, o que fazer e o como viver, em um determinado período da vida, e trocá-lo por outro lugar, onde será necessário 'trocar a roupa velha' por outra nova. Ajustes são precisos e preciosos. A verdade é que a gente sai da casa que achava que Era, para depois descobrir que estamos na mesma casa, só que em cômodos novos, completamente desconhecidos.

Esta noite sonhei que estava em visita à casa da minha infância. Estranhei que ela estivesse com tantas reformas, apinhamentos, desconfortáveis cômodos, feitos de 'carregação', como dizia minha avó para as coisas mal feitas. Havia claraboias em lugares indevidos, espaços apertados sem o devido cuidado à circulação de ar. Tinha um apêndice, que fazia parte da casa, em um nível abaixo, onde moravam um casal de meia-idade e uma mocinha.

Adiante, encontrei a minha mãe que vestia um belo vestido de renda azul e parecia ter a minha idade. Gostei do vestido e quis um igual. Minha avó afirmou que aquele local ocupado pelo casal e sua filha, pertenciam a ela, não a minha mãe...
Meus sonhos reforçam simbolicamente os limiares e os definem para mim. Cheguei em minha nova casa,a mesma, que agora é outra. Nela as figuras femininas condizem com os novos papéis a serem avaliados e apontam para possíveis integrações.

Sou avó. Tornaram-me avó. Tornei-me avó por aceitação e consciência. E ao ver Isadora, minha primeira netinha, senti tanta emoção e tantas são essas indescritíveis emoções, que as palavras boiaram insípidas sobre esse vasto e novo sentimento que me acode. Ante a certeza de que à minha vida a meia-idade chegou, confirmo minhas escolhas: sobre o que levar adiante, o que filtrar como valor, como ética, como moral... Amadureço para ensinar e para deixar marcado no Tempo, o registro do que vivi, e para tal, aprofundo raízes no solo da minha alma, para beber do conhecimento, à seiva da existência.

O nascimento de Isadora foi a chave para a porta e a travessia deste limiar. Minha quase-tristeza em ter que sair do que conheço de mim, agora é só alegria após a sua chegada. Enquanto ela se adapta ao mundo, eu me adapto a mim, para além do mundo físico conhecido, mergulhando em outros lugares, espirituais. Lá, recupero da mulher que sou, a feminilidade e o sentido de ser alguém. Descubro a Graça, como um presente, e a Sabedoria, como um dom precioso, ambos distendidos sobre um bastidor, na tensão entre o tempo e os Mistérios de Deus, que bordam juntos, os pontos da minha trajetória. 

Isadora é sublime na plenitude paradisíaca da infância e eu participo dessa plenitude, retornando aos lugares adormecidos da criança que fui e que guardei. É do universo dessa criança, que brota a Lili, o Anjinho, meu mundo celestial e pueril restituído, onde a fantasia e a imaginação, enchem o papel de desenhos. Meu coração infantil é lúdico. Está provado. Eu me percebo jardim, onde a  minha netinha é botão de flor orvalhada.

Cheguei em meu novo lar: a casa da minha avó, dentro da minha própria casa, e já me reconheço nela, como a avó. Por isso mesmo, devo prescindir do modelo da 'casa da avó' que o meu sonho aponta, assim como da roupa da minha mãe, para ser a avozinha de Isadora. A casa da minha avó é dela. A roupa da minha mãe, não me pode ter serventia. Esses símbolos são referenciais. Vou ter que reformar a casa toda: colocar a clarabóia em seu devido lugar, arejar os ambientes, não fazer nada de carregação... 

Modelos de avós prontos, não cabem nem a mim, nem a minha netinha. Nossas histórias são perpendiculares, e em um ponto tal, os portais dos nossos limiares se cruzam e se confundem. Nele, Isadora e eu nos encontramos: a criança que ela é, com a criança que salta de dentro de mim ao seu encontro. Ela, inocente - por uma condição da inconsciência de si - e  por isso, plena, começando a conhecer a vida. E eu, recomeçando, entro enfim, pelos novos caminhos, consciente da  vida e buscando a minha própria plenitude.










terça-feira, 3 de julho de 2012

Como São Tomé

Um dia de chuva e frio e a notícia do suicídio de um conhecido conterrâneo, torna o tempo melancólico. Articulo pensamentos e impressões sobre o fato, enquanto os pingos d'água tamborilam no jardim. Em volta, o tempo escureceu rapidamente, e eu pareço mergulhar em um oceano vasto, desconhecido e misterioso. 

O das indagações, para as quais, talvez, nunca tenhamos respostas. É como querer contar estrelas que estampam o céu cintilante. As noites de chuva negam que elas existam. Em dias comuns de estio, os luzeiros lá em cima nos enganam porque nos vendem luminosas ilusões. 

Tantas já morreram, mas continuam acesas. São fantasmas delas mesmas. Luzes que já se apagaram. Ver o que não mais existe é mentira ou mistério? Se eu vejo, eu creio. Que nem São Tomé, eu creio, porque seu brilho encandeia minhas retinas. É nessas horas, que eu desejo continuar desconhecendo geofísica, astronáutica e astrodinâmica. 

Escolho deliberadamente continuar pensando, como se não soubesse, sobre  o que a Ciência sabe decifrar e já tem resposta. Não quero vereditos, nem saber sobre males, no oráculo do conhecimento, que antecipa a minha condenação. Basta-me saber da inevitabilidade da morte, como cerimônia e sagração de um mistério. Quero a salvadora ignorância ingênua dos mais antigos. 

Saber demais tira da vida o que ela tem de melhor: viver livre dos flagelos. A consciência científica encurrala a fantasia e dá socos na imaginação. Faz-me carregar um saco de medos, pesados que nem pedras, sobre as costas. Prefiro a santificação das crendices. Pelo menos hoje, prefiro. Invalido precauções e cautelas. Todas. Não perco meu tempo em decifrá-las. Eu também sou mistério.

Inauguro leveza em vez de angústia. Ser exato é como roubar a mim, meu próprio mergulho, e profanar o templo do meu sagrado naufrágio, no mar de luzes mentirosas. Sou viajor suicida da racionalidade, nesse espaço de viajantes estrelas fantasmas. Mesmo que uma noite de chuva como a de hoje, as negue, eu creio; elas estão lá.