quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Essas dores do mundo

Certa vez escrevi um conto que se chama: Como Espinha de Peixe. Volto a lembrá-lo, porque hoje, dia do folclore, minha memória retorna à tradicional Festa de São Sebastião. Volto aos dias de todos os anos, quando pessoas humildes e muitas, marginalizadas, desciam do Alto da Carrapateira, lá em minha terra, pedindo ajuda para fazer a sua festa.

São Sebastião, crivado de flechas constelava em mim a memória inexistente de uma dor alheia, de vários furos, de onde jorrava sangue. O seu olhar, voltado para cima, supliciado, o fazia oscilar sobre o andar de quem o transportava, dentro de um oratório, como quem carrega uma criança pequena nos braços. Estarei enfeitando demais a minha narrativa? Seria o oratório apenas e tão-somente uma caixa de sapatos? Há tempos que misturo  as imagens em minha cabeça, e confundo o que foi, com aquilo que a poesia me faz pensar que houvera sido. 

Minha alma me ultrapassa, perigosamente, e segue em minha frente contaminando minhas memórias, pincelando a vida  já vivida, com a beleza que faz do passado um lugar de endeusamentos. Ou será que agora é que vejo a beleza que não percebia antes?. São Sebastião não envelhece, é ele o mesmo: jovem, alvo, cabelos encaracolados e loiros, com o peito nu alvejado por lanças, que todos os anos, em um determinado mês, passava pelas ruas, sacrificando-se ao expor seu próprio sofrimento publicamente, para receber óbolos para a festa a ser feita pelos seus devotos. Que ninguém veja nisso uma contradição, porque são os sacrifícios que santificam os santos. 

A palavra 'óbolo' é que me saiu límpida da memória e saltou para as teclas do computador. Quando percebi já buscava ver no dicionário se ao escrevê-la, havia usado a grafia correta. Tinha errado. Consertei. De onde me veio a palavra? Recorro à cena, gravíssima: a porta da minha casa, minha mãe, minha avó e eu, deslumbrada com os sons dos pífanos que acompanham o cortejo. Na nossa calçada, Sebastião - tão santificado -, um grupo de prostitutas, meninos fedorentos, homens cheirando a bebida e os tocadores fazem uma parada. Tem jeito de ser um disparate entender aquela formação.

Aquilo me separa em duas. Eu sou feliz pela alegria da música e triste pela dor do santo. Minha mãe me segura com discrição, mas com força e me força a conter a confusa efusividade. Olha-me e me imobiliza com a obliquidade dos seus olhos miúdos, sob duas lentes esverdeadas. Mas, se me deixassem livre, se não houvesse condenação ao meu gesto, eu seguiria a procissão daquela gente. 

Meu avô paterno tinha um óculos com as lentes iguais, iguais, às dela.  A escolha teria sido coincidência?  

Era sim, da minha avó, piedosa, boa católica, a palavra 'óbolo' que me atravessou e meteu-se por entre minhas próprias palavras. Os pífanos, a saudade do cortejo, que nem sei mais se existe, em Pão de Açúcar, me remetem à curiosidade que eu tinha em saber o porquê daquele suplício de São Sebastião, condenado a sofrer nos altares das imagens de si mesmo, pelas igrejas afora. Sofrendo uma dor, que eu imaginava, para sempre sofrida. Como seria estar em sofrimentos e ser acompanhado pela alegria dos pífanos? Sua dor solitária, a mim se agravava, diante da coletiva alegria de assumidos pecadores insensíveis.

Eis a palavra surgida da hora exata: "Entregue o óbolo, menina!" E eu entregava as moedas. Mas o santo haveria de saber que a dor que carregava sozinho, era a dor alienada daquela gente sofrida. As flechas deveriam arder-lhe o coração, mutilando os pulmões e a sua respiração com tão pouquíssimo ar, eu pensava. 
_ Eu tenho pena! 
_ Mas a dor, 'é lá nele', dizia minha avó, com medo que se eu entendesse o paradoxo, que ela já decifrara, sofrêssemos as duas, essas dores do mundo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Sete mulheres em mim

As duas mulheres, que vieram fazer uma visita onde eu, de visita me encontro, mais tarde entraram a andar comigo e trouxeram consigo mais outra mulher, que chamei-a de Desconhecida, porque eu nunca a havia visto. Vamos a uma festa daquelas das quais corro às léguas. Ali eu estou, junto a elas, num amplo galpão, que mais parece um ginásio de esportes. 
Procuro corrigir o lugar errado e o despropósito da festa, buscando descobrir algo inusitado, e  acabo encontrando: 
Vejo uma amiga que há muito não via, atravessar o ginásio, indiferente ao que se passa no entorno. Está mais jovem, vigorosa, sensual, muito mais do que estará de fato, depois de tantos anos sem nos vermos, e tendo o tempo causado seus estragos, em mim, nela também os causou. Estou certíssima disso. Eu a observo atentamente. Ela se deita sobre uma daquelas arquibancadas - que só de falar sinto-lhe a frieza do cimento -, exibindo charme e eu comento com Desconhecida: "Como fulana está bonita!"  que também tendo estado observando a presença da outra, concorda comigo.
Deve ter sido por não ter encontrado mais nada de interessante, que eu sigo sozinha noite afora e ao virar uma esquina me deparo, surpresa, com Generosa, essa mulher sempre confusa, que acredita que ser jovem é ser eternamente adolescente. Entendo ao encontrá-la, que sei exatamente, em que lugar estou ou que a festa está. Sinto-a carregando tristezas, das quais não se dá conta. Está doente, Generosa? Diga pra mim o que é que você tem! E ela, enigmática, me pede que eu chore. Fico aturdida.
Ao olhar para trás, percebo a presença de um homem de meia-idade, usando um chapéu, que se precipita do escuro da rua, como se viesse em nosso encalço. Entrelaço o meu braço com o braço dela e sugiro que nos apressemos em direção à sua casa. Alcançamos a entrada, ultrapassamos o muro. Estamos  protegidas. Ela então me chama pelo nome e me ordena mais uma vez: Chore Violeta! Chore, porque a dor que eu sinto, sei, não vai passar nunca mais. Sua dor é óssea, e ela me diz que tem a ver com o deus Mercúrio, que é rapto, coisa obscura... Mas porque eu é que tenho que chorar por uma dor que ainda não reconheço como minha e que ainda não dói em mim?. Talvez por isso não tenha sido convidada a entrar em sua casa.
Sigo adiante. Vou voltar para a festa, sei onde estou, mas não sei o caminho de volta, do qual me afastei apenas por tão poucas ruas. Amedronta-me a ideia de estar perdida na noite. Acode-me outra mulher, também saída das sombras, uma senhora, comum àquele lugar, e me ensina por onde devo seguir. Encontro-me diante do portão de entrada, mas não é para lá que eu quero retornar...



sábado, 18 de agosto de 2012

Surdez e sonho


Confusão em dois metros quadrados de sonho colorido. A hora inexiste. O dia ou a noite são eternos e se fixam como se houvéramos estado eternamente no Olimpo. A comunicação está quebrada e as peças procuradas para consertá-la, escondem-se embaixo da mesa. Minha audição é defeituosa. Se é que há uma, tecnológica e celular. Há um pesaroso trabalho de recompor o ouvido, dissipar a surdez, a palavra que instiga, da minha voz, um homem, ao qual me dirijo e o condeno por insistir em culpar os outros pelos seus próprios defeitos. Sua sombra ensurdece ainda mais minha audição.
Somos a mesma mulher, essas duas, que se entreolham aflitas procurando meus ouvidos? Uma é a mãe da outra, ela mesma mais velha, mais irritada, mais desiludida, mais surda, apontando que a nossa audição incompleta se deve à infantilidade de um menino que não ouve o que se diz. Devo correr atrás dele?
Vou procurá-lo, e entro pela mesma hora, por um cenário que se reproduz incansável. Não há necessidade de outros. Determina-se que haja recorrências enquanto não houver solução. Lá o encontro brincando, num tempo sem tempo, porque não há hora, mas as peças do meu ouvido, ele as esqueceu entre os seus brinquedos esquecidos, no vácuo de um relógio morto, pois que não tem ponteiros, que propositadamente o conserva infinitivamente criança, Uma criança mal ouvida. Ele some por uma porta e vai vasculhar com displicência, aquilo que reclamo a busca, e demora, demora, porque para definir esperas, é preciso fingir que o tempo voltou.
Volta trazendo peças inúteis. Angustia-me estar presa em um lugar inalterável, sem a vez do dia ou da noite definidos, tendo que apelar a uma criança, objetos que me permitam a conexão com o homem que nela se esconde, escondendo maturação e negando a si mesmo maturidade. Falta uma pequena tampa para compor o hermético e restituir o som, falta o desfecho do que é sonhado e falta, por fim, o ego que sonha, e que já extenuado, tapa os ouvidos e acorda, dentro do excessivo barulho que o traz de volta à vigília.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Terça-feira


Hoje, dois pingos de colírio é o que me fizeram chorar, duas abundantes lágrimas.
Ao portão, o carro estacionado espera ninguém e Amarelo , o cão da vizinha, não queria me fazer medo. Eu é que quis sentir. Veio correndo e ao se aproximar diminuiu os passos e me olhou com sua mansidão previsível, que eu teimo em suspeitar. Aguçou os olhos que se tornaram pedintes. Não sei ler a alma dos cães pelos olhos, mas ele queria entrar em casa. Sua agonia é também previsível. Deve ter medo de tornar-se - se não passar portão de ferro adentro -, por um descuido, o vira-lata que é.
Sobre o muro amarelo da minha casa, pendem galhos e flores amarelas sem perfume, em direção à rua.
O sol saiu e lançou luz cintilante e amarelada, por sobre o chão ainda molhado, da lembrança da última chuvarada.
As duas lágrimas de mentirinha, me trouxeram outras, saídas das flores em minhas retinas. Não eram falsas. Eram despropositais. Às vezes os olhos da gente choram sem a gente querer. Choram por chorar.






segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Segunda-feira


A paisagem vista do terraço encurta e aperta um céu recortado por prédios.
Imensidão fracionada, onde penso a abóboda como peças de um quebra-cabeças.
Procuro vastidões, para expandir as exatidões do espaço,
e compor a montagem singular da primorosa metáfora.
Junto todos os azuis celestes, 
liquefaço o concreto, os tijolos, 
desando prédios e suprimo recortes.
Projeto um céu muito além do que vejo ou do já visto.
Eu me desvencilho dos simulacros,
Liberto minhas próprias extensões indefinidas
Alivio a poesia,
E me salvo dos arremedos do mundo

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Oração pelo meu aniversário

Dois de Agosto de 2012: Frio, umidade, chuva de inverno, dia nublado e contentamento. Deus em mim habita. Eu o sei, porque vi a chuva caindo, o dia iniciado, as flores extasiadas de cores  em meu jardim, as folhas ainda mais verdes, molhadas, o canto dos pássaros, e enchi o coração de júbilo. Um júbilo Maior. Eu senti, profundamente, a força da minha existência fazendo parte da tecelagem, sendo como um ponto, ínfimo, mas presente, na extensão daquilo que É eternamente. 
Sou humanamente necessária para que os mistérios sejam os mistérios que são. Aos sábios, a Sabedoria, essa, que principia no temor santo às coisas da Divindade. Bendita seja a Luz que me ilumina e que me conduz através do meu tempo, em tudo aquilo que sou e que faço. É a Deus-Santíssimo, em Espírito e Verdade, que entrego hoje, todas as lições a mim destinadas, com seus questionamentos humildemente respondidos. 
Não perfeitos, tampouco completos, mas plenos do que conheço e do que aprendi. Que tudo o que eu tenha recebido, seja parte ativa, do que  o Altíssimo a si próprio testa, usando a minha vida, para que eu sirva aos seus segredos e à sua construção. Que a mim, seja apenas revelado, como Graça pelo dom da Sabedoria, o ponto - em que lugar eu Sou -, e onde a minha existência participa no equilíbrio do universo, intrinsecamente, à Glória de Deus.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

PARABÉNS PELO HAPPY BIRTHDAY:

Poema de meu amigo poeta Zé Paulo. Um presente(hoje) para o meu dia de amanhã...
Obrigada, amigo!!!! Muito grata! Gratíssima e emocionada...




Poema da leitura estrutural da vida e obra


A mulher não se importa mais com os espelhos, os espelhos a seguem e podem brotar do seu carinho no ar. Ela pensa nos planos, pois se são diversos está faltando uma palavra. O seu tempo é usado na leitura da rua infinita, a arte hiperreal é a sua imaginação, o belo efeito inimitável do invisível sempre disponível lhe dá a sensação de morar no último mínimo átomo rodeado do espírito do Deus. Nas horas da música acompanha com os dedos como se solasse um teclado acoplado à guitarra recebendo sons de todas as direções. A cada face arquitetural corresponde um poema, a cada conjunto de faces arquitetônicas a disposição da única pose virtual. Ela imagina certamente que o artista pensa em primeiro lugar na virtualidade ausente por ser a edificação diretamente proveniente dos sentidos. Em alguns dias ela faz um passeio cada vez mais longo pela urbe, noutros dias somente reflete e não encontra segredo.