Essas dores do mundo

Certa vez escrevi um conto que se chama: Como Espinha de Peixe. Volto a lembrá-lo, porque hoje, dia do folclore, minha memória retorna à tradicional Festa de São Sebastião. Volto aos dias de todos os anos, quando pessoas humildes e muitas, marginalizadas, desciam do Alto da Carrapateira, lá em minha terra, pedindo ajuda para fazer a sua festa.

São Sebastião, crivado de flechas constelava em mim a memória inexistente de uma dor alheia, de vários furos, de onde jorrava sangue. O seu olhar, voltado para cima, supliciado, o fazia oscilar sobre o andar de quem o transportava, dentro de um oratório, como quem carrega uma criança pequena nos braços. Estarei enfeitando demais a minha narrativa? Seria o oratório apenas e tão-somente uma caixa de sapatos? Há tempos que misturo  as imagens em minha cabeça, e confundo o que foi, com aquilo que a poesia me faz pensar que houvera sido. 

Minha alma me ultrapassa, perigosamente, e segue em minha frente contaminando minhas memórias, pincelando a vida  já vivida, com a beleza que faz do passado um lugar de endeusamentos. Ou será que agora é que vejo a beleza que não percebia antes?. São Sebastião não envelhece, é ele o mesmo: jovem, alvo, cabelos encaracolados e loiros, com o peito nu alvejado por lanças, que todos os anos, em um determinado mês, passava pelas ruas, sacrificando-se ao expor seu próprio sofrimento publicamente, para receber óbolos para a festa a ser feita pelos seus devotos. Que ninguém veja nisso uma contradição, porque são os sacrifícios que santificam os santos. 

A palavra 'óbolo' é que me saiu límpida da memória e saltou para as teclas do computador. Quando percebi já buscava ver no dicionário se ao escrevê-la, havia usado a grafia correta. Tinha errado. Consertei. De onde me veio a palavra? Recorro à cena, gravíssima: a porta da minha casa, minha mãe, minha avó e eu, deslumbrada com os sons dos pífanos que acompanham o cortejo. Na nossa calçada, Sebastião - tão santificado -, um grupo de prostitutas, meninos fedorentos, homens cheirando a bebida e os tocadores fazem uma parada. Tem jeito de ser um disparate entender aquela formação.

Aquilo me separa em duas. Eu sou feliz pela alegria da música e triste pela dor do santo. Minha mãe me segura com discrição, mas com força e me força a conter a confusa efusividade. Olha-me e me imobiliza com a obliquidade dos seus olhos miúdos, sob duas lentes esverdeadas. Mas, se me deixassem livre, se não houvesse condenação ao meu gesto, eu seguiria a procissão daquela gente. 

Meu avô paterno tinha um óculos com as lentes iguais, iguais, às dela.  A escolha teria sido coincidência?  

Era sim, da minha avó, piedosa, boa católica, a palavra 'óbolo' que me atravessou e meteu-se por entre minhas próprias palavras. Os pífanos, a saudade do cortejo, que nem sei mais se existe, em Pão de Açúcar, me remetem à curiosidade que eu tinha em saber o porquê daquele suplício de São Sebastião, condenado a sofrer nos altares das imagens de si mesmo, pelas igrejas afora. Sofrendo uma dor, que eu imaginava, para sempre sofrida. Como seria estar em sofrimentos e ser acompanhado pela alegria dos pífanos? Sua dor solitária, a mim se agravava, diante da coletiva alegria de assumidos pecadores insensíveis.

Eis a palavra surgida da hora exata: "Entregue o óbolo, menina!" E eu entregava as moedas. Mas o santo haveria de saber que a dor que carregava sozinho, era a dor alienada daquela gente sofrida. As flechas deveriam arder-lhe o coração, mutilando os pulmões e a sua respiração com tão pouquíssimo ar, eu pensava. 
_ Eu tenho pena! 
_ Mas a dor, 'é lá nele', dizia minha avó, com medo que se eu entendesse o paradoxo, que ela já decifrara, sofrêssemos as duas, essas dores do mundo.

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