quarta-feira, 19 de setembro de 2012

À poesia alagoana, a música de Mácleim


A costura poética da arte alagoana 
CD Esses Poetas - Gravado no Estúdio Carioca - Rio de Janeiro/RJ, 2007
Lançamento: 19/09/2012
Capa do CD

A primeira vez que Mácleim pisou em um palco formatado para espetáculos foi na época dos Festivais Universitários. Foi o Teatro Deodoro, o ventre que concebeu a sua vocação e sua meta. Mas, se for para falar em trajetória, foram os idos anos 70 que o introduziram na música, quando ainda adolescente se apresentava em grupos de baile.



Da época dos vinis e com o maior prazer, o artista tem a felicidade de ter uma música no antológico LP do III Festival Universitário de Música (D.C.E. UFAL). Em seguida, o grupo Beira Banda da Lagoa, do qual era integrante, gravou um Compacto Duplo, com uma canção sua. Mácelim tem 3 Cds lançados. Dois deles na Europa. Pananbiverá (1998), lançamento do selo francês Bongo Records e Internet Coco (2001), pelo selo suíço Soluar. Ao Vivo e Aos Outros (2006) foi um lançamento independente, pelo selo Batuta. Suas canções estão em inúmeras coletâneas no Brasil e em discos internacionais. Só para registro, por exemplo, no Montreaux Jazz Off.

O artista Mácleim 

A sensação de que estava se tornando repetitivo, nas letras e em seu discurso, foi a semente da ideia, que plantada há 12 anos brotou agora com, Esses Poetas, o seu novo CD. Àquela ocasião o artista pediu ao poeta Otávio Cabral um poema de sua autoria, para que pudesse musicar. Mácleim fará hoje à noite, o esperado lançamento do seu trabalho. Nele, o artista vai mais adiante, juntando preciosidades poéticas à sua poesia musical, talentosa e refinada. Caminhante, foi o primeiro poema, a ser musicado por ele. Durante esses anos aconteceram hiatos não planejados, passos lentos, vagareza, mas seguindo sempre, até que o surgimento daquilo que aos poucos foi sendo delineado como um projeto, diga-se, de grande ousadia, fosse concretizado: Musicar poetas alagoanos para fazer um CD. Com exceção de Jorge de Lima, e alguns outros de maior musculatura, Mácleim percebeu que pouco sabia da produção lítero-poética em Alagoas.

Foi o poeta Sidney Wanderley quem fez a apresentação de outros poetas alagoanos ao artista. As escolhas dos poemas e poetas são bem pessoais, baseadas em amizades, sem que se perca de vista a qualidade poética. Mácleim-Caminhante caminhou mais. Seu amigo Pedro Cabral, arquiteto, seu interlocutor nesse projeto, poeta e artista-plástico, o presenteou com um de seus quadros. Daí, mais uma ideia surgida para Mácleim que a introduziu ao projeto. 

Distendido, além das palavras e da música, ele ganhou, literalmente, cor, forma e consistência. Simbiose completa. A partir dos poemas e das composições musicais propostas por Mácleim, Pedro Cabral criou trabalhos de muita força, expressividade visual e plasticidade, em telas de 1,00mX1,30cm, que se atrelam ao lançamento do CD. Expostos, os de 13 quadros realizam a interpretação feita de imagens apresentadas como signos sentimentais, que extraídos da poesia musicada, se incorporam numa profusão de novos sentidos dentro de uma nova leitura, surgida dessa grandiosa costura poética.

O CD é primoroso e não poderia ser diferente. São 13 os poetas alagoanos: Arriete Vilela, Ledo Ivo, Jorge de Lima, José Geraldo, Edvaldo Damião, Jorge Cooper, Gonzaga Leão, Maurício Macedo, Sidney Wanderley, Diógenes Junior, Otávio Cabral, Ronaldo de Andrade e Paulo Renault. As composições de Mácleim, harmonizadas sob justa forma à poesia, garantem alimento nobre à alma da gente. Alagoanidades boiando à flor da pele, interdiscursivas, que dispostas na dose certa, contarão com a magia das palavras, da musicalidade, na voz e na sensibilidade de Mácleim, somadas as participações especiais de Leureny Barros, Clara Barreiros, Wilma Araújo, Júnior Almeida, Quarteto Pau Brasil, Fernando Melo, Chau do Pife e Cantoras do Pastoril Menino Jesus da Cambona e aos excelentes músicos que o acompanham. Por fim, a poesia dos pincéis de Pedro Cabral, que intimidará e aprisionará nossos olhos.

Uma noite assim, é certo que nem as musas gregas, inspiradoras da criação artística à sede da alma humana, gostariam de perder. É certeza que em meio aos presentes, e ao lado das musas, disfarçada, Minerva, a deusa romana, protetora das artes, confirme com sutileza e maestria a sua própria sensibilidade, movendo em nós nossos aplausos, distribuindo arrepios e enchendo nossos corações finitos e mortais com a infinitude do mais completo êxtase divino.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Só para doer mais

O menino olhou tão tristinho pra mim, que na mesma hora tive um desejo daqueles bem grandes de chorar. Contive as lágrimas, mas Dorinha é uma danada pra dar ênfase a coisa triste. Deu um daqueles suspiros cortados pela metade, na frente dele. "Coitado desse menino!" Não faça isso com ele, mulher, eu disse a ela, que me olhou meio como se eu fosse o desmancha 'desprazer' em pessoa. Mas ela sabia o que eu queria dizer com aquilo. E aí eu disse de outra forma, fazendo de conta que tinha acreditado que ela não me havia entendido: _ não atice os sentimentos do menino, que isso não é bom pra ele e você sabe. Aliás, não é bom pra ninguém, ficar tendo a dor alfinetada só para doer mais. Falei em voz baixinha pra ele não ouvir.
O chão da sala de jantar, onde ele brincava, estava cheio de heróis de plástico espalhados. Procurei, e nem sei como, por ximbras entre os brinquedos. Foi como uma saudade que chega de vez e toma a gente de assalto. Lembrei do meu irmão mais velho e das cores vítreas de suas ximbras e depois lembrei do jogo de castanhas, do cheiro dos cajus, do meio-fio da calçada, de Margarida, a flor da minha infância, do buraco da bica que vinha das telhas e de que a gente, pra ganhar o jogo, tinha que acertar as castanhas lá dentro. Fui tão longe que quando me dei conta, Dorinha tinha tornado à mesma frase: "Coitado desse menino". 
Isso me chateia. Profundamente. Ter dó declarado das pessoas é pedantice disfarçada de bondade. Foi com ela que eu aprendi a ter pena de todo mundo, sem nem ao menos saber se aquele sentimento merecia ser sentido. Pena de quê?  Aprígio ficava com raiva e me perguntava: "Pena de quê, hein?" Foi preciso eu casar com ele, pra primeiro me perguntar, o porquê de ter tanta pena desnecessária das pessoas. Pena indiscriminada, graças a Deus, eu não tenho mais. Aquilo me colocava como se eu fosse tão feliz e sempre tão feliz, e tão mais feliz que os outros, que eu me dava ao luxo de sentir pena deles. É demais. 
Mas o menino, o menino tem um olharzinho triste mesmo. Sobra muito branco no olho dele, a íris quase se escondendo por baixo da pálpebra superior. Olhar de santinho barroco. Igualzinho. Tanto brinquedo no chão e ele procurando por coisas que nunca encontra, porque nunca estão entre os brinquedos. É que nem quando falta uma coisa dentro da gente e a gente não sabe o que é. Dá tanta aflição... Pra quê Dorinha ir buscar adjetivo e dizê-lo alto, só pra marcar no coração do menino, um 'coitado' que pode nunca mais abandoná-lo, mesmo quando ele estiver grande?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A senhora sabia, mãe?

Cheia de prato, a pia. 
Seu Orlando, aqui do lado, trocou o madeiramento do telhado todinho. Isso é astúcia de cupim, comendo na casa dele e na minha. Comendo a madeira da rua toda. Canso só de olhar esse monte de prato sujo. Por onde começo? Pelos talheres, não. Odeio passar a esponja  ensaboada pelos garfos e colherinhas. Odeio repetir tarefa de todo dia. Sinto falta de alguém chegar pra mim e dizer: "Que belo trabalho, Violeta!". Não há quem o diga. Tarefeira é o que eu sou, essa palavra existindo ou não no dicionário. Custa-me aceitar que todo o santo dia, fico aqui, lavando pratos. Ofélia me disse que um dia desses estava nesse ofício, e ouviu uma voz dizendo bem baixinho no ouvido dela: "Lavando prato sempre..." Teria a ver com a nossa sina de mulher? Ela me perguntou. Não. Achei que foi coisa de voz de desdenho, eu disse. Mas, se tivesse sido comigo o que eu teria feito? Pernas, pra que te quero? Seria uma carreira só. Uma vez, Alvinho chegou lá na casa da nossa mãe, e me ouviu filosofando sobre dons, em  uma conversa velada, de fundo de cozinha. Éramos eu e minha irmã Celinha, assustadas, as duas, e eu me fazendo de corajosa sem ser, ia dizendo, inspirada, tanta palavra de confiança pra ela, que só Deus sabe. Pra ela e pra mim também, numa espécie de racionalização, que nos convencesse que tudo é obra dos ditos cujos mistérios que nos cercam, e que a gente nunca deve ter medo.

"Eu pensava que o nome dele era Elton 'Magalhões'. Mas né não. O nome é Magalhães. A senhora sabia, mãe?" A mãe nem aí, ocupada, nem respondeu. Se eu tivesse uma escada,  parava de lavar meus pratos, a encostaria na parede do muro e ia olhar a cara da menina. Menina não, que a voz já era de  uma mocinha de uns 14 anos. Foi o carro da campanha do candidato que passou pela rua fazendo zoada. O nome dele e o seu retrato estão espalhados por todas as bibocas da cidade, e a menina nem assim, se deu ao trabalho de ler a palavra? Pelo vidro da janela, olhei Adilson catando as folhas das minha buganvílias, sobre a grama do  jardim. O que a gente faz em um minuto, ele faz em dez, "dona Violeta, a senhora não se aperreie não, que eu faço devagar, porque gosto de fazer bem feito", e é isso que eu digo a Aprígio, sempre atrasado, querendo projetar seus atropelos, na lentidão que desliza as movimentações de Adilson no tempo.

Celinha tinha tido uma premonição. Um sonho que mostrara  pra ela, um acontecimento igualzinho como ia acontecer, e que findou acontecendo dias depois. Ela tinha um medo tão grande antever as coisas, e eu queria convencê-la de que ela era privilegiada. Mais do que eu, que nunca tive uma premonição sequer. Só certezas. Lavar prato todo dia, tem nem graça. Cozinhar, tomar banho, trocar de roupa, tem nem graça. Rotina de cupim dando fim à madeira, rotina de  expectador acompanhando novela, mesmice de cantarolar as mesmas músicas conforme seja a mágoa e evocar mágoas cantarolando as mesmas músicas. E a gente gastando o tempo de viver só pra repetir as mesmas coisas. Que chateação.

Isso é um dom, Celinha. Um dom precioso. Pode crer. Falei até no santíssimo Espírito de Deus, revelador, cheio da Ciência Divina. Alvinho desfez meu discurso me fazendo um susto. Achegou-se por trás de mim e sussurrou ao meu ouvido com voz cavernosa: Violeeeeeta. Olhei em volta, será que Celinha tinha ouvido o que eu ouvi? Será que eu também teria a permissão especial de quebrar a inalterabilidade do previsível no cotidiano? Gritei, insubordinada, um sonoro Nãaaaao. Celinha não conteve a gargalhada e eu me senti indecente e envergonhada. Pra que tanto palavrório, se um dom daqueles, eu tinha acabado de demonstrar, não queria pra mim?! Isso de sonho que vai contando as coisas antes delas acontecerem eu não quero. Gosto é de sonhar coisas confusas, enigmáticas, daquelas que a gente passa pra mais de três, quatro dias pensando nelas, maturando as ideias, juntando as partes. 

Eu nunca imaginei que a menina fosse atingir minha lavação de pratos - ela, mais para inocente do que para ignorante -, falando em voz alta, a palavra 'Magalhões'. A possibilidade da existência de um sobrenome desses, jamais havia passado pela minha cabeça. Não encontrei nenhum 'magalhões' no google, onde a gente encontra de tudo, né? Que nada?!. Eu também não imaginei que fosse encontrar um sertanejo alagoano daqueles bem rudes, logo de manhã cedinho, bem no meio da feira, acocorado, recitando sabedoria, 'que não tem coisa melhor do que uma mulé bonita, mas, mais bonita do que uma mulé bonita pra mim, é a minha família' 
_ E então?. Perguntou a mim uma mulher que ia passando: É isso mesmo, né dona? 

Nenhum anúncio nem antecipação de que aquilo ocorreria. Nada. Sou tocada pelo imprevisto que me traga para os diálogos com a vida. Depois eu pensei, que eu não tinha nada que dar uma de entendida de dons, pra aliviar a angústia de Celinha. Falar coisas sem convicção nem propriedade, só pra dizer coisa bonita é a maior idiotice. Dom maior, humano, é viver a certeza dessas rotinas, para  depois a gente poder  vê-las perfuradas pela imprevisibilidade, que quanto mais alheia, melhor. Eu gosto demais de encher minhas rotinas com gente. Eu gosto.