quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Só para doer mais

O menino olhou tão tristinho pra mim, que na mesma hora tive um desejo daqueles bem grandes de chorar. Contive as lágrimas, mas Dorinha é uma danada pra dar ênfase a coisa triste. Deu um daqueles suspiros cortados pela metade, na frente dele. "Coitado desse menino!" Não faça isso com ele, mulher, eu disse a ela, que me olhou meio como se eu fosse o desmancha 'desprazer' em pessoa. Mas ela sabia o que eu queria dizer com aquilo. E aí eu disse de outra forma, fazendo de conta que tinha acreditado que ela não me havia entendido: _ não atice os sentimentos do menino, que isso não é bom pra ele e você sabe. Aliás, não é bom pra ninguém, ficar tendo a dor alfinetada só para doer mais. Falei em voz baixinha pra ele não ouvir.
O chão da sala de jantar, onde ele brincava, estava cheio de heróis de plástico espalhados. Procurei, e nem sei como, por ximbras entre os brinquedos. Foi como uma saudade que chega de vez e toma a gente de assalto. Lembrei do meu irmão mais velho e das cores vítreas de suas ximbras e depois lembrei do jogo de castanhas, do cheiro dos cajus, do meio-fio da calçada, de Margarida, a flor da minha infância, do buraco da bica que vinha das telhas e de que a gente, pra ganhar o jogo, tinha que acertar as castanhas lá dentro. Fui tão longe que quando me dei conta, Dorinha tinha tornado à mesma frase: "Coitado desse menino". 
Isso me chateia. Profundamente. Ter dó declarado das pessoas é pedantice disfarçada de bondade. Foi com ela que eu aprendi a ter pena de todo mundo, sem nem ao menos saber se aquele sentimento merecia ser sentido. Pena de quê?  Aprígio ficava com raiva e me perguntava: "Pena de quê, hein?" Foi preciso eu casar com ele, pra primeiro me perguntar, o porquê de ter tanta pena desnecessária das pessoas. Pena indiscriminada, graças a Deus, eu não tenho mais. Aquilo me colocava como se eu fosse tão feliz e sempre tão feliz, e tão mais feliz que os outros, que eu me dava ao luxo de sentir pena deles. É demais. 
Mas o menino, o menino tem um olharzinho triste mesmo. Sobra muito branco no olho dele, a íris quase se escondendo por baixo da pálpebra superior. Olhar de santinho barroco. Igualzinho. Tanto brinquedo no chão e ele procurando por coisas que nunca encontra, porque nunca estão entre os brinquedos. É que nem quando falta uma coisa dentro da gente e a gente não sabe o que é. Dá tanta aflição... Pra quê Dorinha ir buscar adjetivo e dizê-lo alto, só pra marcar no coração do menino, um 'coitado' que pode nunca mais abandoná-lo, mesmo quando ele estiver grande?

4 comentários:

  1. Voce, como sempre, descrevendo com muita perspicácia momentos de grande poesia nos quais nós, simples mortais, as vezes não conseguimos enxergar. Adorei a referência a Margarida!

    Johann.

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  2. Obrigada, meu primo amado! Um grande beijo!!!

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  3. Arrasou, como sempre! Já disse que sou sua fã hoje?

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