terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O cheiro da vida


A paisagem passa ligeiro. Aridez de quase deserto - é como estar vendo por dentro de Isaura -, o seu deserto tão bem escondido, entre a alma e as suas vísceras. (Pudera ver por dentro das outras pessoas, como tão bem percebo Isaura: as suas teias de aranha, seus velames, suas folhas queimadas, a árvore seca que aponta galhos aflitos e afiados, contra um céu que dita um único tom de azul, para o que a vista oferece). 
A desolada visão, ao contrário do que deveria motivar tristezas, emite uma ponta de alegria que reverbera lá dentro e como uma onda de emoção, vem para fora em forma de um solitário sorrisinho disfarçado. 
O carro corre pela estrada. Um homem que viaja desconsolado declara ao motorista que “mulher só vai é com tabica na bunda”. Isaura e outra mulher que se sentara no mesmo banco, se entreolham e disfarçam o riso, ambas, cobrindo a boca com uma das mãos. Por que teriam sorrido? Isaura sabe o porquê de se rir. É que a invadiu um estranho gosto de vitória, por também aos homens, serem complicadas as mulheres. 

Empatamos, pensou, sentindo-se justificada. 

Sequer veio a si a ideia da grosseria do homem, e se veio, dela saiu de imediato. Por que haveria de avaliar o tanto de machismo que havia naquele desabafo? Estava ali um sujeito genérico. Olhou para trás e fitou o seu rosto. Conferiu: mais uma dessas criaturas rudes. Um homem igual a tantos outros, cujo 'pensar' e sobre o que diz é tão previsível, que nem é preciso adivinhar. Confunde-me ainda e às vezes, são aqueles, os de aparência mais polida, quando do contrário do que se acha, vivem endossando generalidades. 

Tornou a olhar para fora mais uma vez. Longe, um sem-número de garças desenhava bordados alados, costurando o vento como se fosse uma peça de roupa. Haveriam de vestir suas aleatórias imaginações. Ao que ela continuava pensando: sobre quantas daquelas mulheres que faziam com ela a mesma viagem, teriam levado safanões dos seus 'santos' maridos?

Lufadas de ar quente entraram pelas janelas do automóvel. Novamente o espaço hostil trouxera-se para dentro dos seus pensamentos. Involuntária, Isaura respirou o cheiro dezembrino. Fechou os olhos e imergiu incorporada ao seu mundo interno. Estava tudo tão cheio de rispidez... Para quê? Tinha-se com a alma repleta de tronchura a querer estrangular o aroma cheio de signos. Tentava evadi-lo, ironicamente, pelos seus cinco sentidos; as suas antenas de captar afetos. 

Diante de tal despropósito, Isaura se meteu de permeio por entre as suas entranhas, e encetou-se da visão da paisagem aspirada, à essência do perfume  dela exalado. Permitiu-se invadir o aroma e nele consentiu-se contaminar. Ela não haveria de deixar que aquela fragrância saísse de mim por aí afora, porque é o cheiro da vida quem acrisola o meu deserto.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Perdido

Sou a inteireza de onde te arrebentas em fragmentos.
Por isso a mim consinto trafegar as desagregações dos seus passos errantes.

Perdido estás, e ao teu extravio e a ti, eu te maldigo.

Maldigo-te por ignorares a tua sombra que ti devasta,
e que indignada, perverte e confunde tua fome e tua sede,

que o condena à inapetência e o abandona, mendigo, à mais cruel autofagia.
Tu és vácuo, e eu bendigo o teu vazio, 
único reduto e sentido que de ti resta 
e que me alimenta viva e constante.

Tornei-me saprófaga e nutro minhas raízes dos teus restos,

e me alicerço, incorruptível, no labirinto que ti consome
e que o faz perder-se.

Conheço-te em todos os teus atalhos,
porque ando sobre os teus muros,
e sei de todas as vezes que erras o caminho

Rápido. Percorra-te em todos os lugares de ti
Se ti achares, me acharás...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Meia-idade

Entardeço acumulando primaveras e flores, 
com a modéstia senhoril de uma jardineira,
que entendeu das cíclicas estações os enredos:
como o encharcar de begônias o excesso de zelo,
como ver na brincadeira dos ponteiros
do relógio, os números do tempo sobre os jardins.

Um gato preto roça o rabo por entre as minhas pernas e mia
Maria Emília que engelha murchando como um maracujá,
quer despejar em minha casa as novidades da rua
e encher meus ouvidos de pecaminosos vexames.

Queria fazer bolhas de sabão, 
com as artérias do mamoeiro acolá,
para me livrar de maledicências e afugentar mesquinhezas. 

À narrativa do instante perturbo o que fui em menina.

Movo, com o dedo indicador, pedaços de infância que trafegam na poeira de um facho de luz, 
e entram em diagonal pelas fendas da porta.
Para me espelhar como gente grande na sala de jantar,
Deixo-me cravar pela seta de fogo, viro sombra,

 e  me meto, impreterível, 
no rumo de pequenas formigas, 
que descem em fila indiana pelo pé da mesa.

Eu quero me sentir é como Deus se sente.