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Mostrando postagens de 2013

Ao meio-dia

Se chuviscasse no começo da noite, toda a intenção de sair iria por água abaixo. Era assim naquela casa. Não havia o que fazer na rua em dias chuvosos, nem ao meio-dia. Ninguém era besta de colocar os pés além do batente da porta. Era a hora de o diabo andar solto pelo mundo. A larga avenida tornava-se lugar inóspito e a sisudez estabelecida murchava o vento na folhagem das árvores. Via-se o tempo através da janela. Mas isso já faz é tempo. Naquele dia de sol quente e mormaço, Isaura debruçou-se a ver da paisagem faíscas de luzes. Vinham dos arredores. Ela enxergava por assim dizer, com os olhos da casa, por seus grandes olhos de janela, que constantemente vigiavam a serra e as nuvens, e que mendigavam acontecimentos. A mulher, ali, como extensão da casa ou a casa dela, deu por visto, o homem que falava ao microfone. Viu da sua imaginação, a sua estatura, sua voz e toda vez em que gesticulava em frêmito, na tentativa de organizar a confraternização natalina. O aparelho chiava. O suor d…

Fadário

Fui visitá-los. De tardezinha ao chamar por Rosa, a sua vizinha saiu à porta acompanhada da mãe. Duas abelhudas. Rosa apareceu. Vinha de uma confusão de sonhos azedos e trazia as pálpebras inchadas. Fitou-me com os tais olhos da sua enorme apreensão sobre mim e abriu-me a porta desanimada, mantendo-se a certa distância. E já no sofá eu sentara em uma ponta e ela em outra. Chegue pra cá, criatura. Tá com medo de mim? Ela não respondeu. Era tanta a sua aflição, que eu fugi por alguns instantes daquele momento, mexendo no celular para suavizar a tensão. Rosa usou de um fiozinho de voz pra me perguntar:


_ E agora? O que é que eu vou fazer?


Eu não tinha resposta, senão aquela, de que há solução para tudo. Porém, nem me agradou dizer aquilo e nem a ela, ouvir. Frases genéricas soam como chavões, esvaziados pelo tanto que são usados. Fica o dito pelo não dito, o que é o mesmo que dizer que, para cada situação arquetípica, existe uma frase correspondente, que não responde nem resolve nada. Cá e…

Ao final do dia...

Dona Violeta, a senhora gosta de Lindomar Castilho? E Waldick Soriano? A senhora gosta? Perguntou-me o jardineiro enquanto revolvia sem a menor pressa o chão de terra. Ciscador na mão, ele disse que o instrumento que eu acabara de trazer nas compras, viera a calhar. Arrancava gravetos e amansava modestamente a grama já existente, cantarolando com a voz molenga, que nem de preguiça era. Era de fazer tristeza à canção. Sofredor de todos os amores, dos amores mal empregados, o ciscador servia-lhe para remexer um chão mais profundo e escondido, lá dentro dele.

As inflorescências caíam das buganvílias e cobriam o verde de púrpura e lilases. A tarde alaranjou e foi-se escorregando por trás das serras. Corri a acender as luzes do jardim e de volta a ele, respondi ao jardineiro a resposta possível:

_Você canta bem essas músicas.

Não, ele não canta nada bem, mas canta emocionado. Canta sentindo tanta dor que me faz senti-la também. Então vale. Porque é cheio de sentimentos e é na linguagem do…

Espantos e deslumbramentos

Eles seguiam em viagem pela estrada. Chovia no tempo e a manhã era molhada, as flores eram molhadas e de cima dos telhados dos casebres, a água descia cantando musiquinha umedecida. A mulher olhava distraída, as encostas no caminho, divisando pequeninas flores. Viu brancas ipoméias , dezenas delas margeando a estrada. Repentinamente, precisou que o tamanho do mundo vasto, era pequeno demais à imensidão do espaço e pôs-se a imaginar que infindáveis aritméticas poderiam contar o infinito. Nenhuma... Ao seu lado, o marido asseverava que eram cinquenta e cinco, o número de países que formavam o continente africano. Um lugar onde nascem mais pessoas e onde mais pessoas morrem. Com quantos números seria possível calcular tanto mistério (?) pensava a mulher, enquanto assentia com a cabeça, sobre a África, os povos, a fome, a vida e a morte.  Pensava em buracos negros e que faltam bilhões de anos ainda, mas que a Via Láctea e a Andrômeda vão se chocar. Tentou imaginar o tempo cósmico. Uma ince…
Minha primeira redação foi na escola primária. A orientação era para que descrevêssemos o que víamos de uma paisagem posta no flanelógrafo¹ . Eu abusei do verbo Ver: "Vejo uma casa com portas, vejo janelas, vejo o campo, vejo os bois, vejo isso, vejo aquilo. Vejo." Eram os meus olhos de enxergar que falavam. Os meus olhos de sentir, eu comecei a ver com eles, pouco tempo depois... Foi quando eu entendi que Ver com o coração é enxergar por dentro das coisas!
¹Quadro revestido de flanela ou de feltro de cor lisa, us. como recurso didático, e sobre o qual se fazem aderir objetos ou figuras, fixadas ou removidas segundo as necessidades do ensino. (Dic. Aurélio)

Desenredo...

Gosto da atmosfera do tempo dos últimos meses do ano. Gosto dos cheiros que esse tempo exala, das ventanias e da cor do sol sobre o mundo nos finais da tarde, do barulho que o vento faz, e do ladrar dos cães no fundo dos quintais. E se eu ainda pudesse contar sobre o que sinto acerca desse tempo à minha avó, ela diria: "Dou por vista". Não sei explicar, mas sei sentir, o que o dou por vista quer dizer.  Há duas noites andei por um tão longo corredor que eu não via o seu final. Foi um sonho. Acordei com a sensação de um nunca acabar. Um nunca acabar o quê? O vento bate forte nas vidraças da janela, a tarde cai e eu faço silêncio em mim. Dou por vista o que muita gente sente nos finais da tarde. Eu, sinceramente, gosto muito é de ter a consicência sobre que os ciclos da vida vão se fechando e outros vão tendo início.

Bom dia, Pão de Açúcar

"Você tem fome de quê?"

São sempre bem vindas ações que visam minorar as necessidades da população mais carente, desde que tais ações não tenham como objetivo desviar a atenção dessa mesma população e da sociedade em geral, para outras necessidades. Saúde, Educação, Moradia, também fazem parte das necessidades básicas dessa gente e poderiam ser identificadas, da mesma forma, como outras fomes irmãs. Certos micro-projetos" sociais, reproduzem as velhas fórmulas filantrópicas-paternalistas que visam sim, tornar o gestor municipal um "meritório": "Pai da Pobreza" e amenizar as queixas dessa mesma população de necessitados. Pão e mungunzá podem e servem, num dado contexto, para amenizar a fome primária, física e visceral, do povo pobre e necessitado de nossa cidade. Ação que, inclusive, nos remete à Roma antiga e a antiga e tão atual expressão: Panis et circus (Pão e Circo, para iludir outras fomes e outras precisões). "A gente não quer só comida. A …

Tergiversar

Entre a Palavra e a Imagem, há espaços onde ergo a minha morada. Ora feita com letras, ora de pincéis e tintas. Dentro da imagem, o meu coração é maestro de batuta em punho, harmonizando sístoles e diástoles, esses meus barulhos. Um maestro daqueles que a palavra chama pelo nome de sentimento. 
O mais profundo mergulho é o que dou para dentro de mim. Meu salto quase heróico é como um vôo sem asas, à imensidão do vagar entre o vivido e o registrado, para a nunca concluída Casa que é em mim, o lugar de insistentes perguntas, que a ela me retornam. Do lado de fora do que julgo ser, os vazios, a inércia, o temor do imponderável, também sou eu.

Ao Companheiro de Luta, Luisinho Costa

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O tempo passa tão depressa... Se não me engano, foi no final do ano passado, nas celebrações da formatura das crianças do ABC, que nos encontramos, eu e Luizinho, festejando nossos pequenos doutores: meu sobrinho e sua netinha. Aquela noite festiva onde trocamos tantas palavras amistosas, marcava, porém, nosso último encontro, de tantos encontros que tivemos décadas atrás, ambos, militantes do PC do B em Pão de Açúcar. 




Pela manhã recebemos, eu e Waldson, a notícia da sua partida. Comove-me sentir que a sua presença sorridente, ponderada, companheira de tantas lutas, fez deslocamentos no tempo, ocupou espaços e agora se ausenta para desconstruir-se no silêncio do útero úmido da Terra-Mãe. Comove-me, sobretudo Luizinho, lembrar que em um período significativo, fizemos parte da vida uns dos outros, entrelaçando andanças, discussões políticas e história.

Comove-me saber que a sua realidade se despede e nos obriga a mergulharmos no recurso da memória. Quero fazer dela, não apenas uma lembra…

Sem a palavra

Às vezes a palavra some, amiudada, sem conseguir corporificar-se ou conter em si o símbolo do meu sentido. É que sentir por vezes é tão grande, e quase tão próximo do impenetrável, que o Silêncio da letra, escrita, emudece, e faz-se santuário de um repertório tardio. A palavra - e eu tenho medo -, talvez reduza o sentido e empobreça, pagã, a imagem e a força do que se sente. 
Neste sentir, o limite do conhecer humano extravia-se. Faça-se Senhor, a Palavra e o Verbo, o verso e a poesia, e o meu dizer de sentimentos.
Sabedoria eterna, só Deus tem à Palavra o sentido. Eu, tão-somente, em minha pequenez, assim, tal jorro incoerente de frases, me abandono neste Mistério e, curiosamente, ouso escutá-lo...

Biunívoco

Dentro do seu olho que me olha,
eu me vejo no seu olho que vê o seu olho me vendo
Será que dentro dos seus olhos só nossos olhos se vêem???

Cambiante

Eu brinco de colar cotidianas realidades, retendo pedaços de céu de um azul esmaecido, enquanto espalho por dentro dos olhos, recortes de parabólicas e telhados, de casinhas coloridas e 'pés-de-pau'.

Atavio uma janela imaginária, com chão verticalizado, entre dois vértices cruzados, feitos dos meus dedos, e dentro dela, componho a colagem feita do quanto tudo é real. É que eu quero reter das suas metáforas o sentido, só para guardar nas coisas vistas, alguma coisa de mim, pulsante, no agora.
Toda a imagem que recolho, me representa colada no mundo desta manhã. Amanhã... é tudo tão diverso. Mesmo que todas os signos se anunciem iguais. Não me devo enganar: eles mesmos, que constelarão meus sentimentos, me revelarão outros sentidos.

Isadora, Isa, Dorinha...

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Tempo de chuva, Didinho meu irmão, em menino, encheu uma sacola de sapinhos e despejou-os dentro de casa. Foi um rebuliço.
Deitada no cimento frio, a menina imaginava que colocando uma cadeira sobre outra, muitas, subindo, subindo, chegaria nas nuvens. 
Lilice tinha como certo, que os ovos já saíam cozidos da galinha, e que seu olho esquerdo enxergava mal, por se tratar de estar no lado esquerdo e ela ser destra.
Bruninho, sobrinho da minha cunhada Waldirene, me avisou muito sério, que a sua galinha tinha parido um ovo. 
E Guigo veio me dizer surpreso, ao ver a vizinha, moça-velha, com um bebê nos braços : "Mamãe, Lu deu cria!". 
Lelo, tomou uma colherada de lambedor de hortelã, para acalmar a tosse, e exigiu que se colocasse mais em um prato. Queria tomar igual a como se toma sopa.
Thaminha ocupava a sala de visitas, lá em casa, onde a nossa infância reinava absoluta, e dava aulas diárias às suas bonecas, que sentadas no chão, entediadas, queriam brincar de outra coisa. Tinha mes…

Festa do Padroeiro

É com imensa alegria que transcrevo a publicação do último sábado 01/06/2013, das páginas do caderno Saber, do Jornal Gazeta de Alagoas para o meu blog, o poema do amigo de longas datas e de excelentes memórias compartilhadas, Álvaro Ântônio, conterrâneo, filho de Pão de Açúcar.



FESTA DO PADROEIRO - POEMA
Por: ÁLVARO ANTÔNIO MACHADO*
Pronto. João Lisboa terminou a pintura da igreja.

A Matriz está pronta para a festa.

Agora é a vez da Prefeitura limpar o coreto,

iluminar a praça,

construir pavilhões

e organizar a festança.

A paróquia vai convidar as autoridades

e fazer a programação.

Ninguém nega o apoio e

cada um fará sua parte para o brilho desses dias.



As escolas ensaiam os jograis,

as quadrilhas,

os dramas-da-roça,

preparam seus alunos para competir.

O nome do colégio tem que ser respeitado.

Os alfaiates faturam: todo mundo quer

“quebrar a tigela” na festa.

Crianças serão batizadas,

dezenas farão a primeira comunhão.

Zefa vai noivar.

E será que neste ano a Maria casa?



Pra quem mora no “centro” chegou o te…

"Com licença da palavra: a vida é uma merda"

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Neném se move com a graça que uma mulher com muito mais de setenta anos se move. Lentidão, um avançar descompromissado, ondulante, pisando com cuidado, livrando calos e respeitando a dolorosa artrose. Move-se com graça. Sim. Porque é preciso enxergar conforme a idade, para ver que a leveza de antes, muda-se em lentidão. Não é uma graciosidade estética, mas uma graça sacralizada no peso dos anos e que por isso se anuncia graciosa. 
“Com licença da palavra: a vida é uma merda!” ela me diz enquanto acompanho seus passos. De Neném posso esperar tudo, menos isso. Parece um desperdício à religião praticada com desvelo, e invalida o diploma recebido da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, pela passagem dos seus cinqüenta anos de apostolado. Também pulveriza o seu rito anual, de ficar vestida de preto durante os quarenta dias da Quaresma, completando na própria carne, os sofrimentos de Nosso Senhor. E a devoção à Santa Rita de Cássia, e o terço que debulha sentada à beira da cama, de cos…

A poesia que eu conto...

Retornar à casa da minha infância, passar uns dias, ainda que breves, com a minha mãe, significa me encher de profundidades. Sempre que volto lá, vou ao quintal. A velha goiabeira que nos viu crescer, ali está. Dia desses, resolvi que subiria nela. Subi. Interessante como a gente consegue guardar a geografia da árvore. 
Tudo é tão automático que eu poderia subir de olhos fechados, não fosse ter notado a ausência de alguns galhos e ter perdido a leveza e a agilidade do corpo, o que dificultou um tanto o meu intento. Mas eu o fiz. Acho que já tem uns cinco anos, que a menina que eu fui, levou-me, suponho que pela última vez, a ver o Velho Chico por sobre os telhados, com os olhos da mulher que me tornei.
No fundo do quintal está o local onde antes haviam duas pequenas dependências. Meu irmão e eu reconstruímos a velha cozinha e o último cômodo da casa, o murinho que separava o quintal do comprido corredor, donde duas janelas e uma porta o emolduravam, espiando a lateral esquerda da casa. 

Mais respeito aos artistas violeiros!!!

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Voltando à última sexta-feira, quando da ocorrência do Seminário Alagoas: Realidade e Perspectiva, realizado pela UVEAL (União dos Vereadores de Alagoas) e AMA (Associação dos Municípios Alagoanos) em Santana do Ipanema/AL, faço questão de registrar o meu protesto pelo desrespeito aos artistas, violeiros, Josival Viana e Gilberto Alves, símbolos da nossa cultura sertaneja/nordestina, que em vão tentaram se apresentar e não conseguiram. A organização do evento a meu ver foi falha, ao marcar para o final do seminário, as suas apresentações.


Repentistas, de categoria, eles ainda deram início à sua mensagem, mas as pessoas já saíam do local. Essas falhas mostram duas coisas no mínimo: ou a não importância à nossa cultura regional. Era a ocasião onde se deveria priorizar os artistas, aproveitando o contexto para reforçar nossa identidade de sertanejos. Ocasião para se prestigiar o Repente - essa tradição folcórica do nosso país, tão bem adequada e tão forte entre nós nordestinos. E que tran…

Quando chove

Sempre que chove, como chove agora, eu, que prefiro os dias ensolarados, mergulho na umidade das lembranças. Minha casa velha, as goteiras, as novas modalidades de enxergar a rua, os sapos saindo dos esgotos e outros, atrevidos, que entravam nos quartos, a queda da energia elétrica, velas e candeeiros. Exílio: amigos e brincadeiras se distanciavam na chuva. Eu ficava como se estivesse presa, por trás dos grossos pingos d'água, emoldurando imagens turvas, transeuntes, trafegantes, debaixo de sombrinhas. 
Inverno para mim significava uma forçada introversão. Ver a casa, ouvir seus sons, sentir seus cheiros... Distinguir coisas e representá-las distintas de si mesmas. Repetir-me, cotidiana, nos mesmos cenários, sem poder escapar às orações, em torno da mesa, à invocação da ladainha de N.Sra, com os seus títulos a me saírem pela boca.
Oh! Mãe de Misericórdia, Mãe da Divina Graça, puríssima, castíssima, Espelho de Justiça e Sede de Sabedoria, causa da nossa alegria...
Úmidas lembranças so…

Sob o olhar do infinito

Dias esses pedregosos. Antes, sentada no primeiro degrau da escada que dá para outros cômodos da casa, apreciara as noites do céu. Imaginava que, o universo aquela vastidão, a pudesse tragar numa viagem pelo desconhecido. Vagar por entre os astros, em carne e osso, não. Não a si mesma, feita do tecido humano, mas vagar na força das perguntas, sobre o que significa o universo, o que significa ver aqueles pontos luminosos que lhe causam arrepios, e perguntar sobre as constelações, e pressentir ser capaz de entender tudo o que seus ancestrais souberam sobre as estrelas.
Dias esses de incertezas, e a curiosidade, sempre, estabelecida, sendo a causa de reverências, só de pensar que diante da Via Láctea, tudo seu, toda a sua alegria, toda a sua dor, suas pelejas e conquistas, seus questionamentos, poderiam ser resumidos em tolas abstrações e desintegrar como sofismas. Haveria ela, então, de ser um nada. Um nada a observar que as distâncias celestes e as luzes astrais, tinham tanta grandiosid…