sábado, 21 de dezembro de 2013

Ao meio-dia

Se chuviscasse no começo da noite, toda a intenção de sair iria por água abaixo. Era assim naquela casa. Não havia o que fazer na rua em dias chuvosos, nem ao meio-dia. Ninguém era besta de colocar os pés além do batente da porta. Era a hora de o diabo andar solto pelo mundo. A larga avenida tornava-se lugar inóspito e a sisudez estabelecida murchava o vento na folhagem das árvores. Via-se o tempo através da janela. Mas isso já faz é tempo.
Naquele dia de sol quente e mormaço, Isaura debruçou-se a ver da paisagem faíscas de luzes. Vinham dos arredores. Ela enxergava por assim dizer, com os olhos da casa, por seus grandes olhos de janela, que constantemente vigiavam a serra e as nuvens, e que mendigavam acontecimentos. A mulher, ali, como extensão da casa ou a casa dela, deu por visto, o homem que falava ao microfone. Viu da sua imaginação, a sua estatura, sua voz e toda vez em que gesticulava em frêmito, na tentativa de organizar a confraternização natalina. O aparelho chiava. O suor devia escorrer-lhe pelo rosto. E ele era gordo, possivelmente, a agitar-se sobre uma calçada alta, que o elevava frente aos outros. 
Tudo por fazer e ela imaginando o microfone de modelo ultrapassado nas mãos do homem, o murmúrio daquela gente ao seu derredor. Pensava Isaura, meio aflita de uma aflição corrompida, deteriorada, incapaz de gerar postura. Aflição por costume, com o desígnio de aperrear o coração, e só. Do lugar não saiu. O tempo fez uma risca de sombra no paredão amarelo ocre, acolá. Como um ponteiro, a hora subiu, subiu, e marcou o meio-dia com a mais completa claridade.
E se chovesse no final da tarde? Por certo todos os planos para a noite seriam frustrados. Àquela hora o diabo andava à solta a espreitar Isaura, escondido bem debaixo do parapeito da janela. A mulher lembrou de que não tinha planos, tinha-se sim, ainda mais aflita, assaltada por lembranças tardias. Assistia-se como esteio. Era fachada de paredes desbotadas e telhado oblíquo. Os seus pensamentos e os tempos aguados e de estio se haviam misturado e a rendiam, emaranhada, no pretérito como se fora presente. 
Olhava-se que a avenida mantivera a inércia, ainda mais afogada na sisudez, porque o tempo parou. Isaura percebeu que ver com olhos de janela era ver através de um recorte emoldurado. Sempre um mesmo ângulo da rua, e sempre um mesmo desejo por episódios alheios. Um imaginar, nunca um viver o que há lá fora. Além de casas empedernidas fazendo longas fileiras, há um requisitar de circunstâncias e conveniências inconvenientes, talvez. 
Talvez. Porque a vida é cheia de incertezas e novidades. Mas a que hora a gente precisa sair de casa, para ver o mundo, como de fato ele é? À luz do meio-dia só o diabo, certamente, sabe a resposta.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Fadário

Fui visitá-los. De tardezinha ao chamar por Rosa, a sua vizinha saiu à porta acompanhada da mãe. Duas abelhudas. Rosa apareceu. Vinha de uma confusão de sonhos azedos e trazia as pálpebras inchadas. Fitou-me com os tais olhos da sua enorme apreensão sobre mim e abriu-me a porta desanimada, mantendo-se a certa distância. E já no sofá eu sentara em uma ponta e ela em outra. Chegue pra cá, criatura. Tá com medo de mim? Ela não respondeu. Era tanta a sua aflição, que eu fugi por alguns instantes daquele momento, mexendo no celular para suavizar a tensão. Rosa usou de um fiozinho de voz pra me perguntar:



_ E agora? O que é que eu vou fazer?



Eu não tinha resposta, senão aquela, de que há solução para tudo. Porém, nem me agradou dizer aquilo e nem a ela, ouvir. Frases genéricas soam como chavões, esvaziados pelo tanto que são usados. Fica o dito pelo não dito, o que é o mesmo que dizer que, para cada situação arquetípica, existe uma frase correspondente, que não responde nem resolve nada. Cá estou a usar frase gasta, frequente e comum a todo mundo. Sai da gente sem consentimento, sem pensamento e sem mediação. Sai da gente como uma maldição. Um prato feito, um feijão com arroz. Detesto cair no ramerrão e ser presa, ainda que indireta, dessas teias armadas tem séculos. Graça, não tem. Nenhuma. Nem criatividade. É como repetir humanidades em sua recorrente inaptidão. 



Quero dar saltos mais altos. Desacreditar sinas e inventar destinos outros.



A trezentos e sessenta e três milhões e duzentos e noventa e nove mil quilômetros de distância, a Lua Nova abordava, indiferente a Rosa, a escuridão do céu como uma foice iluminada. Cá embaixo a cidade acendeu suas luzes e delimitou o horizonte ampliando clarões sobre desenhos de circunferências tortas, anunciando a noite. Coisa tão previsível, tudo.

O que é que Rosa vai fazer agora? Viver esse fado. Sofrer na carne e no coração toda a trama já traçada e vivida por tanta gente. Destino é a falta de sorte dos desavisados...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Ao final do dia...


Dona Violeta, a senhora gosta de Lindomar Castilho? E Waldick Soriano? A senhora gosta? Perguntou-me o jardineiro enquanto revolvia sem a menor pressa o chão de terra. Ciscador na mão, ele disse que o instrumento que eu acabara de trazer nas compras, viera a calhar. Arrancava gravetos e amansava modestamente a grama já existente, cantarolando com a voz molenga, que nem de preguiça era. Era de fazer tristeza à canção. Sofredor de todos os amores, dos amores mal empregados, o ciscador servia-lhe para remexer um chão mais profundo e escondido, lá dentro dele.

As inflorescências caíam das buganvílias e cobriam o verde de púrpura e lilases. A tarde alaranjou e foi-se escorregando por trás das serras. Corri a acender as luzes do jardim e de volta a ele, respondi ao jardineiro a resposta possível:

_Você canta bem essas músicas.

Não, ele não canta nada bem, mas canta emocionado. Canta sentindo tanta dor que me faz senti-la também. Então vale. Porque é cheio de sentimentos e é na linguagem do sentir que ele trabalha o chão e eu planto flores.

Eu gosto é de comunhão.

Naquele momento éramos duas humanidades, atores de nós mesmos, e éramos felizes, podia até nem parecer - sem nenhum esforço ou intenção consciente de sermos -, pavimentando de sentidos, um paraíso de Heras, Onze horas, Jiboias e Papoulas amarelas.

sábado, 12 de outubro de 2013

Espantos e deslumbramentos

Eles seguiam em viagem pela estrada. Chovia no tempo e a manhã era molhada, as flores eram molhadas e de cima dos telhados dos casebres, a água descia cantando musiquinha umedecida. A mulher olhava distraída, as encostas no caminho, divisando pequeninas flores. Viu brancas ipoméias , dezenas delas margeando a estrada. Repentinamente, precisou que o tamanho do mundo vasto, era pequeno demais à imensidão do espaço e pôs-se a imaginar que infindáveis aritméticas poderiam contar o infinito. Nenhuma... Ao seu lado, o marido asseverava que eram cinquenta e cinco, o número de países que formavam o continente africano. Um lugar onde nascem mais pessoas e onde mais pessoas morrem. Com quantos números seria possível calcular tanto mistério (?) pensava a mulher, enquanto assentia com a cabeça, sobre a África, os povos, a fome, a vida e a morte. 
Pensava em buracos negros e que faltam bilhões de anos ainda, mas que a Via Láctea e a Andrômeda vão se chocar. Tentou imaginar o tempo cósmico. Uma incerteza a quem a existência no mundo não pode ser contada pelo mesmo relógio imutável. Privilégio, poder estar contida em histórias que pertencem ao Cosmo, girando em um modesto planetinha do sistema solar, como um pequeno sopro de vento que vem e vai embora. A vida é um lugar de espantos e deslumbramentos. 
Seu marido agora versava sobre os países da África portuguesa. Moçambique, Príncipe, Angola, e fazia, objetivo, conjeturas articuladas sobre a terra, esse palco de dramas, derrotas e conquistas. A África é mais um ponto bordado no tecido do mundo, pensou a mulher, que novamente distraída, mergulhou no vão das estrelas, viajando por extensões indefinidas. Enquanto ele falava em continentes e países, ela pensava a Eternidade.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Minha primeira redação foi na escola primária. A orientação era para que descrevêssemos o que víamos de uma paisagem posta no flanelógrafo¹ . Eu abusei do verbo Ver: "Vejo uma casa com portas, vejo janelas, vejo o campo, vejo os bois, vejo isso, vejo aquilo. Vejo." Eram os meus olhos de enxergar que falavam. Os meus olhos de sentir, eu comecei a ver com eles, pouco tempo depois... Foi quando eu entendi que Ver com o coração é enxergar por dentro das coisas!

¹Quadro revestido de flanela ou de feltro de cor lisa, us. como recurso didático, e sobre o qual se fazem aderir objetos ou figuras, fixadas ou removidas segundo as necessidades do ensino. (Dic. Aurélio)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Desenredo...

Gosto da atmosfera do tempo dos últimos meses do ano. Gosto dos cheiros que esse tempo exala, das ventanias e da cor do sol sobre o mundo nos finais da tarde, do barulho que o vento faz, e do ladrar dos cães no fundo dos quintais. E se eu ainda pudesse contar sobre o que sinto acerca desse tempo à minha avó, ela diria: "Dou por vista". Não sei explicar, mas sei sentir, o que o dou por vista quer dizer. 
Há duas noites andei por um tão longo corredor que eu não via o seu final. Foi um sonho. Acordei com a sensação de um nunca acabar. Um nunca acabar o quê? O vento bate forte nas vidraças da janela, a tarde cai e eu faço silêncio em mim. Dou por vista o que muita gente sente nos finais da tarde. Eu, sinceramente, gosto muito é de ter a consicência sobre que os ciclos da vida vão se fechando e outros vão tendo início.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Bom dia, Pão de Açúcar

"Você tem fome de quê?"

São sempre bem vindas ações que visam minorar as necessidades da população mais carente, desde que tais ações não tenham como objetivo desviar a atenção dessa mesma população e da sociedade em geral, para outras necessidades. Saúde, Educação, Moradia, também fazem parte das necessidades básicas dessa gente e poderiam ser identificadas, da mesma forma, como outras fomes irmãs. Certos micro-projetos" sociais, reproduzem as velhas fórmulas filantrópicas-paternalistas que visam sim, tornar o gestor municipal um "meritório": "Pai da Pobreza" e amenizar as queixas dessa mesma população de necessitados. Pão e mungunzá podem e servem, num dado contexto, para amenizar a fome primária, física e visceral, do povo pobre e necessitado de nossa cidade. Ação que, inclusive, nos remete à Roma antiga e a antiga e tão atual expressão: Panis et circus (Pão e Circo, para iludir outras fomes e outras precisões). "A gente não quer só comida. A gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só comida, a gente quer inteiro e não pela metade". Bom dia, Pão de Açúcar!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Tergiversar

Entre a Palavra e a Imagem, há espaços onde ergo a minha morada. Ora feita com letras, ora de pincéis e tintas. Dentro da imagem, o meu coração é maestro de batuta em punho, harmonizando sístoles e diástoles, esses meus barulhos. Um maestro daqueles que a palavra chama pelo nome de sentimento. 

O mais profundo mergulho é o que dou para dentro de mim. Meu salto quase heróico é como um vôo sem asas, à imensidão do vagar entre o vivido e o registrado, para a nunca concluída Casa que é em mim, o lugar de insistentes perguntas, que a ela me retornam. Do lado de fora do que julgo ser, os vazios, a inércia, o temor do imponderável, também sou eu.

domingo, 18 de agosto de 2013

Ao Companheiro de Luta, Luisinho Costa



O tempo passa tão depressa... Se não me engano, foi no final do ano passado, nas celebrações da formatura das crianças do ABC, que nos encontramos, eu e Luizinho, festejando nossos pequenos doutores: meu sobrinho e sua netinha. Aquela noite festiva onde trocamos tantas palavras amistosas, marcava, porém, nosso último encontro, de tantos encontros que tivemos décadas atrás, ambos, militantes do PC do B em Pão de Açúcar. 





Pela manhã recebemos, eu e Waldson, a notícia da sua partida. Comove-me sentir que a sua presença sorridente, ponderada, companheira de tantas lutas, fez deslocamentos no tempo, ocupou espaços e agora se ausenta para desconstruir-se no silêncio do útero úmido da Terra-Mãe. Comove-me, sobretudo Luizinho, lembrar que em um período significativo, fizemos parte da vida uns dos outros, entrelaçando andanças, discussões políticas e história.

Comove-me saber que a sua realidade se despede e nos obriga a mergulharmos no recurso da memória. Quero fazer dela, não apenas uma lembrança, mas um relicário precioso cheio de receitas: a de como fazer o vento encher as velas da canoa, São Francisco afora, e nos levar até Limoeiro para conversas e reuniões com as pessoas, a de tecer afetos enquanto se cumpria as tarefas como militantes, a de preservar amizade, ainda que destinados a cumprir as nossas próprias tarefas, tenhamos distanciado as nossas presenças. 
Guardarei a receita da sua tranqüilidade e ponderação, em meio a nós, às nossas discussões, bem mais jovens que éramos do que você naquela época.

Luizinho, eu me sinto honrada por ter feito parte - de um instante que tenha sido -, no tecido humanitário de sua jornada. Eu tecia parte da minha esperança, também. Tecemos juntos, todos, algo parecido com um conto sobre a chuva, na aridez dos nossos sertões interiores, tão sedentos de perspectivas por um mundo – quiçá -, por um tempo melhor. E isso é sempre digno de nobreza porque sempre nos remeterá àquilo que de fato é nobre. Leve consigo a minha saudade, tão e sempre honrosa à sua pessoa. Certamente outras lutas, tão dignas quanto as que você travou aqui, o esperam.

Mãos a obra, companheiro!!!!

terça-feira, 30 de julho de 2013

Sem a palavra

Às vezes a palavra some, amiudada, sem conseguir corporificar-se ou conter em si o símbolo do meu sentido. É que sentir por vezes é tão grande, e quase tão próximo do impenetrável, que o Silêncio da letra, escrita, emudece, e faz-se santuário de um repertório tardio. A palavra - e eu tenho medo -, talvez reduza o sentido e empobreça, pagã, a imagem e a força do que se sente. 

Neste sentir, o limite do conhecer humano extravia-se. Faça-se Senhor, a Palavra e o Verbo, o verso e a poesia, e o meu dizer de sentimentos.

Sabedoria eterna, só Deus tem à Palavra o sentido. Eu, tão-somente, em minha pequenez, assim, tal jorro incoerente de frases, me abandono neste Mistério e, curiosamente, ouso escutá-lo...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Biunívoco

Dentro do seu olho que me olha,
eu me vejo no seu olho
que vê o seu olho me vendo

Será que dentro dos seus olhos
só nossos olhos se vêem???

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Cambiante

Eu brinco de colar cotidianas realidades, retendo pedaços de céu de um azul esmaecido, enquanto espalho por dentro dos olhos, recortes de parabólicas e telhados, de casinhas coloridas e 'pés-de-pau'.


Atavio uma janela imaginária, com chão verticalizado, entre dois vértices cruzados, feitos dos meus dedos, e dentro dela, componho a colagem feita do quanto tudo é real. É que eu quero reter das suas metáforas o sentido, só para guardar nas coisas vistas, alguma coisa de mim, pulsante, no agora.

Toda a imagem que recolho, me representa colada no mundo desta manhã. Amanhã... é tudo tão diverso. Mesmo que todas os signos se anunciem iguais. Não me devo enganar: eles mesmos, que constelarão meus sentimentos, me revelarão outros sentidos.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Isadora, Isa, Dorinha...

Tempo de chuva, Didinho meu irmão, em menino, encheu uma sacola de sapinhos e despejou-os dentro de casa. Foi um rebuliço.

Deitada no cimento frio, a menina imaginava que colocando uma cadeira sobre outra, muitas, subindo, subindo, chegaria nas nuvens. 

Lilice tinha como certo, que os ovos já saíam cozidos da galinha, e que seu olho esquerdo enxergava mal, por se tratar de estar no lado esquerdo e ela ser destra.

Bruninho, sobrinho da minha cunhada Waldirene, me avisou muito sério, que a sua galinha tinha parido um ovo. 

E Guigo veio me dizer surpreso, ao ver a vizinha, moça-velha, com um bebê nos braços : "Mamãe, Lu deu cria!". 

Lelo, tomou uma colherada de lambedor de hortelã, para acalmar a tosse, e exigiu que se colocasse mais em um prato. Queria tomar igual a como se toma sopa.

Thaminha ocupava a sala de visitas, lá em casa, onde a nossa infância reinava absoluta, e dava aulas diárias às suas bonecas, que sentadas no chão, entediadas, queriam brincar de outra coisa. Tinha mesmo era que ser professora...

Hora do crepúsculo, entramos eu e Helvinho, meu irmão, na Rua da Frente.  O sol declinava pintando a abóboda celeste com raios alaranjados. Surgia o astro iluminado em seu lugar. Pequeno ainda, ele exclamou radiante: "Gogó, veja que coisa linda: a lua rasgando o céu", e me explicou que ela era brilhante, porque um anjinho havia passado manteiga.

Lethícia, diante de alguma coisa para ela incompreensível ou censurável, balançava a cabecinha e dizia: "Ave Nalía!!!"

Didada perguntou à mãe, se a pressão alta da sua avó, era igual à pressão da panela que chiava no fogão.

Elisa, minha professora em uma animada brincadeira de faz-de-conta onde trocamos de papel - eu, criança e ela adulta -, foi me aplicar um corretivo e quebrou o meu dedo mindinho. Depois de passado o susto, ficou se sentindo cheia de poder por causa do seu feito.

Eu, menina, ficava apreensiva quando ouvia as pessoas usarem a expressão: "Última moda" (Então o mundo vai acabar? Eu me perguntava...).

Khevyn me perguntou onde Deus morava, e feliz da minha resposta, satisfeito, apontou para os céus exclamando: Olhe ele ali, rabeando!!! Porque aos seus olhos infantis, certamente, Deus tinha calda e se movia nos ares, que nem as pipas. 

Isadora, Isa, Dorinha... O que é que essa menininha vai fazer para a gente contar?



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Festa do Padroeiro

É com imensa alegria que transcrevo a publicação do último sábado 01/06/2013, das páginas do caderno Saber, do Jornal Gazeta de Alagoas para o meu blog, o poema do amigo de longas datas e de excelentes memórias compartilhadas, Álvaro Ântônio, conterrâneo, filho de Pão de Açúcar.




FESTA DO PADROEIRO - POEMA
Por: ÁLVARO ANTÔNIO MACHADO*

Pronto. João Lisboa terminou a pintura da igreja.

A Matriz está pronta para a festa.

Agora é a vez da Prefeitura limpar o coreto,

iluminar a praça,

construir pavilhões

e organizar a festança.

A paróquia vai convidar as autoridades

e fazer a programação.

Ninguém nega o apoio e

cada um fará sua parte para o brilho desses dias.



As escolas ensaiam os jograis,

as quadrilhas,

os dramas-da-roça,

preparam seus alunos para competir.

O nome do colégio tem que ser respeitado.

Os alfaiates faturam: todo mundo quer

“quebrar a tigela” na festa.

Crianças serão batizadas,

dezenas farão a primeira comunhão.

Zefa vai noivar.

E será que neste ano a Maria casa?



Pra quem mora no “centro” chegou o tempo

de dar uma olhada na roça.

Tem que ter milho verde pra todo mundo,

canjica,

pamonha,

milho assado e cozinhado.

E ainda tem o saco cheinho que vai de presente

pro compadre.

O dinheiro da roupa nova e dos “gastos-de-festa”

já está separado.

Tá tudo certinho.



O patrão sabe que é época de fazer caridade.

Quem pede, recebe, na festa do padroeiro.

Mais tarde, Jesus recompensa.

Os quartos dos hóspedes estão arrumados.

É certeza vir parente de fora.

E ainda existem os inúmeros afilhados

que não podem ser esquecidos.



O Bar do Pinto vai faturar alto. É ele que venderá

as bebidas nos dias da festança.

E será que neste ano Zé Negão vai animar a brincadeira?



O padre dá os últimos avisos:

Ninguém deve deixar de receber Jesus no coração.

Haverá confissão comunitária.

Deve-se comungar com fé

e não esquecer de pedir progresso pra cidade.



Os noiteiros já estão certos.

Do interior vem gente a cavalo,

de carroça,

de carro-de-boi,

de jumento.

Vem gente de Meirus, Lagoa de Pedra, Machado,

do Limoeiro, da Ilha do Ferro, de todo esse sertão.



A festa este ano vai ser em três dias.

E olha lá! Já raiou o primeiro!

Começou a festa do Sagrado Coração de Jesus!



– Bom dia, Rosa. A igreja já está aberta?

– Ora se tá, dona Sinhá, nunca vi tanta gente.

É menino pra danar, tudo de roupa igual,

pra fazer a primeira comunhão.

Vá lá, dona Sinhá, num perca a festa não!



A meninada domina a manhã.

É a primeira dona da festa.

À tarde vai ter crisma,

batizado,

casamento,

tudo feito pelo bispo e pelos padres de fora.

À noite é o quente: a Praça da Matriz nunca foi tão pequena.

Ninguém pensou que o pavilhão deveria ser maior.



– Vamos, minha gente, todos aplaudindo o número de folclore

do Grupo Escolar Bráulio Cavalcante...

“Meu São José dá-me licença

para o pastoril dançar...”

– Pessoal do norte e do sul: quem é mais forte, o vermelho ou o azul?

“Sou a Diana não tenho partido

o meu partido são os dois cordões...”

– Atenção, pessoal! Tá na hora do Fogo-de-Vista...



E a festa continua...

Segundo dia – mais bonito que o primeiro.

– Atenção, atenção, o bingo vai começar:

dou-lhe uma,

dou-lhe duas,

dou-lhe três!...

– Pra fechar a cartela: dois patinhos na lagoa...

– Cavalheiros, procurem suas damas: tá na hora

da quadrilha iniciar...

– Olha a cocada!

– Olha o peito-de-véia!

– Pé de nego é aqui!

– Olha a broa!

– Olha o flau geladinho na hora...

– Vai começar o leilão! Vamos participar e ajudar a Igreja!



Vai e vem de gente

Suor

Perfume do mato

Vestido rendado

Dinheiro no bolso

e na mesa do jogo.



Conversa muita.

– Veja, Lourdes, quem são aqueles?

Gente de fora?

– Sim, Dona, eles disseram que nossa festa

é muito falada por aí afora.

Por isso vieram na sexta

e só voltam amanhã de noite.



A cidade deixa de ser branca

(aliás, nunca o fora, mas gostam de chamá-la assim)

Na Festa do Padroeiro tudo é colorido

multicolorido.



E no domingo...



Logo cedo o clima é de festa.

Nas portas das casas tem de tudo:

as mais variadas flores

folhas de palmeiras e de coqueiros

jarros de todo tamanho.

O “velho Chico” comanda a alegria matinal.

Tá cheio de gente sorridente

crianças

muita canoa

muito movimento.

É banho de sol e de água.

Água pura, cristalina!



E à tarde – a procissão.

Um formigueiro de gente.

Todo mundo louvando o Sagrado Coração de Jesus.

“Olhos fitos na hóstia divina

Adoremos um Deus Redentor

Esta terra imortal paladina

Ama e vive o mistério do amor”...



A Cruzada

O Apostolado da Oração

As beatas

Os homens de vermelho

A banda de Bubu

Seu Leó.



– Vavá, veja que quadro lindo do nosso padroeiro,

feito pelos alunos do Ginásio!

– Verdade, comadre Carmelita, como tá linda a procissão!...



A concentração em frente à Matriz.

– É gente que não acaba mais, Achillina.

– É mesmo, Haidéa.

A missa campal.

O coro das zeladoras do Coração de Jesus,

Diamantina, Palmira Pastor, Alice...

vozes unidas numa só oração

pra louvar o Sagrado Coração.

A oratória do padre Petrúcio.

Um discursão...

E a prestação de contas:

- Obrigado a João da Farmácia, que contribuiu

com um garrote para nossa festa...

O beijo no santo.

O dinheiro pra igreja.



E a alegria da última noite.



“Boa noite meus senhores todos

Boa noite senhoras também...”

– A benção, meu padrinho!

– Deus lhe abençoe e lhe dê muita saúde!

– Olha a castanha assada

– A modinha

– Olha a coruja

– Quebra-queixo do bom

– Olha o lambe-dedo...



Haja ouvido pra tanta zoada boa.

Os barcos subindo e descendo

O tiro-ao-alvo

A cerveja pra uns

A cachaça pra muitos.

E o serviço de som:

“Atenção menina do vestido vermelho:

Aceite esta música como prova de muito amor e carinho.

Assina: você já sabe!”



Gente de todo tipo andando pra todo lado.

Mulher com menino nos braços

e na barriga.

A sorte sendo tentada aos montes

Na ‘francesa’ de seu Artur

E no bingo de Jessé.

E o povão admirando

o reizado de seu Pedro da Paz:

“A rabada do boi é da rapaziada

Yayá... Seu boi me dá...

A tripa gaiteira é das moças solteiras

Yayá... Seu boi me dá...”



A noite é curta

os dias são curtos

o ano é curto.

Longa mesmo só a festa

do padroeiro de Pão de Açúcar..



* É médico e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, revisita as festas juninas do padroeiro de Pão de Açúcar, o Sagrado Coração de Jesus, como eram realizadas na década de 70, no século passado.

terça-feira, 21 de maio de 2013

"Com licença da palavra: a vida é uma merda"

Neném se move com a graça que uma mulher com muito mais de setenta anos se move. Lentidão, um avançar descompromissado, ondulante, pisando com cuidado, livrando calos e respeitando a dolorosa artrose. Move-se com graça. Sim. Porque é preciso enxergar conforme a idade, para ver que a leveza de antes, muda-se em lentidão. Não é uma graciosidade estética, mas uma graça sacralizada no peso dos anos e que por isso se anuncia graciosa. 

“Com licença da palavra: a vida é uma merda!” ela me diz enquanto acompanho seus passos. De Neném posso esperar tudo, menos isso. Parece um desperdício à religião praticada com desvelo, e invalida o diploma recebido da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, pela passagem dos seus cinqüenta anos de apostolado. Também pulveriza o seu rito anual, de ficar vestida de preto durante os quarenta dias da Quaresma, completando na própria carne, os sofrimentos de Nosso Senhor. E a devoção à Santa Rita de Cássia, e o terço que debulha sentada à beira da cama, de costas para porta do quarto. Tudo se avoluma em uma enorme contradição, que fico macerando a razão para entender. 

Foi Neném quem me ensinou tudo o que eu sei sobre a religião. Devagarzinho, como quem não queria nada, desnudou o céu dos anjos, intimidou Nossa Senhora a ser minha madrinha de consagração, me ensinou fazer o ‘pelo-sinal’ e se certificou que eu não chamaria o Santo Nome de Deus em vão. 

_ Como é falar o nome de Deus em vão, Neném? E ela, cansada, nem respondeu, entregou de volta sua vida a Ele e foi dormir pesado. 

Rosa me disse que não quer morrer porque entendeu que morrer não vai resolver nada na vida dela. Hum, hum, depois de ter passado por todas as etapas da minha vida, ouvindo a sua ladainha: ‘Meu Deus, escolha uma hora boa e me leve’, o que fazia com que todo mundo se compadecesse dela e protestasse. Era só pra chamar a atenção? Eu julgava que aquilo se enquadrava em chamar por Deus sem necessidade, ela querendo morrer sem precisão, sem ligar de deixar a casa cheia de menino, que ela mesma enchia. Quem iria criá-los? 

A noite de anteontem, chuvosa, pedia cobertor e cinema em casa. Gildo apareceu do nada, risonho, aboletou-se na sala e me contou mentiras vultosas sobre si mesmo, desempregado. Palavrório zoadento, truncado, sem muita elaboração. Cada novo episódio embaraçava o anterior. Vinham-me imaginações mutiladas para as cenas e os cenários, à fisionomia de sua mulher enraivecida e com a geladeira cheia de yogurtes, o mulherio se enxerindo para ele, bonitão, dentro de sua farda de vigilante dos Correios, de uma cidadezinha menor do que a nossa. Pensei até o casal de vizinhos ricos e o homem perguntando a ele: ‘_ Gildo, você tem inveja de mim? _ Tenho não. Só tenho quando você faz churrasco e não me chama’. Que criatura tão tola. Não posso nem pedir a Deus para Gildo ir embora, que é um pedido em vão e muita falta de caridade minha. Logo eu, que não canso de pedir a Ele que me dê paciência e grandeza de coração.

Foto: Ana Clara Martins
Na manhã do outro dia, Angelina chegou para me roubar a conversa e contá-la como se fosse dela. Tudo o que me acontece, acontece a ela também. Tudo o que eu vi, ela também viu. Dinho é quem está certo, quando diz que Angelina não tem história, e vive de aproveitar da história dos outros. 
Para quem vive assim, a vida será uma merda? De Neném, só com o tempo, entendi: Sua declaração é um sofisma. Merda mesmo é o estrago que muita gente faz da existência, a partir de uma lógica ou da falta de uma, que contradiz o próprio sentido de viver. Ela deve ter chegado a essa conclusão vendo a vida besta dos outros a seu redor. Muita mediocridade. Muita. E é por isso, também, que Rosa não quer mais morrer. É para encontrar um significado para a vida dela. Senão, do que é que adianta viver essa majestosa aventura?

domingo, 19 de maio de 2013

A poesia que eu conto...

Retornar à casa da minha infância, passar uns dias, ainda que breves, com a minha mãe, significa me encher de profundidades. Sempre que volto lá, vou ao quintal. A velha goiabeira que nos viu crescer, ali está. Dia desses, resolvi que subiria nela. Subi. Interessante como a gente consegue guardar a geografia da árvore. 

Tudo é tão automático que eu poderia subir de olhos fechados, não fosse ter notado a ausência de alguns galhos e ter perdido a leveza e a agilidade do corpo, o que dificultou um tanto o meu intento. Mas eu o fiz. Acho que já tem uns cinco anos, que a menina que eu fui, levou-me, suponho que pela última vez, a ver o Velho Chico por sobre os telhados, com os olhos da mulher que me tornei.

No fundo do quintal está o local onde antes haviam duas pequenas dependências. Meu irmão e eu reconstruímos a velha cozinha e o último cômodo da casa, o murinho que separava o quintal do comprido corredor, donde duas janelas e uma porta o emolduravam, espiando a lateral esquerda da casa. 

Havia ali um tanque, meu louro, um parreiral, que até hoje me encanta lembrá-lo, e ele, meu irmão, dispôs em lugar dele, o grande mamoeiro que o substituiu, adiante, atropelando a minha memória com a sua. 

Estávamos como que diante de um grande tabuleiro de saudades, onde jogávamos com peças que, por maiores que fossem, podiam ser movidas, leves, transformadas em símbolos alados, que se iam amontoando, uns sobre os outros, como penas.

As manhãs de neblina espessa e o batente, onde eu e outro irmão costumávamos ficar sentados vendo os vultos que passavam, isso, eu recorri à minha mãe, enquanto juntas buscávamos na rua, reconhecer a avenida mergulhada em outra avenida tardia, silenciosa, em domingos que hoje pareceriam estranhos. 

_ Somos 'gente do outro tempo'? Perguntei a ela. Como puderam essas coisas perderem da cidade a sua alma e a nossa por dentro dela, sem que pudéssemos tê-las retido? Como adormecemos e deixamos partir o cenário do mundo que nos representava?

Profundidades... À cozinha, o séquito de mulheres, que se revezam em torno da minha mãe, nos contam risos e angústias. É essa poesia que eu conto. É sobre a vida que eu gosto de contar...

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Mais respeito aos artistas violeiros!!!

Voltando à última sexta-feira, quando da ocorrência do Seminário Alagoas: Realidade e Perspectiva, realizado pela UVEAL (União dos Vereadores de Alagoas) e AMA (Associação dos Municípios Alagoanos) em Santana do Ipanema/AL, faço questão de registrar o meu protesto pelo desrespeito aos artistas, violeiros, Josival Viana e Gilberto Alves, símbolos da nossa cultura sertaneja/nordestina, que em vão tentaram se apresentar e não conseguiram. A organização do evento a meu ver foi falha, ao marcar para o final do seminário, as suas apresentações.



Repentistas, de categoria, eles ainda deram início à sua mensagem, mas as pessoas já saíam do local. Essas falhas mostram duas coisas no mínimo: ou a não importância à nossa cultura regional. Era a ocasião onde se deveria priorizar os artistas, aproveitando o contexto para reforçar nossa identidade de sertanejos. Ocasião para se prestigiar o Repente - essa tradição folcórica do nosso país, tão bem adequada e tão forte entre nós nordestinos. E que transmite tanta coisa, através da canção de versos simples, linguagem coloquial e campesina.


(Permitam-me um parêntese)

Bem informados, os repentistas têm o dom de apreenderem as diversas situações que afligem o sertanejo, e de emitirem através do ritmo do repente, mensagens que traduzem os sentimentos genuínos da gente simples e sofrida, de forma fantástica. Além do que eles são, também, a voz dessa gente. Cantam, apontando as mazelas, apontando soluções, sobre aquilo que não é justo. 

A segunda resposta ao modo como esses artistas foram tratados, pode ter sido derivado da insensibilidade dos organizadores, que diz respeito ao entendimento e à compreensão, de como as pessoas se comportam no final desses encontros, após horas de atraso à hora marcada para o seu início. Elas, naturalmente, vão embora...



Confesso que senti a famosa 'vergonha alheia', pela falta de atenção àquelas pessoas que esperaram durante todo tempo e não conseguiram se apresentar decentemente, por não terem recebido o respeito da platéia. Sem deixar por menos, os violeiros finalizaram seus versos, do que pretendia ser um Repente, protestando pela falta de atenção e ausência de expectadores.


Negligenciar a importância da cultura regional é colaborar para que os nossos símbolos, eles, que nos remetem ao orgulho de sermos o que somos, sejam ultrajados e percam a sua força e a sua alma, que na verdade é a nossa própria alma sertaneja!

Inconcebível e vexatório!!!






quarta-feira, 1 de maio de 2013

Quando chove


Sempre que chove, como chove agora, eu, que prefiro os dias ensolarados, mergulho na umidade das lembranças. Minha casa velha, as goteiras, as novas modalidades de enxergar a rua, os sapos saindo dos esgotos e outros, atrevidos, que entravam nos quartos, a queda da energia elétrica, velas e candeeiros. Exílio: amigos e brincadeiras se distanciavam na chuva. Eu ficava como se estivesse presa, por trás dos grossos pingos d'água, emoldurando imagens turvas, transeuntes, trafegantes, debaixo de sombrinhas. 

Inverno para mim significava uma forçada introversão. Ver a casa, ouvir seus sons, sentir seus cheiros... Distinguir coisas e representá-las distintas de si mesmas. Repetir-me, cotidiana, nos mesmos cenários, sem poder escapar às orações, em torno da mesa, à invocação da ladainha de N.Sra, com os seus títulos a me saírem pela boca.

Oh! Mãe de Misericórdia, Mãe da Divina Graça, puríssima, castíssima, Espelho de Justiça e Sede de Sabedoria, causa da nossa alegria...

Úmidas lembranças sob os lençóis frios da meninice, como um desejo chuvoso de acolher, agora, as águas que caem das nuvens, e entender, religiosamente, os signos que vêm com o cheiro que esse tempo exala. Desperto, como uma coisa inventada, grande e nenhuma. Como sendo sentimento extravasado que me retorna para uma chuva de guiar o meu desvio para dentro. 

Aproximada, voluntária, expansiva em me debulhar, como casa de telhado fendido, casa de portas e ferrolhos, com quintal e fachada, cozinha e quarto de dormir. Entrego-me, talvez tardia, ainda a conhecer-me e construir-me, pois, às chuvas. E me exilo, refém auspiciosa - a casa em mim, e me sendo -, para dentro dos meus próprios cheiros, da minha voz quase idosa, onde eu ecoo das lembranças do inverno, o arremesso por sobre o tempo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sob o olhar do infinito

Dias esses pedregosos. Antes, sentada no primeiro degrau da escada que dá para outros cômodos da casa, apreciara as noites do céu. Imaginava que, o universo aquela vastidão, a pudesse tragar numa viagem pelo desconhecido. Vagar por entre os astros, em carne e osso, não. Não a si mesma, feita do tecido humano, mas vagar na força das perguntas, sobre o que significa o universo, o que significa ver aqueles pontos luminosos que lhe causam arrepios, e perguntar sobre as constelações, e pressentir ser capaz de entender tudo o que seus ancestrais souberam sobre as estrelas.

Dias esses de incertezas, e a curiosidade, sempre, estabelecida, sendo a causa de reverências, só de pensar que diante da Via Láctea, tudo seu, toda a sua alegria, toda a sua dor, suas pelejas e conquistas, seus questionamentos, poderiam ser resumidos em tolas abstrações e desintegrar como sofismas. Haveria ela, então, de ser um nada. Um nada a observar que as distâncias celestes e as luzes astrais, tinham tanta grandiosidade que se impunham a invalidar até mesmo o degrau da escada onde se deixava sentar, e aquele momento silenciosamente solitário, onde jogava de si à imensidão. Admitia, talvez, a sensação de que não passasse de um minúsculo ponto, visto de algum lugar do céu. 

Quem a veria afinal? 

Queria que do universo algo a fitasse. Aprimorou-se, brilhante como as estrelas, e constelou-se, agora, nesses dias, como se pudesse alcançar aquele intento. Fez mediação supondo a existência de um posto de avistamento fixado no cosmo, e acolheu rapidamente o que refratou da movimentação de uma luz, caindo do vasto céu noturno para dentro dos seus olhos, como um olhar prenhe de privilégios, dos que descortinam semblantes e segredos divinos. E  imaginou-se como sendo, no mesmo instante, um pequenino reflexo nas retinas dos olhos de Deus...