domingo, 19 de maio de 2013

A poesia que eu conto...

Retornar à casa da minha infância, passar uns dias, ainda que breves, com a minha mãe, significa me encher de profundidades. Sempre que volto lá, vou ao quintal. A velha goiabeira que nos viu crescer, ali está. Dia desses, resolvi que subiria nela. Subi. Interessante como a gente consegue guardar a geografia da árvore. 

Tudo é tão automático que eu poderia subir de olhos fechados, não fosse ter notado a ausência de alguns galhos e ter perdido a leveza e a agilidade do corpo, o que dificultou um tanto o meu intento. Mas eu o fiz. Acho que já tem uns cinco anos, que a menina que eu fui, levou-me, suponho que pela última vez, a ver o Velho Chico por sobre os telhados, com os olhos da mulher que me tornei.

No fundo do quintal está o local onde antes haviam duas pequenas dependências. Meu irmão e eu reconstruímos a velha cozinha e o último cômodo da casa, o murinho que separava o quintal do comprido corredor, donde duas janelas e uma porta o emolduravam, espiando a lateral esquerda da casa. 

Havia ali um tanque, meu louro, um parreiral, que até hoje me encanta lembrá-lo, e ele, meu irmão, dispôs em lugar dele, o grande mamoeiro que o substituiu, adiante, atropelando a minha memória com a sua. 

Estávamos como que diante de um grande tabuleiro de saudades, onde jogávamos com peças que, por maiores que fossem, podiam ser movidas, leves, transformadas em símbolos alados, que se iam amontoando, uns sobre os outros, como penas.

As manhãs de neblina espessa e o batente, onde eu e outro irmão costumávamos ficar sentados vendo os vultos que passavam, isso, eu recorri à minha mãe, enquanto juntas buscávamos na rua, reconhecer a avenida mergulhada em outra avenida tardia, silenciosa, em domingos que hoje pareceriam estranhos. 

_ Somos 'gente do outro tempo'? Perguntei a ela. Como puderam essas coisas perderem da cidade a sua alma e a nossa por dentro dela, sem que pudéssemos tê-las retido? Como adormecemos e deixamos partir o cenário do mundo que nos representava?

Profundidades... À cozinha, o séquito de mulheres, que se revezam em torno da minha mãe, nos contam risos e angústias. É essa poesia que eu conto. É sobre a vida que eu gosto de contar...

Nenhum comentário:

Postar um comentário