quinta-feira, 20 de junho de 2013

Biunívoco

Dentro do seu olho que me olha,
eu me vejo no seu olho
que vê o seu olho me vendo

Será que dentro dos seus olhos
só nossos olhos se vêem???

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Cambiante

Eu brinco de colar cotidianas realidades, retendo pedaços de céu de um azul esmaecido, enquanto espalho por dentro dos olhos, recortes de parabólicas e telhados, de casinhas coloridas e 'pés-de-pau'.


Atavio uma janela imaginária, com chão verticalizado, entre dois vértices cruzados, feitos dos meus dedos, e dentro dela, componho a colagem feita do quanto tudo é real. É que eu quero reter das suas metáforas o sentido, só para guardar nas coisas vistas, alguma coisa de mim, pulsante, no agora.

Toda a imagem que recolho, me representa colada no mundo desta manhã. Amanhã... é tudo tão diverso. Mesmo que todas os signos se anunciem iguais. Não me devo enganar: eles mesmos, que constelarão meus sentimentos, me revelarão outros sentidos.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Isadora, Isa, Dorinha...

Tempo de chuva, Didinho meu irmão, em menino, encheu uma sacola de sapinhos e despejou-os dentro de casa. Foi um rebuliço.

Deitada no cimento frio, a menina imaginava que colocando uma cadeira sobre outra, muitas, subindo, subindo, chegaria nas nuvens. 

Lilice tinha como certo, que os ovos já saíam cozidos da galinha, e que seu olho esquerdo enxergava mal, por se tratar de estar no lado esquerdo e ela ser destra.

Bruninho, sobrinho da minha cunhada Waldirene, me avisou muito sério, que a sua galinha tinha parido um ovo. 

E Guigo veio me dizer surpreso, ao ver a vizinha, moça-velha, com um bebê nos braços : "Mamãe, Lu deu cria!". 

Lelo, tomou uma colherada de lambedor de hortelã, para acalmar a tosse, e exigiu que se colocasse mais em um prato. Queria tomar igual a como se toma sopa.

Thaminha ocupava a sala de visitas, lá em casa, onde a nossa infância reinava absoluta, e dava aulas diárias às suas bonecas, que sentadas no chão, entediadas, queriam brincar de outra coisa. Tinha mesmo era que ser professora...

Hora do crepúsculo, entramos eu e Helvinho, meu irmão, na Rua da Frente.  O sol declinava pintando a abóboda celeste com raios alaranjados. Surgia o astro iluminado em seu lugar. Pequeno ainda, ele exclamou radiante: "Gogó, veja que coisa linda: a lua rasgando o céu", e me explicou que ela era brilhante, porque um anjinho havia passado manteiga.

Lethícia, diante de alguma coisa para ela incompreensível ou censurável, balançava a cabecinha e dizia: "Ave Nalía!!!"

Didada perguntou à mãe, se a pressão alta da sua avó, era igual à pressão da panela que chiava no fogão.

Elisa, minha professora em uma animada brincadeira de faz-de-conta onde trocamos de papel - eu, criança e ela adulta -, foi me aplicar um corretivo e quebrou o meu dedo mindinho. Depois de passado o susto, ficou se sentindo cheia de poder por causa do seu feito.

Eu, menina, ficava apreensiva quando ouvia as pessoas usarem a expressão: "Última moda" (Então o mundo vai acabar? Eu me perguntava...).

Khevyn me perguntou onde Deus morava, e feliz da minha resposta, satisfeito, apontou para os céus exclamando: Olhe ele ali, rabeando!!! Porque aos seus olhos infantis, certamente, Deus tinha calda e se movia nos ares, que nem as pipas. 

Isadora, Isa, Dorinha... O que é que essa menininha vai fazer para a gente contar?



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Festa do Padroeiro

É com imensa alegria que transcrevo a publicação do último sábado 01/06/2013, das páginas do caderno Saber, do Jornal Gazeta de Alagoas para o meu blog, o poema do amigo de longas datas e de excelentes memórias compartilhadas, Álvaro Ântônio, conterrâneo, filho de Pão de Açúcar.




FESTA DO PADROEIRO - POEMA
Por: ÁLVARO ANTÔNIO MACHADO*

Pronto. João Lisboa terminou a pintura da igreja.

A Matriz está pronta para a festa.

Agora é a vez da Prefeitura limpar o coreto,

iluminar a praça,

construir pavilhões

e organizar a festança.

A paróquia vai convidar as autoridades

e fazer a programação.

Ninguém nega o apoio e

cada um fará sua parte para o brilho desses dias.



As escolas ensaiam os jograis,

as quadrilhas,

os dramas-da-roça,

preparam seus alunos para competir.

O nome do colégio tem que ser respeitado.

Os alfaiates faturam: todo mundo quer

“quebrar a tigela” na festa.

Crianças serão batizadas,

dezenas farão a primeira comunhão.

Zefa vai noivar.

E será que neste ano a Maria casa?



Pra quem mora no “centro” chegou o tempo

de dar uma olhada na roça.

Tem que ter milho verde pra todo mundo,

canjica,

pamonha,

milho assado e cozinhado.

E ainda tem o saco cheinho que vai de presente

pro compadre.

O dinheiro da roupa nova e dos “gastos-de-festa”

já está separado.

Tá tudo certinho.



O patrão sabe que é época de fazer caridade.

Quem pede, recebe, na festa do padroeiro.

Mais tarde, Jesus recompensa.

Os quartos dos hóspedes estão arrumados.

É certeza vir parente de fora.

E ainda existem os inúmeros afilhados

que não podem ser esquecidos.



O Bar do Pinto vai faturar alto. É ele que venderá

as bebidas nos dias da festança.

E será que neste ano Zé Negão vai animar a brincadeira?



O padre dá os últimos avisos:

Ninguém deve deixar de receber Jesus no coração.

Haverá confissão comunitária.

Deve-se comungar com fé

e não esquecer de pedir progresso pra cidade.



Os noiteiros já estão certos.

Do interior vem gente a cavalo,

de carroça,

de carro-de-boi,

de jumento.

Vem gente de Meirus, Lagoa de Pedra, Machado,

do Limoeiro, da Ilha do Ferro, de todo esse sertão.



A festa este ano vai ser em três dias.

E olha lá! Já raiou o primeiro!

Começou a festa do Sagrado Coração de Jesus!



– Bom dia, Rosa. A igreja já está aberta?

– Ora se tá, dona Sinhá, nunca vi tanta gente.

É menino pra danar, tudo de roupa igual,

pra fazer a primeira comunhão.

Vá lá, dona Sinhá, num perca a festa não!



A meninada domina a manhã.

É a primeira dona da festa.

À tarde vai ter crisma,

batizado,

casamento,

tudo feito pelo bispo e pelos padres de fora.

À noite é o quente: a Praça da Matriz nunca foi tão pequena.

Ninguém pensou que o pavilhão deveria ser maior.



– Vamos, minha gente, todos aplaudindo o número de folclore

do Grupo Escolar Bráulio Cavalcante...

“Meu São José dá-me licença

para o pastoril dançar...”

– Pessoal do norte e do sul: quem é mais forte, o vermelho ou o azul?

“Sou a Diana não tenho partido

o meu partido são os dois cordões...”

– Atenção, pessoal! Tá na hora do Fogo-de-Vista...



E a festa continua...

Segundo dia – mais bonito que o primeiro.

– Atenção, atenção, o bingo vai começar:

dou-lhe uma,

dou-lhe duas,

dou-lhe três!...

– Pra fechar a cartela: dois patinhos na lagoa...

– Cavalheiros, procurem suas damas: tá na hora

da quadrilha iniciar...

– Olha a cocada!

– Olha o peito-de-véia!

– Pé de nego é aqui!

– Olha a broa!

– Olha o flau geladinho na hora...

– Vai começar o leilão! Vamos participar e ajudar a Igreja!



Vai e vem de gente

Suor

Perfume do mato

Vestido rendado

Dinheiro no bolso

e na mesa do jogo.



Conversa muita.

– Veja, Lourdes, quem são aqueles?

Gente de fora?

– Sim, Dona, eles disseram que nossa festa

é muito falada por aí afora.

Por isso vieram na sexta

e só voltam amanhã de noite.



A cidade deixa de ser branca

(aliás, nunca o fora, mas gostam de chamá-la assim)

Na Festa do Padroeiro tudo é colorido

multicolorido.



E no domingo...



Logo cedo o clima é de festa.

Nas portas das casas tem de tudo:

as mais variadas flores

folhas de palmeiras e de coqueiros

jarros de todo tamanho.

O “velho Chico” comanda a alegria matinal.

Tá cheio de gente sorridente

crianças

muita canoa

muito movimento.

É banho de sol e de água.

Água pura, cristalina!



E à tarde – a procissão.

Um formigueiro de gente.

Todo mundo louvando o Sagrado Coração de Jesus.

“Olhos fitos na hóstia divina

Adoremos um Deus Redentor

Esta terra imortal paladina

Ama e vive o mistério do amor”...



A Cruzada

O Apostolado da Oração

As beatas

Os homens de vermelho

A banda de Bubu

Seu Leó.



– Vavá, veja que quadro lindo do nosso padroeiro,

feito pelos alunos do Ginásio!

– Verdade, comadre Carmelita, como tá linda a procissão!...



A concentração em frente à Matriz.

– É gente que não acaba mais, Achillina.

– É mesmo, Haidéa.

A missa campal.

O coro das zeladoras do Coração de Jesus,

Diamantina, Palmira Pastor, Alice...

vozes unidas numa só oração

pra louvar o Sagrado Coração.

A oratória do padre Petrúcio.

Um discursão...

E a prestação de contas:

- Obrigado a João da Farmácia, que contribuiu

com um garrote para nossa festa...

O beijo no santo.

O dinheiro pra igreja.



E a alegria da última noite.



“Boa noite meus senhores todos

Boa noite senhoras também...”

– A benção, meu padrinho!

– Deus lhe abençoe e lhe dê muita saúde!

– Olha a castanha assada

– A modinha

– Olha a coruja

– Quebra-queixo do bom

– Olha o lambe-dedo...



Haja ouvido pra tanta zoada boa.

Os barcos subindo e descendo

O tiro-ao-alvo

A cerveja pra uns

A cachaça pra muitos.

E o serviço de som:

“Atenção menina do vestido vermelho:

Aceite esta música como prova de muito amor e carinho.

Assina: você já sabe!”



Gente de todo tipo andando pra todo lado.

Mulher com menino nos braços

e na barriga.

A sorte sendo tentada aos montes

Na ‘francesa’ de seu Artur

E no bingo de Jessé.

E o povão admirando

o reizado de seu Pedro da Paz:

“A rabada do boi é da rapaziada

Yayá... Seu boi me dá...

A tripa gaiteira é das moças solteiras

Yayá... Seu boi me dá...”



A noite é curta

os dias são curtos

o ano é curto.

Longa mesmo só a festa

do padroeiro de Pão de Açúcar..



* É médico e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, revisita as festas juninas do padroeiro de Pão de Açúcar, o Sagrado Coração de Jesus, como eram realizadas na década de 70, no século passado.