sábado, 12 de outubro de 2013

Espantos e deslumbramentos

Eles seguiam em viagem pela estrada. Chovia no tempo e a manhã era molhada, as flores eram molhadas e de cima dos telhados dos casebres, a água descia cantando musiquinha umedecida. A mulher olhava distraída, as encostas no caminho, divisando pequeninas flores. Viu brancas ipoméias , dezenas delas margeando a estrada. Repentinamente, precisou que o tamanho do mundo vasto, era pequeno demais à imensidão do espaço e pôs-se a imaginar que infindáveis aritméticas poderiam contar o infinito. Nenhuma... Ao seu lado, o marido asseverava que eram cinquenta e cinco, o número de países que formavam o continente africano. Um lugar onde nascem mais pessoas e onde mais pessoas morrem. Com quantos números seria possível calcular tanto mistério (?) pensava a mulher, enquanto assentia com a cabeça, sobre a África, os povos, a fome, a vida e a morte. 
Pensava em buracos negros e que faltam bilhões de anos ainda, mas que a Via Láctea e a Andrômeda vão se chocar. Tentou imaginar o tempo cósmico. Uma incerteza a quem a existência no mundo não pode ser contada pelo mesmo relógio imutável. Privilégio, poder estar contida em histórias que pertencem ao Cosmo, girando em um modesto planetinha do sistema solar, como um pequeno sopro de vento que vem e vai embora. A vida é um lugar de espantos e deslumbramentos. 
Seu marido agora versava sobre os países da África portuguesa. Moçambique, Príncipe, Angola, e fazia, objetivo, conjeturas articuladas sobre a terra, esse palco de dramas, derrotas e conquistas. A África é mais um ponto bordado no tecido do mundo, pensou a mulher, que novamente distraída, mergulhou no vão das estrelas, viajando por extensões indefinidas. Enquanto ele falava em continentes e países, ela pensava a Eternidade.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Minha primeira redação foi na escola primária. A orientação era para que descrevêssemos o que víamos de uma paisagem posta no flanelógrafo¹ . Eu abusei do verbo Ver: "Vejo uma casa com portas, vejo janelas, vejo o campo, vejo os bois, vejo isso, vejo aquilo. Vejo." Eram os meus olhos de enxergar que falavam. Os meus olhos de sentir, eu comecei a ver com eles, pouco tempo depois... Foi quando eu entendi que Ver com o coração é enxergar por dentro das coisas!

¹Quadro revestido de flanela ou de feltro de cor lisa, us. como recurso didático, e sobre o qual se fazem aderir objetos ou figuras, fixadas ou removidas segundo as necessidades do ensino. (Dic. Aurélio)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Desenredo...

Gosto da atmosfera do tempo dos últimos meses do ano. Gosto dos cheiros que esse tempo exala, das ventanias e da cor do sol sobre o mundo nos finais da tarde, do barulho que o vento faz, e do ladrar dos cães no fundo dos quintais. E se eu ainda pudesse contar sobre o que sinto acerca desse tempo à minha avó, ela diria: "Dou por vista". Não sei explicar, mas sei sentir, o que o dou por vista quer dizer. 
Há duas noites andei por um tão longo corredor que eu não via o seu final. Foi um sonho. Acordei com a sensação de um nunca acabar. Um nunca acabar o quê? O vento bate forte nas vidraças da janela, a tarde cai e eu faço silêncio em mim. Dou por vista o que muita gente sente nos finais da tarde. Eu, sinceramente, gosto muito é de ter a consicência sobre que os ciclos da vida vão se fechando e outros vão tendo início.