sábado, 21 de dezembro de 2013

Ao meio-dia

Se chuviscasse no começo da noite, toda a intenção de sair iria por água abaixo. Era assim naquela casa. Não havia o que fazer na rua em dias chuvosos, nem ao meio-dia. Ninguém era besta de colocar os pés além do batente da porta. Era a hora de o diabo andar solto pelo mundo. A larga avenida tornava-se lugar inóspito e a sisudez estabelecida murchava o vento na folhagem das árvores. Via-se o tempo através da janela. Mas isso já faz é tempo.
Naquele dia de sol quente e mormaço, Isaura debruçou-se a ver da paisagem faíscas de luzes. Vinham dos arredores. Ela enxergava por assim dizer, com os olhos da casa, por seus grandes olhos de janela, que constantemente vigiavam a serra e as nuvens, e que mendigavam acontecimentos. A mulher, ali, como extensão da casa ou a casa dela, deu por visto, o homem que falava ao microfone. Viu da sua imaginação, a sua estatura, sua voz e toda vez em que gesticulava em frêmito, na tentativa de organizar a confraternização natalina. O aparelho chiava. O suor devia escorrer-lhe pelo rosto. E ele era gordo, possivelmente, a agitar-se sobre uma calçada alta, que o elevava frente aos outros. 
Tudo por fazer e ela imaginando o microfone de modelo ultrapassado nas mãos do homem, o murmúrio daquela gente ao seu derredor. Pensava Isaura, meio aflita de uma aflição corrompida, deteriorada, incapaz de gerar postura. Aflição por costume, com o desígnio de aperrear o coração, e só. Do lugar não saiu. O tempo fez uma risca de sombra no paredão amarelo ocre, acolá. Como um ponteiro, a hora subiu, subiu, e marcou o meio-dia com a mais completa claridade.
E se chovesse no final da tarde? Por certo todos os planos para a noite seriam frustrados. Àquela hora o diabo andava à solta a espreitar Isaura, escondido bem debaixo do parapeito da janela. A mulher lembrou de que não tinha planos, tinha-se sim, ainda mais aflita, assaltada por lembranças tardias. Assistia-se como esteio. Era fachada de paredes desbotadas e telhado oblíquo. Os seus pensamentos e os tempos aguados e de estio se haviam misturado e a rendiam, emaranhada, no pretérito como se fora presente. 
Olhava-se que a avenida mantivera a inércia, ainda mais afogada na sisudez, porque o tempo parou. Isaura percebeu que ver com olhos de janela era ver através de um recorte emoldurado. Sempre um mesmo ângulo da rua, e sempre um mesmo desejo por episódios alheios. Um imaginar, nunca um viver o que há lá fora. Além de casas empedernidas fazendo longas fileiras, há um requisitar de circunstâncias e conveniências inconvenientes, talvez. 
Talvez. Porque a vida é cheia de incertezas e novidades. Mas a que hora a gente precisa sair de casa, para ver o mundo, como de fato ele é? À luz do meio-dia só o diabo, certamente, sabe a resposta.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Fadário

Fui visitá-los. De tardezinha ao chamar por Rosa, a sua vizinha saiu à porta acompanhada da mãe. Duas abelhudas. Rosa apareceu. Vinha de uma confusão de sonhos azedos e trazia as pálpebras inchadas. Fitou-me com os tais olhos da sua enorme apreensão sobre mim e abriu-me a porta desanimada, mantendo-se a certa distância. E já no sofá eu sentara em uma ponta e ela em outra. Chegue pra cá, criatura. Tá com medo de mim? Ela não respondeu. Era tanta a sua aflição, que eu fugi por alguns instantes daquele momento, mexendo no celular para suavizar a tensão. Rosa usou de um fiozinho de voz pra me perguntar:



_ E agora? O que é que eu vou fazer?



Eu não tinha resposta, senão aquela, de que há solução para tudo. Porém, nem me agradou dizer aquilo e nem a ela, ouvir. Frases genéricas soam como chavões, esvaziados pelo tanto que são usados. Fica o dito pelo não dito, o que é o mesmo que dizer que, para cada situação arquetípica, existe uma frase correspondente, que não responde nem resolve nada. Cá estou a usar frase gasta, frequente e comum a todo mundo. Sai da gente sem consentimento, sem pensamento e sem mediação. Sai da gente como uma maldição. Um prato feito, um feijão com arroz. Detesto cair no ramerrão e ser presa, ainda que indireta, dessas teias armadas tem séculos. Graça, não tem. Nenhuma. Nem criatividade. É como repetir humanidades em sua recorrente inaptidão. 



Quero dar saltos mais altos. Desacreditar sinas e inventar destinos outros.



A trezentos e sessenta e três milhões e duzentos e noventa e nove mil quilômetros de distância, a Lua Nova abordava, indiferente a Rosa, a escuridão do céu como uma foice iluminada. Cá embaixo a cidade acendeu suas luzes e delimitou o horizonte ampliando clarões sobre desenhos de circunferências tortas, anunciando a noite. Coisa tão previsível, tudo.

O que é que Rosa vai fazer agora? Viver esse fado. Sofrer na carne e no coração toda a trama já traçada e vivida por tanta gente. Destino é a falta de sorte dos desavisados...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Ao final do dia...


Dona Violeta, a senhora gosta de Lindomar Castilho? E Waldick Soriano? A senhora gosta? Perguntou-me o jardineiro enquanto revolvia sem a menor pressa o chão de terra. Ciscador na mão, ele disse que o instrumento que eu acabara de trazer nas compras, viera a calhar. Arrancava gravetos e amansava modestamente a grama já existente, cantarolando com a voz molenga, que nem de preguiça era. Era de fazer tristeza à canção. Sofredor de todos os amores, dos amores mal empregados, o ciscador servia-lhe para remexer um chão mais profundo e escondido, lá dentro dele.

As inflorescências caíam das buganvílias e cobriam o verde de púrpura e lilases. A tarde alaranjou e foi-se escorregando por trás das serras. Corri a acender as luzes do jardim e de volta a ele, respondi ao jardineiro a resposta possível:

_Você canta bem essas músicas.

Não, ele não canta nada bem, mas canta emocionado. Canta sentindo tanta dor que me faz senti-la também. Então vale. Porque é cheio de sentimentos e é na linguagem do sentir que ele trabalha o chão e eu planto flores.

Eu gosto é de comunhão.

Naquele momento éramos duas humanidades, atores de nós mesmos, e éramos felizes, podia até nem parecer - sem nenhum esforço ou intenção consciente de sermos -, pavimentando de sentidos, um paraíso de Heras, Onze horas, Jiboias e Papoulas amarelas.