Ao final do dia...


Dona Violeta, a senhora gosta de Lindomar Castilho? E Waldick Soriano? A senhora gosta? Perguntou-me o jardineiro enquanto revolvia sem a menor pressa o chão de terra. Ciscador na mão, ele disse que o instrumento que eu acabara de trazer nas compras, viera a calhar. Arrancava gravetos e amansava modestamente a grama já existente, cantarolando com a voz molenga, que nem de preguiça era. Era de fazer tristeza à canção. Sofredor de todos os amores, dos amores mal empregados, o ciscador servia-lhe para remexer um chão mais profundo e escondido, lá dentro dele.

As inflorescências caíam das buganvílias e cobriam o verde de púrpura e lilases. A tarde alaranjou e foi-se escorregando por trás das serras. Corri a acender as luzes do jardim e de volta a ele, respondi ao jardineiro a resposta possível:

_Você canta bem essas músicas.

Não, ele não canta nada bem, mas canta emocionado. Canta sentindo tanta dor que me faz senti-la também. Então vale. Porque é cheio de sentimentos e é na linguagem do sentir que ele trabalha o chão e eu planto flores.

Eu gosto é de comunhão.

Naquele momento éramos duas humanidades, atores de nós mesmos, e éramos felizes, podia até nem parecer - sem nenhum esforço ou intenção consciente de sermos -, pavimentando de sentidos, um paraíso de Heras, Onze horas, Jiboias e Papoulas amarelas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sagrados, como o fogo de Prometeu

Amanhã já é ontem

O que não se pode pesar