Ao meio-dia

Se chuviscasse no começo da noite, toda a intenção de sair iria por água abaixo. Era assim naquela casa. Não havia o que fazer na rua em dias chuvosos, nem ao meio-dia. Ninguém era besta de colocar os pés além do batente da porta. Era a hora de o diabo andar solto pelo mundo. A larga avenida tornava-se lugar inóspito e a sisudez estabelecida murchava o vento na folhagem das árvores. Via-se o tempo através da janela. Mas isso já faz é tempo.
Naquele dia de sol quente e mormaço, Isaura debruçou-se a ver da paisagem faíscas de luzes. Vinham dos arredores. Ela enxergava por assim dizer, com os olhos da casa, por seus grandes olhos de janela, que constantemente vigiavam a serra e as nuvens, e que mendigavam acontecimentos. A mulher, ali, como extensão da casa ou a casa dela, deu por visto, o homem que falava ao microfone. Viu da sua imaginação, a sua estatura, sua voz e toda vez em que gesticulava em frêmito, na tentativa de organizar a confraternização natalina. O aparelho chiava. O suor devia escorrer-lhe pelo rosto. E ele era gordo, possivelmente, a agitar-se sobre uma calçada alta, que o elevava frente aos outros. 
Tudo por fazer e ela imaginando o microfone de modelo ultrapassado nas mãos do homem, o murmúrio daquela gente ao seu derredor. Pensava Isaura, meio aflita de uma aflição corrompida, deteriorada, incapaz de gerar postura. Aflição por costume, com o desígnio de aperrear o coração, e só. Do lugar não saiu. O tempo fez uma risca de sombra no paredão amarelo ocre, acolá. Como um ponteiro, a hora subiu, subiu, e marcou o meio-dia com a mais completa claridade.
E se chovesse no final da tarde? Por certo todos os planos para a noite seriam frustrados. Àquela hora o diabo andava à solta a espreitar Isaura, escondido bem debaixo do parapeito da janela. A mulher lembrou de que não tinha planos, tinha-se sim, ainda mais aflita, assaltada por lembranças tardias. Assistia-se como esteio. Era fachada de paredes desbotadas e telhado oblíquo. Os seus pensamentos e os tempos aguados e de estio se haviam misturado e a rendiam, emaranhada, no pretérito como se fora presente. 
Olhava-se que a avenida mantivera a inércia, ainda mais afogada na sisudez, porque o tempo parou. Isaura percebeu que ver com olhos de janela era ver através de um recorte emoldurado. Sempre um mesmo ângulo da rua, e sempre um mesmo desejo por episódios alheios. Um imaginar, nunca um viver o que há lá fora. Além de casas empedernidas fazendo longas fileiras, há um requisitar de circunstâncias e conveniências inconvenientes, talvez. 
Talvez. Porque a vida é cheia de incertezas e novidades. Mas a que hora a gente precisa sair de casa, para ver o mundo, como de fato ele é? À luz do meio-dia só o diabo, certamente, sabe a resposta.

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