quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Clausuras

Era assim mesmo, que nem uma freira enclausurada, doida pra sair do claustro. Afobava-se por nada. Mas, tinha nada não. Não tinha e eu compreendia a insatisfação dela. O que eu desejava era fincar pé, aborrecer quem me aborrecia, de fazer pantim, como ela mesma dizia. Eu queria fazer pirraça, dizer não com vontade de dizer sim, só pra sentir como era ser ruim de verdade. Porque se eu contestava alguma coisa, uma promessa feita a mim e nunca cumprida, ela dizia: Ruim igual ao pai. Língua grande igual a dele. E ameaçava: 
_ Quando morrer, o corpo vai em um caixão e a língua em um caminhão. 
E eu que apreciava tanto converter palavras em imagens, ficava parada ali, recebendo aquela carga destemperada dela. Era tão despropositada, tão injusta e por isso mesmo tão hilária, que eu não perdia tempo imaginando minha língua, enorme, indo em um caminhão pro cemitério. Depois aquelas palavras se repetiam com tanta frequência, que eu perdia o interesse em ouvir. Ficava era adiantando mentalmente o restante da frase dela. Aquilo me dava um cansaço. Então eu colocava outros pensamentos no meio. Pensava nas freiras enclausuradas, mas obedientes, silenciosas, em oração. Será que rezavam o tempo inteiro? Tinha verdadeira curiosidade e inveja do estado contemplativo delas. Estar em Deus. Encontrar-se à imensidão. Deus é tão grande e diverso à nossa imagem e semelhança. E pensar que eu só paro pra ver estrelas, formigas, o horizonte. Perco-me contando as telhas da casa vizinha, ouvindo o cão latir, a folha seca desprender-se do galho e ir caindo, caindo. Vendo pétalas desabrocharem e injustiças e enganos acontecerem o tempo todo. O mundo das evidências não constela muita nobreza. Estou distante da coisa divina, longe da oração contemplativa e perto de mim mesma. Minha humanidade é rústica e, por isso, sou dada a distrações.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Anoitece
O dia já dormita.
Aproveito o intervalo entre os dois tempos
e crio um só para mim.
Nem de luz, nem de escuridão.
Festejo-me na neutralidade.
Nessas horas delicadas,
eu não gosto de pensar...
Um canudo feito de mamoeiro para fazer bolhas de sabão e a festa da alegria, começava no bequinho, ao lado do tanque de cimento. Ali ficavam os apetrechos à brincadeira: à esquerda da parede das três janelas e uma porta entre elas. Eram, por bem dizer, três olhos e uma saída, retangulares, que viam por dentro, a casa que nos via.
As bolhas, elas efervesciam multiplicadas, e eram de uma transparência, naquele azul - que eu chamava -, àquela cor que não tinha nome, nenhum, que eu conhecesse. Aglomeravam-se, formando estruturas de cristal. Tanta ardileza, que soprada, enchia-me as mãos. Tão grande a delicadeza da água ensaboada, escorrendo em glóbulos de ar luminosos. Um friozinho molhado nas mãos e nos braços, hoje sei, trazia àquela sensação, o recurso de me fazer inteiramente feliz.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Março

Minha trepadeira espicha, serpenteando, parindo folhinhas,
Meu pezinho de manacá inaugurou quase meia dúzia de folhas verdinhas,
Ontem fez-se uma chuvinha fina, constante, ao meio da tarde.
Minha irmã logo fará anos.
Tenho uma dúvida quase desinstalada,
uma certeza quase ajustada,
Ontem, também, sonhei um fosso em cone, profundo,
De onde se podia ver um retângulo de águas límpidas.
Ao redor, em cima, pedras e desertos.
Quem sou eu a perguntar dos meus sonhos o significado?

Respondo-me:
Sou eu a sonhadora e só a mim pertencem as decifrações.
Eu poderia me decifrar se tivesse mais tempo ou paciência.
Em março, atrevo-me somente a me buscar...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Bordadeira

Céu de nuvens e o azul esmaecido,
imenso, sobre a minha cabeça.
O mundo gira perseguindo o meu destino,
e eu a tecer-me de um único fio que serpenteia,
à pirueta ancestral de outros bordados.
A minha sina é a de ser bordadeira,
dando ponto, à extensa toalha, de fazer da vida arte.
Tenho, por fim, que bordar.
Pede-me o cansaço que eu seja ao universo
a auspiciosa viajante,
E que fuja da fatigante tarefa,
como laçada de crochê, que escapou da agulha
e dos dedos da artesã, renegando o bordado.
Mas eu, que já nasci presa ao meu fio,
bordo cabriolante, à dor e à alegria,
fincando meus pontos no mundo.

Curiosidade

No silêncio desta manhã
Escuto a conversa das flores ao pé do muro.
Conversa de flor é sobre como abrir pétalas e florir
É como se faz suave sobre si, o pouso das borboletas
e o orvalho da noite.
Arvorejo-me, disfarçada à escuta, para saber sobre a flora.
Tagarelice de muita flor junta é sobre cor e perfume.
Se há muito perfume e muita cor.
Senão é sobre arredores, matinhos e insetos.
Da esquina vejo um muçambê que me vê.
Afoito que nem eu, penduculado, humaniza-se,

querendo saber sobre mim.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Quietude. O dia começa nublado. A manhã cheira a hortelã e boldo do México e a minha muda de trepadeira de belas flores azuis, cresce vertiginosamente. Caminho pelas ruazinhas dentro dos muros da minha casa e tudo é tão verdinho e cheio de vida, e tudo também carrega tanto mistério... Olhei demoradamente para a Via Láctea, ontem à noite, e pensei sobre a imensidão do cosmo, sobre outras galáxias... Grandioso mesmo é tudo o que nos cerca. Imensa e inexplicável é a minha ideia de Deus!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Por associação



Do botão à flor,
da lagarta à borboleta
do bambuzal no meio da viagem,
à viajante paisagem que enfileira pensamentos.
Um casebre com janelas desleixadas corre pelos meus olhos,
também, aquelas duas mulheres.
Pensando bem, não eram duas.
Eram três, 
e vinham ao sol, com sombrinhas coloridas.
Lembrei das minhas quatro gueixas de delicada louça,
tocando seus instrumentos, e cenas do cinema japonês.
Em uns cinco filmes.
Eu preciso é de um sofá, de Ozu e Hore-eda

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Alegria

Manhãzinha de sol nascido e,
jardim com passarada sobre buganvílias,
orvalho em folha verdinha,
verbenas em flor, ipoméias,
formiginhas no açucareiro,
farelinho de pão sobre a mesa.
Afeto, afago, mercê, favor.
Amor.
E viver um dia todinho,
Solenizando essa vida.

In medium est virtus


Dia ameno.
Hoje, também, sou de trato suave.
Nem sol, nem chuva. Sou meio evidente.
Meio sombreada, meio misteriosa,
meio, meio...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Rumo

Se atordoada,
eu volto pro meu canto,
o de onde me origino.
É sempre de lá, já quieta,
que retomo a trilha
e volto. Volto sim,
Mas é pra sair de novo,
porque, enfim,
quem tem porto
tem barco, remo, 

viagem e recomeço

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Herança

Herdei da minha avó, 
um cravo que me dói debaixo do pé 
e um joanete que quando quer, me vacila o andar. 
Mas herdei dela, também, 
um jeito astuto pra pisar o chão 
e um jogo de alívios para viver. 

Do dia à dia

Vinha da esquina, a voz da mulher.
_ Violeta, Ô Violeta!!                                                                    
Então ela achegou-se à janela e olhou do lado de fora. Raulina voltara. Não. Aparecera após alguns meses. Ou seria após um ano ou quase isso? Viera visitá-la, logo àquela hora que via-se ocupadíssima. Neste mundo as coisas são assim. Não fosse isso e teria ido buscar um dos seus grandes chapéus, porque haveria de sair pela mesma esquina, atrás de uma trepadeira que Aprígio apontou, quase ordenando:
_ Desça aqui pelo lado e dobre à esquerda. Ali. Tem mais de seis metros desta trepadeira sobre a cerca.
Violeta fizera-se não se sabe como, amante de trepadeiras. Das que floram. Talvez pela sua tendência ao romantismo, porque tudo se apresenta mais bonito: as treliças pintadas de branco, com flores brotando suspensas, iguais àquelas do álbum de figurinhas desenhadas por Sara Kay. Treliças que ela fez com que fossem presas às colunas da varanda. Os jarros de barro - seu pequeno arsenal de proposital rusticidade -, as verbenas vermelhas e rosas, o caramachão aos pés do muro lá dos fundos do quintal, que há dias João José o desastrado pintor, quase acaba com tudo, atirando tinta quase às cegas, com a sua pistola de ar comprimido.

_ Faça a volta que vou abrir o portão, Raulina.

Desfeito o intento, os chapéus ficaram à espera, porque ainda o eleito não havia sido escolhido. Violeta tem muitos chapéus e para quem não sabe é de saber-se, 'pois bom'. É como esta frase teria sido finalizada, se Maria, a vizinha da casa da infância de Violeta, a tivesse escrito. Mas escrever nunca foi o seu forte.
O portão foi aberto e as duas mulheres se abraçaram alegremente. Raulina como sempre, com aqueles seus modos que se apresentam, entre meio desconfiados e pendidos à astúcia, coloca Violeta vigilante. Acostumada a sentir as pessoas em suas disposições, de Raulina persiste sempre a confusão em definir-lhe a natureza escorregadia. Porque a visitante concorda com tudo que se lhe diga a outra. Não é de se confiar em gente assim, sem opinião. É de se confiar ? Eu pergunto e eu mesma respondo: Não confiaria. 
O que conversam essas duas criaturas acomodadas como estão na sala de visitas? Os cabelos de Raulina cresceram, espichados e duros, quase em desalinho. Ela os ajeita e sorri para a outra com um risinho nervoso, equivocado e fora de hora. Violeta por sua vez a interpela. 
_ O que é das meninas?
_ O que é dos netos? E os gêmeos?
Tudo a querer saber e a pulverizar, e sempre o mesmo verbo, a lenga-lenga, a repetição de uma história de uma das filhas, que começa em romance e termina em gravidez indesejada. Conversa onde anticoncepcional não tem vez e as crianças nascidas são dispersadas. 
Eu lembrei de quando uma gata matou todos os seus gatinhos e minha avó disse que aquilo era da natureza de certos bichos. 'É da natureza de certas pessoas engendrar crianças, sem a "minimíssima" responsabilidade', alfinetou Violeta,  balançando a cabeça em desaprovação. Ô mundo tão cheio de gente sem juízo a espalhar sofrimento pra si e para os outros. Pensou. Pensou até em coisas que não devem ser pensadas, que ela racionalizou justificando como sendo por pena das crianças, vindo ao mundo assim, tão à toas, coitadas. Pensou querendo encontrar solução implacável e aplicar justiça. Uma justiça por certo desarrazoada e torta. Pensamento que ela nem se deu conta ser coisa de nazista.
Os chapéus desanimaram de esperar e adormeceram. Violeta não, que em frustração, não esqueceu deles, nem do caminho com desvio à esquerda, nem da trepadeira, correndo já para mais de seis metros sobre a cerca da estradinha. Essa coisa de agonia baldada, rotineira e estéril, que não vai nem vem e onde nada que ocorra leva os protagonistas à superação, chega a me fazer perder a paciência, sabe? Que coisa é essa? Violeta por sua vez tem é pena. Muita pena de tudo. Mas, a vez de distrair-se, andando de chapéu a reprisar cena romântica divisando trepadeiras, houvera perdido com Raulina, que não trouxera nada de novo, só repetência. 
Por sorte que ela, Raulina, agora assumidamente angustiada, lembrou dos afazeres e do tempo. Fez intenção de ir-se embora, e foi. Acompanhada até a porta, à sua saída, Violeta prestou-lhe atenção nos cabelos mais uma vez. Que doidice de cabelo. Que feiura. Teve vontade de sorrir. De sorrir não, de gargalhar. O que não o fez, dissimulada, sob o disfarce de pedante compaixão. E, pois? Como desconhecer na gente, este sentimento tão miseravelmente humano, a incitar Violeta?