quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Alegria

Manhãzinha de sol nascido e,
jardim com passarada sobre buganvílias,
orvalho em folha verdinha,
verbenas em flor, ipoméias,
formiginhas no açucareiro,
farelinho de pão sobre a mesa.
Afeto, afago, mercê, favor.
Amor.
E viver um dia todinho,
Solenizando essa vida.

In medium est virtus


Dia ameno.
Hoje, também, sou de trato suave.
Nem sol, nem chuva. Sou meio evidente.
Meio sombreada, meio misteriosa,
meio, meio...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Rumo

Se atordoada,
eu volto pro meu canto,
o de onde me origino.
É sempre de lá, já quieta,
que retomo a trilha
e volto. Volto sim,
Mas é pra sair de novo,
porque, enfim,
quem tem porto
tem barco, remo, 

viagem e recomeço

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Herança

Herdei da minha avó, 
um cravo que me dói debaixo do pé 
e um joanete que quando quer, me vacila o andar. 
Mas herdei dela, também, 
um jeito astuto pra pisar o chão 
e um jogo de alívios para viver. 

Do dia à dia

Vinha da esquina, a voz da mulher.
_ Violeta, Ô Violeta!!                                                                    
Então ela achegou-se à janela e olhou do lado de fora. Raulina voltara. Não. Aparecera após alguns meses. Ou seria após um ano ou quase isso? Viera visitá-la, logo àquela hora que via-se ocupadíssima. Neste mundo as coisas são assim. Não fosse isso e teria ido buscar um dos seus grandes chapéus, porque haveria de sair pela mesma esquina, atrás de uma trepadeira que Aprígio apontou, quase ordenando:
_ Desça aqui pelo lado e dobre à esquerda. Ali. Tem mais de seis metros desta trepadeira sobre a cerca.
Violeta fizera-se não se sabe como, amante de trepadeiras. Das que floram. Talvez pela sua tendência ao romantismo, porque tudo se apresenta mais bonito: as treliças pintadas de branco, com flores brotando suspensas, iguais àquelas do álbum de figurinhas desenhadas por Sara Kay. Treliças que ela fez com que fossem presas às colunas da varanda. Os jarros de barro - seu pequeno arsenal de proposital rusticidade -, as verbenas vermelhas e rosas, o caramachão aos pés do muro lá dos fundos do quintal, que há dias João José o desastrado pintor, quase acaba com tudo, atirando tinta quase às cegas, com a sua pistola de ar comprimido.

_ Faça a volta que vou abrir o portão, Raulina.

Desfeito o intento, os chapéus ficaram à espera, porque ainda o eleito não havia sido escolhido. Violeta tem muitos chapéus e para quem não sabe é de saber-se, 'pois bom'. É como esta frase teria sido finalizada, se Maria, a vizinha da casa da infância de Violeta, a tivesse escrito. Mas escrever nunca foi o seu forte.
O portão foi aberto e as duas mulheres se abraçaram alegremente. Raulina como sempre, com aqueles seus modos que se apresentam, entre meio desconfiados e pendidos à astúcia, coloca Violeta vigilante. Acostumada a sentir as pessoas em suas disposições, de Raulina persiste sempre a confusão em definir-lhe a natureza escorregadia. Porque a visitante concorda com tudo que se lhe diga a outra. Não é de se confiar em gente assim, sem opinião. É de se confiar ? Eu pergunto e eu mesma respondo: Não confiaria. 
O que conversam essas duas criaturas acomodadas como estão na sala de visitas? Os cabelos de Raulina cresceram, espichados e duros, quase em desalinho. Ela os ajeita e sorri para a outra com um risinho nervoso, equivocado e fora de hora. Violeta por sua vez a interpela. 
_ O que é das meninas?
_ O que é dos netos? E os gêmeos?
Tudo a querer saber e a pulverizar, e sempre o mesmo verbo, a lenga-lenga, a repetição de uma história de uma das filhas, que começa em romance e termina em gravidez indesejada. Conversa onde anticoncepcional não tem vez e as crianças nascidas são dispersadas. 
Eu lembrei de quando uma gata matou todos os seus gatinhos e minha avó disse que aquilo era da natureza de certos bichos. 'É da natureza de certas pessoas engendrar crianças, sem a "minimíssima" responsabilidade', alfinetou Violeta,  balançando a cabeça em desaprovação. Ô mundo tão cheio de gente sem juízo a espalhar sofrimento pra si e para os outros. Pensou. Pensou até em coisas que não devem ser pensadas, que ela racionalizou justificando como sendo por pena das crianças, vindo ao mundo assim, tão à toas, coitadas. Pensou querendo encontrar solução implacável e aplicar justiça. Uma justiça por certo desarrazoada e torta. Pensamento que ela nem se deu conta ser coisa de nazista.
Os chapéus desanimaram de esperar e adormeceram. Violeta não, que em frustração, não esqueceu deles, nem do caminho com desvio à esquerda, nem da trepadeira, correndo já para mais de seis metros sobre a cerca da estradinha. Essa coisa de agonia baldada, rotineira e estéril, que não vai nem vem e onde nada que ocorra leva os protagonistas à superação, chega a me fazer perder a paciência, sabe? Que coisa é essa? Violeta por sua vez tem é pena. Muita pena de tudo. Mas, a vez de distrair-se, andando de chapéu a reprisar cena romântica divisando trepadeiras, houvera perdido com Raulina, que não trouxera nada de novo, só repetência. 
Por sorte que ela, Raulina, agora assumidamente angustiada, lembrou dos afazeres e do tempo. Fez intenção de ir-se embora, e foi. Acompanhada até a porta, à sua saída, Violeta prestou-lhe atenção nos cabelos mais uma vez. Que doidice de cabelo. Que feiura. Teve vontade de sorrir. De sorrir não, de gargalhar. O que não o fez, dissimulada, sob o disfarce de pedante compaixão. E, pois? Como desconhecer na gente, este sentimento tão miseravelmente humano, a incitar Violeta?