Postagens

Mostrando postagens de 2017

Quinta grandeza

Imagem
Estava dentro do carro fazendo uma viagem inesperada. Assim é que é bom, quando a gente não acerta nada e tudo dá certo. A estrada era de barro e esburacada. O caminho tinha paisagem de securas, porém exótica dada à vegetação típica do sertão. Do lado direito a agressiva e mesmo assim, bela flora. Do lado oposto, o rio seguindo seu curso. Experimentava e até que enfim, o sentido mais real do que queria dizer a palavra geografia. 

Acertando-se às lembranças, viu-se na escola primária, o caderno cheio de anotações, e depois o penoso exercício de decorar o significado da palavra e suas extensões. Determinismo geográfico, os quatro pontos cardeais, as quatro estações do ano, os tipos de clima, os limites da pequena cidade, o número de seus habitantes. Flora e fauna. Os movimentos da Terra, seu eixo e a força da gravidade. Os astros, luminosos e iluminados.
Em um daqueles dias em sala de aula, quando ao sol fora atribuído à ordem de quinta grandeza, e revelou-se ser ele uma estrela incandesc…

Juntando os cacos

Imagem
Quando parei pra pensar naquela história, compreendi que tudo não passava de ilusão. A senhora acha isso mesmo, dona Violeta?  Perguntou Raulina, que entrou pela casa de portas abertas, sem nenhuma cerimônia. Nem sabia do que se tratava, mas daquele modo introduzia-se na palestra, um modo de falar daquele povinho mais antigo, para se referir à conversa. Tudo é palestra. Era bem verdade. Violeta estava sozinha e falara alto. Um costume que tinha, além de outro, pior, de ficar mexendo os lábios enquanto os outros falavam. Aquilo era ansiedade que fazia dela, a quem prestasse atenção, uma sofrível reprodutora muda da fala alheia. Pantomima. Era isso. Sobrava-lhe as repreensões de Aprígio. Sem contar que também dormia com a boca aberta, fosse onde fosse. É assim mesmo. Sou humana ou não sou? Quem quiser que sorria de mim. Ligo não. De jeito nenhum. Violeta usava de sinceridade. A de quem conhecia de si própria a persona, e tendo-a à mão, era consciente da maneira lógica de servir-se dela. …

Por falar em amizade, o senhor fique à vontade

Imagem
Tinha nada que ter dito o que disse. Mas falou. Depois ficou desconcertada, fazendo as obrigações pela metade. Concluí-las mesmo, não concluía nenhuma. Foi o embaraço de ter-se revelado tão carente, a quem até agora não se deixara conhecer de forma alguma, que fizera Violeta ficar desse jeito. Mas homem, como é que fui mendigar a amizade de seu Antônio? Que cara de pau a minha. Bem que minha mãe dizia ‘tenha sentimento, menina!’ Não sei falar com uma pessoa todo santo dia, sem fazer algum tipo de amizade com ela não, gente. Outra coisinha é que, quando estou alegre, digo. E quando alguma coisa me incomoda eu falo. Também sou de perdoar logo e lido com as espinhas de garganta, comendo um punhado de farinha seca e tomando um copo com água depois. Minha raiva é besta, passa fácil. Meu coração dá um jeito de se consertar ligeiro. Só quando a ofensa é grande demais, aí sim, eu fico remoendo. Mas dessa vez... que desgraça. Eu tinha que aperrear o homem ‘Seu Antônio, o senhor é tão frio comig…

Amanhã já é ontem

Imagem
Foi, não foi, e a gente volta a lembrar de umas pessoas. Agorinha mesmo lembrei de Tonho. Cabra baixinho, cabelo sempre pedindo tesoura, bigode invocado, boné e um andar ligeiro, ora puxando, ora empurrando o carrinho do pão. Chegava aqui na porta de casa e buzinava, esperando Josa vir abrir o portão. Ruim de conta, a gente tinha que fazer todos os cálculos. Contar os pães, fazer a soma, pagar, e dizer a ele quanto era o troco.  Mas, era um exímio farejador de chuva. Anunciava até as trovoadas. A gente pedia e ele investigava o tempo com calma, rodando os olhos como telescópio, céu acima e abaixo. Batia as pestanas bem devagar afinando-se com a sabedoria, ‘hoje não. Mas, amanhã, se prepare a senhora que vai chover’ . E chovia mesmo.  Maria é outra lembrança. Mulher de meia-idade, branca, forte, voz gutural. Vinha ter comigo, quase diariamente, lá pelas quatro da tarde - o sol ainda quente - vermelha como um camarão. Pedia uma coisa, eu dava e de imediato, já pedia outra. Aquilo ia-se a…

Filosofia do Cotidiano

Imagem
Os barulhos foram chegando aos poucos. Passos rápidos encheram o vão estreito entre as casas. A água corria descendo alegre pelas grotas. Rua descalça, jardim de craibeiras, matinhos, pedregulhos. O olhar vindo da escada, registrou atento cada detalhe. Fixou em si mesmo, aquele instante, como se o tivesse fotografado e colado imediatamente nas páginas do álbum da alma do mundo, lá bem dentro dela. Coisas. Coisas corriqueiras e tão comuns. Eram de fato comuns, sem nada de extrordinário. Mas havia ali, algo que unia o ver dos olhos com o enxergar, que de tão profundo, trazia a sensação de mergulhá-la Hades adentro e de visitar Perséfone em sua morada de inverno. Ora, ora... até e aonde tal olhar suscitou uma travessia imediata por entre séculos! Mitologia pura a misturar os mundos e as realidades. Não fossem os passos que se aproximavam teria ido ainda mais longe. 
Mas, retornou vendo o mundo recortado entre muros e vizinhanças pelo seu próprio olhar e recorreu urgente à verificação de q…

O que não se pode pesar

Semana retrasada, eu ia dizer qualquer coisa a Aprígio, quando finalmente resolvi que o silêncio era melhor. Lembrei-me de uma passagem na Bíblia que diz que o sábio não joga conversa fora. Não que eu me ache sábia, sabe Zanza, mas é que não sei por que veio de algum lugar de dentro da minha cabeça, isso que considero como uma iluminação. Por que não? Pois bem, Hilário, aquele meu primo do qual lhe falei, foi me procurar lá em casa. Um abraço e tanto, até me beijou no rosto, duas vezes, com tanta avidez, que naquele momento senti que ele gostava pra valer de mim e pensei comigo mesma: É com ele que vou abrir meu coração. Você sabe... Essas coisinhas que a gente fica guardando esperando a pessoa certa pra contar, né Zanza? Comigo a coisa funciona assim: cada amigo tem uma particularidade. Tem daqueles que conto uma coisa, tem deles que eu conto outra. Como é que eu sei o que devo contar o que e a quem? Olhando a pessoa por dentro, mulher! Eu acho até que é um dom que eu tenho.
Não gosto…

Buraco Negro

O desejo de amor quer um canto para dois e planeja seu próprio universo.
E à vontade de que passe a existir,
cria na própria desordem uma ordem binária de zero e um.
Navega-se sem barco, o leme inventado invertido,
sobre um denso mar de palavras
essa tela de letras,
em estrangeiros países
de dramáticos sentimentos.
As frases dialogam e são apagadas,
Os traço de suas rotas evaporam.
Que teclado inútil, que nem à memória dos toques seus afetos sobrevivem.

Sobre os navegantes, a regra:
nunca, nunca, haverão de se encontrar.
Não há lugar a chegar como na dança de Maia.
Ilusão que à impermanência de um pequeno planeta, um só gesto o exclui.
Onde, únicos, pensam sim ou não apenas, sempre à beira de um noves fora.
Um. Que traga para o que é coisa alguma,
o que bem poderia, não sendo zero, ser tudo.

Eis-os, então.
Navegantes, de uma mesma soma incompreensível
Dois, 
sozinhos em um buraco negro.

Via messenger

O pequeno menino tem eczemas pelo corpo todo e precisa de cuidado.
Sua mãe me pede socorro.
Maria Helena anuncia:
"As orquídeas serão compradas e postas na varanda"
eu imagino o quão feliz ficará o seu cantinho lá em São Paulo,
A ela, queria dizer mais coisa além do que disse 
e com mais entusiasmo.
Custou-me articular as mínimas palavras ditas.
E o amor, ah! o amor me pede mais folga.
Precisa cumprir com suas obrigações.
Falho em todos os pedidos.
Perdoem-me.
Perdoem-me, vocês, que me pedem algo.
Estou meio sonolenta,
ainda à porta desta terça-feira,
estreando presença indefinida e duvidosa,
como alguém que se aproxima de leve
à beira-rio e vai molhando com cautela os pés na água fria,
sem saber se é isso mesmo o que quer fazer.


Que entenda quem puder

Dentro de casa a mulher entediou-se, e aqui para nós, já não era sem tempo. Desfez-se do avental e na passagem pela varanda pendurou-o no armador da rede. Saíra da cozinha, ajeitando os cabelos com as mãos e passando a língua nos lábios ressecados. Andou até a cadeira de embalo, como dizia o povo do outro tempo, trouxe-a à calçada e sentou-se nela, cruzando as pernas com displicência. Na rua onde as gentes transitavam, viu os carros estacionados e como se o ontem e o agora fossem duas lâminas de uma mesma imagem, colocou-as uma sobre a outra para compará-las. Havia muita diferença à inconsciência generalizada para aquela visão de cidade que se tinha. Ou que alguns poucos tinham. A de hoje se olhamos com atenção é a mesmíssima, vive na inércia desde muito tempo, mas disfarça-se no acúmulo de automóveis parados e pequenas lojas em toda a extensão da avenida, dando-se à impressão de ter crescido. Qual nada. O lugar é o das mesmas conversas de todos os dias. A vidinha de um, a vidinha de …