O que não se pode pesar

Semana retrasada, eu ia dizer qualquer coisa a Aprígio, quando finalmente resolvi que o silêncio era melhor. Lembrei-me de uma passagem na Bíblia que diz que o sábio não joga conversa fora. Não que eu me ache sábia, sabe Zanza, mas é que não sei por que veio de algum lugar de dentro da minha cabeça, isso que considero como uma iluminação. Por que não? Pois bem, Hilário, aquele meu primo do qual lhe falei, foi me procurar lá em casa. Um abraço e tanto, até me beijou no rosto, duas vezes, com tanta avidez, que naquele momento senti que ele gostava pra valer de mim e pensei comigo mesma: É com ele que vou abrir meu coração. Você sabe... Essas coisinhas que a gente fica guardando esperando a pessoa certa pra contar, né Zanza? Comigo a coisa funciona assim: cada amigo tem uma particularidade. Tem daqueles que conto uma coisa, tem deles que eu conto outra. Como é que eu sei o que devo contar o que e a quem? Olhando a pessoa por dentro, mulher! Eu acho até que é um dom que eu tenho.

Não gosto de contar minhas coisas a gente que dá opinião. Gosto de contar coisa a quem me escuta sereno. Se olhar com cara de pena pra mim, pior ainda. Quando a coisa é besta, pode opinar que eu nem ligo. Vendo assim, estou percebendo que conto coisa pesada a pouquíssimas pessoas. E conto somente pra me ouvir falando. Eu conto as coisas é a mim mesma. Vou falando e me escutando ao mesmo tempo, e aí já vou encontrando a resposta, me acalmando, encontrando um jeito com aquele problema.
Levei Zanza até a porta de casa e voltei para onde estava Aprígio. Olhei pra ele, ali, na sala de estar, distraído, com uma revista na mão. Não sei se lendo, não sei se fingindo que lia. Quis ter raiva, mas resolvi que não saio do sério. Não há pra quê. Nesses vai-e-vens de uma vida toda, sei quando o silêncio é resposta, sei quando calar é alívio. Ando dispensando ruminações. Não me levam a nada e Aprígio é mestre em cortar assuntos pela metade, impondo o seu método de evitação. Diz duas ou três palavras, com aquela voz impostada, só pra mostrar poder e me deixa falando sozinha.

Antes eu achava aquilo um baita jogo sujo. Engolia a seco e depois explodia em tanta lágrima que eu nem sabia de onde vinha tanta. ‘Eu quero ser feliz, eu quero ser feliz’ repetia pra mim mesma, como quem pronuncia uma sentença que tem porque tem de ser cumprida à risca. Foi quando dei pra sonhar encontrando tesouros em lugares pedregosos, que comecei a perguntar a mim mesma o que a minha alma queria dizer. Tantos anos chorando, tanta lágrima pelos mesmos entreveros! Um sofrimento estagnado, repetitivo, sem nascer nada de novo dele. Sofrimento tem que gerar alguma coisa, tem que servir, senão é infrutífero. É dor inútil. Não vale. Lembrei de Zanza, que veio aqui em casa querendo que eu a ajudasse a encontrar resposta a uma dúvida sua ‘Ô Violeta, se Antônio fosse vivo, comigo agora doente, será que ele estava me fazendo companhia?’ Essa resposta eu não tenho, Zanza. É difícil prever qualquer coisa, quanto mais, quando a previsão é para um alcoólatra. Que acha? Concorda comigo? Ela riu. ‘Quem sabe, né? Zanza encheu os olhos de lágrimas para aliviar a própria solidão tão cheia de vazios e ausências. Mora num mundão de casa. Sozinha.

Mudei de assunto e contei sobre a teimosia de Aprígio, que se acha o sabichão, mas que às vezes me aparece no meio do nosso quarto, desolado, com cara de quem se enganou em casar comigo. Casou com uma mulher que não faz dele um homem feliz. Hilário tinha me dito, ‘Violeta, como mulher casada, você fez tudo certinho, mas o imponderável nos escapa’. São as tais das circunstâncias indefiníveis que exercem influência sobre a vida da gente. Meus silêncios, antes intuitivos - descobri na conversa com ele -, são o meu respeito àquilo que não é possível ponderar. Tem quem queira ter resposta para tudo. Ainda há pouco tempo atrás eu também queria. Encho os pulmões de ar e falo alto: imponderável, imponderável, uma dúzia de vezes. A palavra é cheia de sonoridade. É eloqüente. Faz-me rir! Esbarro nela, que veio e se fixou em minha memória, já tem quatro dias. Devo fazer com ela alquimia, até efetuar da lingüística à evolução da palavra, todo o peso e significância. Devo com isso dar sentido a sofrimentos estéreis e modificá-los. Vou da alma da palavra à ventura do meu coração, abrindo um caminho sem fazer desvios. Isso mesmo. Olho pra Aprígio, distraído de novo, fumando o seu cigarro de depois do almoço. Sobre que coisas esse homem pensa?

Tem dias que cavo abismos e atiro palavras em todas as direções, só para atingi-lo, como uma doida atirando pedras a esmo. Há sempre misteriosos lugares dentro da gente, onde não cabe mais ninguém. Disso eu sei. Não há como andar toda a extensão e profundidade de uma pessoa. Nem mesmo da gente. Às vezes a noção de felicidade de Aprígio combina com a minha. Outras vezes, não. Mas isso não me assusta mais. Meu sentimento por ele tem que ser descompromissado, senão vou ficar a vida inteira na cantilena desastrada de “eu quero ser feliz” É muito peso pra ele carregar por mim, eu querer que o coitado promova o meu retorno ao paraíso, coisa impossível. Devo a experiência da vida e da alegria, a mim mesma.

Domingo passado, às sete da noite, àquela minha conversa baixinha, em tom de quem revela segredos, Hilário escutou com paciência. E foi quando me apresentou a frase onde o imponderável apareceu, para preencher os meus lugares sem respostas. Diante disso me achei mais confortável. Avultei-me. Cresceu um sentimento bom dentro de mim. O que chamei de iluminação antes, encontrara solidez. Revelou-se como um presságio. Depois ele me explicou sobre como enterrou quatro ovos de cágados e esperou pelas trovoadas para que os animaizinhos viessem à superfície. Adiante, a torta holandesa, ‘que você tem que me dar a receita, Hilário’. Tem creme de leite, chocolate meio-amargo, biscoitos, recheio aerado. Adentramos à madrugada, inaugurada às duas da manhã, quando olhei o relógio. Esses pequenos detalhes me dão a noção de que tenho a posse de mim e do que sou.

Quarta-feira. Apaguei a luz do quarto, Zanza deve estar sozinha no dela, contando as telhas, acordada, desejando que Antônio tão trabalhoso que foi, estivesse com ela. Aqui em casa, Aprígio se ajeita pra lá e pra cá na cama com o nariz obstruído e uma insônia daquelas. Tenta dormir. Estou em silêncio, quieta, ponderando o que é possível ponderar. Após os conflitos e a perda do que eu era antes, descubro-me mergulhada em tesouros. Sou rica. Liberto Aprígio do peso das minhas projeções. Agora sim é que vou começar a amá-lo.


Santana do Ipanema, 17/12/2009

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