Lambe-dedos
Quero fazer poema contemporâneo que fale sobre as coisas de agora.
Mas, não vejo nada especial comprar tesoura elétrica em loja on-line. Só acho prático, e penso:
O que faria a minha avó cortando pano, plástico, E.V. A. e papelão com uma ferramenta dessas...
Não vejo jeito de compor metáforas, nem de dizer bonito as coisas. É que elas não me atravessam o coração, como o velho liquidificador Arno e o fogão cosmopolita.
Não tem jeito. Busco uma escada e encosto no muro. Vou olhar Garida pilando arroz.
As cascas sobem como chuva e enfeitam seus cabelos quando ela sopra a peneira. É tão bonito!
Ela, enfezada, sacudindo a cabeça, convoca os meninos pra vê-la fazendo lambe-dedos. Receita tão besta.
Farinha de trigo, ovos, leite e açúcar. Uma panela no fogão à lenha, fritando aquilo e enchendo a boca da gente d'água. Depois, é passar ainda quente no açúcar, e distribuir.
A cozinha não cabe no tamanho da alegria da gente pra comer essa delícia.
Tesoura elétrica corta rápido e faz zoada. Dá nem pra comparar com besouro e fazer poesia. Essas coisas contemporâneas. Poesia mesmo, não tem.
Goretti Brandão
Santana do Ipanema-AL, 23/05/2026
Comentários
Postar um comentário