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Espantos e deslumbramentos

Eles seguiam em viagem pela estrada. Chovia no tempo e a manhã era molhada, as flores eram molhadas e de cima dos telhados dos casebres, a água descia cantando musiquinha umedecida. A mulher olhava distraída, as encostas no caminho, divisando pequeninas flores. Viu brancas ipoméias , dezenas delas margeando a estrada. Repentinamente, precisou que o tamanho do mundo vasto, era pequeno demais à imensidão do espaço e pôs-se a imaginar que infindáveis aritméticas poderiam contar o infinito. Nenhuma... Ao seu lado, o marido asseverava que eram cinquenta e cinco, o número de países que formavam o continente africano. Um lugar onde nascem mais pessoas e onde mais pessoas morrem. Com quantos números seria possível calcular tanto mistério (?) pensava a mulher, enquanto assentia com a cabeça, sobre a África, os povos, a fome, a vida e a morte.  Pensava em buracos negros e que faltam bilhões de anos ainda, mas que a Via Láctea e a Andrômeda vão se chocar. Tentou imaginar o tempo cósmico. ...
Minha primeira redação foi na escola primária. A orientação era para que descrevêssemos o que víamos de uma paisagem posta no flanelógrafo¹ . Eu abusei do verbo Ver: "Vejo uma casa com portas, vejo janelas, vejo o campo, vejo os bois, vejo isso, vejo aquilo. Vejo." Eram os meus olhos de enxergar que falavam. Os meus olhos de sentir, eu comecei a ver com eles, pouco tempo depois... Foi quando eu entendi que Ver com o coração é enxergar por dentro das coisas! ¹Quadro revestido de flanela ou de feltro de cor lisa, us. como recurso didático, e sobre o qual se fazem aderir objetos ou figuras, fixadas ou removidas segundo as necessidades do ensino. (Dic. Aurélio)

Desenredo...

Gosto da atmosfera do tempo dos últimos meses do ano. Gosto dos cheiros que esse tempo exala, das ventanias e da cor do sol sobre o mundo nos finais da tarde, do barulho que o vento faz, e do ladrar dos cães no fundo dos quintais. E se eu ainda pudesse contar sobre o que sinto acerca desse tempo à minha avó, ela diria: "Dou por vista". Não sei explicar, mas sei sentir, o que o dou por vista quer dizer.  Há duas noites andei por um tão longo corredor que eu não via o seu final. Foi um sonho. Acordei com a sensação de um nunca acabar. Um nunca acabar o quê? O vento bate forte nas vidraças da janela, a tarde cai e eu faço silêncio em mim. Dou por vista o que muita gente sente nos finais da tarde. Eu, sinceramente, gosto muito é de ter a consicência sobre que os ciclos da vida vão se fechando e outros vão tendo início.

Bom dia, Pão de Açúcar

"Você tem fome de quê?" São sempre bem vindas ações que visam minorar as necessidades da população mais carente, desde que tais ações não tenham como objetivo desviar a atenção dessa mesma população e da sociedade em geral, para outras necessidades. Saúde, Educação, Moradia, também fazem parte das necessidades básicas dessa gente e poderiam ser identificadas, da mesma forma, como outras fomes irmãs. Certos micro-projetos" sociais, reproduzem as velhas fórmulas filantrópicas-paternalistas que visam sim, tornar o gestor municipal um "meritório": "Pai da Pobreza" e amenizar as queixas dessa mesma população de necessitados. Pão e mungunzá podem e servem, num dado contexto, para amenizar a fome primária, física e visceral, do povo pobre e necessitado de nossa cidade. Ação que, inclusive, nos remete à Roma antiga e a antiga e tão atual expressão: Panis et circus (Pão e Circo, para iludir outras fomes e outras precisões). "A gente não quer só comida...

Tergiversar

Entre a Palavra e a Imagem, há espaços onde ergo a minha morada. Ora feita com letras, ora de pincéis e tintas. Dentro da imagem, o meu coração é maestro de batuta em punho, harmonizando sístoles e diástoles, esses meus barulhos. Um maestro daqueles que a palavra chama pelo nome de sentimento.  O mais profundo mergulho é o que dou para dentro de mim. Meu salto quase heróico é como um vôo sem asas, à imensidão do vagar entre o vivido e o registrado, para a nunca concluída Casa que é em mim, o lugar de insistentes perguntas, que a ela me retornam. Do lado de fora do que julgo ser, os vazios, a inércia, o temor do imponderável, também sou eu.

Ao Companheiro de Luta, Luisinho Costa

Imagem
O tempo passa tão depressa... Se não me engano, foi no final do ano passado, nas celebrações da formatura das crianças do ABC, que nos encontramos, eu e Luizinho, festejando nossos pequenos doutores: meu sobrinho e sua netinha. Aquela noite festiva onde trocamos tantas palavras amistosas, marcava, porém, nosso último encontro, de tantos encontros que tivemos décadas atrás, ambos, militantes do PC do B em Pão de Açúcar.  Pela manhã recebemos, eu e Waldson, a notícia da sua partida. Comove-me sentir que a sua presença sorridente, ponderada, companheira de tantas lutas, fez deslocamentos no tempo, ocupou espaços e agora se ausenta para desconstruir-se no silêncio do útero úmido da Terra-Mãe. Comove-me, sobretudo Luizinho, lembrar que em um período significativo, fizemos parte da vida uns dos outros, entrelaçando andanças, discussões políticas e história. Comove-me saber que a sua realidade se despede e nos obriga a mergulharmos no recurso da memória. Quero fa...

Sem a palavra

Às vezes a palavra some, amiudada, sem conseguir corporificar-se ou conter em si o símbolo do meu sentido. É que sentir por vezes é tão grande, e quase tão próximo do impenetrável, que o Silêncio da letra, escrita, emudece, e faz-se santuário de um repertório tardio. A palavra - e eu tenho medo -, talvez reduza o sentido e empobreça, pagã, a imagem e a força do que se sente.  Neste sentir, o limite do conhecer humano extravia-se. Faça-se Senhor, a Palavra e o Verbo, o verso e a poesia, e o meu dizer de sentimentos. Sabedoria eterna, só Deus tem à Palavra o sentido. Eu, tão-somente, em minha pequenez, assim, tal jorro incoerente de frases, me abandono neste Mistério e, curiosamente, ouso escutá-lo...