Um sentido novinho
Os gatos eram muitos e passaram correndo pela cozinha fazendo um escarcéu, igual àquele dia quando Dionê, quase sem fôlego, veio até nossa casa contar que Belmiro anoiteceu e não amanheceu. Tinha ido embora. Naquele mesmo dia, Nena havia comprado uma nova máquina de costura, e escreveu no fundo de uma daquelas gavetas estreitas, com caneta esferográfica, ‘hoje, 7 de julho de 1966, Belmiro de seu Afonso, foi tentar a sorte em Santos. Não tinha necessidade daquele alvoroço todo, mas Dionê achou que era novidade. Saber, Nena já sabia. No dia anterior, Ofélia, mulher de seu Expedito, chamou-a pelo muro, e disse entre dentes, a notícia que nem merecia aquele tom de fofoca, ‘diz que o rapaz vai embora pra São Paulo’. Já vai tarde. Quem falou isso, menina? Não sei, mas que tinha ouvido, tinha sim. Minha mãe benzeu-se, e quando ergueu o olhar e eu vi neles aquela expressão dos santos nos altares da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, não sei porque, lembrei, comparando mal, Nossa Senho...