Velório
Parecia que velava dona
Rosa, de costas para os pés da falecida, como se estivesse na feira, dona Creuza
contava à pessoa da frente, que ele, o rapaz que a filha tinha se envolvido,
enganou a todo mundo. Falsificou documentos e levou a moto da mãe dela. Que as
crianças, tinha muita pena, queria que o pai pedisse a guarda e levasse as duas
com ele.
Fez contas dos gastos. Cinco
mil reais. Deu de entrada para comprar a moto. E o miserável ficou com ela. A
filha da falecida, em meio às lágrimas, falou por entre dentes ´que aqui não é
lugar de se lavar roupa suja´ e, tendo uma crise de sentidos soluços foi levada
para o quarto amparada pela irmã mais velha.
Um rapaz magrinho que usava um
corte de cabelo desses modernos, nem parecia, mas era o encarregado de encomendar
o corpo. Dona Rosa quieta, sob um véu de filó branco, não estava mais ali, que
Deus em sua misericórdia já a tinha levado para si. Mas a assistência estava. A
sala cheia da gente matuta e da gente da rua, conservava um semblante apiedado que
o momento exigia. Aprígio e eu, também.
De posse de um livrinho, o
rapaz tirou do bolso um terço, fez as orações preliminares e numa invocação dos
mistérios, partes do ofício de Nossa Senhora, ladainha, jaculatórias e a Salve
Rainha, cumpriu o que foi fazer. Do lado de dentro, a maioria mulheres e uma
meia dúzia de homens devotos. Na parte de fora, à entrada da casa, uma multidão
de outros homens comentavam sobre a chuva e o inverno, o plantio do milho, essas
conversas.
Minha convivência falhada, mas sincera com dona Rosa, trouxe imagens que ocuparam meus pensamentos: O abraço dela que era uma umbigada, a palavra "motra", o bolo e o café
na cozinha, o conselho dado ao casal de primos, seus netos, no dia do casamento. A
união que precisava vingar ´porque eu matei um boi, um porco, três galinhas.
Gastei muito´ Gastou muito, mesmo. Encontrei lá a moça, casada, com duas filhas já
mocinhas, chorando baixinho, enxugando as lágrimas. Esse jeito de chorar acaba comigo.
De volta para casa, olhei a
estrada, os tantos tons de verde que o inverno inaugurou nos campos, a passagem
molhada à entrada da cidade e as novas construções pelo caminho. De outra vez choveu
tanto que o açude vazou e as estradas ficaram cheias de peixinhos. Faz tanto tempo isso. Choveu sapo
junto com a chuva. Ninguém acredita, mas foi. Ô inverno bom, diferente. Pensei que a saudade é sempre uma novidade. Um sentimento doído para cada vez que se sente. Trouxe, eu sei, uma coisa como um
vazio que me deixou oca o resto do dia.
Só peço à Mãe de Jesus que não me desampare hora nenhuma. Ela sabe o porquê.
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