Inocência
O menino chorava se sentindo largado: "quero ir pra minha casa. Eu moro perto de "Bizola" Era o nome do candidato à presidência do país pintada com tinta vermelha na única parede intacta dos escombros em frente à casa. Ainda me pergunto quem traduziu para ele, que ainda não sabia ler nem falar direto: Brisola. A mãe, o irmão mais velho... Voavam as pequenas borboletas pretas naquele quase jardim desarranjado, feito por si mesmo, de verdes, chananas, beldroegas, escombros e lixo. Assanhavam-se legiões de mosquitos e o cantar dos sapos nos dias de frio. "Eu quero ir pra minha casa" Um dia chegou da escola antes da hora todo feliz, "mamãe, graças a Deus hoje não vai ter aula: o marido de tia Carla, morreu!" O menino hoje é um homem. De pequeno restou nele meia dúzia de tristezas que ainda agora reverberam. Comigo é quase igual: quando fui crescendo desconheci o paraíso e quase morri afogada tomando banho no rio. Passada a agonia, falava nisso orgulhosa....