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Inocência

 O menino chorava se sentindo largado: "quero ir pra minha casa. Eu moro perto de "Bizola" Era o nome do candidato à presidência do país pintada com tinta vermelha na única parede intacta dos escombros em frente à casa. Ainda me pergunto quem traduziu para ele, que ainda não sabia ler nem falar direto: Brisola. A mãe, o irmão mais velho... Voavam as pequenas borboletas pretas naquele quase jardim desarranjado, feito por si mesmo, de verdes, chananas, beldroegas, escombros e lixo. Assanhavam-se legiões de mosquitos e o cantar dos sapos nos dias de frio. "Eu quero ir pra minha casa" Um dia chegou da escola antes da hora todo feliz, "mamãe, graças a Deus hoje não vai ter aula: o marido de tia Carla, morreu!" O menino hoje é um homem. De pequeno restou nele meia dúzia de tristezas que ainda agora reverberam. Comigo é quase igual: quando fui crescendo desconheci o paraíso e quase morri afogada tomando banho no rio. Passada a agonia, falava nisso orgulhosa....

Espelho

Na esquina aqui de casa o chão é de barro vermelho, e as paredes dos muros se estendem pela rua estreita e vão dar pra outros caminhos. Não demora e logo haverá meio-fio e calçamento. Cheguei à metade da vida e fui adiante, preocupada em me sentir amada. Outro dia me deparei com o espelho da cristaleira da sala e encontrei uma senhora gordinha tão assustada quanto eu. Minha mãe que me condenava todo o tempo de não querer crescer, não entendia como as dores do mundo me atormentam tanto. Eu nunca soube ouvir as estórias tristes que ela quis me contar. Minha mãe que não entendia meus sentimentos e me via tola e muito frágil, por certo e contra a sua vontade,  se reconheceria diante da minha imagem refletida. com o mesmo olhar que o dela procurando amor.

Inesperado

Minha irmã desceu as escadas e olhou para o jardim que eu tinha inventado de fazer no fundo da casa Admirada quis saber como fiz aquilo? "Foi uma vontade que me deu de encher isso aqui de flor" Tinha dividido o quintal em duas partes Marinalva era mulher da roça. Parecia tão forte,  mãe, nem lembro mais de quantos filhos. Quantos filhos? De manhãzinha chamou os m eninos pra tomarem o café. Uma dor de cabeça,  fui visitá-la depois, presa a uma cama. Só mexia os olhos... Coitada. As flores do meu jardim me levaram às rosas dela e a ela, de novo, e de novo. Deitada, a casa velha no meio do mato, o telhado cheio de teia de aranha e as galinhas soltas no terreiro, cacarejando, uma lembrança que planta em mim  tanto espinho. Tem vezes que o meu coração abre essa gaveta

Entre a porta do banheiro e o corredor

Não se pode dizer que aquele silêncio era um daqueles necessários. Os dias mergulharam a presença do rapaz numa escuridão fora do comum. Era outra a realidade, como também não era nada o que tinha sido desejado antes. Não se tinha notícias do que fizera ontem ou anteontem, ou depois que fechou-se à entrada da vida. Dormia estendido, talvez, sobre a cama e sobre lençóis encharcados de suor. Quando uma vez levantou-se, foi para tirar a roupa. Tudo era escuro. Tanto dentro quanto fora, o que era apenas o mais que real reflexo da ausência de quaisquer interesses. Lá  na rua os carros passavam, os barulhos, as vozes, as buzinas, a fumaça e na calçada do prédio, o vai-e-vem de pessoas era contínuo e indiferente. Quem sabia, senão os vizinhos, que o rapaz estava ali?  Violeta sempre deitava para dormir pensando nele. E mesmo antes de pegar no sono fazia orações ao seu anjo da guarda. Assaltava-a a ideia - não -, a certeza de que aquilo não acabaria bem. Na verdade, o rapaz já havia a...
Manhã. Tudo branco ou tudo como se eu quisesse branco? No muro alto a hera planta-se. Firme. Agarrada a parede. Do lado de dentro, a casa. Silenciosa. Os móveis adormecidos e cheios de objetos dentro, esperam. Do lado oposto, balançam as folhas de uma árvore. Movimento. Os contornos do branco borram a cena antes estática. Novamente dentro, o barulho que o gato faz comendo a ração quebra a imobilidade. Não o silêncio. Esse, meu, que debulha pensamentos, onde cabem os sons de pássaros, é pura magia. No jardim interno, grandes folhas da jibóia avançam sobre a parede de pedra, libertando as novas folhas que atravessam, vitoriosas, as pérgolas e vislumbram um mundo de telhados e céu. Chuvisca. O gato cheio de direitos, pula sobre a bancada. Dono de si, me olha satisfeito, rabo hirsuto, sinalizando felicidade. O sol acende um raio amarelo. Disputa a manhã com os pingos d’água. Impõe-se lançando mais raios, mais amarelos, mais luz. Maribondos voam, pensamentos voam, palavras voam... Alguma ...

Passou

  Esgarçou-se a fibra do tecido que não esperava por isso... E por trás da brecha como na tv, o esperado invadiu meus olhos. Pronto! Passou... Aquele show de Milton Nascimento e Chico Buarque, que eu desejei tanto assistir.   A camisola da minha mãe, que na gaveta inexistente, É teimosa em fingir estar lá. O livro onde a minha avó escolheu guardar uma pena do papagaio, Uma folha de goiabeira e pequenas flores. De novo, E, de novo, e já passou. Pronto. A maturidade sem músculos, das minhas irmãs e a minha, a pele solta que engilha os braços... os mesmos que nos abraçam. umas às outras, nos apoiando. Éramos ontem e hoje, somos? Talvez as mesmas, talvez, não Pronto. Passou novamente. Estamos nos segurando na brecha que se abriu, surpresas. Surpresas. Somos o tecido e o rasgo.

Depois de ontem

De um lado o caminho de sempre que não é mais o mesmo. Não será jamais. Mas enquanto olho pela janela do automóvel, busco recompor a minha cidade, derrubar esta que é outra, que a outra não me diz o que dizia. Eu tenho que escavar pelo menos cinco décadas soterradas para trazer o presente que há muito prescreveu. Depois de retirada a terra do tempo, anseio ver Kilé, a preta, e o seu tabuleiro cheio de laranjas descascadas e seus roletes de cana. Ela, ali, sentada no lugar de sempre quase à entrada do campo de futebol. Meu pai está comigo e segura a minha mão enquanto caminhamos rumo aos pés do morro. Aos pés da vida, aos pés de tudo. Olho meus dedos fincados no chinelo. E tudo torna-se ventania, e poeira e desejo de eternidade.