Meia-idade dezembro 06, 2012 E ntardeço acumulando primaveras e flores, com a modéstia senhoril de uma jardineira, que entendeu das cíclicas estações os enredos: como o encharcar de begônias o excesso de zelo, como ver na brincadeira dos ponteiros do relógio, os números do tempo sobre os jardins. Um gato preto roça o rabo por entre as minhas pernas e mia Maria Emília que engelha murchando como um maracujá, quer despejar em minha casa as novidades da rua e encher meus ouvidos de pecaminosos vexames. Queria fazer bolhas de sabão, com as artérias do mamoeiro acolá, para me livrar de maledicências e afugentar mesquinhezas. À narrativa do instante perturbo o que fui em menina. Movo, com o dedo indicador, pedaços de infância que trafegam na poeira de um facho de luz, e entram em diagonal pelas fendas da porta. Para me espelhar como gente grande na sala de jantar, Deixo-me cravar pela seta de fogo, viro sombra, e me met...
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Inesperado
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Minha irmã desceu as escadas e olhou para o jardim que eu tinha inventado de fazer no fundo da casa Admirada quis saber como fiz aquilo? "Foi uma vontade que me deu de encher isso aqui de flor" Tinha dividido o quintal em duas partes Marinalva era mulher da roça. Parecia tão forte, mãe, nem lembro mais de quantos filhos. Quantos filhos? De manhãzinha chamou os m eninos pra tomarem o café. Uma dor de cabeça, fui visitá-la depois, presa a uma cama. Só mexia os olhos... Coitada. As flores do meu jardim me levaram às rosas dela e a ela, de novo, e de novo. Deitada, a casa velha no meio do mato, o telhado cheio de casa de aranha e as galinhas soltas no terreiro, cacarejando, uma lembrança que planta em mim tanto espinho. Tem vezes que o meu coração abre essa gaveta
Entre a porta do banheiro e o corredor
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Não se pode dizer que aquele silêncio era um daqueles necessários. Os dias mergulharam a presença do rapaz numa escuridão fora do comum. Era outra a realidade, como também não era nada o que tinha sido desejado antes. Não se tinha notícias do que fizera ontem ou anteontem, ou depois que fechou-se à entrada da vida. Dormia estendido, talvez, sobre a cama e sobre lençóis encharcados de suor. Quando uma vez levantou-se, foi para tirar a roupa. Tudo era escuro. Tanto dentro quanto fora, o que era apenas o mais que real reflexo da ausência de quaisquer interesses. Lá na rua os carros passavam, os barulhos, as vozes, as buzinas, a fumaça e na calçada do prédio, o vai-e-vem de pessoas era contínuo e indiferente. Quem sabia, senão os vizinhos, que o rapaz estava ali? Violeta sempre deitava para dormir pensando nele. E mesmo antes de pegar no sono fazia orações ao seu anjo da guarda. Assaltava-a a ideia - não -, a certeza de que aquilo não acabaria bem. Na verdade, o rapaz já havia a...
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Manhã. Tudo branco ou tudo como se eu quisesse branco? No muro alto a hera planta-se. Firme. Agarrada a parede. Do lado de dentro, a casa. Silenciosa. Os móveis adormecidos e cheios de objetos dentro, esperam. Do lado oposto, balançam as folhas de uma árvore. Movimento. Os contornos do branco borram a cena antes estática. Novamente dentro, o barulho que o gato faz comendo a ração quebra a imobilidade. Não o silêncio. Esse, meu, que debulha pensamentos, onde cabem os sons de pássaros, é pura magia. No jardim interno, grandes folhas da jibóia avançam sobre a parede de pedra, libertando as novas folhas que atravessam, vitoriosas, as pérgolas e vislumbram um mundo de telhados e céu. Chuvisca. O gato cheio de direitos, pula sobre a bancada. Dono de si, me olha satisfeito, rabo hirsuto, sinalizando felicidade. O sol acende um raio amarelo. Disputa a manhã com os pingos d’água. Impõe-se lançando mais raios, mais amarelos, mais luz. Maribondos voam, pensamentos voam, palavras voam... Alguma ...
Passou
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Esgarçou-se a fibra do tecido que não esperava por isso... E por trás da brecha como na tv, o esperado invadiu meus olhos. Pronto! Passou... Aquele show de Milton Nascimento e Chico Buarque, que eu desejei tanto assistir. A camisola da minha mãe, que na gaveta inexistente, É teimosa em fingir estar lá. O livro onde a minha avó escolheu guardar uma pena do papagaio, Uma folha de goiabeira e pequenas flores. De novo, E, de novo, e já passou. Pronto. A maturidade sem músculos, das minhas irmãs e a minha, a pele solta que engilha os braços... os mesmos que nos abraçam. umas às outras, nos apoiando. Éramos ontem e hoje, somos? Talvez as mesmas, talvez, não Pronto. Passou novamente. Estamos nos segurando na brecha que se abriu, surpresas. Surpresas. Somos o tecido e o rasgo.
Depois de ontem
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De um lado o caminho de sempre que não é mais o mesmo. Não será jamais. Mas enquanto olho pela janela do automóvel, busco recompor a minha cidade, derrubar esta que é outra, que a outra não me diz o que dizia. Eu tenho que escavar pelo menos cinco décadas soterradas para trazer o presente que há muito prescreveu. Depois de retirada a terra do tempo, anseio ver Kilé, a preta, e o seu tabuleiro cheio de laranjas descascadas e seus roletes de cana. Ela, ali, sentada no lugar de sempre quase à entrada do campo de futebol. Meu pai está comigo e segura a minha mão enquanto caminhamos rumo aos pés do morro. Aos pés da vida, aos pés de tudo. Olho meus dedos fincados no chinelo. E tudo torna-se ventania, e poeira e desejo de eternidade.
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Diante de mim deitam-se meus sentidos quase esquecidos da palavra. Às vezes eu dispenso letras e viajo para o paraíso das formas e das cores. Se há como ter falado é através de gestuais, tritura papéis, mexe goma e cria estruturas, que falam sobre esse meu desejo de tornar em poesia palpável, o que possa traduzir o que significa estar aqui. A arte trafega sobre um momento eterno de tensão onde uma cortina quase transparente ameaça romper-se. Está a um passo de esgarçar-se e resolver o paradoxo, a luta dos opostos, a aparente falta de nexo, que induz à certeza do excesso. Aquilo que suponho ser a minha criação é como um traço que se quer em linha reta, mas uma mão que não é a minha, a conduz a cortar no papelão duro outra criação. Mais bonita, muito mais do que eu pensei. Que mistério eu sou nas mãos que me modelaram...