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Entre a porta do banheiro e o corredor

Não se pode dizer que aquele silêncio era um daqueles necessários. Os dias mergulharam a presença do rapaz numa escuridão fora do comum. Era outra a realidade, como não era nada o que tinha sido desejado antes. Não se tinha notícias do que fizera ontem ou anteontem, ou depois que fechou-se à entrada da vida. Dormia estendido, talvez, sobre a cama e sobre lençóis encharcados de suor. Quando uma vez levantou-se, foi para tirar a roupa. Tudo era escuro. Tanto dentro quanto fora, o que era apenas o mais que real reflexo da ausência de quaisquer interesses. Lá  na rua os carros passavam, os barulhos, as vozes, as buzinas, a fumaça e na calçada do prédio, o vai-e-vem de pessoas era contínuo e indiferente. Quem sabia, senão os vizinhos, que o rapaz estava ali?  Violeta sempre deitava para dormir pensando nele. E mesmo antes de pegar no sono fazia orações ao seu anjo da guarda. Assaltava-a a ideia - não -, a certeza de que aquilo não acabaria bem. Na verdade, o rapaz já havia acabado....
Manhã. Tudo branco ou tudo como se eu quisesse branco? No muro alto a hera planta-se. Firme. Agarrada a parede. Do lado de dentro, a casa. Silenciosa. Os móveis adormecidos e cheios de objetos dentro, esperam. Do lado oposto, balançam as folhas de uma árvore. Movimento. Os contornos do branco borram a cena antes estática. Novamente dentro, o barulho que o gato faz comendo a ração quebra a imobilidade. Não o silêncio. Esse, meu, que debulha pensamentos, onde cabem os sons de pássaros, é pura magia. No jardim interno, grandes folhas da jibóia avançam sobre a parede de pedra, libertando as novas folhas que atravessam, vitoriosas, as pérgolas e vislumbram um mundo de telhados e céu. Chuvisca. O gato cheio de direitos, pula sobre a bancada. Dono de si, me olha satisfeito, rabo hirsuto, sinalizando felicidade. O sol acende um raio amarelo. Disputa a manhã com os pingos d’água. Impõe-se lançando mais raios, mais amarelos, mais luz. Maribondos voam, pensamentos voam, palavras voam... Alguma ...

Passou

  Esgarçou-se a fibra do tecido que não esperava por isso... E por trás da brecha como na tv, o esperado invadiu meus olhos. Pronto! Passou... Aquele show de Milton Nascimento e Chico Buarque, que eu desejei tanto assistir.   A camisola da minha mãe, que na gaveta inexistente, É teimosa em fingir estar lá. O livro onde a minha avó escolheu guardar uma pena do papagaio, Uma folha de goiabeira e pequenas flores. De novo, E, de novo, e já passou. Pronto. A maturidade sem músculos, das minhas irmãs e a minha, a pele solta que engilha os braços... os mesmos que nos abraçam. umas às outras, nos apoiando. Éramos ontem e hoje, somos? Talvez as mesmas, talvez, não Pronto. Passou novamente. Estamos nos segurando na brecha que se abriu, surpresas. Surpresas. Somos o tecido e o rasgo.

Depois de ontem

De um lado o caminho de sempre que não é mais o mesmo. Não será jamais. Mas enquanto olho pela janela do automóvel, busco recompor a minha cidade, derrubar esta que é outra, que a outra não me diz o que dizia. Eu tenho que escavar pelo menos cinco décadas soterradas para trazer o presente que há muito prescreveu. Depois de retirada a terra do tempo, anseio ver Kilé, a preta, e o seu tabuleiro cheio de laranjas descascadas e seus roletes de cana. Ela, ali, sentada no lugar de sempre quase à entrada do campo de futebol. Meu pai está comigo e segura a minha mão enquanto caminhamos rumo aos pés do morro. Aos pés da vida, aos pés de tudo. Olho meus dedos fincados no chinelo. E tudo torna-se ventania, e poeira e desejo de eternidade. 
Diante de mim deitam-se meus sentidos quase esquecidos da palavra. Às vezes eu dispenso letras e viajo para o paraíso das formas e das cores. Se há como ter falado é através de gestuais, tritura papéis, mexe goma e cria estruturas, que falam sobre esse meu desejo de tornar em poesia palpável, o que possa traduzir o que significa estar aqui. A arte trafega sobre um momento eterno de tensão onde uma cortina quase transparente ameaça romper-se. Está a um passo de esgarçar-se e resolver o paradoxo, a luta dos opostos, a aparente falta de nexo, que induz à certeza do excesso. Aquilo que suponho ser a minha criação é como um traço que se quer em linha reta, mas uma mão que não é a minha, a conduz a cortar no papelão duro outra criação. Mais bonita, muito mais do que eu pensei. Que mistério eu sou nas mãos que me modelaram...

Amanhecer

Para ontem um hoje que madruga. Meu gato é medroso,  conheço pelo olho arregalado, as costas curvadas, o pelo arrepiado. Como conheço a madrugada ainda escura. essa coisa da noite não querer partir, e a mulher que partiria ao amanhecer estar ansiosa pela última das vezes, perguntando: Que horas? Que horas são? Sabia que iria embora assim que a primeiríssima luz viesse? Teria medo? Estaria ansiosa? Meu gato é tão desconfiado, mia e mia, mesmo tendo comida, tendo meu olhar e minha voz. Mesmo sendo aceito. E eu,   essa mulher que às cinco da madrugada, entre miados e sustos, acordo aos pulos, o coração aflito, sei que o sol é para mais um dia, Portal para o que tem que ser, Então... que o dia amanheça.

Todos os barcos

Quando Violeta abriu os olhos naquela manhã - que nem sabe precisar quando -, viu que era a última de tantas outras dormidas e sonhadas - de sonhos perdidos. Perguntou-se se aquilo tinha que ter sido daquele jeito e, sem outra resposta que não fosse aquela, correu a modificar todas as lembranças. Eram todas inexatas, algumas falsas, algumas meticulosamente dispostas como se fossem verdadeiras. Serviram ainda as fotografias? Quem sabe. Veria depois, sem vexame. Havia sobrevivido a uma dor renitente que há anos doía. E como doía. Mas, com insistência cobriu-se e a seus olhos, e aos seus sentimentos, com uma desonestidade de fazer ainda mais dó. Ridículo aquilo. Seria para salvar-se a si mesma do insucesso no amor? Sei lá... Para que julgar-se? Mas, admitia ter se servido sim, de subterfúgios, para atravessar um sentimento nunca correspondido. Era só a vontade dela, O que em vez de ser uma pena, para a sua surpresa, foi um sucesso às avessas.  Violeta ponderou que todas as suas lágrim...