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Mostrando postagens de maio, 2026

Inocência

 O menino pequeno chorava se sentindo largado: "quero ir pra minha casa. Eu moro perto de "Bizola" Era o nome do candidato à presidência do país pintada com tinta vermelha na única parede intacta dos escombros em frente à casa. Ainda me pergunto quem traduziu para ele, que  não sabia ler nem falar direito. A mãe, o irmão mais velho... Voavam as pequenas borboletas pretas naquele quase jardim desarranjado, feito por si mesmo, de verdes, chananas, beldroegas, restos de tijolos e lixo. Assanhavam-se legiões de mosquitos e o cantar dos sapos nos dias de frio. "Eu quero ir pra minha casa" Um dia chegou da escola antes da hora todo feliz, "mamãe, hoje não vai ter aula: o marido de tia Carla, morreu!" O menino hoje é um homem. De pequeno restou nele meia dúzia de tristezas que ainda agora reverberam. Comigo é quase igual: quando fui crescendo desconheci o paraíso e quase morri afogada tomando banho no rio. Passada a agonia, falava nisso orgulhosa. Achei que ...

Espelho

Na esquina aqui de casa o chão é de barro vermelho, e as paredes dos muros se estendem pela rua estreita e vão dar pra outros caminhos. Não demora e logo haverá meio-fio e calçamento. Cheguei à metade da vida e fui adiante, preocupada em me sentir amada. Outro dia me deparei com o espelho da cristaleira da sala e encontrei uma senhora gordinha tão assustada quanto eu. Minha mãe que me condenava todo o tempo de não querer crescer, não entendia como as dores do mundo me atormentam tanto. Eu nunca soube ouvir as estórias tristes que ela quis me contar. Minha mãe que não entendia meus sentimentos e me via como tola e muito frágil, por certo e contra a sua vontade,  se reconheceria diante da minha imagem refletida. com o mesmo olhar que o dela procurando amor.

Inesperado

Minha irmã desceu as escadas e olhou para o jardim que eu tinha inventado de fazer no fundo da casa Admirada quis saber como fiz aquilo? "Foi uma vontade que me deu de encher isso aqui de flor" Tinha dividido o quintal em duas partes Marinalva era mulher da roça. Parecia tão forte,  mãe, nem lembro mais de quantos filhos. Quantos filhos? De manhãzinha chamou os m eninos pra tomarem o café. Uma dor de cabeça,  fui visitá-la depois, presa a uma cama. Só mexia os olhos... Coitada. As flores do meu jardim me levaram às rosas dela e a ela, de novo, e de novo. Deitada, a casa velha no meio do mato, o telhado cheio de teia de aranha e as galinhas soltas no terreiro, cacarejando, uma lembrança que planta em mim  tanto espinho. Tem vezes que o meu coração abre essa gaveta

Entre a porta do banheiro e o corredor

Não se pode dizer que aquele silêncio era um daqueles necessários. Os dias mergulharam a presença do rapaz numa escuridão fora do comum. Era outra a realidade, como também não era nada o que tinha sido desejado antes. Não se tinha notícias do que fizera ontem ou anteontem, ou depois que fechou-se à entrada da vida. Dormia estendido, talvez, sobre a cama e sobre lençóis encharcados de suor. Quando uma vez levantou-se, foi para tirar a roupa. Tudo era escuro. Tanto dentro quanto fora, o que era apenas o mais que real reflexo da ausência de quaisquer interesses. Lá  na rua os carros passavam, os barulhos, as vozes, as buzinas, a fumaça e na calçada do prédio, o vai-e-vem de pessoas era contínuo e indiferente. Quem sabia, senão os vizinhos, que o rapaz estava ali?  Violeta sempre deitava para dormir pensando nele. E mesmo antes de pegar no sono fazia orações ao seu anjo da guarda. Assaltava-a a ideia - não -, a certeza de que aquilo não acabaria bem. Na verdade, o rapaz já havia a...